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Full text of "Lisboa d'outros tempos [por] Pinto de Carvalho (Tinop)"

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OS CAFÉS 










Parceria António Marta Pereira — Livraria editora 
50, 52 Rua Augusta — 52, .', I 

1899 



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Pinto de Carvalho (Tinop) 




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OS CAFÉS 






LISBOA 

Parceria ANTÓNIO MARIA PEREIRA 

LIVRARIA EDITORA 

5o, 52 — Rua Qáugvsta—52, 54 
1899 



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DEC 19 1967 



TYPOGRAPHIA 6M0DERNA 

?, p, ;/ — Becco dos QApostolos — tf, g, // 

LISBOA 



EXPLICAÇÃO PREAMBULAR 



Assim como o primeiro volume da "JÀsboa 
ã'outros tempos,, é um aggrvgado de artigos in- 
sertos em varia.-- folhas periódicas, assim o se- 
gundo volume & uma serie de chronicas publi- 
cadas no "O Correio da Manhã,, e no "Diário 
da Manhã... X'ellas desenhámos alguns perfis 
anecdoticos e fizemos passar, rapidamente, co- 
mo em quadros dissolventes, individualidades e 
suecessos que se vão esbatendo nas brumas do 
Passado. As fontes a que recorremos para as 
escrever são as mesmas que utilisámos para os 
artigos constitutivos do primeiro volume. 

Que se releve a maneira, talvez um pouco 
desconneja. como os assumptos foram expostos 
por quem é, simplesmente, um "touriste,. na lit- 
teratura. 



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Origem dos cafés. — Os antigos cafés parisienses. — Os ca- 
fés no Segundo Império. — Gabinetes particulares e or- 
gias nocturnas. — Algumas das que conquistaram a coroa 
cie rosas e diamantes do hetairismo. —A íina flor das ele- 
gâncias. — Os viveurs. — Sombras frívolas. — Os clubs. 
— Origem da gorgèta em França. — A gorgèta em Fran- 
ça. — A gorgèta em Portugal. 



No século XV, em Paris, apenas as tabernas da Cite 
podiam vender vinho, porque o direito de fa- 
bricar e vender licores espirituosos e xaropes 
pertencia á corporação dos taberneiros (vinaigriers). 
Receberam auctorisação para darem de beber em co- 
pinhos ou em pequenas taças de prata a agua ardente 
ou a eauclairette, que consistia em ginjas conservadas 
no álcool com assucar, o mesmo a que, actualmente, 
chamamos ginginha. Os estatutos da companhia dos ta- 
berneiros foram estabelecidos pelo preboste Jehan de 
Folleville em 22 de julho de 1493. 

Os italianos que vieram para França, depois do casa- 
mento de Henrique n, trouxeram os costumes do seu paiz. 
Começou o negocio de bebidas delicadas e refrigeran- 
tes, tendo por base a agua, o assucar, as fructas, o 
summo de limão e de laranja, bebidas que tomaram 



LISDOA D'OUTROS TEMPOS 



os nomes de limonadas e laranjadas. Por outras pala- 
vras, appareciam os limonadistas ou botilleros, como 
lhes chamam os hespanhoes. 

Até 4676 tiveram liberdade de venda. Mas, n'este 
anno, Luiz xiv transformou as corporações livres em 
corpos regulares, e os limonadistas receberam os seus 
estatutos, que lhes permittiam fabricar e vender lico- 
res, fructas conservadas em agua-ardente, essências, 
cafés, chás e chocolates. 

Alternativamente supprimida e restabelecida, esta 
corporação desappareceu de lodo em 1706. Os bote- 
quins propriamente ditos estabeleciam-se então em 
Paris, o famoso café Procopio reunia os bellos espíri- 
tos, entre os quaes Piron, d'Alembert, Diderot, Vol- 
taire, Deslouches e Kousseau. E os limonadistas pas- 



savam á historia. 



Durante o primeiro Império e a Restauração, o café 
Tortoni foi o logar de confluência da primeira roda e 
das celebridades de momento. 

Mais tarde, ahi fazia Méry as suas improvisações, 
Romieux as suas blagues, e Roger de Beauvoir exerci- 
tava o seu humorismo. 

Em 4830 era ás portas do Tortoni que se pavo- 
neava a fina flor do dandysmo parisiense, cuja impec- 
cavel estylação de toikite desafiava os pigarros aziuma- 
dos e os olhares coléricos dos philistinos. 

O popular Lord Seymour, que derreteu a sua for- 
tuna nas phantasias mais descabelladas, estabelecia 
quartel-general no resiaurant Vendanges de Bourgogne, 
onde planeava as suas aventuras carnavalescas. 

A' volta de 1836 organisaram-se as grandes masca- 
radas satyricas de Luiz Filippe e dos seus ministros. 
A Descente de la Courtille teve então um brilhantismo» 
singular com os bandos de mascaras que desciam á 



OS CAEES 



cidade e concitavam a alegria de todos. (Un Siècle de 
Modes Feminines. 1794-1894.) 

Triumphava o débardeur immortalisado pela ironia 
épica do lápis de Gavarni. As Diana de Maufrigneuse 
corriam ao baile da Opera, velando a sua graça eni- 
gmática com o dominó preto, e escondendo debaixo 
da mascara veneziana o seu mysterio impenetrável de 
esphinges. 

Os cafés do Palais-Royal tornaram-se notáveis no 
tempo de Carlos x por causa das reuniões politicas. 
N'el!es se accendeu o rastilho da pólvora revoluciona- 
ria, que havia de rebentar em 1830. No dia da publi- 
cação das celebres Ordenanças, viram-se alguns jo- 
vens, inflammados no santo amor da liberdade, subi- 
rem ás mezas e censurar calorosamente aquellas 
disposições draconianas. (Journées Révolutionnaircs. Ar- 
mand Dayot.) 

O mais antigo dos cafés de Montmartre — o alto 
onde sopram todas as brizas do scepticismo parisiense 
— é o Rat Mort, de que foram frequentadores, du- 
rante o Segundo Império, Gambetta e Floquet, cujas 
vozes eloquentes ainda não tinham echoado na sala do 
parlamento. (Le Gaulois du Dimanche. 27-28 Novem- 
bre, 1897.) 



No Segundo Império, foi pela Maison Dorée, pelo 
café Anglais, pelos cafés de la Paix, de Paris, de Ma- 
drid, e Riche, que passou toda a aristocracia d'estir- 
pe, do talento e da fortuna. Por ahi transitaram as 
figuras mais fim de raça, todos os nomes masculinos 
do grand chie, tanto da margem esquerda como da 
direita, isto é, tanto do velho Faubourg Saint-Germain 
como do novo Faubourg Saint Honoré. 

A's poéticas saturnaes, aos nocturnal pleasures nos 
seus gabinetes esplendentes, onde se fazia sentir a 
autocracia felina da mulher, e onde a verve — jovial 



LISBOA D'OUTROS TEMPOS 



instrumentista — misturava os sustenidos do paradoxo 
com os bemoes da ironia, assistiram os mais celebres 
vivears, esses elegantes que nunca se confundiram com 
os cocodês, com os crevês, vibriões da moda que hoje 
teem nos gommosos os seus successores... attenuados. 

Relembrar o Grand-Seize do café Ànglais e o Grand- 
Six da Maison Dorée, seria relembrar as tradições ga- 
lantes da epocha em que o Riso e a Loucura se atrel- 
lavam ao carro triumphal da Moda Franceza. 

Ahi beberam pela taça carminada do Prazer as pri- 
meiras cortezãs da Paris d'então, as heroinas d'uma 
Jerichó, cujas muralhas haviam de ruir ao toque das 
trombetas germânicas : a espirituosa Margarida de 
Jarny, a italiana Giulia Barucci, baroneza d'Ange, 
Deslions — a bellas das bellas, Carolina Letessier, 
Adèle Courtois, as irmãs Drouard, Rosália Léon, 
Branca d'Antigny, Carolina Hasse, Rigolette, Catinet- 
te, e ainda outras... que arvoravam o pavilhão corsá- 
rio por não poderem contrabandear sob as cores le- 
gaes, outras que tão insolentemente agitavam o thyrso 
das bacchantes sobre essa orgia parisianisla do Se- 
gundo Império, cujos derradeiros echos chegam aos 
ouvidos modernos como uma longiqua de beijos e 
gargalhadas. 

Recordar pois, estes cafés celeberrimos, seria cha- 
mar á autoria todos os que sacrificavam nos altares 
da raysteriosa soberana — a voga ; todos os que con- 
sagravam culto ao parisianismo — estranho mixto des- 
pinto mordaz, de polidez glacial, de scepticismo e de 
sentimento; todos os que consideravam a vida como 
um bello espectáculo, onde urge divertir-se até cahir 
o panno. 

Ver-se-hiam reapparecer, como em lanterna magica, 
os actores d'essa operetta offenbachiana, que durou 
dezoito annos, as individualidades mais em evidencia 
nas caçadas e cos quadros vivos de Compiègne, nas 
equipagens grande estylo que desfilavam pela Avenida 
da Imperatriz á hora verde do absyntho, nos bailes 



OS CAFÉS 



travestis da princeza Walewska, do palácio d'Alba e 
das Tulherias, onde Waldteufel conduzia a sua orches- 
tra á victoria, nas redoutes maravilhosas da princeza 
de Melternich, d'Arsène Houssaye e do doutor Evans, 
nas media-noches da princeza Mathilde e da duqueza de 
Morny, nos salões semi-mundanos da Gortschakoff, da 
Musard, da Brimont e da condessa Castiglione, nas 
festas aromatisadas a pó á Marechala e a íris de Floren- 
ça, nos festins em que o prazer íluia como um grande 
rio sobre o qual navegasse a barca de velas de seda 
onde Watteau conduzia os amantes para Cylhera. 

Rever-se-hia o duque de Grammont-Caderousse, ar- 
bitro da moda, geographo que marcava, com rigor, as 
sinuosas fronteiras dos diversos mundos parisienses; 
Paulo Demidolf, um esplendido rapaz ornado com a 
plena flor da belleza moscovita e principesca \ o magni- 
ficente barão de Heckeren; o conde de Henckel, primo 
do chanceiler de ferro e ultimo marido da Paiva-, o 
príncipe Narisckine, um scylha valetudinário, com o 
passo ataxico, a physionomia simiana; o sybaritico 
Khabil-Bey, em cuja habitação a rainha do Sabá teria 
encontrado o seu leito e o seu talher, na phrase de 
Cora Pc 3 arl ; Ismail-Pachá, um mahometano enkistado 
em parisianices, um doidivanas que trocou as odalis- 
cas do harém pelas bailarinas francezas ; Maurício de 
Hérisson, alternativamente sportsman, financeiro, sino- 
logo, viajante na China d'onde trouxe um traje de 
mandarim que fez sensação no baile da duqueza de 
Persigny ; o príncipe Citron, a jovialidade hollandeza ; 
Gallifíet, simples capitão; Massa, auclor ofíicial das 
revistas theatraes palatinas; o conde d'Orsay, o ban- 
queiro Mires, o duque de Morny, Sagan (le Pauvre 
Bosori), a correcção linear d'um inglez doleographia, 
o espirituosíssimo Aurélien ScholI com o monóculo 
inamovível encravado na arcada zygomatica esquerda, 
o ainda outros que subiram ás alturas da notoriedade 
levados na crista dourada da onda azul da Moda. (Les 
Bals travestis et les Tableaux vivants sous le Second 



LISBOA D OUTROS TEMPOS 



Empire. Pierre de Lano. VAmour à Paris sous le Se- 
cond Empire. Pierre de Lano. Mémoires de Cora Pearl, 
etc.) 

Ver-se-hiam repassar, como nas vistas fugitivas d'um 
cinematographo, as nymphas eróticas que melhor sa- 
biam pôr em valor os seus encantos, sublinhai os, dar- 
lhes relevo, as mais apuradas mulheres ete prazer que 
teem mudado de camisa ante um espelho de guarda- 
vestidos ou mostrado as espáduas assetinadas pela 
flor do pó d'arroz ante um espelho hieroglyphado de 
gabinete particular: da franceza Anna Deslions á po- 
laca Madame de Paiva, da italiana Farelli á hespa- 
nhola Pepita Sanchez, da ingleza Cora Pearl á allemã 
Lucy de Kaula, da loira Helena Préjean, perspicacis- 
sima agente da alta policia diplomática, á Rosa Pom- 
pon, mórbida flor desabrochada na estufa parisiense 
— um adorável grupo feminino, um verdadeiro deca- 
merão de Winterhalter. 

E a evocação d'estas sombras frívolas leva a scismar 
nas contingências da sorte. Porque as sacerdotisas da 
decadência imperial, as convivas de Grammont-Cade- 
rousse, aquellas em cujas gargantas retiniram os mais 
sonoros guizos da jovialidade gauleza, acabaram, umas 
no hospital, outras na mendigues, na loucura ou no 
esquecimento... Estrellas que tiveram a ephemera 
scintillação dos fogos fátuos ! Só Léa dWsco, tornada 
condessa Lagrange, ainda vive em Nice, onde embala 
as saudades ao som da musica do grande azul medi- 
terraneano. Só Lucy de Kaula, a bella e espirituosa 
aventureira, foi esconder a sua ineluctavel decadência 
na pátria allemã, n'alguma d'essas cidades gothicas 
que conservam a sua muda poesia lapidar, onde vive, 
decrépita, esquecida, depois de ter esgotado toda a 
gamma das sensações fortes, depois de ter feito caça 
ao vil metal com o mesmo furor com que um mineiro 
procura o quartzo aurífero, depois de ter visto a seus 
pés grão-duques e generaes, depois de ter sido ex- 
pulsa da Rússia, como mais tarde o seria de França, 



OS CAFÉS 7 

após estrepitoso processo, em que a vida vagabunda 
(Testa peccadora foi passada pelo laminador da per- 
quisição judiciaria. 

Só a phantasista Leónide Leblanc (que, na mocida- 
de, jogava forte sobre os tapetes verdes de Baden-Ba- 
deu, onde accendia charutos com notas de mil francos, e 
onde usava o nome de Mademoiselle Máxima, que, de- 
pois, serviu de titulo a um dos seus romances) conse- 
guiu deixar um espolio valiosíssimo, no qual avultavam 
120 vestidos de velludo e de seda, e 200 camisas bor- 
dadas a rendas de Bruxellas — todo um luxo odorífero 
e artificioso, triste no seu lamentável abandono, que 
chegou súbito, brusco, como uma antithese romântica. 

Só a Paiva — tarântula d'alcova cujas mordeduras 
eram nocivas como injecções sub-epidermicas de vi- 
tríolo — morreu socegadamente, porque foi expirar no 
seu castello da Silesia, onde, á pallida claridade do 
luar allemão, se ouve o perpassar mysterioso dos 
gnomos na espessura das florestas, e vêem docemente 
morrer as notas melancholicas das canções bchemias... 
Esta rainha da libertinagem cosmopolita, esta bizarra 
flor altamente cotada nos bazares do vicio, passou 
atravez da chronica boulevardeira acompanhada dum 
grande ruido de adjectivos, e logrou ainda a excelsa 
gloria de servir de pastio á lilteratura : Houssaye re- 
tratou-a nas Grandes Dames, Engenio Pelletan na Nou- 
velle Babtjlone, os Goncourt no Charles Demailly, Pierre 
de Lano em dois dos seus livros de historia anedoctica, 
€amillo Castello Branco na Bohimia do Espirito. 



Depois da guerra, o conde de Dion fundou o Club 
des Braconniers na sobreloja do café de Paris. Os últi- 
mos viveurs do Segundo Império reuniam-se n'esse 
contubernaculo, onde a gastronomia tinha um altar, e 



LISBOA D OUTROS TEMPOS 



a conversação espirituosa a vida sardónica do phos- 
phoro. Este club possuia uma lista de todas as mulhe- 
res convidáveis de Paris, e da hora a que podiam rece- 
ber o convite, bastas vezes formulado n'um cartão 
bristol, em que se topariam as desinências exóticas e 
asiáticas d'algum magnate. 

Ao chamamento d'esses pagãos... de penteado á 
Capoal, as deusas desciam do Olympo para lhes tra- 
zerem todas as alegrias celestes, a formosura, o amor, 
os beijos atirados pelo arco vermelho e sonoro das 
boccas frescas, os olhos flammejantes como cirios, o 
immaculado das pelles macias e brancas como o setim 
das gardenias, o divinal impudor dos seios de neve em 
cujas pontas o sol tivesse pintado botões de granada, 
a poesia viva das formas, quando, desapertada a fibula, 
a túnica de renda lhes cahia aos pés. . . 

Nos grandes jantares de série a luz escorria das bu- 
gias deslisando em rápidos scintillamentos pelas dou- 
raduras da baixella, irisando as frigidas pedrarias que 
picavam os lóbulos das orelhas femininas, accendendo 
fulgores d'incendio nos espelhos, pondo reflexos de to- 
pázio nas garrafas dos licores, brilhantismos de soes 
pyrotechnicos nas jóias, tons violentos de bronze novo 
no fulvo inverosímil dos cabellos, e caricias claras nos 
vestidos das commensaes, que, d'ordinario, eram as 
mais bonitas actrizes dos theatros de género, as phi- 
lomelas de bastidores, ou as mais gentis figurinhas do 
Golha do Amor, as que embotavam a sensibilidade nas 
mil e uma noites do gozo tresloucado : Fanny Signo- 
ret, Clausmenil, Constância Van Eschen, Terka, Orat- 
chewska, e mais algumas das que abriam, com chave 
d'oiro, as portas encantadas dos paraizos artiíiciaes. 

O Club des Braconniers extinguiu-se porque os seus 
membros se dispersaram aos sopros da phantasia e do 
acaso. Uns mudaram de latitude, outros adormeceram 
na paz florida dos cemitérios, outros tiveram um fim 
trágico. . . casaram. D'essa tertúlia original apenas 
resta uma série d'artigos de recordação publicada por 



OS CAFÉS 



um capitão de couraceiros na Vie Parisienne cTaquelle 
tempo. 

Actualmente, os primeiros clubs parisienses são o 
Union, o Jockey, o E'patant e o Agrícola ou Rue Hoyale 
almiscarado telonio onde se empenharam as legenda- 
rias partidas de baccarat entre o príncipe d'Orange, 
Khabil-Bey, o duque de Castries, de Gouy, etc, e onde 
ultimamente dominou soberano o principe de Sagan, 
hoje valetudinário, um Alcibíades que estaria disposto 
a cortar as caudas a toda uma raça de cães, um Brum- 
mel cujo monóculo era um poemasinho de vidro e tar- 
taruga, monóculo que o principe Chie entalava no ju- 
gal da arcada superciliar direita com um gesto despó- 
tico de nababo, com uns ares impertinentes de supe- 
rioridade desdenhosa f . 



* O monóculo do principe de Sagan, d'uma distineção exaspe- 
rada, ganhou celebridade parisiense ao lado dos monóculos de 
Félix Faure, de Daudet, de Gastou Paris, de Capus, de Scholh o 
condestavel da chronica parisianisante, o nobre mosqueteiro do 
periodismo gaulez. 

Os mais notáveis monóculos luzitanicos são o d'El-Rei D. Car- 
los, monóculo extra-benevolo, o de Rapbael Bordallo Pinheiro, 
monóculo de artista dum talento polycordio, lupa voltaireana de 
genial graphista humorístico, o de Eça de Queiroz, monóculo lixo, 
despedindo scintillas em jacto continuo, microscópio ávido de 
analysta, o de Augusto Rosa, monóculo conquistador de todos os 
sufíragios estheticos. 

Isos clubs londrinos de Pall-Mall, nos centros britannicos que 
se curvam ao jugo dourado do protocolo mundano, este crystat 
franebinotico tornou-se complemento indispensável dos clubmen, 
dos gravatões, como a immarcescivel orebidea na sobrecasaca de 
Chamberlain. 

Da mesma maneira que o lorgnon para as damas, o monóculo, 
para os bomens, é uma arma de combate, e o seu manejo uma 
sportice nova. Com elle posto, toda a emoção é probibida, porque, 
se se experimenta, o zygomatico afrouxa e o monóculo cabe. Dá 
impassibilidade pbysionomica. Eis a razão delerminativa dos pe- 
netras descarregarem golpes de monóculo, sublinbativos da phrase- 
e provocantes como uma negação ironista. 

Leur monocle tenu par un la.rge lien, 

Leur fait croire qu Hs ont 1'esprit <V Âurilien. 



10 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



As damas não se ficaram a chilrear nos salões lit- 
terarios, onde se conserva a tradicção d'aristocracia e 
d'intellectualidade, que deu tanta prestigio aos salões 
da Restauração. Crearam um club exclusivamente seu, 
o Ladies'Club, em cujo gabinete de leitura as folhas 
dos jornaes e das revistas devem estremecer contentes 
ao contacto de mãos brancas como a neve polar e pal- 
pitantes como pombas. 

Lembraram-se, por ventura, das lheorias de Mante- 
gazza, das suas asseverações acerca dos caracteres 
sexuaes do espirito feminino, e tentaram, por mais esta 
maneira, provar que —na nossa época de racionalismo 
avançado — elle não reproduz o espirito dos antigos 
povos civilisados, e que o cérebro duma parisiense 
que, entre duas sessões de mundanidade ou d'adulte- 
rio, corre a ouvir a palavra erudita de Brunetière, a 
palavra meliílua do Padre Olivier ou as polyphonias 
suggeslivas de Wagner, differe muito do cérebro d'As- 
pasia, que escutava Péricles e Sócrates, do cérebro de 
Clodia que convivia com Calullo e todo o creme da lit- 
teratura, do cérebro das romanas galantes que liam os 
stoicos e os livros platonianos. 

No casino das damas afíirma-se uma reivindicação 
dos direitos femininos, desses direitos que tiveram 
como primeiro defensor a Emilio de Girardin, e que 
hoje teem como intrépido paladino o novo jornal La 
Fronde, cujas chronicas são esmaltadas pelas vaporisa- 
ções perfumadas da psyehologia feminina, e cujos ar- 
tigos doutrinários devem resistir ás investidas da cri- 
tica viril, como a cútis das articulistas deve resistir á 
acção corrosiva das drogas exóticas, aos ácidos mor- 
dentes das aguas de toucador. 



Qual é a origem da gorgeta? O assumpto era de 
molde a ser tratado entre dois bocks á meza d'uma 



OS CAFÉS H 



loja de bebidas. Na velha Roma, os escravos que, nas 
salas dos festins, escanceavam as crateras e os acra- 
tophoros de phalerno nos copos dos patrícios borrachos 
não apanhavam um único sestércio de propina. Apa- 
nhariam, quaudo muito, a sua chicotada ou uma dose 
d'ergastulo. A gorgèta só podia apparecer com o creado 
assalariado. Mas quando e como? Eis o que suppomos 
difficil d'averiguar. 

O costume de dar gorgêtas já existia na França do 
século XVII. Recebia o nome de viu du valet. Furetière 
detinia-o assim : — «Pequeno donativo que se faz aos 
creados ou aos companheiros de profissão em recom- 
pensa de pequenos serviços que prestam.» Eis a gor- 
gèta. Facilmente se reconhece. O poeta Colletet nos 
seus Traças de Paris, em 16G5, mostra quanto o ha- 
bito da gorgèta estava já inveterado no seu tempo. E, 
ao descrever o fim dum jantar, diz: 

Holà, garçon ! que quelqu'un monte ! 
Prends cet argent et fais ton compte ; 
Trente eu ehapon et sk en pain, 
Deux en fromage et seize en viu, 
Dix en jambon, est-ce Taífaire? 
El cinq sois pour la bonne chére. 
Sana compter les «deux. sois» pour toy 
Pour te inieux souvenir de moy. 

A gorgèta tem, pois, os seus pergaminhos. 

Ha quem diga que a gorgèta é uma das formas da 
esmola. Para nós temol-a com uma das mais pesadas 
contribuições do nosso tempo. 

Em Portugal, o vezo de dar gorgèta, ainda ha pou- 
cos annos muito restricto, generalisou-se, e hoje ne- 
nhum creado de café deixa cVesperar que o bom animo 
do consummidor lhe faça ouvir as notas maviosas 
d'esse lindo rouxinol que canta dentro das carteiras, 
d'essa ave canora cujo canto dulcificador é mais altra- 
hente que a voz argentina da Patti ou a voz musical 
da Paccini. 



i2 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



O pourboire, essa decima de Damocles, está sem- 
pre suspenso sobre a liberalidade dos clientes das 
lojas de bebidas. 

Garçon, nn seeond bock, et parlons d'autre chose ! 






II 



Philosophia dos botequins lisboetas. — Os botequins lisboe- 
tas no século xvm. — Fala-se do marquez de Pombal. — 
A Opera do Bairro Alto e El-Bei D. José. 

Em Portugal nunca se conheceu a vida de café, tal a 
comprehendem na Hespanha, na França e na Itá- 
lia. Abi, os cafés como que são entrepostos intel- 
lectuaes, onde se permutam opiniões, onde a imaginação 
dá alôr aos voadouros ou a Rhetorica desdobra as azas de 
poderosa envergadura. São pontos centricos de reunião 
onde, á luz crua do gaz — esse grande illusionista — 
ou à luz poeirenta e vacillante dos globos eléctricos, 
se vae procurar a alegria dentro duma chávena de 
café, o esquecimento dentro dum cálice d'absintho, 
as chymeras que phosphoreiam no imo das esguias bo- 
telhas capsuladas, as borboletas da réoerie que adejam 
nas espiraes de fumo alvadio dos charutos, e, muitas 
vezes, o prazer offerecido pelas socarronas frandunas 
do amor, que — sem biocos de honra e com elegante 
despejo — amarrotam espelhantes sedas trescalando a 
perfumaria ínterlope, e acalcanham a Virtude com suas 
botinas d'a!tos talões Regência, ao mesmo tempo que 
sofraldam os vestidos, mostrando as pantorrilhas que 
bojam sob meias de seda retezadas pelas ligas. 



14 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Entre nos, os cafés teem sido apenas, umas vezes a 
copia grotesca, caricatural, outras vezes a photographia 
pessimamente retocada dos lá de fora. Pendo a crer 
que os nossos botequins modernos — salvo raras ex- 
cepções — vigem e viçam devido menos ás grandes 
consummações de bebidas do que á nora do bilhar, á 
moinheira do gamão e das damas — em que não se ar- 
risca em lances de grande envite — ou ás suciatas no- 
cturnas dos ribaldos peralvilhos com as hespanholas 
sorrelfas que vivem encloacadas nos sobrados fedoren- 
tos das betesgas do Bairro Alto. 

Para uns vão os letrados, os sabichões, fazer phra- 
ses folhelinaes ou cravar a conversação d'adjectivos 
rútilos, como um pianista eximio criva o teclado de va- 
riações brilhantes; para outros vão os leonculos da 
moda engranzar parvulêzas no fio do cavaco, ou nar- 
cizar-se nos vidros luzentes dasventanas e nas couçoei- 
ras polidas dos portaes ; para outros vão os janotas 
toureiros, os pandilhas valentões — uma jolda de pa- 
láos e de patêgos, — que passam o tempo a falar em ma- 
léssos e boiantes, ou, muito bexigueiros, a fazer in- 
granzeu com pachuchadas tresandando um cheirête 
catingueiro. Taes são as casas de café n'esta nesga da 
mal tozada gleba luzitana, e n'este momento do século. 

Antes do terramoto de 1755 os raríssimos botequins 
lisboetas não logravam a frequência da gente engrava- 
tada. O mais afamado em 1745 era o café do Rosa na 
rua Nova (rua dos Gapellistas) apenas frequentado por 
negociantes estrangeiros. 

N'esta mesma rua existia também o café de Madama 
Spencer. (Gazeta de Lisboa, 1741). 

A ballela politica, a parenese d' estaminei e. . . a lixí- 
via de roupa suja, que actualmente constituem núme- 
ros obrigatórios nos programmas musicaes d'entre o 
café e o cognac, eram assumptos caturrados em loga- 
res certos de reunião : o Alto de Santa Gatharina (pas- 



OS CAFKS 15 



seio favorito da gente do Bairro Alto), a Cotovia, Valle 
Verde, Sequeiro das Chagas, Remolares, Caracol do 
Carmo, Arcada do Rocio e Adro de S. Domingos, Jogo 
da Pella, Taboleiro da Sé, Terreiro do Paço, etc. (Dicc. 
Popular). O peralta que, em passo de gavota, bandar- 
reava pelos adros das egrejas e pelos pateos dos con- 
ventos, e o jarrèta de capote ás canhas e pitada do 
simonle engatilhada, iam para esses locaes ventilar os 
casos que hoje vêem á tela da discussão nas salas dos 
cafés, onde são adelgaçados pelos cepilhos dos satyristas 
botequinaes. 

Iremos ouvir mil petas, 
Quando mais o sol se empina, 
Vendo acérrimos jarrétas, 
Junto a Santa Catharina, 
Argumentando em Gazetas. 

Antes do terramoto de 1755 era a rua Nova d'EI- 
Rei, dos Mercadores ou dos Ferros, a principal artéria 
da capital, era o Chiado da epocha, a rua onde esta- 
deavam os mais luxuosos estabelecimentos, entre elles 
os que vendiam objectos da índia, ou as lojas de chá, 
como diríamos agora. 

Por occasião do grande incêndio nos Paços do Con- 
celho (moderna rua Nova d'EI-Rei) ainda havia n'esse 
edifício uma loja de louças da índia, e hoje mesmo 
conserva se n'essa rua a loja de chá do Bessone, fun- 
dada ha mais de oitenta annos, tendo então, além 
das duas portas que possue, mais outras duas, que 
actualmente pertencem á pastellaria Pucci. 1 



1 A mais antiga pastellaria lisbonense data de 1812. Foi estabe- 
lecida pelo Baltresqui no largo de Santa Justa, e d'aqui mudou 
para uma loja da rua dos Capellistas no antigo edifício da camará, 
que foi presa das chammas em 1863. Baltresqui casou a filha com 
o Pucci, um italiano que viera para Lisboa como cosinheiro da 
duqueza de Palmella, e que foi o seu suecessor. Com o incêndio 
da camará municipal, a pastellaria Pucci transferiu-se para a loja 
da mesma rua, onde agora a vemos. A filha de Pucci casou com o 
actual proprietário do estabelecimento. 



16 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Só depois de 1755 appareceram lojas de bebidas 
mais aprimoradas, melhor arreadas de mobílias, como 
convinha a uma cidade que encetava vida nova, posto- 
que n'algumas d'ellas os tavolageiros armassem seus 
abuizes áquelles em que encontravam polpa para em- 
polgar as unhas. A' actividade, a um tempo benéfica 
e maléfica, do marquez de Pombal nada escapava. Bem 
sabemos que o povo o classificou de homem de presa, 
que lhe attribuiu mil extorsões, mil expoliações, que 
aquelle epigramma do frade — que admirava sobretudo 
as aguas-furtadas dos palácios do Pombal — frisava 
perfeitamente. Mas sabemos também que, logo no rei- 
nado da beata D. Maria I, o mesmo povo se peniten- 
ciava dizendo em adagio : Mal por mal, antes Pombal. 

Não pomos o fito em nos occuparmos d^sta alta in- 
dividualidade, mas apenas dizermos que na sua febre 
de remodelador, até patrocinou o estabelecimento de 
bons cafés, e fez comprehender no numero das dispo- 
sições pombalinas aquella que obrigava as tabernas a 
substituírem os ramos sobre as portas por taboleías 
de madeira pintadas. 

O theatro da Opera, no Bairro-Alto, tinha um bote- 
quim, que foi arrendado por um tal José Alexandre. 
E' de presumir que tivesse farta concorrência de dilet- 
tanti, porque o manteve de 4 70 1 a 1770, conforme se 
vê das contas do Theatro do Bairro-Alto. (Bibl. Nacio- 
nal. Manuscriptos da Secção XIII). Mas, depois de 
1769, o José Alexandre começou a pregar calote, e o 
seu nome apparece no canhenho dos devedores do 
theatro, junto aos nomes d'alguns dos assignantes de 
camarotes e de logares de plateia : D. António Flor da 
Murta, o Principal Camará, o lettrado Corte-Real, con- 
de da Vidigueira, cadete Jance, Madama Ferrare, Mor- 
gado d'Oliveira, ministro da Dinamarca, o Estribeiro- 
Menor, etc. 

El-Rei D. José ia á Opera do Bairro-Alto. Contava 



os cafés 17 



um velho capellão da casa Sabugal ou Sabugosa, falle- 
cido em 1848, que D. José era d'uma pontualidade in- 
gleza. Chegava sempre á hora marcada, tirava o seu 
relógio e mandava principiar o espectáculo l . Este so- 
berano não se deliciou só com as vozes do theatro do 
Bairro Alto, mas também (anteriormente a 1755) 
na Opera do Paço de Lisboa, na Opera do palácio 
d'Ajuda, na Opera do palácio de Salvaterra (sitio para 
onde ia muito, e onde se realisaram famosas touradas 
reaes), ouvindo os cantores Raff, Mazzoli, e Egypcielli, 

— este ultimo mandado vir propositalmente de Roma 

— e, finalmente, nas serenatas de Mafra, onde escu- 
tava, além d'aquelles, o cantarino Ghuchi. (Gazeta de 
Lisboa). 



«^ISF^ 



1 Este facto foi-nos referido pelo sr. dr. Augusto César Alves 
cTAiievedo. 

TOMO II o 






■> 



III 



O botequim do Marcos Felippe. — Um pouco cie historia con- 
temporânea. — O botequim do Casaca c outros. — Parla 
tórios políticos. — O Pina Manique entra em scena. — Os 
Mmichards. — Modas femininas. 



botequim do Marcos Felippe foi um dos primeiros 
cafés de luxo que se estabeleceram em Lisboa. 
Estava ao cauto do largo do Pelourinho na loja 
que hoje tem os números 23 e 21,. e é oceupada pela 
drogaria da viuva Serzedello. 

Conta o sr. Fonseca Benevides no seu apreciável 
romance histórico No Ttmpo dos Francezes que este 
botequim foi estabelecido depois do terramoto, a soli- 
citações do marquez de Pombal, que reconhecia a im- 
portância d'este elemento de vida publica nos grandes 
centros populosos. O estadista, para vencer a contu- 
mácia do fundador da casa, foi lá, no dia da inaugura- 
ção, almoçar chá e torradas com manteiga feitas de 
pão de Melecas, um logarejo saloio cerca de Bellas. A 
confecção d'estes almoços ligeiros constituía uma espe- 
cialidade dos velhos botequins lisboetas. 

O creador d'este botequim histórico chama va-se 
Marcos Felippe Campodonico segundo se vê no seguinte 
annuncio da Gazeta de 10 de dezembro de 1805 : 



20 LISBOA D OUTROS TEMPOS 



«Constando a Marcos Filippe Campodonico que vá- 
rios sujeilos que vendem licores e aguas ardentes se 
teem valido furtivamente do seu nome no commercio 
dos ditos géneros, não sendo talvez manipulados com 
aquella perfeição com que elle os fabrica, participa por 
esto meio e põe de cautela a todas as pessoas cTestes 
reinos e do Ultramar que lhe fazem obsequio de se 
proverem dos referidos géneros em sua casa, que esta 
fica situada no largo do Pelourinho n. os 10, 1/ e 18; 
e que elle, além d esta casa, não tem outra mais que 
o armazém onde fabrica os seus licores, situado á Bi- 
ca do Sapato, dentro da horta do Excellentissimo Mar- 
quez dWngeja, n.° 3; e por isso só aos silios acima 
indicados é que deve dirigir-se quem quizer sortir dos 
referidos géneros preparados na fabrica.» 

Marcos Felippe figura na lista dos patriotas, que, 
apoz a expulsão dos francezes, concorreram com dona- 
tivos para as despezas do exercito. Ao lado d'elle está, 
entre outros, o João dos Santos, almoxarife da quinta 
do Uamalhão e muito querido da rainha D. Carlota 
Joaquina, o qual offereceu dois cavallos. Marcos Felippe 
tinha a sua fabrica de licores na rua do Arco, aos Car- 
daes de Jesus, em 1810. (Torre do Tombo. Lioro 31 
das Secretarias). 

No botequim do Marcos Felippe havia parlatorio dos 
partidistas dos francezes em 1803, taes como o Mar- 
tins Leoni, professor de francez, e o sobrinho do Cal- 
vcte (Intendência. Papeis diversos. Maço 1.) N'este 
botequim juntavam se em I82Í alguns empregados da 
secretaria da marinha, como um tal Torquato e um tal 
Monteiro, que de tudo vociferavam e a lodos os seus 
collegas de repartição chamavam ladroas. (Policia Se- 
creta dos Últimos Tempos do Reinado do Senhor D. 
João VI). 

Em 1820, este botequim pertencia a Manoel Jero- 
nymo Campodonico, filho, talvez, do fundador. (Cor- 
respondências dos Ministros dos Bairros. Maço 148). 



OS CAFKS 21 

Esta loja de bebidas desempenhou um pequeno pa- 
pel na historia contemporânea. A's duas horas da ma- 
nhã de 8 de setembro de 1838 reunira m-se era armas, 
no Pelourinho, perto de qualrocentos homens de vários 
batalhões da guarda nacional e o batalhão d Artífices 
do Arsenal, exigindo a demissão do ministério Sá da 
Baudeira-Bomfim, o ministério dos pastelldros como 
lhe chamavam os adversários A' frente do movimento 
estava Ricardo José Rodrigues França., inspector do 
Alienai, commandante do batalhão d'Arlifiees e exal- 
tado setembrista. Mas, cercados pela tropa fiel em 
terra, e por uma corveta e um brigue pelo lado do 
mar, tiveram de capitular, pactiiando-se então uma 
convenção que se ficou chamando do Marcos Felippe. 
O batalhão do Arsenal foi dissolvido e o França demit- 
tido. Apesar do scbresalto produzido por este pronun- 
ciamento militar, a procissão dos Passos, qne se fazia 
n'esse dia, realisou-se sem inconveniente de maior. O 
França morreu dum tétano que lhe sobreveio a um 
tiro da espingarda, que, casualmente, se lhe disparara 
na occasião em que (quando homisiado) saltava para 
um bole na Oulra Banda. 

O correspondente de Lisboa para o Braz Tizana do 
Porto dizia, em 185o, que morrera a viuva do Marcos 
Felippe, deixando sessenta contos de réis a um cam- 
bista. Não nos parece provável que fosse a viuva do 
fundador do botequim; mas seria, talvez, a viuva dal- 
gum descendente seu. O botequim do Marcos Felippe 
fechou em 1858 ou 1860. 

Em 1783 existiam vários botequins que eram, cu- 
mulativamente, casas de lavolagem Havia o Caffé 
Neutral, l onde entravam de sociedade Frey António 
Belli com o christão novo Daniel de Cerqueira, o do 
Casaca, o do António Luiz Capellista — que foi preso 



1 Em 1810 havia a casa de pasto do Pedro Neutral na rua do 
Príncipe, 61, indo do Rocio para o Passeio. 



22 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



por roubar com dados falsos novecentos mil réis a um- 
francez — , o d'um reposteiro junto á praça dos Lei- 
lões, e outros que haviam tirado licença para jogo de 
bilhar, mas que tinham diversos jogos. O Intendente 
de Policia, Pina Manique, dizia que n'ellas se juntavam 
indivíduos não só para aquelle fim, mas também para 
fallar com liberdade das sagradas pessoas de Suas 
Magestades. Particularisava a loja de caííé de um Ma- 
nuel José na rua Nova d'EI Rei, onde ia um clérigo 
por appellido Viegas, e a d'um relojoeiro na rua Au- 
gusta. (L.° 1 das S.ecr.) 

O botequim do Casaca foi histórico. Era situado na 
rua dos Capellislas, junto á antiga sachristia de S Ju- 
lião, e tomou esse nome porque o creado que servia 
ás mezas andava sempre de casaca. 

O sr. Costa Cascaes na sua peça A Inauguração da 
Estatua Equestre colloca a scena d'um acto n'esse café, 
onde entrava o marquez de Pombal. 

A loja do Casaca ainda existia em 1804, como so vê 
n'um annuncio da Gazeta d ? esse anno. 

Ultimamente soubemos que ainda existia em 1809, 
como se vê duma denuncia no tempo dos francezes. 
{Pap. Diversos. Maço 1). 

O café Neutral era em Belém, e pertencia a José 
Baptista, em 1797. Ainda existia em 1803. (Gazeta). 

Em 1782 estava na Patriarchal Queimada a loja 
de bebidas do Nicolau Vitaliano, e no largo de Be- 
lém, perto da calçada d'Ajuda, a do Theopbilo José. 
N'e!las, bem como na loja da Gazeta, se vendia a 200 
réis os bilhetes para as seges que partiam d'aquelles 
locaes todos os dias das 7 horas da manhã ás 8 da 
noite. 

A sege partia logo que tinha dois passageiros. A 
venda cessou depois na loja da Gazeta, e passou a fa- 
zer-se na Casa da Neve, debaixo da Arcada da Praça 
do Commercio. 



OS CAFÉS 23 



Em frente da Conceição Nova, na casa dos Padres 
da Boa-Hora, estava uma loja de bebidas em 1789, e 
por cima, na sobre toja, habitava Madama Delaval, fa- 
bricante de flores. A Casa da Opera da Rua dos Con- 
des possuía seu botequim, cujo dono morava n'um 
primeiro andar á esquina da rua Áurea e da travessa 
de Santa Justa. 

Esta loja começou a fabricar neve no i.° de Julho de 
1792, e participou, pela Gazeta, que a forneceria ao 
publico durante todo o estio. 

Na escada das varandas do theatro de S. Carlos 
existia uma casa de bilhar em 1790. E no Poço Novo 
estava (em 1797) a loja de bebidas do Bento Valença, 
que vendia as obras de José Daniel *. 

Na conta de o de novembro de 1794 diz o Inten- 
dente Manique, que, no numero das casas que inspi- 
ravam desconfiança eslava uma loja de café na rua dos 
Romulares, por baixo da casa do negociante Vianna 
Ferreira e Companhia, onde se juntava muita gente 
pairando contra o Príncipe Regente e fazendo a apolo- 
gia da liberdade. E urna taberna, que existia na tra- 
vessa, não era menos isenta d'essa pecha. Ahi, vários 
francezes tocavam rabeca e cantavam canções sedicio- 
L.° 4 das Secr.) 

Nos cafés do Rocio então nem é bom falar. Por lá 
tudu cheirava a jacobinice, a maçonaria, e outros no- 
mes com que o Intendente baptisava esta gafaria de 
sarampello politico, que atacara muito bom portuguez. 

Um Aviso do Marquez Mordomo-Mòr, enviado ao 
Manique em lo de setembro de 1792, dizia-lhe que 
indagasse, com lodo o. segredo e recato, se nas casas 
publicas e cafés se proferiam proposições e referiam 
factos, com que se intentasse alterar a tranquillidade 
publica. (Int. Avisos e Cartas dô Reino. L ° 2). 



1 Bento Valença era partidário dos francezes. (Pap. Diversos. 
Maço 1.) 



24 lishoa d'outros tempos 



O Pina Manique possuía a actividade, a mobilidade, 
de quem tivesse engulido uma pilha eléctrica. Entre- 
mettia-se com tudo, a tudo providenciava. Não queria 
que se usassem as luvas e os cocares d Liberdade; 
embirrava com os vestidos d Jacobina e com os pen- 
teados que as damas traziam «imitando os malvados 
de Paris,» com os sapatos sem fivelas, com os cabei- 
los sem polvilhos e com os chapéos altos dos homens. 
(L.° 4 das Secr.) Fazia apprehender as caixas e tras- 
tes com pinturas licenciosas que vinham do estrangeiro 
por contrabando, os relojios contendo figuras emble- 
máticas que appareciam ao tocar uma molla, e que vi- 
nham dirigidos ao negociante italiano António Galli; os 
modelos em cera que elle mandava pisar pelos mario- 
las d'Àlfandega. (Avisos e Portarias. Maço 1 ) 

Fazia egualmente apprehender os livros suspeitos 
que vinham para o duque de Lafões e para o cava- 
lheiro Lebzeltern. 

As ordens severíssimas do Intendente produziam os 
seus naturaes resultados. Porque o procurador Santos, 
Francisco Ferrari, João Ferrari e o alferes Aytona, an- 
davam pelos botequins a mostrar uma caixa de rapé 
que linha o dístico : Viva a Liberdade, foram logo pre- 
sos. (L.° 4 das Secr.) 

Para este e para outros fins policiaes trazia espa- 
lhados espiões e moscas, como elle dizia. (L.° 5 das 
Secr., pag. 188). 

Os sagiões do Manique, impotentes para jarretar as 
protervias dos m.ilandrins que assaltavam os transeun- 
tes nas ruas de Lisboa, limitavam a sua actividade a 
fariscar casos urgicos, a espionar os botequins onde 
se conversava em coisas perigosas, e a vigiar alguns 
cidadãos que andavam em clubs pela Praça do Com- 
mercio, onde se reuniam todas as tardes, pelo que 
prenderam o governador do Ceará, o capitão reformado 
Lacueva, o Salles ourives, o cirurgião Simão Gomes, 



OS CAFÉS 25 



c outros. (L.° 5 das Secr.J Também os estrangeiros 
que aqui se juntavam provocavam desconfiança : o Le- 
cenei, negociante francez, o Hubie, o Guillon, o Mace, 
fabricantes e artífices. (Historia de Portugal. Oliveira 
Martins). 



No principio (Teste século (quando era uso cantar ao 
cravo o de saudades morrerei, entoar a Comporta, 
dançar a contradança) as toilettes femininas, em seda 
amarella e vermelha, possuíam o colorido ardente dos 
quadros de Velasquez. Viam-se as senhoras ir á missa 
ou a passeio, de vestidos esguios, com amplos decotes, 
— corbeilles de seda d'onde parecia escapar se a carne 
florida, — mangas curtas, cintura curtíssima mal dis- 
farçando as formas, e levantados do chão um ou dois 
palmos afim de mostrarem, coquettemente os, sapati- 
nhos, parecendo cortados n'uma aza d'insecto. 

Traziam uns chapéos d'abas compridas e feitio ex- 
travagante, ou de palha, chamados á ingleza, com fitas 
sob o queixo; os espartilhos, ó Leoty ! eram muito ex- 
quisitos e atavam por detraz. 

O complemento indispensável da toilelte feminina era 
um leque pequeníssimo, que a zombaria tolentiniana 
appeilidou d'azas de mosquito. 

Pois o Manique voltou a embirrar com os trajes fe- 
mininos, e publicou a celebre circular de 1804, com a 
qual tentava coarctar os excessos da moda. (Summario 
de Varia Historia. R. Guimarães). 



M I I ! I I I I I I i- 



m(mem$e i^^^X^ 




IV 



i) botequim mais antigo de Lisboa — Fiiinto Elvsio — As 
denuncias — íogatina -- A Arcada do Terreiro do Paço — 
A Gazeta de Lisboa — Todos jacobinos ! — Os bilhetes de 

reside cia — Procedimento anti-palnotico. 



Ornais antigo botequim é actualmente o da Arcada 
do Terreiro do Paço. Ao prédio em que está este 
botequim anda ligado um fado hislorico-littera- 
rio. Foi n'um andar d'esse quarteirão (chamado do 
Anselmo da Cruz Sobral), habitado pelo escrivão do 
eivei Joaquim José de Sousa, que Fiiinto Elysio teve 
uma conversa indiscreta sobre religião, conversa que 
foi delatada á Inquisição pelo padre José Manuel de 
Leiva. 

Fiiinto Elysio foi perseguido e obrigado a emigrar 
para França em 1778, deixando seus pães em precá- 
rias circumstancias. (Torre do Tombo. Inquisição. Pro- 
cesso n.° H:048). 

Sabemos que esta loja de bebidas da Arcada existia 
em 1781', e que lhe chamavam a Casa da Neve. Em 
1784 tinha o nome de Casa de Café Italiana. (Ga- 
zeta). 

Era seu proprietário o italiano Domingos Mignani, 



28 LISBOA DOUTIIOS IT.MPOS 



segundo se vê d'um aviso do Intendente de Policia 
(em 178o), no qual se dava parle d'um roubo ali pra- 
ticado, em que levaram dinheiro e peças de prata, e 
lançaram fogo á porta seguinte, que dava serventia a 
um relojoeiro, também roubado na mesma occasião 
(L.° 2 das Secr. ) Km 170o chamàvam-lhe café do Com- 
mtrcio, e era do mesmo Migunni. 

Em. 1795 armaram um telheiro para os canteiros 
das Reaes obras Publicas junto a esse botequim. (Ga- 
zela). 

Por denuncia feita em carta de J. F. S. e dirigida á 
Policia em 1809, sabia-se que n'esse botequim se reu- 
niam muitos libertinos e muitos jacobinos. Mas estas 
denuncias eram vulgares, como adeante veremos. 

Noutra denuncia de / i810, o café da Arcada appa- 
recia entre as casas clandestinas de jogo de banca e 
dado. (Papeis div. Maço 1). 

Na parte da policia secreta de 14 de novambro de 
1823 alfirma-se que o botequim da Arcada do Anselmo 
era um dos silios em que havia mais conversações e 
mofas á Gazeta «na parle que tratava a respeito da 
Hespanha.» (Idem. Maço li). Em \82\ era dono d'esse 
cate unWosé dtí Mello. 

Em 1823 appareceu um annuncio na Gazeta, di- 
zendo que na porta n.° 7 da Arcada se forneciam al- 
moços a tostão, e jantares e ceias para fora. Quer-nos 
parecer que ainda se tratava d'esta mesma casa. 

Em 1829 annunciava-se o trespasse da loja de be- 
bidas com bilhar, debaixo da Arcada do Terreiro do 
Paço, e que se tratava com o arrendatário na mesma 
loja. Finalmente, em 25 de Maio de 1829 abria, com- 
pletamente reformado, o botequim da Arcada. (Ga- 
zeta). 

Este antiquíssimo café pertenceu depois a Martinho 
Rodrigues, fundador do café Martinho, e, por morte 
d'elle, coube em herança ao actual proprietário de am- 



OS CAFÉS 29 



bos, o sr. Julião Bartholomeu Rodrigues, escrivão do 
Tribunal do Commercio. 

MarliDho Rodrigues era o contraclador da neve que 
se consumia na capital era 1810. Tirava-a da serra do 
Coentral Grau le, dahi vinha em carros até á Barqui- 
nha, e em barcos d'agua-acima alé Lisboa. (Avisos, 
etc. Maço 9.) 

Em 2í de Novembro de 1S32 foi mandado que as 
lojas de bebidas fechassem ás Ave Marias, e as ou- 
tras lojas às 8 horas da noite, exceptuando as boticas 
que podiam fechar ás 9 horas, embora o ministro da 
Justiça dissesse n'ura aviso que os boticários, pela 
maior, parte, não possuíam buis sentimentos políticos. 
(Idem. Maço 79.) O Martinho pediu para fechar ás 9 
horas. 

Sob as Arcadas do Terreiro do Paço houve vários 
estabelecimentos A loja da Gazeta era ua actual ar- 
cada do ministério do Reino (até onde se prolongava 
o Senado); o livreiro Nogueira estava na arcada da 
Juuta do Commercio (onde agora está a Junta do 
Credito Publico), mas cujo edifício pertencia ao Sena- 
do; a loja das cartas de jogar estava na Arcada do 
Anselmo, porta n.° 0; e junlo á guarda principal (no 
lado da Alfandega) havia uma loja de livros. (Gazeta, 
1804.) Antes do terramoto já havia alguns livreiros 
no Terreiro do Paço. Isto alem dos papelistas que o 
frequentavam, como frequentavam a porta da Miseri- 
córdia. 

A guarda principal foi mandada estabelecer pelo 
marquez de Pombal em aviso de 27 de abril de 1775 ; 
compunha-se de subalterno, sargento, dois cabos, e 
trinta soldados, e aquartelava-se juuto á porta da Al- 
fandega na Arcada da Real Praça do Commercio. 
Principiou em 13 de Maio d'aquelle anno. (Avisos, da 
Intendência. L.° 12.) 



30 LISBOA d'0UTI10S TEMPOS 



Já que tocámos na loja de venda da Gazeta diremos 
mais alguma coisa a respeito dos locaes onde se ven- 
dia esta antiquíssima folha. A Gazeta (com o nome de 
Supplemenlo das Noticias de Lisboa) vendia-se na loja 
do livreiro francez Lourenço António Bonnardel, ao 
largo da Esperança; e em 'i762 passou a vender se na 
casa de Pedro Ferreira, impressor da Rainha e im- 
pressor da Gazeta até 175;/, o qual morava na cal- 
çada da Gloria, abaixo tio chafariz de S. Pedro d'AI- 
cantara, junto ao picadeiro do conde de Castello Me- 
lhor, e defronte da cerca dos padres de S. Roque ou 
da Companhia de Jesus. Pedro Ferreira começou a 
imprimir a Gazeta em 1752, tendo a sua oflicina n'um 
quarto andar da rua Nova dos Ferros, defronte da 
Conceição Nova. Depois do terramoto estabeleceu-se 
no cimo da calçada d'Arroyos, perto do Arco do Cego» 
e junto da quinta d'Antonio Pery de Linde ; e, ainda 
depois, na rua de Nossa Senhora dos Prazeres, por 
baixo da rua do Pombal, no silio da Cotovia. 

Foi n'uma terça feira, 9 de novembro de J709, que 
a Gazeta se principiou a vender e a distribuir na loja 
da Praça do Commercio, junto á arcada do Senado, fi- 
cando encarregado da gerência Francisco José da Silva. 



Dissemos, anteriormente, que as denuncias no tempo 
dos francezes foram vulgares. Estas denunciações re- 
cebiam incitamento d'um decreto que a Regência fez 
Publicar em 20 de março de 1809, pelo qual auctori- 
sava a denuncia, vocal ou escripta, de todos os sequa- 
zes dos francezes ou traidores á pátria, prohibindo, 
todavia, o infamar qualquer pessoa com similhante 
epi.heto. 

As denuncias choveram, e quasi se converteu em 
balda a accusação por espionagem e jacobinice. N'uma 



OS CAFKS 31 



cTellas alé figura o nome do illustre compositor Mar- 
cos Portugal, que então morava na rua de S. Francis- 
co da Cidade, n.° 9, 2.° andar. Os commerciantes fran- 
cezes residentes em Lisboa estavam naturalmente in- 
dicados como suspeitos. Mas não eram só elles. A lista 
dos porluguezes e italianos marcados com o ferrete do 
jacobinismo era longa : os padres Vicentes, José Maria 
o Bimbas. tenente de marinha, o dr. João Mourão, 
prior do Sacramento, homem turbulento, declamador 
até do púlpito; o Pratolongo, corretor italiano, co- 
nhecido por espião francez ha muitos annos, diz o de- 
nunciante; o dr. Manuel Ferreira Gordo, l do Rocio, 
«que vive de denuncias, e no artigo francezismo é até 
maniaco, grita publicamente contra o governo e tem 
forja de más noticias», dizia outro denunciante; o ne- 
gociante Cambiaso, o genovez André Guidoti, nego- 
ciante de quiuquilherias, e seu filho João Maria, o 
primeiro, língua e constante companheiro de Junot, e 
o segundo, empregado na secretaria do general fran- 
cez e encarregado dos livros e Irastes quando este re- 
tirou, (Papeis Div. Maço 1.); o medico Francisco Ge- 
mes da Motla, que fora muito protegido pelo general 
Lannes, embaixador francez ; João António de Sousa 
Moraes, o major Chicória, que, mais tarde, no tempo 
de D. Miguel, toi um grande perseguidor dos malha- 
dos (L. 05 10 e 11 das Secr.), etc. 

Indicavam mais, como jacobinos, um marceneiro de 
S. Francisco, que fora muito do Lagarde, e em cuja 
casa estavam armas escondidas, cuja averiguação foi 
incumbida ao Tim Tim\ o Jacob Dorham, encarregado 
de negócios da Hollanda, «que em todo o tempo tem 
sido o corypheo dos espias francezes» ; o L'E'vèque, 
pintor, esmaltador e retratista, que dava informações 



1 Mandaram-n'o em 1810 para os Açores. Voltou em 1815, in- 
do morar na R. Áurea, á entrada da T. da Victoria, do lado es- 
querdo, 2.° andar. Ficou sob a vigilância da policia. {Avisos, etc. 
Maço 28). 



32 LISBOA D OUTROS TEMPOS 

aos francezes e tirava plantas da cidade ; o pintor Pel- 
legrini, que escarnecia o Regente, denunciava todas as 
pinturas boas que havia, e quando fallava de Junot 
ehamava-lhe Príncipe de Portugal; Francisco Rossi, 
cônsul da Sardenha, um dos validos de Junot; uni 
francez, antigo cabelleireiro da Princeza Real, que mo- 
rava na casa do Dr. Bandelli, á rua de S. Bento, e 
que rasgara publicamente os retratos dos nossos so- 
beranos, que estes lhe haviam dado ; o Manuel Joa- 
quim que fora caixeiro e, depois, testamenteiro do ce- 
lebre Manteigueiro ; o Cosmelli que, certa occasião, es- 
tava a rir com um individuo por ter visto sahir do 
largo do Quintella o general inglez na sua carruagem, 
acompanhada de cinco guardas da Policia a cavallo. In- 
dicavam também a casa da rua da Graça, 97, 1.° an- 
dar, em que se juntavam oííiciaes do 1.° batalhão na- 
cional do Paço da Rainha, e, no numero cVelles, o poeta 
José Daniel Rodrigues da Gosta, capitão d'aquelle ba- 
talhão, os quaes todos faziam critica, em verso e em 
prosa, dos actos governativos. 

Muitos francezes, negociantes aqui estabelecidos, 
iam metter-se voluntariamente na cadeia para escapar 
ás fúrias populares, como succedeu ao livreiro Orcei. 
Outros viram as suas casas salteadas a pretexto de 
buscas, como aconteceu á do Jacome Ratton, na quin- 
ta da Barroca d'Alva em Alcochete. (Idem). 

Muitas d'essas denuncias e accusações faziam-se por 
vingança, por interesse cupido, ou por despeito mal 
refreado. 

Muitos foram expulsos do nosso paiz. Entre elles fi- 
guravam o barão de Serrabord ou Serrabordes, que 
usava de vários segredos de medicina, Henrique Sola- 
ge, que fora mestre de musica de diversos regimentos 
portuguezes, Jacques Lebon, mestre de florete do prín- 
cipe regente, do infante D. Pedro Carlos e do Collegio 
dos Nobres, e Frederico Joly, gUarda-livros dos Ratton. 



os CAFÉS 33 



A policia tinha conhecimento de que havia ainda 
bastantes franeezes escondidos. Em casa do Ralton es- 
tavam dois que eram empregados em fabricar napo- 
leões no tempo do intruso governo. (Avisos, etc. Ma- 
go 5.) 

Crearam-se então (1810) os bilhetes de residência. 
Dizia o Intendente que este processo não devia chocar 
a nação ingleza, e parecia lhe que lord Wellington eo 
ministro britannico achariam justa uma medida que 
tendia a combater a trama do inimigo. < Livro XI das 
Secr.) 

Passado um anuo já havia alguns patriotas que se 
aproveitavam da estada de Massena em Santarém para 
ganharem dinheiro com os francezes. Os catraeiros 
sahiam de Lisboa com géneros que fingiam levar para 
os alliadós. Escondiam-se nos esteiros e sinuosidades 
do Tejo, e, pela madrugada, chegavam a Santarém, 
onde os vendiam por bom preço, como, por exemplo, 
o tabaco a 3?>200 réis cada arrátel e o pão a 480 réis. 
Os moços de transportes das brigadas portuguezas 
também traficavam com o inimigo, atravessando, para 
esse fim, os postos avançados nos sitios mais próprios. 
E foi assim que o tenente-coronel Haymundo José Pi- 
nheiro conseguiu entrar n'aquella cidade, acompanha- 
do dum d'esses moços, sob pretexto de vender cho- 
colate. (Avisos, etc. Maço 12.) 




,.!<• do Grego, assem biéa de revolucionários— Lojas sus- 
peitas ;í policia — Odysséa dum bofcquineiro — O copeiro 
de Luiz XVI — Um antiquíssimo freguez do Grego — Os 
■ates do Cacs do Soáré — Casos de pasto. 

Ocafé do Grego, á esquina do largo do Gaes do 
Sodré e da rua larga da Ribeira das Naus, tinha 
uma porta para aquellc largo e outra para esta 
rua. Foi estabelecido no principio deste século por 
Angiolo Canalhoti, alcunhado o Grego. 

Km 1809 este botequim era considerado um centro 
de propaganda das idéas [rancezas, e o seu dono tor- 
nou-se suspeito por consentir gente na loja depois da 
porta fechada, e ainda porque a casa era muito fre- 
quentada por estrangeiros. 

O Grego figurava no numero dos cafés vigiados pela 
espionagem : os botequins do Marrare no Arco do Ban- 
deirra e em S. Carlos, o do Carlos Piemontez no largo 
de S. Carlos, o que estava sob o Arco do Bandeira 4 , o 



1 "Na loja de Debutas que tem porta para debaixo do dito arco 
(do Bandeira) e frente parai» Rocio, é uma cambada de ladrões 
que abi se juntam, e váo buscar <»> ponto? do que hão de fazer.» 
(Pap. Diversos. Maço í.) 



36 LISBOA dWibos tempos 



fronteiro ao Collegio dos Nobres, os da rua do Prín- 
cipe, o do cimo da rua Nova da Palma, n.° 26, o da 
esquina da rua das Pretas, o muito antigo botequim 
do Bento Valença, no Poço Novo, o da esquina da Cruz 
de Pau, ao Calhariz, o do António Archeiro na rua da 
Mouraria, o da rua do Amparo á esquina da travessa 
dos Doidos, e o do Santiago Marques, defronte da 
egreja do Loreto, onde ia todas as noites um francez 
que fora cosinheiro de Junot. E ainda havia outras ca- 
sas maculadas de suspeição como eram : o confeiteiro 
Simões Diniz no largo do Loreto, a papelaria do Stat- 
tini á esquina do Chiado e da rua de S. Francisco, o 
chapelleiro F. da Cunha Pessoa no Rocio, 89, á ilharga 
da botica Azevedo, a casa de cambio de José o Bona- 
parte no 1.° quarteirão da rua Augusta, vindo do Ro- 
cio, onde se apostavam moedas em que voltavam os 
fiancezes, e a botica do Joaquim, na rua Augusta, 
onde havia grandes assembléas de negociantes, médi- 
cos e partidistas, que iam jogar e conversar n'uma ca- 
sita ao fundo da loja. (Pap. div. Maço I.) 

Um dos que espalhava mais noticias politicas no 
café do Grego era o negociante genovez Cosmelli, mo- 
rador na. rua larga de S. Roque. 

Mas havia mais alviçareiros de botequim : no Mar- 
rare de S. Carlos era o negociante italiano Polleri, 
morador no prédio do Anselmo da Cruz Sobral na rua 
de S. Francisco -, e no botequim defronte do Loreto n.° 
1 era o Felippe Alberto Patrone o Ala-Diabos l , official 
de marinha, que dizia ter traçado um plano para os 
francezes desembarcarem a são e salvo no Brazil, e 
que na sua residência (defronte da Cruz de Pau) reu- 
nia assembléas de partidistas. 



1 Foi o único que requereu, em 1822, para que,, pelo ministério 
tia Justiça, lhe passassem certidões das denuncias que lhe deram 
de 1808 a 1810. e das pessoas por quem foram feitas. (Avisos, 
etc. Maço 42.) 



U< CAFÉS 37 



Angiolo Caoalhoti apparece na lista- dos jacobinos 
denunciados á policia em 180.;. motivo foi o se- 
guinte. As 7 horas da tarde de 12 de julho de 1809 
entrou no café do Grego o gcnovez Pedro Cândido, 
banquisla e negocianle de leuras, e exclamou alegre- 
mente : 

— «Então agora já somos todos francezes!» Depois, 
levando uni papel na mão, entrou para a casa interior 
da loja acompanhado do Canalhoii. 

Alguém ouviu a phrase e commnnieou a á Intendên- 
cia de Policia. (Idem. Idem.) A repressão não se fez 
esperai - . Um aviso de João António Saller de Mendonça, 
datado de \ tVoolubro d'aquelle anno, e dirigido ao 
Intendente, Lucas de Seabra da Silva, ordenava a pri- 
são e a expulsão para íóra do reino do Canalhoti «qne 
lem botequim ao Cães do Sodré», do leornez que ven- 
dia queijos, licores e outros géneros no largo do Corpo 
Santo numa loja ao pé da botica, e do alfayale pie- 
noontez André. (L.° -2 da Int. Gollecção vinda d<> Min. 
do Heinoj. 

Ainda n*uma lista de denunciados apparece isto: 

"O Grego que tem uma loja de bebidas ao Cães do 
Sodré. Desavergonhado-). E ao lado a nota : «Saiu do 
reino». Do Pedro Cândido, também muitíssimo sus- 
peito, davam os seguintes signaes : «de 53 annos, alto, 
magro, corado de cara, nariz torcido, olhos pequenos, 
feio de rosto; anda sempre depressa, veste sempre 
de preto e com chapéo redondo». 

O Canalhoti ou Canaglioli embarcou para Malta, mas 
em 1810 foi descoberto em Lisboa, e outra vez preso. 
Embarcaram n'o com sua familia a bordo da polaca 
grega A Activa. (Avisos, etc. Maços O.j 

Primo atuho non deficit allcr. Homem ido, hemem 
substituído. Quem suecedeu ao Canalhoti como pro- 
prietário do botequim foi o italiano Bernardim, também 
suspeito de jacobinismo. 

Felippe Bernardim, fora copeiro de Luiz XVÍ, e, 
emigrando para Portugal, pela morte d'aquelle sobe- 



1,8 LISBOA d'OUTHOS TKMPOS 



rano, serviu como copeiro do duque de Cadaval, como 
caixeiro do Grego no tempo dos francezes, e, depois, 
como seu administrador. 

Em 1810 foi preso, mellido no segredo da cadeia 
da Corte, e embarcado para a ilha Terceira. 

Os motivos d'eslas prisões foram o continuar, de- 
pois da Restauração, a fazer club da dita loja, ter met- 
tido a ridículo o facto de se queimarem as proclama- 
ções do marquez d"Aiorna no largo do Pelourinho, e 
dizer que no dia em que este aqui chegasse havia 
dalugar um cavallo para o ir esperar. 

Bernardini voltou a Lisboa, e em 1814 estava em 
liberdade. (Avisos, ele. Maços U, 12, 13 e 28). 

O café do Grego era um ponto onde mais se discutia 
politica, em que se sabiam as novidades, e onde se 
juntavam os estrangeiros, e os que professavam idéas 
avançadas. O negociante britaunico Walsh era um dos 
principaes políticos do Cães do Sodré em 1824. (Poli- 
cia Secreta, ctc.) IVeste botequim, pela noite, havia um 
ruido ensurdecedor. Negociantes de grosso trato, ar- 
gentarios, armadores, ahi se davam rendez-vous. 

Quando se festejou o juramento da Carta, em IS20, 
o Cães do Sodré foi um dos l.jcaes que appareceram 
melhor ornamentados. A festa, i^esle sitio, realisou-se 
á custa dos freguezes do café do Grego, ^< antigo foco 
do liberalismo commerciante». pelo Lamas, pelos Cos- 
tas, pelo Cunha Vianua, pelo Travessa, pelo Fernan- 
des. (Port. Contemporâneo. 0. Martins.) * 

Ha perto de dois annos - que morreu o mais antigo 
freguez do café do Grego, um freguez ideal, um fre- 



1 Em casa de José da Cunha Vianua, no Caés do Sodré u.° 13, 
i. , reuniam -se diariamente, de manha e de tarde, vario» IHberaes 
(em 1820). Vianna já estivera preso, por egual motivo, depois áa 
queda da Constituirão de 1820. (Correspondência Confidencial. 
L.° 2.° Corte.) 

2 Publicado em fevereiro de 1807. 



OS CAFÉS 39 



guez incomparável, que o írequenlou, ininlerrupta- 
mente, desde 181 í, isto é, durante oitenta e dois an- 
nos. Era o sr. Sampaio, proprietário do estaleiro da 
Outra Banda, que, aos seis annos, apenas, principiou 
a ir lá, em companhia de seu pae. E tanta amisade 
consagrava ao velho botequim, que, embora almoças- 
se em sua casa, nunca deixava de se metter no trem 
e de vir ao Grego tomar a habitual chávena de chá. 

Em 1815 existia na calçada d'Ajuda um café cha- 
mado O Grego. Na noite de 7 para 8 de setembro 
daquelle anno bateram-se em duello á espada, á por- 
ta cTesse botequim, um alferes e o capitão Malcher, 
ambos de voluntários Reaes, ficando morto este ulti- 
mo. (L.° 16 das Secr.) 

No Cães do Sodré houve muitos botequins, bilha- 
res e casas de pasto. Em 1800 estava no I.° e 2.° an- 
dares do n.° 3, a casa de pasto e bilhar do francez 
Jorge La Tour, jacobino façanhudo, denunciado por 
ter recebido como creado um francez que servira a 
cantarina Catalani, embora outra denuncia afíirmasse 
que o homem viera com o francez que casou com 
aquella cómica de S. Carlos. (Pag. Dk. Maço 1.) La 
Tour foi preso, mas conseguiu livrar-se por ter como 
hospede a Mr. Windham, ministro inglez na Rússia. 

Em 181G ainda o La Tour mantinha o café com dois 
bilhares. Em 1802 eslabeleceu-se no Cães do Sodré, 
ao pé da rua do Alecrim c por cima do arco da rua 
dos Romulares, a casa de pasto do Leão d' Ouro, per- 
tencente ao João Baptista Casanova, o qual também 
tinha umacasa da mesma ordem na Cova da Piedade, 
em Almada. Casanova retirou-se de Lisboa em 1808 
com o general Junot (Ibidem). 

No Leão d' Ouro haviam prendido, uma vez, ao 
grande jogador Domingos Yietti, mas o embaixador 
de França, que então era o general Lannes. interveiu, 
e o batoteiro foi solto. 



40 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Em 1801 estava no Cães do Sodré a loja de bebi- 
das do Pedro de Sousa (Gazela), em 1816 o Café da 
Marinha, e, muitos annos depois, o Café ào Commer- 
cio, que já acabou lia perto de trinta annos. 

Citaremos ainda, como contemporâneas, a casa de 
pasto Ingleza, nas casas de D. José Lobo, á Boa Vis- 
ta, e a Cruz de Malta, no quarteirão novo que torne- 
java da rua Augusta para a rua dos Capellistas, (Ga- 
zeta, 1805). Chamavam-lhe quarteirão novo, porque se 
tinha acabado de construir, conforme se vê na Gazeta 
de 1803, onde se armunciava? o terreno que fazia fren- 
te para aquellas duas ruas, e que foi á praça dividido 
em três lotes. 





VI 



A segurança publica no fim <io século passado — A gatuna- 
gein — Crcação da Guarda Real de Policia — Rondas ci- 
vis—Ruas e casas perigosas — Navalha e guitarra — O 
bandidismo nas províncias — Medidas governamentaes 



Antes de proseguirmos com esla conversação sobre 
os cafés, diremos alguma coisa a respeito do 
que era a segurança em Portugal nos fins do sé- 
culo passado e começos do actual. 

Nas ruas de Lisboa appareciam quadrilhas de vinte 
e trinta ladrões, armados de trabucos e pistolas. 

Arrombavam as portas das tercenas e dos negocian- 
tes de grosso trato, roubando fazendas de volume e 
pezo. Estas quadrilhas eram tão fortes que as rondas 
civis, ou rondas da chuchadeira, não se atreviam a 
atacai as. Muitos dos larápios, que salteavam as pes- 
soas que transitavam a pé ou de carruagem pelas 
ruas de Lisboa e estradas do Termo, andavam vesti- 
dos de casaca, e alguns cVelles traziam uniformes mi- 
litares. Por isso o Intendente ordenou que se apal- 
passem todos os que fossem encontrados de noite a 
pé, «ainda que fossem vestidos em corpo». 

Com o fim dobstar a estes latrocinios, o Pina Ma- 
nique requisitou treze patrulhas compostas de nove 



42 LISBOA d'0LTH0S TEMPOS 



soldados de cavallo e de quinze infantes, que se dis- 
tribuíram pelos treze bairros da capital. No entretanto 
succediam-se as arruaças a horas mortas, as depreda- 
ções, os ataques á mão armada, as luclas em que se 
arrancavam facas. E o Joanico, um raloneiro que dava 
sota e az ao mais pintado, continuava a fazer das 
suas. 
A elle allude Tolentino nas suas poesias: 



Quando tudu o ginja rico 
Para casa a proa inclina. 
Por temer facas de bico : 
E cuida fjue a cada esquina 
Lhe lança mão o Joanico. 



Todos estes motivos determinaram a ereação da 
Guarda Real de Policia em 1801. Tornou-se então 
desnecessária a acção dos lojistas, que, munidos de 
chuços ou piques, eram obrigados a intervir nas rixas 
que se dessem nos respectivos arruamentos, segundo 
preceituavam as leis de 25 de junho de 1760 e de 15 
de janeiro de 1780. 

Eram elles ainda, assim como os operários dos es- 
tabelecimentos fabris do Estado, os oíliciaes do Tabaco, 
etc, que constituíam essa tropa íandanga, a que o povo 
dava os sobriqnels picarescos de Chuços, Bicha, Pala- 
mães, e Chuchadeira, mas cuja designação official era 
a d' Ordenanças. O decreto de 23 de dezembro de 1808 
mobilisou dezeseis legiões d' Ordenanças para defeza 
de Lisboa. As companhias provinciaes obedeciam aos 
capitães mores, sob cuja farda verde muitas vezes se 
alapardava um tyrannête. As reiunas dos terços do 
conde de Novion substituíram as partazanas d'essa 
gêba milícia lisboeta, como aquellas haviam de ser, 
um dia, substituídas pelos chifarotes rebarbativos da 
Guarda Municipal. 

Os chuços continuaram em poder dos lojistas, tanto 
que o Intendente aconselhava, em 1808, a que lhos 



os CAll.S í3 



tilassem por asnm convir ao socego e paz interna da 

capita!. (L.° das Secr.) 

No tempo de D. Miguel as rondas praticavam mui- 
tas arbitrariedades. O Intendente dizia, em nota a um 
aviso do Corregedor do Bairro Alto, que não se devia 
permillir o uso de paus com choupas. Mas continua- 
ram não só a usar esses paus, mas punhaes, pistolas 
e espadas. Quando davam buscas, armavam-se, met- 
tiam nas algibeiras o que lhes convinha, espancavam, 
e ainda por cima davam partes de resistência para me- 
lhor encobrirem os crimes perpetrados. Apenas aquelle 
Corregedor determinou que as espadas, os chuços e 
os paus que serviam ás rondas do bairro tossem arre- 
cadados em sua casa. (Correspondências. Maço 19.) 

Com a ronda do bairro da Alouraria dava se um caso 
interessante. Quando passava por casa do ministro da 
Justiça, em ltf3á, subia algumas vezes a cuinprimeu- 
tal-o. Uma noite, o ministro recebeu tão bem os ron- 
distas, que, à sabida, proromperam em vivas a Et Rei 
Nosso Senhor, á Santa Religião, e outros, aos quaes 
o ministro correspondeu levantando vivas aos Honra- 
dos Porluguezes. í Cor respondeu cias, etc. Maço HO.) 

Annos depois da creação da Guarda Real de Policia, 
dos morcegos ou dos nocturno-;, .como lhes chamou o 
povo, ainda a segurança publica era um mylho. A 
Mouraria era logar perigoso. E o Intendente Lagarde, 
por causa duns tumultos que ahi se deram em maio 
de 1808, mandou prender doze dos seus habitantes 
que tivessem peor fama, que todas as mulheres publi- 
cas d^quella rua e visinhanças as evacuassem em qua- 
tro dias, sob pena de serem presas, rapadas, e des- 
terradas para fora do Termo de Lisboa, e que todas 
as tabernas, baiucas e Casas de Povo fossem fechadas 
no praso de 48 horas, não podendo tornar a abrir se- 
não seis mezes depois. (Gazeta). Tal quantidade de 



'i\ LISBOA 1> OUTÍtOS TEMPOS 



cães vadios enxameava pelas» ruas, que o mesmo La- 
garde prohihiu que elles andassem por Lisboa e seu 
Termo. 

Km 1810 ainda havia. ruas da nossa capital tão pe- 
rigosas como o East-End londrino, bairro onde fer- 
menta a podridão dos lupanares, das tabernas c das 
enxovias, moderno labvrinlho em que é arriscado pe- 
netrar sem a salvaguarda do detective. As ruas dos* 
Mastros e da Silva eram os bas-fonds da miséria, o va- 
lhacouto da biltraria estrenoitada, o latibulo da ultima 
ralé crapulosa, dá maruja marafoneira.' Acolhiam se 
nas muitas barracas que por ahi existiam, e em que 
abundavam os cafés borgnes, as tascas immundas, os 
íntimos bordeis. 

No meio d'aqnella balbúrdia, o Vicio arreganhava a 
dentadura minacissima. Esses coiós tinham numerosa 
frequência de soldados e marítimos estrangeiros, prin- 
cipalmente inglezes. 

O cio dos mareantes, represo nas viagens de lougo. 
curso, explodia com o puxavante do álcool. E quando 
as moafas os desaprumavam, obrigando-os a riscar 
curvetas, zig-zags, como em dançarás tabernaes, e a 
desentranhar-so em obscenidades, que amigariam os 
supercilios a um soldado com trinta annos de tarimba, 
travavam-se brigas serias, em que os mais barras fa- 
ziam reluzir as laminas metaUicas das navalhas afia- 
das. O som da viola nacional perdia-se por aquellas 
alfurjas de michelas, acompanhando alguma cantiga do 
tempo : 

Ai ! Ai ! já não ha quem queira, 
Ai I Ai ! já não ha quem queira, 
Ganhar um vintém, 
Levar a chiquita 
A'< bandas d 'além. 

Lma noite, a policia, picada d'escrupulos, deitou a 
rede varredoura, levando 33 raseoas que andavam á 
matroca, alcovêlas, e muitos marinheiros inglezes. e 



OS CAI IS 



fez fechar todos os botequins e todas as baiúcas. (L. ' 
/ / /â rffs Sec.) 

Também as batidas de S, Paulo Dão eram, como 
ainda durante muitos ânuos não foram, das mais segu- 
ras. Querendo os devotos do Senhor Jesus da Assum- 
pção solemnisar a restauração do reino com festa e 
procissão na egreja de S. Paulo, foi-lhes permiltida a 
primeira e negada a segunda, porque a egreja estava 
precisamente n'um sitio «em que sempre ha um grande 
concurso de gentes de diversas nações, e de homens 
dados ao vinho», dizia o oJlicio- 

Não eram estes os únicos iocaes onde se juntava 
gente de tal laia. 

• No botequim da rua do Príncipe u.° 7, e no bote- 
quim do José Chalaça, em n.° G, por baixo do Jardim 
do Regedor, reuniam-se jacobinos e ladrões. No largo 
do Terreirinho, ao cimo da rua dos Cavalleiros, havia 
um café em que se juntavam larápios, entre elies um 
soldado coxo que tocava zabumba na Legião Luzitana. 

A casa de pasto de João Nepole Uim italiano que 
veio no exercito de Junot), estabelecida no largo da 
Feira das Bestas, defronte do Passeio Publico, na casa 
de Pedro José Baptista, também tinha grande frequên- 
cia de valdevinos. O italiano esteve preso per ladrão 
no caslello de S. Jorge. (Pap. Diu. Maço 1.) Um bote- 
quim perto da Sé era receptáculo de mulheres perdi- 
das, rufiões e arruadores, contra o que allegaram os 
ecclesiasticos da bazilica de Santa Maria Maior, obri- 
gando o Juiz do Crime do Limoeiro a fechar esse per- 
feito prostíbulo. 

Nas províncias ainda a segurança era menor. No 
Alemtejo, em princípios do século, as hordas de ciga- 
nos, a que se juntavam soldados dos regimentos pro- 
viuciaes e desertores hespanhoes, escalavam as casas, 
e assaltavam as herdades e os montes dos lavradores. 



itt LISBOA DOUTHOS TEMPOS 



Faziam-se acompanhar de cavalgaduras para íevar o 
prodncto da pilhagem, depois exportado por almocre- 
ves para Hespanha. Em Guimarães apparecia um bando 
de mallezes chamado A Nova Sttáa, que percorria o 
reino, roubando e provocando barulhos nas feiras. Ha- 
via um chefe de salteadores d'eslrada, que, como o 
Francisco Carrilho, morto nas Alcáçovas em J 791 (Ga- 
zeta), como o Chuço l da Beira em 1821, e, mais 
tarde, o Galamba, o Batalha de Portel, o Jo^o Bran- 
dão, de iMidões, e o José do Telhado, fez epocha, so- 
bretudo na província da Kxlremadura. Era o famoso 
Ruivo da Espera, um bandoleiro hespanhol, que, en- 
tre muitos roubos, praticou um de setenta e seis con- 
tos de réis aos conductores da mezada do tabaco, 
quando seguiam pela estrada do Cartaxo a Alcoentre. 
O perdigueiro judicial viu-se em pancas para filar o la- 
dravaz, até que o alcançou, em Í8O0, no sitio da Trin- 
dade, em Lisboa. (t.° 8 das Secf.) 

O Corregedor de Coimbra queixava-se d'uma qua- 
drilha que infestava aquella comarca e que se compu- 
nha, na maior parte, de ciganos e desertores de tropa 
de linha. Aconselhava a que se lhe fizesse um cerco. 

O governador d'Abrantes queixava-se egualmente 
dos ataques que outra quadrilha fazia nas estradas 
dAbrantes a Niza, Portalegre e Elvas, queixa que 
obrigou o marech. d Beresford a mandar o coronel 
Campbell com cavallaria i para auxiliar o Corregedor 
de Setúbal, encarregado da captura dos criminosos. 
(Avisos, etc. Maço 22). 



1 Este salteador assignava as su;is cartas eom o uome de An- 
tónio Chuço de Trancoso. (Correspondências, etc. Maço 87.) Uma 
circular da Regência aos Corregedores recommendava, particu- 
larmente, a prisão do famoso Chnco. {Avisos, etc: Maço 39.) 

Em 1823 appareceram em Coimbra dois celebres chefes de 
quadrilha: o lioeca Afeara e o Assóreiras. (Corr. Confidencial. 
l.° I." L. 22;i 299.) 



OS CAFÉS 47 



Até exportávamos salteadores para Londres. Três 
portuguezes, João da Silva, José António e Bernardo 
José, tantos roubos praticaram ifaquella capital e tanto 
terror inspiravam que foram detidos na nova prisão de 
ClerkeDwell, e, depois, mandados para Lisboa na fra- 
gata Melpoimne. (Avisos, etc. Maço 18.) 

A audácia dos rapinantes tocou a meta, e d'alii o de- 
creto da Hegencia de 2(i de dezembro de 1812, man- 
dando que esses réus fossem autoados em simples pro- 
cessos verbaes e remedidos ao desembargador Costa 
Pinto, que os levaria á Relação para sentenciar snm- 
maria e verbalmente. Mais tarde, em 18 IC, foi neces- 
sário restabelecer a observância dos mesmos tramites 
de processo em eguaes casos, porque as quadrilhas 
haviam deixado resquícios no Alemtejo e no Algarve, 
onde pintavam a manta e faziam o diabo. 

Um dos salteadores que conseguiram matar foi o 
temido Joannico, cuja prisão fora posta a premio. 
(Avisos, ele. Maço 37.) 

O Senado portuense chegou a dirigir uma represen- 
tação ao Regente, ponderando-lhe o lastimável estado 
em que o Porto se encontrava no tocante á sua poli- 
cia. Os roubos escandalosos, as malfeitorias de toda a 
ordem praiicavam-se de noite e de dia. (Avisos, etc. 
Maço 2i>.) 



I I I I I II I I I I I - 



^eco^x^^^Ê mmt) =^^^^oe^^^ 



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■ 

zi 1 1 1 1 1 i iTf n 



vii 



O cale do Nicola. — italiano Nicola. — Bocage. — Vem a haila 
o José Agostinho de Macedo. — Seu temperamento. — Audá- 
cia da fradaria. — Pina Manique corta-lhe os voos. — Um 
trovador tonsui 



Cabe agora dizer alguma coisa acerca dos botequins 
da epocha que vimos de nos occupar. botequim 
mais falario era o do Nicola. Sabemos que já exis- 
tia em Í7S7. l Occupr.va a loja do Rocio, números 81 e 
82 antigos* 24 e 25 modernos, onde esteve o Silva li- 
vreiro e boje é a casa de modas do sr. Francisco de Sal- 
les Ramos, e a loja números 79 e 80 antigos, 22 e 23 
modernos, onde se encontra o deposito de vidros da 
Marinha Grande, mas que então era occupada pelo bi- 
lhar do café. 

As duas lojas communicavam por um corredor ao 
fundo. 

Contou-nos o fallecido livreiro Silva, que, durante 
muitos aunos, conservara a antiga pintura do tecto do 
botequim, a qual era em grinaldas, tendo ao centro 



1 N'um annuncio da Gazela de 19 de Julho de 1794 se diz que 
liquidava a loja grande de bebidas, estabelecida na rua dos Ou- 
rives do Ouro, pegado ás casas de >". Senhora da Victoria, e a 
uma casa de bilhar. 



LLSLSOA D OLTItUS lEMWá 



uma figura a óleo. Ao Nicola suecedeu, em Í83V, o 
sombreireiro Dias, o qual trespassou a loja a um irmão 
do Silva em 1837. Este botequim foi estabelecido peio 
italiano Nicola. ' 

Ribeiro Guimarães escreve no StimmariQ de Varia 
Historia, que, antes de 1755, houve um italiano Ni- 
cola, que foi o primeiro fabricante de vellas de cebo 
que Lisboa teve. O logar do cebo era junto ao pateo 
das Comedias, que demorava, pouco mais ou menos, 
entre as ruas Augusta, e da Prata. 

ignora, porém, se o Nicola botequineiro era des- 
cendente do Nicola fabricador. 

A rua do Logar do Cebo era (do sentido Norte Sul) 
do Rocio até á Picheleria. No logar do Cebo havia um 
becco no sentido Leste Oeste, o qual ligava com o 
becco do Nicola, que tinha de comprimento, desde a 
rua das Arcas até ao sitio onde voltava, sessenta- pal- 
mos, e de largura de oito a dez e meio palmos; vol- 
tando para o Norte tinha duzentos e seteuta palmos de 
comprimento alé ao largo do Magalhães. (Tombo da 
Cidade. L.° X. Rocio.) Seria o Nicola fabricante quem 
deu o nome ao becco ? Seria o Nicola do botequim 
descendente d'aquelle ? São perguntas, a que não po- 
demos responder. 

O botequim do Nicola e o botequim das Parras, de 
que adeante falamos, foram dois botequins políticos e 
lilterarios, davam uma pequena i<iéa do Procope e do 
Foy parisienses. O café do Nicola immorlalisou se por- 
que ahi iam muito o Bocage e os poetas proeminentes 
da epocha. N'essa academia improvisou o numeroso 
Elmano (como dizia Filinlo) os mais arrebatados dos 
seus sonetos, muitos dos seus carmes viris, trovejou 



1 Encontrámos noticia de dois Nieolas existentes em IKiih : 
Joaquim Nicola^ carreio, e um Nicola Marengo que não queria pa- 
gar a um orçado sou. (Ir. ' 1 e 2 >le lançar os despachos dos reque- 
rimentos.) 



os cai ts 01 

as suas cóleras, motejou com a sua veia inexhaurive), 
ria com a sua alegria dythirambica. 

O grande poeta regressara a Lisboa em agosto de 
1700, onde vivia intimamente com José Agostinho de 
Macedo, ex- frade agostiniano, que gosava de péssima 
fama, não só por haver soffrido prisão no convento da 
<iraça, cujo prelado informou que el!e usava de faca, 
e que era «d*uma irregular comJucta, relaxado, tur- 
bulento e perverso,» não só por vagar pelas ruas de 
Lisboa «na mais triste e deplorável figura,» mas por 
haver roubado a livraria dos Paulistas onde eslava re- 
cluso por ordem do Núncio, e d'ahi haver fugido, an- 
dando pela capital em trage >h- secular, sem sig 
algum religioso. 

O temperamento bellicoso, a índole amaviosa de Jo»é 

Agostinho não se compadeciam com o pacato sedenta- 
rismo clanstral, com o canónico neutrismo d'escorropi- 
cha-galhelas. Era um indisciplinado, um incorregiveí. 
Sentindo o coração a solevantar a estamenha do habi- 
to, sorriu, talvez, como os salyros sorriem escarni- 
nhos ás nymphas impúberes nas velhas estampa- ; 
deitou o breviário ás hervas, e mandou á tabúa o pre- 
lado mais a fradaria bronca para se lançar, com a co- 
ragem das resoluções desesperadas, no mundanismo do 
secuío, para vir nadar, a largos braços, no azul bui - 
toso da vida airada, para poder reclinar a cabeça de 
chamorro sobre a curva audaciosa dos seios palpitan- 
tes, eléctricos, do L-meaço venal, é mordicar com bei- 
jos soffregos as boccas de cravo das collarejas da 
praça. Homo sum... diria elle com Terêncio. Assim, 
preferiu incorrer nos aziumes dos pontífices da morai 
irritada, a gastar a vida, de giôlhos, esperando o ba- 
ter d^azas das visões angélicas sob os baldaquinos ài 
egreja conventual. 

Isto não foi um caso esporádico. Não foi este o unlco 
frade fraseado, que, atirando as camandulas ás orli- 



LISBOA DOUTROS TEMPOS 



gas e o habito por cima dos moinhos, se entregou ás 
usanças gentílicas e mundanas, ou se expoz á some- 
nos la:ha cTinconveniente. E toi por isso que o Pina 
Manique, no empenho de cortar cerce alguns abusos, 
fez publicar a circular de 16 de dezembro de 1798, 
na qual se referia aos frades que frequentavam thea- 
tros, oapresentando-se com a maior desenvoltura nas 
plateias, á face dos camarotes, e a passear nas salas 
d'entrada, observando indignamente as pessoas de dif- 
ferentes sexos que para alli concorrem, ou que á sa- 
bida esperam que cheguem as suas carruagens». 

Accrescenlava que frequentavam casas de pasto, 
bilhares, lojas de bebidas, e o Passeio Publico, oníie 
contendiam com as mulheres. Finalmente, que provi- 
denciara para que não se repelissem estes abusos. 

Participou lambem numa conta ao Regente quaes 
as medidas que tomara contra os desmandos dos reli- 
giosos seculares e regulares. (Avisos e Cartas do Rei- 
no. Classe 3. a L.° viu.) 

Bocage e José Agostinho entraram para a Nova Ar- 
cádia, estabelecida inima sala do palácio do conde de 
Pombeiro, depois manniez de Bellas, protector perpe- 
tuo d'esta academia. Quem occupava a cadeira presi- 
dencial era um apaniguado d'aquelle fidalgo, o padre. 
Domingos Caldas Barbosa, brazileiro torrado de côr, 
tirante a mulato, feiíssimo, e propenso a grimaças, 
gatimanhos simiescos e meneios exquisitos, que provo- 
cavam a hilaridade. Tinha por costume zangurear na 
viola, quando improvisava, afinando as trovas por uma 
cantilena particular. (Memorias da Academia Real das 
Sciencias. Turno xxvu). 

O cantarino de sobrepelliz — que trocava o ripanço 
pela guitarra — não era insensível ás seducçôes eter- 
nas da saia ; improvisava louvores ás graças de ca- 
dentes d'algumas senhoraças, que lhe retribuíam «com 
pausas nas pitadas e lagrimas nos lenços», asseverava 
Bocage. Namoricos sem consequências, mas que, não 
obstante, deixariam no coração do cafricornio um per- 



U> CAI I - 



fume de paraizo perdido... O fusco aúclor da Viola 
de Lireno fazia pendant a um outro brazileiro aulheu- 
lico, o celebre mulato Joaquim Manoel, «grande toca- 
dor de viola e improvisador de modinhas», ou, como 
lhe chamou Bocage, Orphéo de carapinha. Ambos 
campavam nas salas da epocha <por darem ao lundum 
um accenlo libidinoso como ninguém», diz Oliveira 
Martins, e — com sua voz crapuliforme — tornarem 
as modinhas brazilicas tão excitantes como orna pasti- 
lha de canlharidas. 

Essas melopêas licenciosas, dengueiras, faziam com 
que muitos olhos ardessem n'uma doce febre de se- 
cretas Tolupluosidades, faziam entreabrir muitos lábios 
como que palpitando ao voo perdido d'invisiveis bei- 
jos, sentir nos corações como que a angustia suffo- 
cante d'uma syncope. .. 

Caldas Barbosa, beneficiado e bacharel, conforme 
dizem os annuncios do tempo, reuniu em folhetos in 
octavo as suas Cantigas e os seus Improvisos, impres- 
sos por António Nunes dos Santos, livreiro impressor 
estabelecido no Rocio, o qual também vendia o Alma- 
nack das Musas, livreco em que fora recolhido o co- 
ryza poético disiillado por aquella commandita liltera- 
ria da Nova Arcádia. 

Mas Bocage, cançado de tanta versejadura e de tanta 
asnidade dos neo-arcadcs^ rompeu com a esnoga litte- 
rateira em L93, e, sem dar tento ao coaxar das rãs 
parnasianas, passou a frequentar o café do Nicola. 



gj^jxrtJXJTJTJxajxrLn-n-n-JT-r.C^ oh-n-n-n-JT-n-axij 

cruru-u-uroo 



VIII 



Contenda de bardos — A Estanqueira do Loreto e o seu 
-Mude nariz cbymeríco — Fala- se novamente de Bocage 
— Nicolau Toleniino — Medidas prohibitivas do Intendente 
Geral de Policia — Carne em dia de jejum — Os officiaes 
do exercito francez freqi entam o Nicola — Aspecto d'este 
botequim — A' porta do Nicola — O Nicola do Campo 
Grande — .Mais outro Nicola. 



Thayou-se então um dnello poético entre Bocage e 
o pandorga tonsurado. Aquelle retezou o seu arco 
certeiro, e despediu esta setla : 

Presiile o netto da rainha tiinga 
A' corja vil. aduladorá ; insana. 
Traz sujo moco amostras de chanfana, 
Ern eopos desegnaes — esgota a pinga. 

. pão, manteiga, e chá. Uni" a catinga; 
t íarinha a turba americana : 
ourango-ontang ■ lianza aliaria. 

1 iui gestos e visag i' 1 mandinga. 

Um b indo <]>• compars is 

••> fkmde ."i novo Taiavt-ira-. 
improvisa berrando o rouco bode; 

AppUudem de continuo as frioleiras 

BHrniro em dvlhiramlio, o ex-frade • i le 

Eis aqoi ' '. • • is tiartns-feiras-. 



5G LISBOA DÓUTUOS TEMPOS 

' Vieram as represálias. A uma salyra que José Agos- 
tinho de Macedo — que ficara com os árcades — ulu- 
lou de denlro da sua loba gordurosa, ripostou Bocage 
com a sua eloquentíssima Pona de Talião. Conta-se 
que Elmano, ao ter conhecimento da satyra de José 
Agostinho, entrara furioso no botequim do Nicola, com 
o papel amarrotado na mão O morgado d'Assentiz, 
único dos seus amigos que ahi se encontrava, viu en- 
trar o poeta com a cabeça perdida, e passear agita- 
damente dum lado para outro. Afinal parou deanle.do 
morgado, e exclamou : 

— Tolo! Tolo! mm elle ! 

Esta phrase enconlra-se reproduzida na resposta de 
Bocage. Em seguida passou a dictar a Pena de Talião 
ao morgado dAssentiz,, que a escreveu em três horas, 
emquanlo o poeta emborcava cálices de genebra, e fu- 
mava dúzias de cigarros. (Mem. da Acad.) 

Esta contenda, de que o Caldas Barbosa sahiu mal 
ferido, deu ansa a que elle cahisse no ridículo. A sua 
physionomia esquipatica tornou-o tão celebre como á 
Estanqueira do Loreto, a Helena do estanco, aquelia 
de quem a musa bocagiaua dizia : 

A estanqueira tem- marido, 
Que quando deilar-se intenta, 
Como não cabe na cama 
Dorme dentro d 'uma venta. 

Desmastreado d'auctoridade, passou das recamaras 
do conde de Pombeiro para os debiques da troça po- 
pular. A lógica nunca perde os seus direitos. 

E' geralmente sabido que Bocage, regressando cerla 
noite do café do Nicola a sua casa, foi detido por uma 
patrulha da policia, que, aponlando-lhe as pistolas 
aperradas, lhe perguntou quem era, d'onde vinha, e 
para onde ia. Outro, que não elle, sentiria passar á 
llôr da pelle um frémito gelado, sentiria o terror de 



Cb cai ' S 57 



ser preso como suspeito, o que, n'esse tempo, não era 
brincadeira. Bocage, porém, respondeu imperturbável : 

Eu soa o Bocage, 
Venho do Nicola. 
Vou pr'o outro mundo, 
Sr dispara a pistola. 

I ih caso algo parecido succedeu com Nicolau To- 
lentino no tempo dos francezes. Uma noite, Tolentino 
recoihia a sua casa na rua dos Cardaes de Jesus (casa 
substituída pelo prédio do sr. Eduardo Coelho). l 

O poeta, já bastante doente e inchado, andava de- 
vagar. Ao passar perto duma sentinella franceza, esta. 
mal divisou um vulto, deu a voz regulamentar: Qui 
vive :' 

Tolentino, que ia mal humorado, em vez de lhe res- 
ponder com o sabido Napokon, mandou-o, simples- 
mente, para a mãe que o parira. 

A sentinella, satisfeita com a resposta, exclamou 
contente: — Cí Paris! Paris! E deixou-o seguir em 
paz. 

Refere o abalisado escriptor A. F. de Castilho, na 
sua Livraria Clássica Porlugueza, que se deu o se- 
guinte caso entre Tolentino e Bocage, n'uma occasião 
em que este ultimo estava encostado ao humbral de 
uma porta de loja no Rocio. 



1 A casa onde Tolentino habitou o morreu era na R. dos Gar- 
daes ile Jesus 2o moderno, 3o antigo, o foi demolida em 1886. 
Para alli mudara elle a sua residência, quando a secretaria do 
Reino (onde exerceu o togar d"offieial) se transferiu da calçada 
d'Ajuda para o Rocio, á entrada dos francezes. Nos últimos tem- 
pos, Tolentino, melancholieo, hypocondriaco, apesar de dotado de 
favores dos seus, passeava no quintal da casa, almoçava o seu 
chocolate e torradas, e ia de sege de boleia para a repartição. 
(Diário fh Noticias, ti de Julho de 1886.) 

Tolentino foi nomeado offieial da Secretaria do Reino em 2o 
d Outubro de 1783, e em altenção ao bem que n'ella tinha ser- 
vido como offieial praticante. [L° XVIII (V Avisou, pgs. 218 v.) 



S8 LISBOA D OUTROS TEMPOS 



Citamos o facto por suppormos ter se dado á porta 
do Nicola, quando não se tivesse dado á porta do bo- 
tequim das Parras, lcjas muito frequentadas por El- 
mano. Tolentino abordou Bocage, que estava pensa- 
tivo, e disse-lhe ao ouvido: 

Elmano a lyra divina 
Porque razão éuimudece ? 

Ao que Bocage respondeu : 

Porque mais cala no mundo 
Quem mais o mundo conhece. 

Tornou Tolentino : 

Que tens achado no mundo 
Que mais assombro te faça ? 

Replica o Bocage : 

Um poeta com ventura, 
Um toleirão com desgraça. 

Em poucos minutos, os improvisadores cercaram-se 
d'ouvintes. E, picados pela emulação, continuaram 
longo tempo, sem fraquejar, n'esse duello poético- 

Nos fins do século XVIií representou se no theatro 
do Salitre uma farça intitulada Casa de café e bilhar. 
Era ornada com musica de Marcos Portugal. N'ella 
eram satyrisados, entre outros indivíduos, o José Pe- 
dro das Luminárias, então empregado no Nicola, o pa- 
dre Lagosta (José Agostinho de Macedo), e o Pax-Vo- 
bis, um pobre diabo que, trajando casaca encarnada, 
vagueiava pelas ruas seguido da gaiatagem. N'esta 
farça visava-se o botequim do Nicola. 

A primeira vez que encontrámos referencia a este 
botequim, nos documentos oííiciaes, é n'um aviso do 
Manique datado de 5 de julho de 1800, no qual se diz 
que >e reuniam pessoas suspeitas na casa de rafe do 



os cafks -jd 



Nicola, no Kocio, onde conversavam em assumptos 
menos próprios ''especialmente na presente conjun- 
etura.» 

O Jotendente ordeuava ao ministro do bairro para 
que essas pessoas se demorassem apenas o tfmpo 
preciso para tomarem os seus refrescos. (L.° 6 das 
Secr.) 

Caíés, bilhares e casas de pasto eram estabeleci- 
mentos que o Fina Manique trazia dolho. Tornavam-se 
suspeitas as conversações sobre politica, ou sobre re- 
ligião, eram su>peilas as cantigas estrangeiras, que, 
para logo, tresandavam a liberalismo, a francezia. 
Não havia até permissão de comer carne ás mezas re- 
dondas das casas de pasto nas sexlas-feiras. 

Assim, por esse motivo foram presos sete sujeitos 
porluguezes e um tal Side, que estavam comendo 
carne na casa de pasto d'Antonio Joaquim, á Trindade, 
«dando escândalo aos estrangeiros, que viam nestes 
porluguezes a transgressão da loi qne tinham a for- 
tuna de professar.» (L.° 8 das Secr.) 

Em 18-0 mantinha se a mesma disposição, tanto 
que os donos das casas de pasto e estalagens dos Ho- 
mulares assignaram um Termo para não venderem 
carne em dias d'abstinencia. E no tempo de D. Miguel 
ainda vamos encontrar em vigor esse preceito policial. 

N'um dia de jejum" (em 183.;) o Miguel Alcaide deu 
busca ás tabernas das proximidades do Limoeiro, re- 
vistou cassarolas e panellas, e havendo encontrado uma 
isca de carneiro que estavam a assar para um preso 
doente, prendeu o taberneiro, um gallego chamado 
Rodrigues, e aferrolhouo nos cárceres da visinhança. 
{Correspondências, etc. Maços 133 e 13o.) 

Conta o sr. Fonseca Benevides no seu bom romance 
histórico No tempo dos francezes, que, durante a oc- 
cupaç^o de 1807-1808, tanto o café do Nicola como o 
das Parras, mas principalmente o primeiro, foram 



110 LlsUOÁ bulilUuS tkjhpos 



muilo concorridos por otliciaes do exercito invasor 
Beberricavam á grande, ora bebidas de guerra, on 
refrescos, e, embora a niiude julgassem que indo eri 
roupa de francezes, os dois cafés realisaram soffriveii 
lucros durante o tempo que Lisbsa gemeu sob a botj 
férrea do louro duque dWbrantes. Aqnelles dois bote 
quins — duas Castalias onde os poetas iam beber í 
inspiração. . . e os licores — estavam extremamente 
movimentados d 'uni formes scintillantes como um moir 
tão de preciosíssimas crystallisações d'areslas fulgidas 
expostas n'um escaparále de joalheiro rico, íl;imm& 
jantes, cemo uma flexa de sol no zenith incidindo n'uní 
zimbório de crystal. Misluravam-so briihantismos irrii 
tantes, ophthalmicos, de oiro, de prata, de aço, de coj 
bre polido. As bainhas das calanas riscavam brusca- 
mente o chão, como formões mal afiados riscam uma 
tábua de teca ; os bordados reluziam como phautastí- 
eas fiorescencias de mercúrio ao luar; tilintavam bol- 
driés e acicates de metal branco. E a arraia miúda 
quedava se embasbacada deante das casacas agaloadas; 
dos spencrrs bem justos, das pelliças forradas de vey 
ludo amaranto, das dragonas com tons fulvos de ve^ 
lha ourivesaria, das pastas de hussard, dos botões or- 
nados com a águia imperial reluzindo no entrelaça- 
mento dos alamares, das pantalonas de cores cantan- 
tes, dos shackos, dos kolbacks, das correias brancas 
en sautoir, das durindanas recurvas da cfficialidade 
que haveria brilhado, á luz radiante dos lustres, nas 
festas — entre duas victorias — dadas nas Tulherias e 
em Malmaison, que haveria valsado com e^sas belle- 
zas do primeiro Império, que tão admiravelmente sa- 
biam envolver a geométrica elegância espiral nos ves- 
tidos direitos, lisos, sem complicações, sem colchetes 
e fitas inúteis. Eram os officiaes da legião napoleonica, 
que, em breve trecho, se iria estrelíarante asboccasdas 
espingardas dos piou-pi<>u* luzos e dos fuzileiros ver- 
melhos de Sir Arthur Wellesley nos campos da Roliça 
e do Vimeiro. 



OS CA 61 



Os franchinotes, escanchados nos raòchos, fa lavam 
jelcb colovellos, entresachando a conversação com ju- 

rons gaulezes, peneiravam as lerias pela joeira da zom- 
baria voltaireana, ou traquinavam nas mezas com chá- 
venas e com cálices, cujo conteúdo fazia ascender os 
menos reportados ás irisadas regiões de Falstaff, para 
tiepois cahirem. de roldão, nos braços do ammoniaco, 
e do café simples. . . Jlic virtus bellka gaudeu 

Refere ainda o sr. Benevides, que, no dia "2'.i de julho 
de 1808, Junot mandou, sem razão conhecida, occu- 
par militarmente as priacipaes ruas e praças. A' vista. 
d'este apparato marcial das escopetas forasteiras, mui- 
tos estabelecimentos fecharam as portas. O Nicola pre- 
parava-se para fazer o mesmo, quando o cavallo em 
que montava o major do 4.° esquadrão do regimento 
26 de caçadores a cavalllo, que ia a catrapós, rente 
aos portaes do café, se encabrilou e, em seguida, se 
chapou, atirando o cavalleiro d'enconlro á cantaria das 
hombreiras. O oííicial quebrou a cabeça e perdeu os 
sentidos. Transportado para a loja do Nicola, foi soc- 
corrido pelo medico do seu regimento, que lhe collo- 
cou pontos na testa e o fez conduzir ao quartel. Pou- 
cos mezes antes, égua! caso havia succedido ao gene- 
ral Kellermann, no mesmo logar, recebendo também 
soccorros na loja do Nicola. 

Em 1809 reuniam-se no Nicola muitos partidários 
ias idéas francezas, como por exemplo: o Labeche, 
secretario do Mordomo-Mór, e o Gaio, escripturario da 
secretaria (Pap. Div. Maço 1). Em 1811 iam lá, bem 
como ao José Pedro e ao Gaes do Sodré, muitos hes- 
panhoes suspeitos, no numero dos quaes um frade 
jjraciano. (Ibidem). 

Em 482 \ também era muito frequentado por gente 
suspeita. Era certo encontrar ahi, todas as tardes, um 
celebre Pinet, antigo assalariado da policia, que, se- 
gundo affirmavam, maçonisava até pelas escadas, con- 



V)2 L.SíiOA DULiT.CS IKSJVOs 



ferindo graus a Iroco de dois mil e quatrocentos reis, 
e denunciando depois os adeptos. 

Iam lambem o padre Alexandre, muito falador, e 
Fr. Joaquim, frade da Trindade e jogador de gamão, 
ambos suspeitos de partidistas da Abrilada. (Pdicia 
Secrela, etc.) 

Em 1825 já este café não pertencia ao Nicola, por- 
que, por uma intimação policial, se vè que era de Hosa 
Maria d'Athayde. (Cornspofideucias, etc. Maço 127). 

O Nicola linha muito boa neve, cuja venda princi- 
piava, d'ordinario, em fins de Maio. A Gazpla d«3 29 
dOutnbro de 4829 annunciava o trespasse ou o ar- 
rendamento d'esta Joja de bebidas, com seu bilhar e 
jogos de gamão, e que quem a desejasse fosse á rua 
do Loreto, 72, onde se tratava. Nos annuncios da Ga- 
zeta encontra-se. muitas vezes, a designação de — 
quarteirão do Nicola, como indicação para procurar 
qualquer loja situada naqueile lado do Rocio. 

Em 1827 existia uma vivenda campestre na rua do 
Campo Grande n.° 136 chamada a cata do Nicola. Ahi 
se vendiam raizes de rainunculos vindas de Itália e de 
Hollanda. 

Ora, segundo desconfiamos, esta casa era do Nicola 
botequineiro. Em 1829 annunciava na Gazeta pela ul- 
tima vez. Dizia, então, que a casa pertencia a Nicolau 
iíreteiro, sendo este, portanto, na nossa hypothese, o 
nome do Nicola do Rocio. 

Cotio já dissemos, este botequim famoso acabou em 
183'». A viuva do Nicola morreu pobremente. Contou- 
nos o sr. dr. Augusto César Alves d/Azevedo — um 
erudito temperado por um espirito jovialissimo — que 
visitando urna vez uma enfermaria do hospital de S. 
José, acompanhado do dr. António José dos Santos, 
vulgo o dr. Santos Cabelleira, este lhe dissera, apou- 



OS CAFÉS • <'J3 



ando para uma das camas occupadas : — Àlli está a 
miva do Nicola. Chegou a ter dezoito creados. . . 

Em 1809 existia na praça do Rocio um botequim 
mamado o Nicola pequeno. Era em numero 28, no 
juarteirão dos frades de S. Domingos. Pertencia ao 
jenovez Nicolau Ventura, que foi preso, assim como 
)s seus dois caixeiros também genovezes, por terem 
chuços escondidos, e uma nota dos movimentos das 
ropas inglezas e portuguezas. (L.° 10 das Secr.) 

Cm dos caixeiros, o Tbomaz, «era um raio contra o 
fetado», aflirmava um confidente da policia. (Pap. Div. 
•laço 1.) Este botequim fechou em 1823. (Gazeta). 



<&%&& 



IX 



Junot, o conquistador. — Cnsas que foram destinadas para 
seu :1o amento. — Algumas' linhas a respeito dVsle ho- 
mem du prosa. — Os seus mnnuseripfos. — Intenção dos 
.-eus herdeiros. — Depredações dos franeezes em 1808. 
— Ceolíroy Saint-Dilaire. 



Emquanto os ofíkiaes do exercUo invasor fulgavam 
no Nicda e no botequim das Parras, o seu ge- 
neral em chefe passav a de gra mie e d / rance za 
no palácio do Quintella. fliitava com a loira condena 
da h'ga, para cuja bocea — ílòr purpurina desfolhada 
por um sorriso de baechante — voavam os seus beijos 
como borboletas sequiosas, para cujo corpo, delicada- 
mente cinzelado no nácar da sua carne deslumbrante, 
baliam azas. todos os desejos do Irinmphador. 

A Ega offcreeeu lhe sumptuosos bailes na esplendi- 
da sala dos inarecaes, no seu palácio ââ Juuqueira — 
hoje propriedade do conde da Folgosa — onde o gene- 
ral viu sonirem-lhe em volta das dragonas douradas 
pelo sol dWusterlitz as mais aristocráticas lisboetas l 

Junot tornou-se a coqueluche dos nossos salões, em 
que servia d'a!vo âos oihares sobrescriptados pela pon- 



1 Artigo de Pinheiro Chagas no Correio da Manhã de 18 de ju- 
nho de 1888, 



66 LISBOA d 'outros tempos 



taria das mais fidalgas lunetas feminis, e converteu-se 
no terror do paho de S. Carlos, onde a sua petulância 
militar punha uma nota marcial, e onde pretendia to- 
mar d'assallo as mais formosas interpretes da vo- 
luptuosa e ligeira arte da dança. * 

Vem a pello di?er que a habitação que primeira- 
mente lhe destinaram não era o paíacio do Quintella, 
porque o ministério do Reino, por aviso de 27 de no- 
vembro de i807, mandou apromptar o pilado da 
Bemposta com a precisa decência para hospedagem do 
general Junot, fazendo se egualmenle apromptar todo 
o trem para a copa e covinha. Mas quem o occupou 
depois foi o general da 1.* divisão Delaborde. Tam- 
bém, por aviso do Ministério da Guerra, foram man- 
dadas pôr á disposição do general francez a casa do 
conselheiro d'Estado, e antigo ministro na Rússia, An- 
tónio de Araújo d'Azevedo, e a casa de João Pereira 
Caldas, com sete camas boas e doze para creados, e, 
outro sim, um quarto da casa das Chagas para Mr. 
llermanu (L ° 17 das Secr.) t que exerceu o cargo de 
ministro das finanças de Junot. 

Junot sahiu de Portugil depois da convenção de Cin- 
tra. E' sabido que esta convenção não agradou em Por- 
tugal, nem em Inglaterra, nem em França. Por isso o 
duque dWbranles só leve, de futuro, um papel secun- 
dário nas campanhas napoleónicas. O jornal parisiense 
Le Ganlois de 9 d'outubro de 18D7 dá curiosas iufor- 
mações a respeito d'este cabo de guerra. Foi n'esse 
dia que a sociedade Suuvemr Frànçais fez exhumar 
as cinzas de Junot e as de seu pae Michel Junot, que 
estavam no cemitério de Monlbard (Cote d'Or), e 
transportal-as para as catacumbas do tumulo que, por 
iniciativa d'essa aggremiação e custeado por subscri- 
pção publica, se vae erigir. O coração de Junot, que 
eslava na egreja da Magdalena, em Paris, como se 
prova pelo recibo do cura Serphanion, não foi encon- 



1 No Tempo dos Franeezes. F. da Fonseca Benevides. 



OS CAFÉS 6/ 

trado. A dnqueza d'Abrantes repousa no cemitério 
Montmarlre, ern Paris. 

Ainda se não disse tndo a respeito d'esta interes- 
sante figura militar e de sua mulher, a quem Victor 
Hugo dedicou uma famosa ode. O conde de Muiiy, ca- 
sado com uma ueta de Junot, possue o retrato de sen 
avô, pintado por Gros, assim como conserva numero- 
sos documentos, cartas autographas de Junot e papeis 
de família, cuidadosamente guardados u'uma pasta de 
marroquim vermelho com sua fechadura, que perten- 
ceu ao celebre batalhador. 

iMoiiy tenciona reunir estes e outros documentos em 
um volume, que constituirá diguo pendanl às Memo- 
rias da duqueza d'Abranles. 



A prata das egrejis figurava, principalmente, entre 
os roubos commeltidos pelos soldados de Junot. 

O encarregado de negócios de Portugal, em Paris, 
Francisco JiȎ Maria de Brito, oflkiava em 2o' de se- 
tembro de ió K> para que lhe mandassem as listas das 
Reclamações publicas e particuhres dos objectos tira- 
dos pelos fi ancezes, listas que haviam de ser enviadas 
aos commissarios que as potencias deixariam em Pa- 
ris, encarregados de receber, verificar e apresentar as. 
ditas reclamações. O citado diplomata dizia que ainda 
se podiam reclamar dois quadros de Nicolau Coelho 
existentes na bibliotheca de Junot, que diziam perten- 
cer á Sé de Coimbra, e que na mesma casa se encon- 
trava um armário cheio de papeis do Estado, que se 
não podiam requerer, sem se saber se o gabinete de 
Junot ficara ou não em Lisboa. 

Os Governadores do Reino fizeram então expedir a 
portaria de 23 de Novembro de 1815, dirigida a to- 



B8 LISBOA D'0ÚTaÒ3 TEMPOS 



das as estações otíiciaes, aos prelados, ás ordens reli- 
giosas, etc, para que formulassem listas exactas de 
tudo o que fora usurpado pelos ageotes írancezes. 

Nos Avisos e Portarias que temos citado, en- 
contrámos quatro d'essas listas. Na i. a lista vemos 
reclamação do coronel Fonseca Tavares, que ficou seaa 
um apparelho de chá, salvas e bandejas de prata que 
lhe levou o general Loison; o abbade de S. D miingos 
de Bemfica um painel de grande estima ; a Keal Fa- 
brica de Sedas varias fazendas de que se não fizera 
cargo a Geouffre, cunhado da mulher de Junot; o ab- 
bade do convento de S. Bento um mappa de Portugal, 
tí seis mil cruzados dos estragos feitos pelo regimento 
que alli estivera aquarteilado ; o procurador geral do 
mosteiro de IMem reclamava a Bíblia (ou exposiçlo e 
opúsculos de Nicolau Legrá) pela qnai se haviam des- 
prezado seiscentos mil cruzados (I) oíferecidos por 
Luiz XIV, rei de França; a Ordem Terceira da Peni- 
tencia a biblia Polyglota do cardeal Ximenes, etc. 

Na 2. a lista vem o Corregedor de Thomar que se 
queixava do roubo de mais de cem arrobas de prata 
das egrejas; Domingos António de Sequeira apresen- 
tava urna relação das drogas e pinturas tiradas do pa- 
lácio dWjnda; os credores do ausente João Autonio de 
Souza Caldas pediam vinte contos de réis dispendidos 
«om o thealro de S. •Carlos; o procurador da egreja 
patriarchal muito oiro e prata que G :ouffre roubara, 
ele. Na 3. a lista apparece o Corregedor de Trancoso 
reclamando oito contos de réis em dinheiro que Loi- 
son lhe roubara, além d'uma mula arreada, a sua bai- 
*ella, ele. ; o Prior dos Carmelitas Descalços da rua 
dos Fanqueiros que ficara sem um vaso, oílerta de D. 
João IV; dois sujeitos reclamavam 5 contos que lhe 
ficara a dever o Intendente Lagarde ; etc. Na 4. a lista 
estão os credores de quantias determinadas. 



OS CAFKS M 



Estas listas foram feitas por Baptista de Salles, que 
as acompanha cTuma caria, onde fala do roubo da 
rcroa de brilhantes e do menino Jesus, que o genera'1 
■Thrmiers fizera em Leiria, e que valiam mais de cin- 
coenta mil cruzados. Fala também da carruagem do 
prinripe Augusto, que Cambis (oh Camby), ajudante 
de Jnnol. fizera embarcar nos navios dinamarquezes. 
A carta diz mais our «tendo se extrahido da casa da 
Moeda 1.1? 6:; 0O?5C00 réis até l\\ d'Agosto, ainda de- 
pois se tiraram 234 .Mí)j9tè47 réis, em que Selaro e 
outros muitos trabalharam em seu bcmfirio. Simi- 
Ihantps extorsões indevidamente se estavam fazendo 
no Arsenal Real de Fxrrcito. no da Marinha, Deposito 
Publico, Reaes Cavallariças, Palácios Reaes. Reparti- 
ção das Munições de bocca, etc». (Avisos, etc. Maço 28). 

Mui"as reclamações rão se poderam fazer, porque o 
Intendente Laparríe, antes de abandonar Lisboa, quei- 
mou grande quantidade de papeis da Intendência de 
Policia, principalmente os que se referiam a suecessos 
de Maio a Agosto de 1808. (L.°. XVII das Sect). 

Na sua missão de rapinancia. Geou tire fazia-se con- 
duzir numa ^sie da Casa Real, e era acompanhado 
do rfficial maior da Secretaria da Policia, Jerócymo 
Esteves. (Avisos, etc. Maço 34). 



O naturalista Geoffroy Saint-Flilaire, que já acompa- 
nhara o exercito dp Ronaparte ao Epyplo, veiu também 
com o exercito de Junot » Portugal. Trouxe a missão 
de colhpr nos nos«os museus os exemplares d^ histo- 
ria natural precisos para completarem as collecções 
dos de França. De fado. alguma coisa obteve em I is- 
boa. Provam-n'o os documentos seguintes: — (Copia; 



70 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



«Mr. le Dezembargador Monteiro, Directeur de l'im- 
prinv-rie Koyale. remellra à Mr. GeoíTroy Saint llilaire, 
membre de llnstiiut, Professénr dllistoire Nalurelle, 
et commissaire du Gonvernement Français pour la re- 
quisrtion des objets de Scinnces et arts, lous les cui- 
vres graves de la Flore du Fleuve de Rio de Janeiro, 
cumes au nombre de cinq cenls cinqnanle et qualre, 
des quels ont été graves sous la direclion du père 
Velloso. anlear de la dite Flore. — Los cuivres ont 
été demandes par le gouvernement trançais ponr faire 
parlie du Museum Imperial dllistoire Nalurelle. — 
Le present ordre tiendra lieu de recepissé. — Liabòh- 
ne, le 1 de Aonl d* IíSO.s. 

Le gouverueur du royaume de Portugal : Le duc 
J'Ahranies. 

Contadoria da Impressão Regia, 7 de setembro 
de 1808. 

Joaquim José Escopezy.» 

Em 7 de Agosto, Junot mandou passar uma certi- 
dão que diz : 

«O deputado thesoureiro deu conta nesta Junta, de 
que no dia de segunda-feira, vinte e nove do presen- 
te, veiu a esta Impressão Regia Mr. GeolTroy Sainl-IIi- 
Saire apresentar uma ordem do III " !0 Ex. m0 Sr. Gene- 
ral em chefe da data do primeiro d'esle mez, a qual 
fica no cartório, para se lhe entregarem as chapas da 
Flora do Rio de Janeiro, feitas pelo Director Littera- 
rio, Fr. José Mariauno da Conceição Vellozo, exigin- 
do as logo, o que se executou, entregando se-lhe qui- 
nhentas e cincoenta e quatro chapas dVstampas da 
dita Flora. E para constar se fez este termo. Lx. a em 
iriuta e um d' Agosto de mil oitocentos e oito ânuos. 
Neves. Escopezy Oliveira. Annes da Costa.» 

«E para constar onde convenha passei a presente. 

Lisboa oito de Setembro de mil oitocentos e onze. 

João José Escopezy.» 



OS CAFKS 71 

Ha mais uma carta do Director Geral da Impressão 
Regia. Domingos Monteiro ({'Albuquerque e Amaral, 
participando aquella entrega. 

Desappareceram também as chapas da triangulação 
do reino, levantadas pelo Dr. Ciera e outros engenhei- 
ros, e os 7 mappas do Rrazil levantadas pelo padre- 
mestre da Companhia de Jesus, Diogo Soares, geogra- 
pho-iLÓr tTaquelles estados no tempo de D. João v. 

D. Miguel Pereira Forjaz reclamava (em 1811) 
aqnellas chapas, e as chapas ou estampas do gravador 
Dupuis, que fora director da gravura, a fim de as re- 
melter para o Rio de Janeiro. 

Entre os mappas desapparecidos contava se uma 
carta das sondas do Tejo, talvez a única que então 
existia, e que devia estar em poder de Migendie ou 
do coronel engenheiro Vincent. (Avisos, etc. Maço i2.) 







wwx&^&m safô pcecosos^cose» 



- 



— i I I III I I I i il 



Rocio em 1808. — Capotes e jozésinhos. — Cita-se a áa- 
queza dWbrantes. — Mod nhãs dos bons tempos. — A.s 
habitações no Rorio. — Os adellos da rua do Arsenal.— 
Feiras e vendedores ambulantes. — O Bota-Abaixo. — À 
Praça da Figueira. — Outras feiras. 



Por 1808 o Rocio era em terra solta. Carros, seges 
e ravallos atravessavam-n'o livremente. 
Passeavam por elle não só os peões e os ea- 
valViros, mas as cadeirinhas com clamas que, usual- 
mente, não se apeavam. Emquanto o exercito francez 
occnpoii Lisboa, era esta praça um esplendido mo- 
saico de trajos, onde se via e capote e lenço das mu- 
lheres do povo ao lado dos coloridos uniformes milita- 
res, os trajos populares ao lado' dos pzêdnhns de man- 
gas e cabeção curto, muito em uso, e dos capotes em 
que todos os bons peraltas se embuçavam, porque lá 
se cantava : 

Toque, toque, loque, 
Vamos a S Roque 
Vér os pernil as. 
Que vem de capote. 

que era a |ptra do lundum do Monroy, uma peça mu- 
sical que fez tanto furor como a modinha As azeitonas 



74 LISBOA d'outhos tempos 



novas, composta sobre o pregão das vendedeiras de 
Li>boa por Pedro Anselmo Marchai, eximia tocador de 
cravo e de piano-forle, com armazém de musica ao 
largo de Jesus. ' 

Os capotes vermelhos que as mulheres usavam eram 
muito graciosos, tauto que a elles se referiu a dnqueza 
d'Abrautes no livro Soucpnirs dum a^baxsaàwt <i'un 
séjonr en E*pagne et m Portugal de 1808 a 18 IL Di- 
zia ella que as mulheres em Lisboa usavam uma capa 
de panno encarnado bordada cie velludo negro, e que 
as jovens tornavãm-se encantadoras com essa capa e 
um lenço de linho branco na cabeça. 

As moradias no Rocio eram muito disputadas. Con- 
tou-nos o sr. dr. Alves de Azevedo, que. sen pae se 
deu a perros para mudar a sua habitação d'um quarto 
andar para um primeiro. No tempo de D. Miguel já 
não acontecia o mesmo. As sedições militares, que, 
dordiuario, tinham a sua repercussão no Rocio, afas- 
tavam os moradores, pelo que abundavam os escriptos. 

No tempo da occupação franceza ainda se fzia a 
Feira da Ladra no Rocio. Em 1809 foi transferida para 
a rua Occidental do Passeio e pra^a d'Alegria. Foi 
u'aquelle tempo, que, a requerimento do eommandante 
da marinha franceza Mageudie 2 , o Intendente da Po- 
licia, Pierre L «garde, fez remover da rua do Arsenal 
para a rua Occidental do Passeio e praça fronteira à 



* Era um musico distineto. que tomou parte em vários concer- 
tos, entre elles no que o fina Manique deu na Casa Pia, então 
estabelecida no castello de S. Jorge, com o qual se festejou o nas- 
cimento da princeza da Beira. Sua mulher era distincta harpista. 
(Gazeta 1792 e 179:t). 

2 Mapendie morava na rua de S. Francisco, em casa do nego- 
ciante Lima, e tinha por criado a Thiago Tirolet. que depois foi 
empregado no Assento d'Alcanlara, por ordem do Governo Fran- 
cez. . (Avisos, etc. Maço 32.) 



OS CAFÉS 75 



sua entrada a venda permanente ou mercado dos fer- 
ros- velhos e adellas. (L.° 10 das S(cr.) O Regimento 
do Senado da Camará só permillia o trafico de roupa- 
velheiro ás mulheres aííiançadas. Mas já em 1793 os 
algibebes ponderavam, que se havia introduzido um 
tropel dhomens vadios a venderem roupas e fatos no- 
vos, contra o que elles reclamaram. (L.° 4 das Secr.) 

Im edital do Senado dizia (1808) que se continua- 
vam a illudir as posturas, que os ferros-velhos conti- 
nuavam a transitar pelas ruas, continuava a feira dos 
domingos e dias santificados na Ribeira Velha, a fre- 
quência das adellas no cães da Hibeira Nova, e a dos 
vendedores com logares volantes, pela tarde, no Rocio, 
principalmente ao lado e defronte do Erário, «do que 
se tinha originado tumultos, alaridos e até assassínios. » 
Por derradeiro estabelecia penas para os infractores. 
Um Alvará Régio de IblO derogou estas disposi- 
>, permillindo a venda volante pelas ruas. Mas uma 
portaria dos Governadores do Reino, datada de 3 de 
Dezembro de 1814, prohibia, de novo, a venda pelas 
ruas, a não ser dos homens que vendessem com bes- 
tas, (Avisos, etc. Maço 27). 

As adellas venderam depois (181(5) não só no Pas- 
seio, mas nos logares da Ribeira-Velha, no becco do 
Carvalho, a S. Paulo, e nos logares da Ribeira Nova. 
Estes logares serviam para os ladrões e os vadios se 
acoutarem de noite.. 

Pleiteavam competências com o pinho do Cães do 
Tojo, as arcadas do Terreiro do Paço, e a Patriarchal 
Queimada. (L. * 17 e 19 das Secr.) Joaquim Gregório 
Bonifácio, o Bota-Abaijo, foi quem fez sahir as adel- 
las dos logares que oceupavam até ao meio da rua na 
Ribeira Velha, obrigando as a estacionarem dentro dos 
passeios. 

Conta se até a este respeito uma aneedota, que nos 
é vedado reproduzir por causa da sua frescura. 



76 LISBOA D'cUTnOS TEMPOS 



A armação e arrumação das tendas ou barraca* 
portáteis na praça d'Alegria, destinadas ás adellas, 
foi concedida, por portaria de IO de Selembro de 
1818, á capatazia chamada da Cereja, onlr'ora da./)t#- 
carga e conducção do Pão do Ribatejo. (Correspondên- 
cias, etc. Maço 10). 

A praça da Figueira tem existência desde 1775. O 
terreno para a installação d'esse mercado de hortaliças 
e fructas foi concedido por decreto datado de Pancas 
aos 23 de novembro d'aquelle armo. A Ribeira foi 
creada por decreto de 2 de janeiro de 17115. determi- 
nando-se um plano em que havia lojas, sobre lojas e 
cabanas para a venda de comesliveis. (Bibl. Nac. Ma- 
nuscriptos da Sicção Pombalina. N.° 6i6.) 

N'outro tempo existiram algumas pequenas feiras 
curiosas. Havia uma que se realisava no paleo do hos- 
pital de S. José em Março e Junho. Quando, em 1812, 
se prohihiram as feiras, foi esla exceptuada, altendendo 
ao beneficio que d'élla advinha ao' mesmo hospital. 
Mas, em IS 18, a Santa Casa da Misericórdia requereu 
para que se transferisse a dita feira para o Campo de ] 
SanlWnna, e que se reduzisse a três dias, somente, em 
cada uma daquellas epochas, devendo os feiranles ti- 
rar as cédulas de licença no hospital. A Santa Caza 
obteve deferimento. (Avisos, etc. Maços 18 e 33). 

Existia também a costumeira dos moçcs do hospital 
de S. José sahirem mascarados e percorrerem as ruas 
na tarde do dia de S. João. (Avisos, etc. Maço 35). 

O Juiz e mais festeiros da capella do Monserrate ás 
Amoreiras promoviam, todos os annos, pela Paschoa, 
uma feira que durava três dias, e que se fazia no largo 
das Amoreiras. 

A Irmandade do Senhor Jesus chegou a realisar uma 
feira ou arraya! em S. Pedro decantara, que erft 



LS LAI Lr 



iHrí I já lhe não auctorisaram, allegando o Corregedor 
do li íirro-Allo não sô o pouco lucro que aquella cor- 
poração tirava, mas que a muralha eslava embaraçada 
com bastante madeira e p^dra, e que trabalhavam lá 
os cordoeiros. {Correspondências, etc. Maço 10). Um 
aviso da Regência mandava vigiar os jogos neste lo- 
cal em-J8£l. (Avisos, ele. Maço 39). 

A muralha de S. Pedro dAlcanlara era ura deposito 
d'animaes mortos. Os moradores das ruas subjacentes 
requereram em \8l~2 para que se impedisse o lança- 
mento d'animaes mortos pela muralha abaixo, o que 
causava um cheiro insupporlavel * O Corregedor in- 
formava que era difficil- tornar effeclivàs as penas da 
policia, porque aqueile sitio era um deserto. (Corres- 
pondências, ele. Maço IÒ). 

José da Cunha Lemos requereu, em !808, para cul- 
tivar o terreno da muralha de S. Pedro d'Alcantara. 
(Liv. de lançar os requerimmtos das parles. L. 2(59- 

Quem fez arbnrisar a alameda foram os oíliciaes da 
companhia da Guarda í\eal de Policia, que tinha o seu 
quartel em S. Pedro d'Alcantarj. 



1 Os entulhos e o lixo ('a cidade, e também os animais mortos, 
eram lançados nas terras de Valle de Pereiro. (Avi$)s.ctc, Maço 20) . 






DXrtraxroti 



XI 



O botequim das Parras. — José Pedro aas Luminárias, & 
gazeta viva. — Tertúlia de poetas. — José Pedro das Lu- 
minárias, o pacificador. — Centro de conspiratas. 



Ao botequim do Nicola seguia-se o do José Pe- 
dro da Silva, vulgo o José Pedro das Luminá- 
rias. 

Meltia-se de permeio a porta cTescada, então nu- 
mero 83. José Pedro fora administrador do Nicola, e 
ínstallou o famigerado botequim das Parras nas lojas 
que tinham os números 84, 85 e 80, e agora lêem os 
números 27, 28 e 29, actualmente oceupadas [tela ta- 
bacaria Gusmão ecasa de modas de J. A. Moulta A 
Companhia. 4 

Chamaram-lhe o botequim das Parras, porque a 
pintura interior representava cachos dfuvas e folhas de 
videira. 

Mais tarde aífirmava-se que nas paredes d'esse bo- 
tequim havia muitos versos, que Bocage ahi escrevera 
a lápis. 



1 José Pedro da Silva teve outra loja de bebidas na rua Nova 
do Carmo. Mas trespassou-a em 1807. (Liv. de lançar os requeri- 
■mentos, das partes. L. 269-353. 



80 LISBOA d'0UT«0S TEMPOS 



' Quando José Pedro o estabeleceu, tratou, antes cie 
mais nada, antes mesmo da cosiuha e das garrafas, 
de mandar construir um gabinete reservado para as 
assembléas nocturnas dos seus amigos poetas. 

Esse pequeno gabinete, o agulheiro dos sábios, era 
um laboratório litlerario. A-lii se planeavam obras, aíii 
se improvisavam versos, ahi se discutia o agora, o an- 
tes e o depois de todos os factos d'ordem politica, ou 
de todos os escândalos que vinham á tela da discussão. 
«Era ao mesmo tempo o artigo do fundo, o folhetim e 
o noticiário da época». (Revolução de Sttembio de 1863). 

Políticos, curiosos, indagadores da vida alheia, me- 
xeriqueiros d'offi'*io, más línguas encartados, todos 
corriam ao botequim das Parras a fim de perguntarem 
ao José Pedro o que ê que dizhm os poetas. Eile era 
a gazeta viva da epocha, era uma folha falada em 
que colhboravam os talentos primaciaes da nossa terra 
no alvorecer do século xix. Tinha sempre assumpto 
para todos os gostos, manjares a touh-s les sauces: 
para os amadores dos acepipes delicados, os sonetos 
e as decimas de Bocage ; para os apreciadores dos 
pratos fortes, as satyras coruscantes de José. Agosti- 
nho ; para os entbusiasta* dos fricassés políticos, as 
sabias reflexões de Bernardo da Bocha. 

O botequim das Parras foi o ponto de reunião do 
claro auditoria que cercava Bocage. Eram constantes, 
á noite, os poetas Malhão, Pato Moniz, fiingre, Santos 
e Silva, D. Gastão, Ferraz de Campos, João Bernardo 
da Rocha (que foi chronista mor do reino, deputado, 
e, na sua emigração, redactor do Portuguez), e Pimen- 
tel Maldonado, o fabulista, a cujos saraus era sua casa 
conconiam os litteratos, que perguntavam uns aos ou- 
tros, com notável ingenuidade, o que teria ido fazer 
Bonaparte ao Egyplo. (Annaes das Sciencias e Letra* 
da Academia R. das Sc. Vol.II). 

Nos seroes litterarios d'este botequim celeberrimo 



OS CAFÉS 



tinham -importante papel o bom vinho e a boa agua- 
ardente da casa. 

A's vezes as cabeças turbavam-se *com as musas e 
com o álcool — porque os poetas do século passado 
bebiam como os de hoje não bebem — e os vates cor- 
riam ás panóplias para esgrimirem com as aceradas 
armas do epigramma e da satyra. O enthusiasmo cres- 
cia á maneira que o álcool punha o sangue em ebulli- 
ção, derramava nas veias o veneno de todas as audá- 
cias, e, por mais d 'uma vez, o povo accorreu ao bote- 
quim, attrahido pela algazarra,, até que o José Pedro 
intervinha, restabelecendo a paz e a concórdia entre 
os cultores das Musas. 

D'estas soiréês poelico-recreativas, derivava a cor- 
deal amisade que o José Pedro manteve com algumas 
pessoas notáveis do seu tempo, entre as quaes, parti- 
cularmente, com Manuel Fernandes íhornaz e com o 
Principal Souza, além dos frequentadores effectivps do 
botequim. D'estes últimos tinha elle os retratos na 
sala. 

Mais tarde, em 1820, o botequim das Parras foi um 
centro revolucionário, onde se preparou, em grande 
parte, o movimento vintista. (Summario de Varia His- 
toria. R. Guimarães.) 

O nome de José Pedro anda jungido ás tradições da 
Nova Arcádia. José Agostinho de Macedo, que fez 
parte d*aqueila aggremiação, não punha os pés no bo- 
tequim das Panas, mas ia a uma chapelleria fronteira 
arranhar mortos o, atassalhar vivos, como o Bocage 
dizia na Pena de Talião; ou então — de ventas cheias 
de rapé, olhos ehammejantes, frémitos coléricos na fa- 
çoula glabra, cachaço de roscas suinas, membrudo, 
bezuntão,, arrimado á bengala — traçava poemas mus- 
culares de socco sobre o balcão sebento dos livreiros 
Bertrands, ao Chiado, invectivando com a sua phrase 



82 LISBOA d'outros tempos 



desbocada de recoveiro alemtejaoo, capaz de fazer co- 
rar uma lagosta viva. . . ou a freira dOdivellas, com 
quem, sem embargo das ordens sacras, andava abar- 
regado. 

A chapellaria — estancia de José Agostinho — era a 
do Daniel de Souza Amado, sita no Rocio, n.° 48. 

(Gazeta). 




' 'i. ^ v., ^ ^. •_ . 9C3 



1 \> & ÍJ Q '■ ■ V?,. ^;^-^^^; 



o : 



XII 



Ódios de José Agostinho de Macedo — Seu feitio de lucta- 
dor — ^ua linguagem — O jornalismo antigo e o jornalis- 
mo moderno — Serviço de José Agostinho — Penna venal 
e peccado venial — A vaidade de José Agostinho. 



desbragado Elmiro não podia tragar a predilec- 
ção que o José Pedro manifestava pelo grande 
Elmano. D'ahi, as referencias azedas que lhe fez 
na Prefacção do seu poema Os Burros, esse poema 
a que Rebello da Silva chamou — espécie de Juizo 
Final. 

N'ella escrevia o rábido folliculario, o violento pole- 
mista : — «O espirito da asneira preparou no centro de 
Lisboa um domicilio onde quiz levantar o throno, e di- 
latar o império dos sandeus. Uma fatal força centrípeta 
para ali puxa os mais asneirões de todas as classes, e 
d'alli, como do club dos Jacobinos de Paris, se prepa- 
raram e dirigiram todos os golpes contra todos os go- 
vernos que não fossem revolucionários, e se dirigiram 
todos os golpes, todos os tiros, todos os ataques con- 
tra o império da razão, do gosto, da critica, da poesia, 
em que reluzisse um pequeno vislumbre de senso- 
commum. Eu falo de um botequim ou café de um 
José Pedro da Silva, no Rocio de Lisboa, sancluario 
conhecido não só dos vagabundos de Lisboa, mas dos 



84 LISBOA d'outhos tempos 



estúpidos e alarves provincianos, que se persuadem fi- 
gurar no mundo, quando, entre calotes, apparecem 
seis mezes no immundo e sebento theatro d'uma esta- 
lagem, onde entraram com reposteiro á porta, e sahem 
embrulhados na manta que de lá furtaram. 

Uma necessidade fá-tal que nos arrasta n'este século 
para o cahos da ignorância, desde a desgraçada ins- 
tallação d'este botequim, faz alli presidir a asneira, 
desde que o orate Bocage, levantado, de motu-proprio 
e poder absoluto, arbitro do Parnaso portuguez, alli 
começou a beber e a gritar.» 

Esle producto dã«ua musa enfermiça era offerecidoí 
ao Geral dos Bernardos, e, como amostra da amável 
dedicatória, damos o trecho seguinte: — «Os meus 
burros ficarão sympaihicamente unidos a V. Reverendís- 
sima com a mesma arreata , cobrirá a todos uma mes- 
ma albarda, e bambolearão nas nádegas de todos os 
mesmos atafaes. O mundo appiaudirá a escuiha e.a< 
me. p mo tempo se arredará vendo passar os meus burj 
ros com o Geral dos Bernardos á sua frente, e assii 
mesmo desviado, e fora do alcance da artilheria da gaj 
rupa, não deixará de dizer cheio de satisfação — ahj 
vae a Communidaiie com seu Prelado.» . 

O feitio litterario d'este arrieiro das letras, d'est( 
caceteiro da penna, como o alcunhou Oliveira MartinsJ 
nunca variou. 

Basta lèr os jornaes que elle creou. depois de virar; 
o carnaz liberâlista de 20, e que fraguava nas suas rej 
sidercias do Forno do Tijolo, primeiro, e de Pedrou»! 
ços, depois : A Tripi Virada, O l)<'s< j )/r/ano, A BesjM 
Esfolada, de que chegaram a lirar-se quatro mii exem* 
piares ! jornaes que estavam para o.Spectator e o Taú 
íZerdeAddisonede Steéle, como um sedenho revulsivo 
está para o attriclo flácido dum botão de rosa-chá, 
como os trompões anarchicos d'uma phylarnaonica de 
lapuzes estão para um desenho de violinos n'uma par- 
titura dopera. 



OS CAFÉS 85 



Era na folha- periódica que toda a ira politica do 
reverendo épico explodia, como enorme calhau crespo 
estilhaçado por tiros de broca. 

José Agostinho punha-se em mangas de camisa, e, 
transformando a penna em estadulho apostólico, zurzia 
a bom zurzir todos os que não se deixavam manietar ás 
gramaíheiras miguelinas. 

A insolência desbragada estava na sua corda. Co- 
nhecia o pbraseado gafo das collarejas e das mulatas 
calhontireiras, a geringonça prostibular das tarascas do 
fanico e das mar a fonas de giga ; sabia o calão corri- 
queiro das enxovias, a giria das presigangas; mane- 
java a chufa torpe do egoariço, o dicterio com pico de 
bordel pataqueiro. a invectiva Beócia do carrejão cai- 
nho, o circumloquio sevandija das alcaiotas linguaru- 
das, a avita chocarrice do mesteiral, a bisca bordalen- 
ga do mariola, a praga algarvia, o plebeismo acham- 
boado do ribeirinho, a mordacidade chula das maris- 
queiras, a palavrada maruja rescendenle aos assucara- 
dos aromas do Torres e do Cartaxo, zurrapas que elle 
beberricava com prazer, quando a sede o picava. Suas 
dicacidades ferreteantes não lembravam reluzentes al- 
finetes de oiro, mas pesados garrochões da praça do 
Salitre. Seu estylo era um enxurro de dejectos e de 
lodo, irrompendo d'um cano de despejo. 

D'elle não emanavam os perfumes embriagantes da 
anémona, da baunilha e do junquilho, mas os mias- 
mas deletérios que se evolam das palanganas secre- 
tas manuseadas pelas fregonas balordas, ou de cer- 
tas porcelanas intimas manejadas pelas servilhètas d'al- 
cova. 

José Agostinho de Macedo é o patriarcha do gaze- 
tismo politico nacional, foi o fundador do jornal de 
combate portuguez, o nacionalisador do pamphleto. 

E' a seutinella avançada da moderna cohorte dos 
sagilarios da imprensa ligeira. 



80 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



E' a vedeta exploradora d'esse exercito aguerrido, 
que viria a ter como condestaveis a Rodrigues Sam- 
paio, Teixeira de Vasconeellos, Latino, e Pinheiro Cha- 
gas, para só falarmos dos mortos. 

A sua linguagem hypo-acida serviu de modelo a Fr. 
Fortunato de S. Boaventura, creador do Punhal dos 
Corcundas e do Mastigoforo, (mais tarde arcebispo 
d'Evora), e ao padre Alvito Buela, o charro tosador 
do Cacete, o tonsurado que manejava a penna como 
quem brande uma hacha d'armas, como quem flórea 
uma espada columbrina. 

Pugnaz por temperamento, vicioso por determinismo 
physiologico, auctoritario por Ínsito pendor, o seu ideal 
supremo era levar tudo á tapona. 

Em seu entender, a sociedade luza era simplesmente 
um rebanho alfeiro, ou, antes, um bando de poldros 
serris, que urgia almofaçar com brossa rija e desan- 
car com fueiro de carvalho-cerquinho. 

E para que não se diga que fazemos asseverações 
sem prova, ahi vão três trechos selectos do jornalista 
fradesco. O primeiro é do Espectador: — «Os homens 
não se governam por philosophia ; leis e forca, eis 
aqui o verdadeiro e profundo Cornelio Tácito». 

O segundo é da Tripa Virada: — «O' S. Miguel, 
nosso defensor cá de telhas abaixo, corda e mais cor- 
da, olha que elles são teimosos como o diabo». O ter- 
ceiro é da Besla-Esfolada : — «Trabalhar o cacete, 
desandar o bordão, descarregar o arrocho, são axio- 
mas eternos e invariáveis regras de justiça, quando se 
trata de tirar manhas ás bestas, quando se pagam, 
quando se deitam, quando mordem, quando se des- 
viam do caminho, quando se mettem n'u.n atoleiro ou 
dão comsigo e com a carga n'algum barranco ; cacete, 
bordão, arrocho, conforme os princípios da veterinária 
(medica) são específicos applicaveis e profícuos: torna 
cTaqui besta! chó bestai isso não faz nada; é perder 
o tempo, e com bestas não ha contemplação : perde-se 



OS CAFÉS 87 



a obra, perde-se o trabalho, se o pau não trabalha, e 
trabalha deveras». 

Pode afoutamente dizer-se que José Agostinho en- 
carnou os vicios, as paixões e as qualidades dos por- 
tuguezes n'aquelle momento histórico. 

Suas objurgatorias decotadas, suas verrinas arrega- 
çadas, faziam vibrar os nervos do povo com todos os 
frémitos do enthusiasmo; suas replicas enérgicas como 
um insulto, suas monitorias acerbissimas faiscavam 
electricidade no espinhaço, coavam calafrios pela me- 
dula dos ossos; seus doestos ora picavam como chou- 
pas de magarefe, ora sarjavam a derme como o ta- 
gante d'um bolieiro, applicado com a força bestial de 
um estoura-vergas e a desenvoltura d'um gymnasta. 

O espirito popular aquecia com as suas diatribes 
contundentes como pontapés gallegos dados abaixo do 
coccyx. 

Por isso o povo — que só pedia arrocho — amou de- 
veras o demagogo de batina, o escriptor avinhado, o 
prosador escurril, que mourejava, ininterruptamente, 
do Anno Bom ao S. Silvestre, e ao qual os parcos red- 
ditos da faiança litteraria e do púlpito obrigavam a lj- 
mitar-se a magra pitanca, a pôr uma surdina nos de- 
sejos. Assim devia ser. Estava na lógica brutal dos fa- 
ctos, e, para empregarmos a linguagem parlamentar 
de Gambetta, na justiça immanente das coisas. 

Exhauriu a vida em polemicas arremangadas, gas- 
tou os nervos em trava-contas azedas, nas quaes 
fervia bordoada velha, como n^aquellas turras minho- 
tas em que um varapau decidido ensarilha e varre 
uma feira, que debanda. Dentro da sua alma latrina- 
ria sopilava um marrão ; estourava de vaidade — o seu 
cancro roaz ; exercitou o papel de carrasco nas execu- 
ções capitães pela imprensa ; tinha a rude franqueza 
d'um cynico, porque todo o mundo era seu. Mas ja- 
mais chatinou na tenda do interesse vil, nunca alqui- 
lou a sua penna em cambio de benesses ou preben- 



88 LISBOA d'outros tempos 



das, nunca foi um condotiiere do jornalismo, bandean- 
do-se com os agrupamentos politicos que pagassem 
melhor. 

Hoje em dia a profissão jornalística é uma brinca- 
deira de petizes traquinas, de litteratiços aguados, 
que trepam ao coreto arraialesco do artigo de fundo 
para executar solos macabros de birimbau e de ma- 
rimbas, ou que se põem em bicos de pés e esganiçam a 
voz para apanhar bolo. E a rapazia dos badamecos não 
tem consequências graves. Nem sequer chegam a abis- 
coitar uma caeholeta. Mas n'aquelle tempo fiava mais 
fino. ..'Arriscava-se a pelle, jogava-se a vida. E o pe- 
riodista — que não alimentava só ódios fingidos, en- 
ihusiasmos postiços, e interesses ávidos — applicava 
ao seu caso pessoal o famoso alexandrino de Corneille : 

A' vaincre sans péril, on triomphe sans gloire ! 

Que distancia do jornal d'então ao jornal d'hoje — a 
coisa ephemera, a flor que se colhe de passagem e 
que no dia immediato está fanada ! 

N'aquella epocha a redacção d'nma gazeta compu- 
nha-se simplesmente d'um patusco encarregado de ron- 
car as notas graves, ríspidas, no contra-baixo do es- 
lylo solemne. Hoje é legião: o articulista politico, 
o folhetinista, o critico d'arte, o chronista sportivo, 
o gazetilheiro, que tempera os chistes com o perrexil 
da graça aristophanica e o espirito anacreontico dos 
poetastros cançonelistas, o aifarricóque das novidades, 
o localista ameno, o correspondente provinciano, sem- 
pre amável e gratuito, o informador alcovêto, o repór- 
ter — scriba incaracterislico, escriptor amphibio que a 
Europa importou da America — , e o chroniqueiro ga- 
menho, papa-tina, que usa a preciosidade e o phebus 
do hotel Rambouillet, que trata os assumptos com a 
sagacia diplomática do barão Grog, e que calça, gar- 



OS CAFÉS ' 89 



bosamenle, os guantes claros do príncipe Cornelio Gil, 
quaudo entra em campanha... pelas damas. 

Todavia, o padre prestou um bom serviço. Foi 
quando, no tempo dos francezes, se deu a revivescên- 
cia da seila sebastianista, que pretendia predizer as 
calamidades da pátria' co.n a leitura das prophecias 
do Gonsalianes Bandarra, dos versos do Prelo do Ja- 
pão, e da descripção das visões de Madre Leocadia da 
Conceição e da beata d'Evora, Leonor Rodrigues, es- 
palhando o terror entre o povo fanático, e fazendo 
acreditar que as hostes gaulezas conquistariam a Pe- 
nínsula, porque um verso do Preto dizia : A Hespanha 
peiderá a valentia. 

O sebastianismo ressuscita, como que animado d'uma 
vida galvânica. Não se esperava a volta do Desejado, é 
certo, mas procurava-se tirar certos horóscopos da lei- 
tura d'aquelles trechos litterarios, que tinham a mono- 
tonia angustiosa das carpideiras. 

A Regência — com um golpe de vista machiavelico 
— entendeu urgente esmagar a seita exótica, cuja dou- 
trina estulta repugnava ao lume natural. Com esse in- 
tuito, assoldadoa a penna do padre, estygmatisante 
como ferro em braza. De feito, Agostinho de Macedo 
combateu o ouzio do sebastianismo, deixando-o a escor- 
rer sangoeiras (Annaes das Sc. e Letras, ele), e ata- 
cando lambem, de raspão, os pedreiros livres, em cuja 
defeza sahiram á estacada as pennas másculas de Ber- 
nardo da Rocha e de Pato Moniz. Ainda fez mais. Em- 
picotou os no pelourinho da irrisão, fazendo subir á 
scena a sua jocosa comedia em um acto O Sebastia- 
nista desenganado á sua custa, que se representou oito 
noites suecessivas na Rua dos Condes, e em que eram 
satyrisados aquelles dois escriptores sob os nomes de 
Louro e Pato. 

Pato Moniz, na Agoslinhdda, queimava as escorvas 



90 LISBOA D'OUTROS TEMPOS 



dà sua zombaria contra a vaidade balofa de José Agos- 
tinho. Pregava um ráboléva na sotaina ennocloada do 
clérigo pugil. Mas o feroz dictador do Forno do Tijolo* l 
como o chrismou Latino, fazia tranqueira do Especta- 
dor Portuguez, e d'ahi disparava os tiros, nem sempre 
certeiros, do seu mosquete de forquilha. 



1 José Agostinho de Macedo morava na calçada do Forno do 
Tijolo, 45, 2.° andar. Anna Genoveva, encarregada de guardar a 
casa. gritou ás 9 horas da noite de 12 de Maio de 1828, porque, 
indo alli, encontrou a porta aberta, conhecendo haverem roubado 
uma casaca, uns calções, duas camisas e um lençol, tudo perten- 
cente ao referido padre. (Partes Diárias de Policia. Maço i.) 

Sagrado tunante ! Roubarem-lhe a casaca, a elle, que tantas ve- 
zes a virara do avesso! . . . 



-: + 

.,..,..,. ^^^ + ^ + + + . ;..,.. ,..,. v .,.....,.. r + .,..,,. í ..,.. ; .. i . .,..;,. ,,.,..,. 



XIII 



Volta-sc ao botequim das Parras — No tempo dos France- 
zes — José Pedro, festeiro-mor d'estes remos — Um pj- 
íriot-i . . . á antiga — Uma anecdota — Morte de Bocage — 
Elogio de José Pedro das Luminárias. 



Depois de tão larga divagação regressemos ao bote- 
quim das Parras. 
O dono d'este botequim principiou a populari- 
sar-se depois da retirada dos francezes. 

Junot concentrara em Lisboa as suas tropas, man- 
dando-as bivacar no Rocio, no Terreiro do Paço, no 
largo de S. Paulo, e em outros pontos, emquanto o 
exercito inglez de Dalrymple acampava em Arroyos e 
no Campo de SanfAnna, prompto a entrar apenas 
aquelles evacuassem a capital. Os francezes principia- 
ram o embarque a 10 de setembro de 1808, e termi- 
naram n'o a 15. N'este dia o povo expandiu a sua ale- 
greza, manifestou-a de todos os feitios, embora exerci- 
tasse vingança n'algum pobre diabo francez desgar- 
rado, vingança ainda assim desculpável não só pelo 
comportamento provocador dos francezes durante a oc- 
cupação, mas ainda pelas barbaridades commettidas 
por elles nas vésperas da sua retirada, em que fuzila- 
ram muitos viandantes pacíficos, quando, ao passarem 



92 LiSBOA DOUTROS TEMPOS 



perto dos seus arraiaes, não correspondiam logo ao 
Qui vive ? das sentinellas. 

N'esse dia memorável, o povo perseguiu um sol- 
dado francez, que fugia a bom fugir pela rua do Prín- 
cipe fora. 

Este, ao passar em frente da drogaria do Feliciano 
Alves d'Azevedo, atirou com a mochila para dentro 
d'uma lojita de correeiro, uma loja de má morte, fron- 
teira á drogaria. O povo espatifou o soldado, e voltou 
atraz a procurar a mochila. Indagou por todas as lojas, 
rebuscou todos os cantos, sem dar com o seu para- 
deiro. Alguns mezes andados, o correeiro, que era um 
pobretão, mudava o estabelecimento para loja mais 
vasta na rua Nova do Carmo, entrava a deitar figura, 
a alardear fortuna, o morreu em 18i9 com fama de rico. 

Em 15 de setembro houve muitas festividades em 
Lisboa. Illuminaram-se brilhantemente todos os edifí- 
cios públicos, mas não se viu em toda a cidade uma 
illuminação tão pomposa como a do botequim das Par- 
ras. 

N'esta illuminação a porta principal apresentava ura 
grande quadro de dez palmos d'altura por oito de lar- 
gura, onde se representavam a Grã Bretanha, a Luzi- 
tania e a Mespauha, e, em baixo, o rio Tejo, afora mui- 
tas outras allegorias. 

Na base do quadro estavam escriptos dois versos de 
Bocage. 

Nas duas portas lateraes havia duas abélas, cada 
uma com seu pavilhão suspenso em vários remates, 
que descobriam dois versos do mesmo Bocage. 

Auxiliaram-n'o n'esta festa o estro dos nossos mais 
notáveis poetas, e o talento de Henrique José da Silva, 
o pintor Herino, que imaginou aquella ornamentação 
pictórica. Calculava-se que esta illuminação não cus- 
tara menos d& seiscentos mil réis. 



OS CAFÉS 93 



Estas illuminações repetiam-se logo que se recebia 
noticia d'alguma victoria alcançada pelos exércitos -al- 
ijados, ou se festejava o anniversario d'um príncipe 
portugnez ou estrangeiro, aparentado com a família 
real porlugneza. Houve as á expulsão dos francezes do 
Porto, á victoria d'À!buera, á retomada de Badajoz, á 
victoria de Salamanca, nos anniversarios da rainha, de 
.D. Carlota Joaquina, do principe de Galles, etc. 

Appareciam sempre arcos vistosos, lanternas de to- 
das as cores, poesias allusivas á liberdade da pátria, 
e os retratos illuminados dos principaes heroes da epo- 
cha como : Wellington, Beresford, Jorge IV, Principe 
Regente, etc. 

Desde então o povo de Lisboa ajoujou ao nome do 
José Pedro o cognomento — das Luminárias. 

A mais notável, porém, de todas as illiiminações foi 
a que celebrou a sabida das tropas inimigas para fora 
da capital. Durou as três noites de 15, 16 e 17 de Se- 
tembro de 1808. Durante ellas o Rocio esteve api- 
nhado de povo para ver a feérica iiluminação do bote- 
quim das Parras. 

José Pedro costumava pedir aos poetas seus jregue- 
zes que compozesseui algumas poesias para estas so- 
lemnidacles, poesias que elle distribuía gratuitamente. 
Essas composições poéticas foram reunidas por elle em 
um folheto in octaoo, publicado com o titulo seguinte : 
«Collecção dos Versos e Descripções dos quadros alle- 
goricos que em todas as solemnidades publicas d'esta 
capital mandou imprimir e gratuitamente distribuir 
José Pedro da Silva por o„casião das illuminações da 
sua casa na praça do Rocio. Reimpressa á sua custa 
em beneficio da Casa Pia. Lisboa. Na Impressão Re- 
gia. 1812. Com Licença.» 



94 LISBOA D^UIT.OS TEMPOS 

Na Advertência que abre o folheto se diz que o José 
Pedro «agasalhador de todo o talento menos afortu- 
nado, bom portuguez, ardente patriota, e fiel vassallo, 
desde o principio da nossa restauração patenteou pu- 
blicamente, por meio d'illuminações, em que a Poesia 
e a Pintura allegoricamente se davam as mãos, um 
jubilo nunca desmentido, e cada vez mais fervoroso, 
logo que uma acção brilhante cobria de gloria as tro- 
pas combinadas, e o grande Génio que as commanda ; 
ou quando os anniversarios dos nossos amados Soberanos 
ou Generosos Alliadôs publicamente se celebravam n'esta 
grande capital». Na pagina d'abertura diz: «Pela Feliz 
Restauração de Portugal em 15 de Setembro de 1808, 
José Pedro da Silva, na Praça do Rocio, do lado Occi- 
dental, na loja n. os 84, So, 86, erigiu uma rica e ap- 
paratosa illuminação, com que quiz dar a conhecer seu 
honrado patriotismo». 

volumesinho continha poesias de D. Gastão, Tho- 
maz António dos Santos e Silva, Pato Moniz, Costa e 
Silva, Ferraz de Campos, Miguel António de Barros, 
etc. Foi vendido em todos os livreiros e leve grande 
extracção. José Pedro mandou entregar o producto á 
Casa Pia. 

O dono do botequim das Parras fez imprimir outras 
poesias, de que Irata o Diccionario do Innocencio. 

Diz o sr. visconde de Castilho, que possue uma col- 
lecção rara de 1826, onde ainda se vê este café cele- 
brando o juramento da Carta n'esse mesmo anno. 
(Lisboa Antiga, vol. VI). 

José Pedro dirigiu, em Maio de 1811, um requeri- 
mento ao Príncipe Regente, pedindo para que a poli- 
cia não embaraçasse os festejos que elle promovia no 
seu café, e queixando-se de haver sido insultado pelo 
capitão Vióte na noite em que festejava o fausto acon- 
tecimento da batalha d'Albuera. (Avisos, etc. Maço 13.) 



OS GÁFÉS 95 



Póde-se contar agora uma pequena historia aqui 
suecedida no tempo da guerra peninsular. Fronteiro ao 
botequim das Parras habitava n'uma agua-furlada um 
beneficiado bracarense, conhecido pelo Pataina. Este 
ratão vivia só, e querendo, n'um certo dia de gala, sa- 
hir cedo para jantar, viu que o José Pedro começava 
a preparar os seus lendários transparentes allegoricos 
para a habitual illuminação nocturna. José Pedro 
todas as noites de festa punha luminárias na frente 
da loja, e fazia espevitar as torcidas dos candieiros do 
Rocio. Quem não punha luminárias era um precito, era 
lido por francez, pedreiro-livre, e revolucionário, no- 
mes que, n'aquelle tempo, se consideravam peiores do 
que uma febre maligna. O padre desejava sahir, mas 
não queria voltar á noite para collocar as lanternas 
festivas, porque era muito gordo, e custava-lhe im- 
menso a subir a escada. O que havia de fazer? Accen- 
deu duas lanternas, pôl-as á janella, e sahiu. Ora lu- 
minárias de dia era um caso novo, e a policia viu n'el- 
las um signal revolucionário, em consequência do que 
deitou o gatazio ao padre, sendo levado á presença do 
Intendente de Policia, Lucas Seabra da Silva, que o 
accusou de mação e de revolucionário. 

— Não o sou, senhor, dizia o padre todo atarantado. 
Queria ir jantar ao Izidro, e não desejava voltar á noite 
para pôr as luminárias. Assim, o prejuizo é só meu. 
Accendi as, pul-as á janella, e lá estão á espera das 
luminárias do sr. José Pedro. 

O intendente cascalhou umas gargalhadas, como se 
vira os esgares d'um maninello em arremedilho bem 
apimentado, e mandou em paz o padre caturra. 

Do tempo dos francezes para cá não houve dia de 
gala ou festejo publico em que na residência de José 
Pedro — o 3.° andar por cima da loja — não bruxuleas- 
sem, logo ao anoitecer, nove lanternas festivaes — três 
em cada janella. xMuitas vezes succedeu não se saber 
qual o anuiversario que se devesse commemorar, mas 



98 LISBOA d'outros ti:mpos 



os nove lumes patrióticos lá ardiam na casa do José 
Pedro das Luminárias. N'este ponto mettia n'um chi- 
nello a própria folhinha do Padre Vicente. 

Alma aberta a todos os sentimentos generosos, foi 
elle quem soccô*rreu Bocage durante a sua doença, 
quando as borboletas brancas dos bons sonhos já não 
adejavam ao redor do seu pobre leito. . . Fez-lhe uma 
subscripção entre os amigos, a qual, junta ao produ- 
cto da edição dos Improvisos na sua mui perigosa 
doença, chegou para custear as derradeiras despezas 
do genial poeta. Á Gizeta annunciava então os Impro- 
visos de Bocage «feitos á sua triste situação por cansa 
da aneurisma que padece, aos quaes ajuntou as obras 
que os seus benéficos amigos lhe dirigiram na. mesma 
occasião.» 

E, quando Bocage — quebradas todas as rodas da 
sua machina gasta — cahiu ao sopro gélido da morte, 
e se escondeu, para sempre, nas dobras da mortalha, 
foi o José Pedro quem lhe fez o funeral, e o acompa- 
nhou á sepultura na egreja das Mercês l . 

Rerino, auxiliar das festas de José Pedro, tirara o 
retrato de Bocage, e mandou-o gravar por Barlolozzi. 
A gravura era dedicada a António de Araújo qVAze- 
vedo, ministro dos estrangeiros e da guerra, sócio da 
Academia das Seiencias, e antigo ministro em S. Pe- 
tersburgo. 

Poz-se á venda, em 1800, na loja da Gazela e no 
botequim do José Pedro. 

Foi o mesmo Bartolozzi quem gravou o retrato do 
Príncipe Regente feito por Pellegrini, 

Malgré lout, a troça fartou-se de alvejar o José Pedro. 

Não escapou ás rinchavelhadas do povinho ignaro, 
á estolidez dos parvajolas que faziam retinir os guizos 



1 Não longe cTelle foi sepultado Nicolau TolénUno. 



OS CAFÉS 97 



carnavalescos como os machos das liteiras faziam re- 
tinir os seus. 

Mas a penna nervosa do sr. visconde de Castilho 
vingou-o nobremente, fazendo, na Lhboa Antiga, o 
merecido elogio ao desinteresse puro, á stoica firmeza 
de princípios, aos sentimentos altivos, do modesto bo- 
tequineiro, mas exaltado patriota, tão outro dos da 
actualidade, em que o patriotismo se toma... aos 
grânulos dosimetricos, como os de Burgraeve. 



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XIV 



Medidas polici es — José Pedro — Sua vida — Suas í needo- 
t.is — Mia morte —Às batotas de 1810 a 18 17 — Joga- 
dores— Uma rifa interessante. 



Durante a oceupação franceza foram mandadas fe- 
char todas as casas de jogo, á excepção das de 
bilhar. 
Poucos dias depois, e em consequência das desor- 
dens que se travavam entre portuguezes e francezes 
nas tabernas, furam estas obrigadas a cerrar as portas 
às 5 horas da tarde. Esta ordem do governador de 
Lisboa tornou se extensiva a todos os cafés. No dia 
immediato ao da retirada dos invasores, um edital do 
Intendente determinava que a policia puniria os que 
antes do sol nado, ou depois das G horas da tarde, ven- 
dessem vinhos e licores espirituosos. 

Dois annos depois, em 10 d'abril de 1810, o José 
Pedro pedia licença para ter a loja aberta até ás 11 
horas da noite, allegando ser frequentada somente 
pelas pessoas mais bem reputadas de Li>boa, ser um 
homem que sempre manifestara o seu patriotismo, e 
ter concorrido para as necessidades do Estado, confor- 
me as suas posses. 

O Intendente indeferiu, porque não se podia abrir 
uma excepção. 



100 LISBOA D 'OUTROS TEMPOS 



Mas, em 18 M, foi lhe concedida a licença requerida 
«attendendo ao seu patriotismo, de que dera provas 
durante a occupação franceza, e porque, segundo um 
officio de Lord Wellington, já não occorriam os moti- 
vos que haviam dado logar a fechar os botequins ao 
anoitecer» (L.° 13 das Secr.). 

Em 8 de junho de 1823, José Pedro foi obrigado a 
assignar um termo perante o Intendente de Policia 
para que nunca mais consentisse na sua loja de bebi- 
bas «conversações sediciosas e de qualidade tal que 
alterassem o espirito publico,» sob pena de, não só lhe 
ser fechado o estabelecimento, mas ser processado e 
contra elle se proceder com todo o rigor das leis. José 
Pedro allegava que a loja não era sua, mas sim de Pe- 
dro Logè, a quem a arrendara. Não obstante, ficou 
cumulativamente obrigado com o dito Logè a cumprir 
o que lhe fora determinado. (Pap. Div. Maço 11.) 

Depois da Abrilada o botequim das Parras foi obri- 
gado a fechar as portas. Então o José Pedro foi preso, 
e esteve na prisão em companhia do visconde de La- 
borim. No tempo da usurpação de D. Miguel leve de 
homisiar-se em casa do seu amigo Manuel Jusé Machado. 

Suppomos que o seu botequim largou depois uma das 
portas — a da actual tabacaria Gusmão — , porque ahi 
estava, no tempo da Maria da Fonte, a chapellaria 
Carvalho. N'um cubículo d'esta loja era redigido um 
jornal, que o governo cabralista nunca conseguiu saber 
d'onde vinha. 

Em 4846, José Pedro, aos setenta e cinco annos 
d'edade, serviu como soldado no batalhão da Carta. 
Desempenhou o logar de ordenança, e andava, ordina- 
riamente, de bayoneta e muleta. 

À lizura do seu comportamento não o alcatruzou a 



OS CAFÉS 101 



altos postos. Foi nomeado continuo do Congresso em 
4821, continuo do ministério da Marinha em 1826, e 
chefe dos contínuos da Camará dos Pares em 1834, 
exercendo os dois últimos Jogares até a sua morte. 
Nascido em Paço d'Àreos, morreu em i8ó2, coutando 
noventa annos completos. E morreu na mesma casa em 
que vivia desde lbOi, o terceiro andar do lado direito, 
no Rocio, por cima da sua loja de café. Ao lado dVlle, 
no esquerdo, morara o Joaquim Francisco, chapelleiro 
do lado orienlal do Rocio, e no quarto andar habitou, 
durante muitos annos, o fiancez Logè ou Legey, a 
quem elle trespassara a loja. 

O José Pedro das Luminárias era, na occasião da 
sua morte, o mais antigo freguez da freguezia de Santa 
. Justa e Ru fina. Patriota eximio em I80s, e, mais tarde, 
cartista puro, foi sempre um monarchico enragé. Ado- 
rava D. PeJro V. Referiu-nòs o sr. dr. Auguro César 
Alves d'Azevedo que o José Pedro, apesar de seu 
amigo, o censurara asperamente fó por elle não trazer 
lucto pesado, logo no primeiro dia de nojo pela morte 
do mona relia. 

José Pedro ia á praça da Figueira fazer as compras, 
e, quando regressava de cabaz repleto de hortaliça, 
tinha por habito dizer ás pessoas conhecidas, que en- 
contrava : «È para ellas.» Alludia a suas duas íilhas, 
ás quaes legou algumas inscripções, gannas, sabe Deus, 
á custa de quantos sacrifícios. 

Foi um liberal ás direitas, um luzitano de priscas 
eras, um homem a quem não se podia botar em rosto 
um resvalo da honra. Em sua alma habitavam muitos 
d'esses nobres sentimentos, que inspiravam tão pom- 
posos alexandrinos aos heroes de Corneille. 

Sua conversação era animada ; gostava immensa- 
mente de falar das antigas glorias do botequim das 



102 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Parras. Além cTisso tinha boas ditos. Citaremos um. 
Era ministro da marinha o visconde de Sá. O officiaí 
maior chamou o continuo, e, ao toque da campainha, 
José Pedro arrastou-se até ao gabinete do ministro, 
onde se encontravam alguns personagens. 
O offirial maior carrega o sembiaute e diz: 

— Ande depressa, senhor, não se pôde mex^r? Eis 
aqui está de que serve ter na secretaria empregados 
d'estes I 

— Tem razão, senhor, diz o José Pedro, e é por 
isso que eu, todas as noites, envio preces ao Allis- 
simo. . . 

— Para quê? 

• -Para que v. ex. a não chegue á minha edade. 



Em 18Í0 abundavam as tavolagens. A corja dcs tra- 
paceiros, iscados de raposias, versutos em gamboinas 
e pescansos, lá iam armar azeiros aos incautos, como 
os camponios ladinos vão, de mingaehos ao hombro, 
lançar larrafas á cala das bogas nas ribeiras plácidas. 

Havia batotas na travessa da Victoria, no café das 
Sete Purtas na travessa dWssumpção, na rua do Cru- 
cifixo, na Arcada do Terreiro do Paço, no theatro de 
S. Carlos. (L° IS das S?c), na casa de pasto por baixo 
do Arco do Bandeira, ele. 

N'esta ultima houve um barulho em que os jogado- 
res, entre elles um frade, saltaram pelas janellas para 
a rua, e alguns officiaes inglezes resistiram ao juiz do 
Crime do Rocio. 

A do café das Sete Portas estava sob a protecção da 
justiça do bairro. {Pap. Div. Maço d.) 

O produeto das licenças de jogo era applicado á 



OS GAEÉS 103 



Casa Pia do Castello de S. Jorge. Cada bilhar pagava 
annualmente 38?H00 réis, cada jogo de bola t'#'i00 
réis. cada jogo de laranjinha e chinquilho 4&800 réis. 
(L.° 9 das St cr.) 

Por alvará de 7 de junho de 1809 foi determinada 
uma nova contribuição extraordinária de Defeza para 
com ella se auxiliar a salvação do Estado e da sua 
Santa Religião, e a conservação da independência na- 
cional,, paga somente n'aquelle anuo. 

Por ella satisfizeram as lojas de bebidas e licores de 
46SOO réis a 286800 réis, as casas de bilhar de WOO 
réis a 24í>000 réis, e as casas de pasto de 19#:iOO 
réis a 48*5000 réis. (Avisos, etc. Maço 9.) 

Entre os jogadores presos em Í81u figurava um va- 
dio, Francisco Maria Freire Roza, que fora favorecido 
pelo conde da Ega durante o governo de Junot. (L.° 11 
das Secr. pag. 195.) 

Raphael Lorenzani e José Galli, que desejavam to- 
mar a empreza de S. Carlos, requereram privilegio 
para casas de jogo de parar, assim como Francisco An- 
tónio Lodi requerera (em 1808) licença para ter jogo 
de roleta em S. Carlos. Mas tiveram indeferimento, tal 
qual succedera a este ultimo. (L. os 9, 12 e 14 das Secr.) 

E' sabido que o theatro de S. Carlos teve casas de 
sortes e fazia loterias. O theatro da Rua dos Condes 
teve lojas com o mesmo destino. Em 1<S10 a empreza 
d'este theatro desejava a continuação d'esse auxilio, e 
allegava que soccorria, patrioticamente, a Caixa Mili- 
tar, e que, portanto, também a nação era interessada. * 



1 José Joaquim da* Costa Queiroz, antigo emprezario da Rua 
dos Condes, ainda requereu em Agosto de 1814 para realisar nova 
loteria de doze mil bilhetes, como as que lhe haviam sido conce- 
didas por aviso de 10 d'Abril de 1807. Mas não obteve deferi- 
mento, porque já não era emprezario e tinham decorrido muitos 



104 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



A febre das rifas generalisou-se. Alguns até pediam 
para rifar prédios. (L.° 11 das Secr.) O theatro de S. 
João, do Porto, teve egualmente a concessão de loterias. 

A propósito de casas de tafularia, onde os batotei- 
ros pescavam .sem sedélla, referiremos um curioso caso 
de rifa. No ultimo de Fevereiro de 1810, foram pre- 
sas Arma do Livramento e sua filha Izidora Gertrudes 
Paula, duas catraias, que, para darem novo estimulo 
ao vicio, rifavam as suas pessoas ; assim como foram 
presas sete gandaèiras, que entravam no mesmo jogo, 
e remetlidas á Casa da Correcção na Cordoaria. (L.° 11 
das Secr.) 

Em 1812 existia uma tasca na rua da Cruz de Pau, 
com um subterrâneo, onde se jogava de grande. E a 
casa de jogo de Carlos Barlazina, na rua do Crucifixo 
48, 2. 3 andar, era das mais afamadas. Na mesma rua, 
50, eslava a espeluoca do Beiça, onde um D. Marianno, 
hespanhol, batoteava com dados falsos, a que chama- 
vam gascões. 

Cinco annos depois, em 1817, eram apontadas a ba- 
tota do Urraca, na rua Áurea, 20, 1.°, onde se davam 
bailes com o fim d'attrahir os jogadores; a que se es- 
tabeleceu por cima da loja de bebidas do Ananaz no 
Cães do Sodré ; e a da sala do theatro de S. Carlos, 
cujo arrendatário, ou que passava como tal, Francisco 
Aulão Mendes, o Suzana, foi preso. (Corr. confiden- 
cial. L.° 11. fcâ2-293.) 

ânnos depois qne a concessão lhe fora feita. {Avisos, etc. Maço 26.) 
O aviso dos Governadores do Reino, de 8 de Fevereiro de 1814, 
concedera a Manoel Baptista de Paula, director e caixa de S. Car- 
los e da R. dos Condes, a continuação de oito casas de sortes, po- 
dendo, se assim lhe conviesse, transferir uma d'ellas para a vil Ia 
de Setúbal. (Idem. Maço 25.) Em 12 de Janeiro de. 1815 fizeram- 
lhe egual concessão até ao Carnaval do anno seguinte. (Idem. 
Maço 27.) E o aviso de 12 de Dezembro de 1818 prorogon- 
Ui'a até ao Carnaval de 1820. (Idem. Maço 34.) 




<$ ô @ ô ® © @ @ @ ® @ @ @ @ ir® ã • 



Antigos estabelecimentos do Rocio — A botica do Azevedo 
— Soneto de Toleniino — Águia de folha — Concili bulos 
na botica do Azevedo — Lojas conhecida — Historia do 
passo do Senhor dos Passos da Grnçi — No tempo de D. 
Miguel — Os mauvais lieux da calçada do Duque. 



A 



bramos agora um discreto parenthesis para di- 
zermos duas palavras acerca d'alguns estabeleci- 
mentos visinhos do botequim do José Pedro. 



Em seguida a este café era a botica do Azevedo, que 
então tinha os números 77 e 78. Estabeleceu-a em 
4777 o padre Francisco José d'Aguiar, frade domini- 
cano. N'este laboratório chimico (dizia a Gazeta de 
17ft3J o medico Joaquim Henriques de Paiva dava lic- 
ções gratuitas de chimica e pharmacia todas as se- 
gundas, quartas, e sextas feiras, ás 41 horas da ma- 
nhã, e de Historia natural ás terças-feiras e aos sab- 
bados. O frade trespassou a botica a José Cardoso Ro- 
drigues Crespo. E, por morte d'este ultimo, veia a 
pertencer a António Feliciano Alves d'Azevedo, seu 
genro. 

Na capital ha somente duas boticas mais antigas que 
a do Azevedo : a da rua de S. João da Praça, estábe- 



106 LISBOA D'OUTROS TEMPOS 



lecida logo depois do terremoto de 1755, e a antiga 
botica do Anacleto, na rua dos Retrozeiros, estabele- 
cida na mesma occasião. O marquez de Pombal era 
amigo pessoal do fundador da ultima, e, a pedido 
d'este, o estado auxiliou-o na construcção do prédio 
onde ficou a loja, e na do prédio fronteiro. 

A figura que decora o balcão da botica Azevedo data 
do começo da loja. Mais tarde tiraram-n'a, e, ha uns 
quarenta annos. foi repintada e reposta no seu logar. 
Em Lisboa apenas duas outras boticas possuiam adorno 
d'este género: uma no terceiro quarteirão da rua Au- 
gusta, indo do Rocio, a qual tinha um S. Miguel, e 
outra ao fim da calçada de SanfAnna, a qual tinha um 
anjo. 

Nicolau Tolentino frequentava muito a botica do 
Azevedo. A um canto d'ella, á direita, foi onde se pas- 
sou aquella sccna que o zombeteiro poeta descreveu 
no soneto A Dois velhos jogando o gamão, soneto que 
Almeida Garrett considera entre os melhores de To- 
lentino : 

Em escura botica encantoados, 
Ao som de grossa chuva que cahia, 
Passavam de Janeiro um triste dia 
Dois ginjas no gamão encarniçados. 

Corra, visinho, corra-me esses dados. 
Gritava um d'eHes, que nem bóia via : 
De sangue frio o outro lhe dizia 
Mil annexins n'aquelle jogo usados : 

Dez vezes falha o misero antiquário ; 
E ardendo em fúria o tremulo velhinho. 
Atira c'uma tabola ao contrario : 

O mal seguro golpe erra o caminho-; 
Quebra a melhor garrafa ao boticário 
Que foi só quem perdeu no tal joguinho. 

Em 1808 ainda a botica do Azevedo tinha sobre a 
porta uma águia de folha, que datava do principio do 



OS CAFÉS 107 



estabelecimento. Quando os francozes evacuaram a ca- 
pital, o povo amotinou se e correu á porta do Azeve- 
do, tentando derrubar a águia, e clamando que o dono 
era um jacobino Alves de Azevedo trouxe uma escada, 
subiu a ella, e, disposto a destruir a passarola, aren- 
gou á turba, dizendo lhe que aquelle objecto orna- 
mental estava alli desde a fundação da botica. O po- 
pulacho comprehendeu a sem razão da sua exigência, 
e retirou-se em boa ordem, permillindo que a ave de 
rapina continuasse a pairar, com desgarro, sobre o 
portal da pharmacia. 

Na botica do Azevedo reuniam-se muitos conspira- 
dores no tempo dos francezes. 

Fui aqui que, muitos armos depois, alguns lojistas 
se juntaram, planearam e fizeram a representação 
para que fossem supprimidos os frades nos arruamen- 
tos da Baixa, e substituídas as portas dos estabeleci- 
mentos, asquaes, n'esse tempo, abriam para fora, As 
ruas do Ouro, Augusta, da Prata e dos Fanqueiros, 
eram ladeadas de fradrs de pedra da altura dum ho- 
mem, postos á beira dos estreitos pisseios, e que 
nada se pareciam com os frades pitorras, que, ainda 
ha poucos annos, havia n'algims sitios de Lisboa. 

Em mais d'uma parte da Policia Secreta, em 1823, 
se fala do Lourenço da. botica d'Antonio Feliciano. 
Lourenço dos Reis Nápoles, 1 .°. ofílcial da botica, era, 
realmente, não menos enlhusiastico liberal do que 
muitos frequentadores d'essa casa, apesar do medo 
que inspirava o refece Miguel Alcaide, de triste me- 
moria. Escamugiu-se para a America, quando este gal- 
farro mór já tmha ordem para lhe deitar o gatazio. * 
No tempo de D. Miguel, intimaram António Feliciano 



1 Estas informações devemol-,is á obsequiosa amabilidade do 

sr. Dr. Augusto César Alves dAztvedo. 



108 LISBOA D'OL'TROS TEMPOS 



para que tirasse os bancos da loja, isto com o fim de 
evitar os conciliábulos. Mais tarde, a botica Azevedo 
era ponto de confluência dos políticos esturrados. Lá 
se encontravam o morgado. dWssentiz, o padre José 
Theotouio Canuto de Forjo, profundo latinista, o padre 
Marques, professor de philosophia, José Gregório Lo- 
pes da Camará Sinval, primeiro commandante do ba- 
talhão académico, D. Gastão Fausto da Camará, e, 
uma ou outra vez, o notável Castilho. 

Na loja onde está a Mónaco era a mercearia do José 
Dias, o Consciência, assim appellidado por ter sempre 
moedas de 3 réis para os trocos. Ao lado do Azevedo 
estava a loja de sombreireiro do Zaranza e do Pão 
com manteiga. A seguir, na casa agora oceupada pela 
confeitaria Carvalho, era a muito antiga confeitaria do 
Aguiar. Este começou pobremente ; a mulher ia, era- 
biocada em modesto capolilho, á missa dalva. Junta- 
ram fortuna, e edificaram, pouco a pouco, o prédio da 
rua do Príncipe, %i, onde esteve o forno. A ambos 
succedeu seu filho, Ezequiel dWguiar, que foi pae do 
eminente professor e estadista António Augusto de 
Aguiar. Se queriam ver o Ezequiel dar o cavaco, era 
dizer lhe que também fora da archotada, uma man- 
festação Saldanhisia feita n'uma noite de Julho de 
1827, e que consistiu em andarem com archotes pelas 
ruas, realisando-se também idêntica manifestação em 
S. Carlos. 

O prédio que torneja para a calçada do Carmo, em 
cujas lojas está a tabacaria Neves (loja do livreiro An- 
tónio José de Carvalho, em 1800, e loja de caixotes em 
4»09), pertenceu ás freiras Grillas, que o haviam ce- 
dido aos frades Grillos, sob condição d'esles occorre- 
rem ás despezas do culto na egreja do seu convento. 
Pela exlineção das CDmmunidades religiosas e em vir- 
tude da lei de desamortisação, o prédio foi posto em 
almoeda, e vendido ao capitalista Sequeira Lopes. O 



OS CAFÉS 109 

prédio seguinte a este, que também pertencia ás Gril- 
las, foi arrematado pelo capitalista M. A. de Seixas. 

Mais adiante, junto á chapellaria Roxo, existe um 
passo do Senhor dos Passos da Graça. Antes de 1755 
estava quasi no mesmo local, mas encravado no Paço 
dos Kstáos (que partia pelo Norte com o largo do pa- 
teo do Duque, pelo Sul com a parede divisória das ca- 
sas de Thomaz Antouio d'Araujo, e pelo Oesle com o 
dito largo). Todavia, a mesa da Irmandade da Graça 
foi paga do valor do chão d'este passo por precatória 
de ^5 de Janeiro de 1782. (Tombo da Cidade. L.° X). 
. E' claro que o antigo Rocio não < li exa- 

ctamente ao da actualidade. Quando Ai a 

praça, o provedor e mais irmãos da Inm dos 

Passos dirigiram uma petição ao r , aos 

supplicanles, fosse dado o logar, que I ava na 

praça du Rocio. O conde d'Oeiras, de 3 de 

Janeiro de 1761, mandou, em non ha, 

que o Arcebispo Regedor assim o ' mprir. 

{Avisos da Intendência. L ° 4). 

Quando (em 183*) a municipal'; u o du- 

que de Cadaval a demolir as bar, bres 

que occupavam esse lado da pra( a fa- 

zer novas conslrucções para syrnetri du- 

que tentou desapossar a Irmand; Ha de 

terreno, e intentou urna deraai " se 

protelou por alguns annos. Mas a ii hou-a, 

e foi, por consequência, manii ! ; , L l o 

terreno foi considerado encravai 

O letigio versou apenas sobre a p ão do ter- 

reno, visto o duque de Cad;r ter o pas- 

so. (Portugal Antigo e Moderno, vol. IV). 

Em tempos de D. Miguel estacionava, iiouilualrnen- 
te, ao pé do passo um tutili-mundij perl um 

pobre homem sem pernas. Sentai banco 



110 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



em X, e d'ahi puxava os cordelliuhos das vistas. A pe- 
núltima era a grande cidade de Nápoles — uma vista 
que então figurava em Iodas essas exposições cliiu- 
frins — , e a ultima era o retraio d'A7 Rn nosso Senhor 
D. Miguel. Ao passar esta, o homemsinho grilava para 
um petiz, que sempre o acompanhava: — 0' rapaz, 
tira o bonet. 

Afastando-nos um pouco d'este local, referir nos-he- 
mos ainda a um homem muito conhecido depois de 
48^0. Queremos' fallar do mestre Máximo, cordoeiro 
na rua das Portas de Sinto Anlão, n. 0s 33 e 35 mo- 
dernos, do prédio que se está demolindo. * 

Passava por notável enlre os do sen ofíicio, e tão 
notável, que era elle o encarregado de f-ibricar as 
cordas para os senlenceados á forca, assim como fa- 
zia, annualmente, a corda para a cintura do Senhor 
dos Passos da Graça. Apesar de ter meios de fortuna, 
morreu miseravelmente. 

A calçada do Duque (a dois passos do Rocio) foi 
considerada um sitio deveras perigoso. As ruas da 
Condeça e dos Gallegos (hoje do Duque), e o pateo 
do marquez de Penalva, na calçada do Carmo, não o 
foram menos. 

Quem dictava a lei por estes logares era o José Cota 
- um fadistão velhaco, um azevieiro cheio de faroíia. 
Na calçada do Duque, á direita de quem sobe, havia 
uma tasca, que communicava com o pateo, conhecida 
pela taberna da Joaquina do Forno. (Crimes de Diogo 
Aloés. L. Bastos). 

E na mesma calçada, n.° 17, lado direito, descendo 
para o Rocio, havia a taberna da Rilta, onde todos os 
domingos e dias santos se juntavam 15 e 20 ratonei- 



1 Estava- se demolindo em Fevereiro de 1897. Agora está re- 
construído. 



OS CAFÉS 11 1 



ros dos que infestavam a cidade. (Cot rrspondencia con- 
fidencial. L.° ±° Corle). 

Os harpejos dolentes, as subidas diatónicas na gui- 
tarra, a toada rouquenha das gargantas estragadas 
pelo álcool e pela syphilis, o fanliosear dos borracliões, 
a versalhada fadistal, muito estrangulada de ais! o 
sapateado tremulo do fado, do solo ingiez e dos fan- 
dangos desnaigados, era o que mais se ouvia n'esses 
antros, onde a ronda não se atrevia a entrar, com re- 
ceio de andar em bolandas deante do bico dos sapatos 
e do bico das taças da franduiagem. 

Meretrizes frangalhnnas, esmammalliadas, de pomas 
molles á mostra, croias muito avezadas a apregoar as 
melancias da vargem e os bribigões cosidus, ratonei- 
ros atrevidos, souleneurs tresandando a suor e a fumo 
de cigarro, constituíam a chusma parasitaria, que es- 
cornnva pelo bairro como uma manada de garraios 
desembolados. Nos casebres que demoravam dentro 
do pateo (derrubado para a construcção da estação 
central dos caminhos de ferro), e d'ahi até á rua do 
Príncipe, deram-se muitos acios criminosos, que fica- 
ram impunes, praticaram-se infâmias a cujos auctores 
a justiça dos homens nunca poude pedir coutas. 




cio..n_ru^.np 

nJi_n.n.ruT.Jxan_r J .< >1 6 o.^aaaaaaaaaaaaíiiíiltf 
~'rti<õ( >; OpTLnj-u-urLrtru-u-tjUiJ-u-úra;!?. 



XVI 



Na 111,1 do Jardim do Regedor. — Palácio da Inquisição. — 
O café das Sete Porias- eo café Montanha. — António 
Marrare, reformador dos botequins lisboetas. — Os italii- 
nos. — Os cafés do Marrare. — O Marrare de S. Car- 
los. — Lina campanha em S. Carlos. — Cm excêntrico. — 
O mais antigo logisia do Chiado. 



Uevenons à nos moulons. 

■ Por baixo do Jardim do Uegedor, á face da rua 
(Teste nome, havia algumas lojas. N'uma d'ellas estava 
(em 1-SOG) um café. que, rnima djs portas, linha o 
letreiro seguinte: Hinc qnod bonum esl intrínsecas vi- 
delur. (Lisboa Antiga. Castilho). 

palácio da Inquisição possuía seu jardim sobre 
um muro que fazia frente ás ruas do Príncipe e do 
Jardim do Regedor. Esse jardim foi iliuminado bri- 
lhantemente por -J00 lanternas e varias tochas de cera, 
na varanda que cahia para a parte exterior, durante as 
noites de 13 e 18 de junho de 1785, quando o em- 
baixador hespanhol, conde de Fernão Nuôez, festejou 
os casamentos do infaute Gabriel com a infanta portu- 
gueza D. Marianna da Victoria, e do infante porluguez 
D. João com D. Carlota Joaquina, mas, mais especial- 
mente, a chegada d'esta ultima a Lisboa, porque os 
primeiros já haviam sido festejados antecedentemente, 



M4 



LISBOA D OUTROS TEMPOS 



para o que o embaixador pedira o palácio do Rocio, 
afim de celebrar essa fimeção. (Gazeta). 

O jardim, a'mda que de curto recinto, accrescenta a 
Gazeta, serviu de grande desafogo aos concorrentes, e 
excitava a idéa de uma engraçada festa campestre. 

O conde de Fernan Nuíiez esteve muitos annos em 
Lisboa, e aqui lhe nasceu um filho em 1770, dando, 
por occasião do baptisado, grande ceia e baile, que 
durou até ás 5 horas da manhã. 

Não podemos precisar a data em que o jardim da 
Inquisição desappareceu para dar logar aos prédios 
que lá se vêem agora. Mas o que sabemos é que em 
1802 alguns prédios fronteiros na rua do Príncipe (lado 
Occidental) ainda estavam em eonstrucção (Gazela. 
180i), e que aquelle jardim ainda existia em 4813. 
(Gazeta n.° 235). 

Em 1795 já havia á esquina da rua Nova dos Mar- 
tyres, defronte do lheatro de S. Carlos, a casa de 
pasto do Carlos José Piemontez. Ora esta casa, (café 
em 1810) tornou-se suspeita por ahi se juntarem fran- 
cezes e italianos, taes como o Serino, e o rabequista 
José Galli, de S. Carlos, o Caetano Miíaòez, figurante 
d'esse lheatro, o negociante Traberso, etc. Supponho 
ser este o café Genovez, que ainda em 1824 existia 
no largo de S. Carlos. (Gazeta). 

O café das Sete Portas ou Minerva das Sete Parlas, 
na travessa d Assumpção, n.° 10, antigo, á esquina da 
rua do Arco do Bandeira, linha no primeiro andar (em 
1810) um bilhar e jogo de banca, pertencentes a An- 
tónio José de Sá. A jogatina era patrocinada pela jus- 
tiça bairrista. (Pap. Dio.) Em J817 foi preso b cai- 
xeiro por ler aquelles jogos e mais os de gamão e 
carta?, sem estar munido de licença para tal. Mas o 
sugeito allegou que a licença estava em nome d'outros, 
que haviam tom&do a casa por trespasse a um Fran- 
cisco Peres. (L.° 33 das Secr.) Em 1818 pertencia a 



OS CAFÉS l'Í 5 



um João Viclor, que annunciava o trespasse do café 
na Gazeta. Em 18á/, anno em que fechou, pertencia a 
Joaquim Manuel Coutinho. Este botequim tomara o 
nome das Sete Portas por ser o numero de portas qus 
tinha para o Arco do Bandeira. 

O prédio foi, mais tarde, occupado nas lojas pela 
cocheira de trens d'aluguel do Fedro MarthoíO, por 
uma taberna, e pelo estanco d'uma mulhersinha, é no 
primeiro andar pela hospedaria da Romana. 1 

Eram esses es inquilinos, quando, ein 186'*, o sr. 
.Manuel Nunes Ribeiro Montanha, arrendou a casa por 
espaço de doze annos, e estabeleceu n'ella o café Mon- 
lâtiha, que abriu na quarta feira, 15 de fevereiro de* 
1865. O dono do café comprou depois o prédio, e am- 
bos, por fallecimento do sr. Montanha, em IStfl, pas- 
saram a seus herdeiros. 



1 Nos fins do século XVIII houve cafés, ou easas assim chama- 
das, que davam hospedagem. Estavam rfestê caso o café Inglez, 

na rua Nova do Sacramento, e o café Neutral, a que nos referi- 
mos em pag. 21. Foi n'este ultimo que sr- hospedou o famosíssimo 
Caghostro, que tão importante logar teve na chronica secreta d'a- 
quelles tempos. Um aviso do visconde cie Villa Nova da Cerveira, 
datado da Viila rias Caldas aos 8 de Maio de 1787, e enviado ao 
Pina Manique, ordenava-lhe que investigasse se um homem que alli 
usava o nome de D. José, conde de Stephanis, era, 
realmente, o celebre Cngliostro, que fugira de Londres. Este aviso 
respondia á carta de 7 de Maio, em que o Intendente expunha as 
suas suspeitas, depois de ter annunciado' a chegada do aventu- 
reiro. O ministro determinai i que o tivessem bem vigia,!'-., e que^ 
se praticasse algum acto crimi fizessem sahir da floite r 

do Reino, «debaixo das comminaçocns das penas, que V. S a 
achar que podem tirar-lhe a vontade de tornar aqui a appareci r. ■ 
Assim fechava o aviso. 'Regista de Uecretos, Alvarás e Avisos. 
Liv. 83-246, tis. 202 e 202 v.) 

Este documento., arrancado ao pó funerário dos archivos ; prova 
bem que o Cagliostro, na sua passagem por Lisboa, não escapou, 
apesar de suas astúcias de nigromante, aos fogos crusados da 
pesquizâs policiaes do Manique. 



J 1 fl LISBOA DOUTROS TEMPOS 



O botequim ou casa de paslo por baixo do Arco do 
Bandeira não primava pela decência. Caetano Piacen- 
tini estabeleceu ahi uma academia de dança, mas, pou- 
cos dias depois da inauguração, foi preso por ter in- 
troduzido bailes indecentes, chegando a admillir mere- 
trizes com bilhetes que se vendiam á porta, o que de- 
terminou ajuntamentos escandalosos. (L.° 33 das Secr.) 



Passemos agora aos celebrados botequins do Antó- 
nio Marrare. 

Este homem foi o restaurador das lojas de bebidas 
lisboetas. Era napolitano, e veio para Lisboa contra- 
tado como copeiro da casa dos marquezes de Niza. 
Pançudo, corado, inxundioso, meio adormecido, an- 
dava vagarosamente, amava com delírio os appetito- 
sos productos da cozinha italiana, e superintendia, 
com seus. pequeninos olhos desperta Ihâo, aos negó- 
cios botequinistas. Conservava-se, habitualmente, em 
pé, e, quando muito, encostava-se ás paredes ou aos 
humbraes das portas. Se lhe pediam que se sentasse, 
obtemperava logo na sua linguagem mesclada : Gra- 
zie. Non mi sento, nó , perche se mi sento. . . dormo. 
Che volele? dormo. (Lisboa Antiga. Castilho.) 

Paulo Midosi dizia, pilloreseammte, que o velho 
Marrare tinha o feitio d'um garrafão monstro. 

Marrare desempenhou em Lisboa o mesmo papel que 
outro napolitano, o Velloui, representou em Paris. Vel- 
loni fundou, além d'outros cafés, o famigerado Tor- 
toni. 

Numa lista que o cônsul geral da Sicília, Vicente 
Mazzioli, m miava ao ministro do Reino em 1813, na 
qual dava os nomes dos italianos residentes em Lis- 
Lisboa, antes da Revolução de França e Itália, appare- 



OS CAFÉS 1 17 



cem : António Marrare, siciliano, Francisco Ferrari, ge- 
uovez, que se naturalisou portuguez para não pagar 
meio por cento qne pertencia á egreja do Loreto; 
Lwz Ferrari, capeliista e Hilário Ferrari, com loja de 
bebidas, ambos genovezes ; José Midosi e filhos, ro- 
manos ; Bento Cosmelli e José Cosmelii e íilbos, geno- 
vezes; Marcos Filippe Campodonico, genovez; Radich, 
negociante siciliano; Raphael Gavazzo, negociante sici- 
iiano-, Jeronymo Pedro Gliira, negociante veneziano; 
Pedro Scola,* guarda-livros, milanez; Lourenço Testa, 
genovez; José Del Negro, com loja de crystaes, tos- 
cano ; Alberto Gnecco e Francisco Gnecco, com lojas 
de bebidas, genovezes; e Angelo Filippe Bessone. 
(Avisos, ele. Maço 24.) 

Cremos que todos, ou quasi todos, teem ainda re- 
presentantes em Lisboa. 

Domingos Caetano Marrare, filho do botequineiro, 
teve uma aventura amorosa em 1821 com uma conhe- 
cida senhora franceza, C. T. B., o que lhe valeu um 
processo ruidoso. (Correspondências, etc. Maço 10.) 

Ainda houve um processo em que figurou o Mar- 
rare, pae. Foi quando o seu cozinheiro Agostinho Cle- 
mente assassinou o seu caixeiro José Nancelli, em 
1814. (Avisos, etc. Maço 21). ) 

António Marrare fundou quatro botequins ; o de 8, 
Carlos á esquina da rua da Figueira (hoje rua An- 
chieta), o chamado Marrare das Sete Portas no Arco 
do Bandeira, o Marrare de Polimento no Chiado, e o 
do Cães do Sodré n.° 9, á esquina da Travessa dos 
Ilomulares (hoje, a Taberna Ingleza). Este ultimo aca- 
bou em 30 de Junho de 1827. 

Asseveramos que os botequins do Marrare em S. 
Carlos e na travessa de Santa Ju>ta jà existiam em 
1804 {Gazeta), e o do Cães do Sodré em 1809 (Pap. 
Div.) 



4ÍS LISBOA D'0U TltOS TEMPOS 



iVessa epocha lodo o serviço dos seus botequins era 
de prata, as bebidas das melhores, e o café puro, im- 
raune das tranquibernias mysteriosas de copa. 

O Marra re lambem teve uma loja de vinhos engar- 
rafados no largo de S. Carlos, a qual mudou para a 
rua das Portas de Santa Calharina (Chiado) em 1818. 

O café Manare, da rua da Figueira, tornou se sus- 
peito de ponto de reunião de jacobinos em 1809. E a 
essa suspeição não escapava n o próprio Marrare, os 
seus dois caixeiros, e o administrador italiano. 

Por falecimento do fundador d 'estes botequins, o 
seu testamenteiro annunciou no Diário do Gnverno de 
30 de Dezembro de 183u que, em publico leilão no 
escriptorio da testamentária, se trespassariam as lojas 
de bebidas e bilhares sitas na travessa de Santa Justa, 
5 A, e na Travessa da Parreirinha, 2. Esta ultima foi 
tomada pelo Henrique António Nunes. Tornou-se muito 
frequentada pelos dilellanti do theatro iyrico. Là se 
planearem muitos triumphos e muitas derrotas aos 
cantores de S. Carlos. 

O café do Henrique era o ponto de reunião da mo- 
cidade dourada e priteada, pois também lá iam velhos 
foliões, diz Paulo Midosi ; era o quarlel-general dos 
boccabadi<tas, quando se deram as celebradas luctas 
entre os partidários das cantoras Barili e Boccabadati. 
(Folhetins do Diário de Noticias. 1881). 

Quantos episódios curiosos, quantas ovações o quan- 
tas pateadas provocaram os dois grupos arregimenta- 
dos sob as bandeiras d'aquellas duas Clormdas da 
arte. . . 

Por entre aliusõos maliciosas appareceu um dia no 
Entre-acto o seguinte: — Às pateadas: » Corre que ha 
em Lisboa uma seita, que tem por tim promover o 
consumo do calçado que por ahi jaz reêequido n'essas 
vidraças, e que decidira palear tudo nos lheatros, sem 



OS CAFÉS 119 



conta, peso, nem medida, por ser este o melhor meio 
de gastar tacões. A ultima paleada fez augmentar um 
vintém em cada par de botins.» Passados dias o grupo 
da Barili fazia distribuir no tlieatro o seguinte soneto: 

Á BOCCABADATI 

.Limais farta rTessencias, d'aTTebiques, 
Indo ao pincel devendo alguns retoques, 
Para que um riso motejadof provoques. 
Cobrindo a estuque os últimos tabiques. 

Cheia d'idéas vãs, de tiques miques ; 
Primeiro que estouvada o palco embiques, 
A parasytas mil dando remoques 
Para te auxiliarem quando embiques. 

Arrotando a licor e ctbifestéques» 
Afim de que nas volatas não afraques, 
Entras aos tropeções quebrando Jeques. 

O ultimo tercrtio não é publicavel. 
O grupo da Boccaba lati ripostava mandando distri- 
buir o seguinte soneto : 

Á BABILi 

Da negra inveja a fúria detestada 
Houbar te em vão pretende da harmonia 
Boccabadati, a primazia, 
Pelo applauso confirmada. 

Apenas da Barili a brejeirada. 
A zurro e coice e bruta gritaria 
Se deleita em mostrar a vilania 
Piíio esforço d'alma depravada ! 

Mas para que do publico os ouvidos 
A capricho de biltres, cinco ou dez. 
Hoje sempre não fiquem aturdidos. 

Também n'este o ultimo tercetto era insolente. A 
meta continuou dura e fera, chegando a Barili, uma 



1ZU LISBOA UUU11UJS lb.WUS 



occasião, a ameaçar o D. Álvaro, o malladetUi nero, 
como ella lhe chamava, de que lhe faria engulir a som- 
brinha. 

Afinal os dois grupos pactuaram, n'uma reunião que 
se effectuou em casa da Barili, na rua da Figueira, 
suspender as hostilidades na noite em que se reali- 
sava a première da Joanna Primeira, do maestro Cop* 
pola, o que se daria a 1 I d'outubro. 

Apesar de n'essa noite chover torrencialmente, o 
theatro estava repleto, e o espectáculo correu sereno 
até certa altura, entre poesias, flores das bambolinas, 
ricos presentes do conde de Farrobo, embora fosse 
boccabailista, um soneto em italiano do Perfume e uma 
coroa oííerecida pelo Freitas Jacome, com a seguinte 
quadra: 

Em premio do teu mérito subido 

Essa coroa recebe, eximia actriz, 

Ganhaste -a novamente a quem t'a otíerece 

E' de tens dons imparcial juiz. 

A breve trecho, porém, o tal pacto fracassava, por- 
que os applausos excediam a gtamma, e, como trop de 
zele gale l»s affaires, no dito de Talleyrand, o espectá- 
culo terminou por uma paleada medonha { . Passados 
dias o Entre- Acto inseria este soneto: 

De ledas graças pudibunda Rosa 
Magico emblema mil sulíragios tinha ; 
Foi proclamada Ínclita rainha 
Dj Flora nos jardins, corte mimosa. 

Eis desabrocha a Tulipa invejosa 
Quanto em seu cálix mais gentil continha, 
K em circo d'ella a multidão se apinha 
Volúvel sempre, e sempre caprichosa. 

Mas passa a Primavera c vae com ella 
Da Tulipa o ephemero reinado, 
Ficando sem rival a Rosa bella. 



1 Folhetins de Paulo Midosi. publicados "no Diário de Xoticias 
de 1881. 



OS CAFÉS 12 í 



Assim linda Barili foi teu fado 
Socega, que passando atra propelia 
Teu sólio te será outra vez dado. 

Reatemos. Em 18 í5 deu-se no café da rua da Fi- 
gueira uma academia ou desafio de bilhar, em que 
cada bilhete d'enlrada custava um pinto ('«80 rs.). 
Eram dois os contendores. O que ganhou recebeu 
sessenta pintos, que tantas foram as entradas. 

Refere Paulo Midosi que, entre os bchemios frequen- 
tadores de botequins, havia então o Castellani, cantor 
menos que medíocre, mas um engraçado bon vivant. 
Tinha a mania de haver estado na Rússia. No Tavares, 
no Marrare de polimento, e no Henrique António Nu- 
nes, ferviam as apostas ás pulas e ás bolas mettidas 
n'uma garrafa forrada de verga. 

O Castellani não seria um grande artista, mas era, 
com certeza, um pelintra de primo cariello. 

Apostava sempre no numero mais baixo das bolas 
da pula, jogo em qui ganha quem tem o mais alto 
numero. Pois, ao infefiz, sahia sempre o numero um. 

Raivoso com a sua desdita, resolveu tirar vingança, 
e, uma noite, empalmou o numero um e foi escondei -o 
em certo sitio debaixo da cama. No dia immediato vol- 
tou ás apostas; como não apparecesse o numero um, 
convencionou-se que o dois seria um, e assim por 
deante. 

Chocalham-se as bolas, e, ô fatalidade ! o italiano 
tira o numero dois que representava o um. Castellani, 
furioso, exclama então. MaladHto biglardero, una pioca 
a"ursi bianchi comme ho vedutlo in Rússia, cosi grandi ! 
(indicava um tamanho estupendo) ti rompa la (esta ! 

Outra noite, Castellani não tinha dinheiro. Jogou, e 
tirou da algibeira uma nota, que lançou no azar onde 
se mettia a bola. A sorte foi-lhe, como sempre, adversa, 
e elle tomou a resolução de se pôr ao fresco. Quando o 
parceiro feliz, admirado do italiano não ter esperado 



122 lisuoa d'outí<os tempos 



pelo troco, foi procurar a nota, viu, com pasmo, que 
elle apenas mettera um minero do Grátis, um jornal 
cTannuncios que era impresso ifum quarto de papel 
pardo, jornal que deu uma pequena fortuna ao seu 
dono, o typographo Manoel António Ferreira Portugal. 
O segundo proprietário d'este café foi sccio com o 
sr. Francisco Marcos Pereira, estabelecido com pape- 
laria na rua Nova dos Martyres (rua Serpa Pinto) l . 

O cfaé do Henrique — bello, f.irto e decente — fe- 
chou em 1844, e o Henrique morreu ha mais de vinte 
annos. 

A' loja do Pereira iam muito os críticos theairaes, 
sendo o principal Ribeiro Guimarães, com quem o Pe- 
reira costumava ir, de tipóia, ás esperas de toiros, se- 
gundo elle mesmo nos contou. 

O Commercio do Portugal n.° 3.Í39 diz que Vicente 
Corradini, que morava no 3.° andar por cima da antiga 
loja do Pereira (hoje armazém de Ramiro Leão), quasi 
que fazia escriplorio d'este estabelecimento. Com o Coiv 
radini deuse um caso pouco vulgar. 

Depois da sua morte soube se que nunca se chamara 
assim, mas que o seu nome era Ciro José António 
Brati. 

Quando os parentes vieram habilitar se para her- 
heiros restabeleceram o seu verdadeiro nome. Parece 
que se vira obrigado a mudai o, em consequência de 
ter emigrado por motivos políticos. Corradini empre- 
gava a seguinte formula para aquilatar o mérito das 



' Francisco Marcos Pereira merece uma nota. Foi immensa- 
mente conhecido dos frequentadores de S. Carlos d'antigos tem- 
pos. A' sua loja de papel no Chiado iim muito os emprezarios 
Domingos Lombardi e Vicente Corradini, Hianchi (conde de La- 
vagna), director de scena, Baptista Podestá, que fundou o hotel 
Universal, e cujo pae dava hospedagem aos artistas de S. Carlos 
rfum 2.° andar da rua do Outeiro. Entre os primeiros hospedes 
que o li lho recebeu contavam -se o Beneventano, o Frascbini e o 
Bartolini (que era cunhado do Tamberliek). 



OS CAFÉS 123 



operas — eram, apenas, boas as que enchiam a gaveta 
de dinheiro. 

Marcos Pereira era o mais antigo lojista do Chiado. 
Paulo Midosi definiu o assim : 

«Tribuno philosopho e livre pensador, inoffeusivo, 
atirando para republicano por Índole e organisação». 

Sendo intelligente, possuía conversação variada, in- 
teressante, temperada por uma pontinha azeda de má- 
lingua, por certo sainete avinagrado de maledicência, 
que, afina! de contas, ò o pick-me-up da cavaqueira na 
nossa terra. Morreu em Maio de I8.1H. 




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-II I M I I I II i I 



\\l! 



O Marrare do Arco do Bandeira —Vintistas a errimos — O 
Manoel Hespanhol — Mudança de cliente] la — João da 
Malta e as suas subtilezas gastronómicas — Os restaurants 
do Chiado e os seu- sophismas culinários— O Marrare de 
polimento, quartel-general do dandysmo — Etcscreve-se o 
Marrare — Scenas marrarens^s — Depoimento de testemu- 
nb ;S ocul res — O Ferrari— Unia curiosidade zooIo.ííícj. 



Marrare do Arco do Bandeira estava sob a vigi- 
lância da espionagem policial em 18 0. Ahi con- 
corriam muitas pessoas que ella aílirmava senm 
partidistas dos francezes: o dr Moraes Callado. Fran- 
cisco de Paula, guarda mór da Chancellaria-mór do 
reino, o sargento mór de milícias do Fl^nríque de 
Mello, o dr. João Ctiriso^lomo e Joaquim Gregório, 
revedor da Cliaucellaria. {Pap. Div.) 

Passados annos, em 1820, juntavam-se n'este caffé 
os radicaes vintistas. 

O teneule de caçadores António Ignacio de Paiva 
Raposo, mais tarde miguelista da gemma. empoleira- 
va-se n'uma meza do Marrare do Arco do Bandeira, e 
d'ahi dava e fazia dar vivas á Constituição. Kra da 
mesma força d'um D. Gil que ia interromper os comi- 



120 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



cos da Rua dos Condes com uma berraria sem fim;; 
do D. António da Silveira que, uma noite, se espojou 
doido cTalegria no salão de S. Carlos ; e do Alpoim, o 
poeta do Cabreira, cujos versos eram repetidos n^ste 
íheatro e no quartel-gtneral do largo do Quinlella. Por 
derradeiro todos elles voltaram a casaca. (Polida Se- 
creta). 

Em 29 de janeiro de 1821 Iravou-se desordem uesse 
café entre João Carlos Mourão Pinheiro e António 
Marcellino, ex-Corregedor de Santarém. Este mandou 
depois desafiar aquelle para se baterem á pistola no 
Terreiro do Paço ! Abriu se devassa, em que depoze- 
ram os caixeiros do Marrare. (Correspondências, etc. 
Maço 10). 

A policia continuava a ter este botequim debaixo de 
vista em 1823. A parte da policia secreta de 13 de 
Novembro diz que na noite anterior se haviam reunido 
u'uma das mezas uns cinco sujeitos, que conversavam 
muito devagar, e que se tornaram suspeitos, mas que 
só se haviam conhecido o Euzebio Cândido, tenente- 
coronel d'engenheiros, e um Motta, de habito de Chris- 
to, morador no largo d'Annunciada. A parte de i2 do 
mesmo mez diz que na noite anterior houvera muita 
gente n'este café, mas que falavam em voz tão baixa 
que nada se poude perceber, á excepção d'algumas 
palavras soltas pelas quaes se conheceu que se refe- 
riam á Gazeta, ao triço e á esquadra ingleza. ÍPap. 
Diu. Maço 11). 

Em 17 de Fevereiro de 1824 deu-se o seguinte des- 
acato n'este botequim famoso. O major de milícias, An- 
tónio Lobo da Gama, já conhecido por vociferar con- 
tra o rei e a famiiia real, entrou alli, e, vendo a Ga- 
zeta, amarrotou-a, limpou com ella os botões do fato e 
os botins, e, por fim, atirou-a ao chão e pisou-a aos 
pés, mostrando, por tal forma, o desprezo «que lhe 
merecia aquelle papel ministerial», conforme diz um 



OS CAFÉS 1^7 



officio do Juiz do Crime do Castello. (Corr. Confiden- 
ciai Corte. N.° I). 

Quem administrava este café em 1829 era o italiano 
José Salomão Marquezzi. (Concspondencias, ele. Maço 
130). ' 

Fallecido o António Marrare, foi António Lodi, cu- 
nhado do Farroho, quem arrematou este botequim 
para o Manoel Hcspanhol. N'essa occasião o estabele- 
cimento possuía em deposito, no subterrâneo, grande 
quantidade de bons vinhos e cerveja engarrafada. 

A casa contava como clientes assíduos os actores 
Epiphanio, Tasso, e Theodorico, nos bons tempos da 
Prcphecia e do Templo de Salomão. Jogava se o bilhar 
entre artistas, avultavam as apostas, tomava-se o seu 
café antes do theatro. 

A' noite, ceava-se lautamente, e o gerente da casa, 
o Domingos, pegava na costaneira respectiva e debi- 
tava os janotas, que, d'ordinario, nunca pagavam. (Os 
excêntricos do mm tempo. L. A. Palmeirim) 

Manoel António Peres, appellidado o Manoel Hespa- 
nhol, morreu em 5 de junho de lfeC8, victima d'uma 
queimadura n'um braço, á qual sobrevieram erysi- 
pella e febre lyphoide. Foram herdeiras a viuva e uma 
filha, actua! proprietária do café. 

O Diário de Noticias d'aquelle anuo, referindo se 
àquella loja de bebidas, dizia o seguinte : — * Fórum 
e tribuna, escripterio e praça de commercio, palco 
onde se representaram dramas senlimentaes e come- 
dias burlescas, o decano dos botequins da Baixa, suc- 
cessor das glorias do Nicola e d'outros respeitáveis as- 
cendentes». 



1 Marrare teve como seu empregado,' ale 1832, a Alexandre 
Fernandes da Fonseca, o iniciador das associações de soocorros 
mntuos em Portugal. 



128 LISBOA D'OUTltOS TEMPOS 



Com o decorrer do lempo o Marrare das Sele Por- 
tas (porque lambem llie davam este nome) cambiou 
de clientella. Aos políticos e aos arliMas succederam 
os amadores taurinos e os ealaceiros profissionaes. 

As conversações, cujo motivo fundamental era um 
d'esses factos deliciosos ou perversos, que o acaso 
borda, em arabescos, sobre a trama d'uma existência 
de politico ou d-arlisla, succederam as cavaqueiras 
pascacias em que se parvorja ao escote, em que fer- 
vem as salabórdias brejeiras, e em que, vagamente, 
transluz a preoeeupação tacanha do salto de garrocha, 
da pega de cernelha, ou daquellas pontinhas muito 
retorcidas que se erguem ameaçadoras no horizonte 
dos matrimónios modernos. . . 

Ao Manoel lltspatihol cabe a gloria de havpr creado 
o primeiro' restauram fino de Lisboa. Estabeleceu-o no 
primeiro andar do prédio que torneja do Cães do 
Sodré para a rua do Alecrim. Ahi lhe succedeu João 
da Malta, em 18o A, com o seu primitivo restauram, 
annunciando então que «offereeia uma sala decorada 
com um go>to totalmente novo, e ainda não visto em 
Lisboa.» Tornou se a casa favorita da roda chio-- Teve 
uma clientella magnifica. Janotas e littératos, políticos 
e bohemios, todos vinham á jube domine do marechal 
dos cozinheiros nacionaes, do principe dos manipula- 
dores (facèpipes, que — d'avental e barrete branco — 
dictava a lei em assumptos culinários. 

Os principaes testaurants da epocha foram o do 
Malta, o do Chapellier — um inspirado, um bruxo! 
como lhe chama Beaalcanfor — , e o do Simão Molle, 
primeiramente no largo do Pelourinho e depois no 
Corpo Santo. O visconde de Benalcaníor prestou a 
merecida homenagem a todos estes eminentes discípu- 
los de Brill «t-Savarin no seu espirituoso folhetim, As 
Necmpoles do estômago, inserto no Diário de Noticias 
de 188á. 

O Malta mudou o estabelecimento para a rua do 



OS CAFÉS 120 



Oiro, omle hoje está o Monte Pio Geral, dahi passou 
para a rua Nova. do Carmo, depois abriu um hotel no 
Chiado, tendo, ao mesmo tempo, um restauram na 
do Outeiro, ainda depois transferiu o hotel para o Ca- 
Ihariz, e, por fim, para a Avenida da Liberdade. 

Pôde, francamente, dizer se que nenhum porluguez 
comprehendeu melhor do que elle toda a philosophia. . . 
pantagrueliea, que se encerra na nossa quadra popu- 
lar: 

Comer e saber comer 
São dois pontos delicados, 
Os que comem são sem conto, 
Os que sabem são contados. 

O Malta teve por succedaneos: o Souza da rua do 
Outeiro — que já lá vae ha muilo — o reatauranl Club 
e o restaurara Augusto, onde as archi-usadas C ! eopa- 
Iras de pacotilha — com habitáculo nos lupanares cas- 
tilhões de S. Roque — vão devorar as ostras e os la- 
gostins regulamentares, borrifados pelas lagrimas da 
viuva Cliquot ou pelo ouro potável de Xerez, (Jue ellas 
seriam capazes de beber com pérolas desfeitas... se 
os Ántonios modernos não soubessem o preço por que 
sahiam as que a outra — a prostituta histórica — to- 
mava com o vinho de Syracusa. E' aqui que se dão os 
ágapes, onde as estrellai do demimonde — vaga lumes 
que se tomam per eslrellas — trazem o turbilhão das 
suas saias, o carrilhão do seu riso, e o vasconço do 
seu dizer, arrevezado, indecifrável como o volapuk, 
incomprehensivel como o enxacôco dos caixeiros janotas. 

O Marrare de polimento, no Chiado, 25 e 20 antigos, 
58 e 60 modernos, onde é a chapellaria Augusto Ri- 
beiro, foi, incontestavelmente, o mais famoso de lodos 
os botequins lisbonenses. Era frequentado pela corru- 
pção dourada, pelos petimélres mais elegantes e de 
bom recibo, pelos noitibós bohemios, pelos dilettanti 
que lá iam trocar o santo e a senha para a próxima 



130 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



pateada em S. Carlos, pela nata dos lettrados, por to- 
dos os que possuíam brevet d'esprit, por todos os que 
se habituavam a mirar — atravez do vidro sem grau 
do monóculo inamovível— os anjos cabidos ... no Chiado 
ou as virgens que vinham de Cythera . . . e iam para 
o Loreto. 

Teve também como freguezes alguns artistas de S. 
Carlos: Tamberlick, Fiori, Conti, Baldanza *, o gordo 
Miraglia, o Volpini, etc. 

Com este botequim deu-se o caso insólito de, nos 
seus primórdios, não ser permittid-o fumar ahi. (Sum- 
mario, etc.) 

Por cima do Marrare do Chiado esteve, em 1829, 
um armazém de papeis pintados (Gazeta), e em 1850 
o alfayate Yung, fornecedor d'el-rei D. Fernando. Yung 
pagava quatrocentos mil réis de renda annual, e o 
Marrare pagava duzentos mil réis. Depois esteve o car- 
tório do tabellião João Baptista Ferreira, o Musica, 
que era filho d'um cabelleireiro do primeiro barão de 
Quintella, e que frequentou a Universidade de Coim- 
bra, subsidiado pelo cofre da Intendência Geral de Po- 
licia. (L. os 20 e 21 das Secr.). Depois foi traductor do 
Emilio Doux, do theatro Normal, e, finalmente, tabel- 
lião, graças ao conde de Thomar. 

Este café tinha duas taboletas : uma dizendo — Vi- 
nhos superiores engarrafados, café — e outra dizendo 
— Licores e outros objectos. Bilhar. — Entre as duas 
portas estava um lampeão, e, sobre elle, o dístico — 
Marrare. Entrando-se, havia á frente uma sala peque- 
na, á direita um corredor com mesas que conduzia ao 
bilhar, á esquerda outro que levava á cosinha. 



1 Com o Baldanza houve um caso singular. Deu o nome a uma 
taberna na rua Nova dos Martyres (hoje rua Serpa Pinto). Por- 
que o dono d'esta era baixo, gordo e se parecia immenso com o 
cantor, o publico começou a chamar- lhe o Baldanza, nome que se 
extendeu á caza de pasto e que ficou. 



OS CAIES 131 



Chamava-se de polimento, porque, até certa altura, 
era forrado de madeira polida. 

A esta sancta sanctorum das elegâncias chamava 
Silva Tullio — «este pandemonium da janotaria e da 
lilteratura lisbonense, esle museu de typos extrava- 
gantes„ emfim o primeiro café de Lisboa». (A Semana. 

YOl. II). 

Era o príncipe dos botequins, que então abundavam 
desde o Chiado até á rua Larga doLoreto; era o café 
do bom tom. Ahi se agrupavam alguns dos mais ladi- 
nos jogadores do xadrez politico, ahi se via José Es- 
tevão conspirando contra os Cabraes, e Passos Manuel 
fazendo a sua propaganda da maçonaria ; ahi se mo- 
dulavam, entre o café e o cognac, os trechos mais 
perturbantes do sparttito da Maledicência, ahi con- 
fluíam os estratégicos de pacotilha para tramarem pla- 
nos de campanha no theatro lyrico. A's portas casqui- 
lhava a fleur des pois alfacinha, os mais filauciosos ho- 
mens de prol, cortejando as damas que passavam, 
rastolhando sedas crepitosas, rubricadas por Levail- 
lant ou Lombré, as notáveis modistas. 

Em summa, ahi se viam todos os que dominavam 
a seu talante n'aquella rua chie, todos os que perten- 
ciam á seita do marrarismo, na phrase de Silva Tullio, 
o tout-Lisbonne da elegância, da litteratura e da politica. 

Ia-se ao Marrare como os romanos iam a Athenas 
— questão de haurir o fino gosto, de se saturar com 
a quinta-essencia de mundanismo. E que scenas se 
não passaram ahi. . . Umas alegres como comedias de 
Labiche, outras simples como as ingénuas de Scribe, 
outras, ainda, sombrias como dramas de D'Ennery. 
Quem se houvera dado ao trabalho de conscienciosa- 
mente estudar esse microcosmo chamado Marrare de 
polimento teria contribuído para o estudo psychologrco 
da epocha. 

Ouçamos agora o depoimento d'algumas testemu- 



132 LISBOA d'outros tempos 



nhãs contemporâneas. «Entrar no Marrare, era caso». 
Como que se precisava apresentação. Ninguém lá ia 
sósinho á primeira vez.» (Apontamentos ifum folheti- 
nista. J. C. Machado). «Foi notável aquelle café; as- 
sumiu um caracter liiterario e politico que hoje per- 
tence á historia». (Memorias. Bulhão Pato). 

«Sem a consagrção do Marrare de polimento não ha- 
via talentos n'esta terra, nem artistas que prestassem, 
nem governos sólidos, nem mulheres bonitas, nem toi- 
radas excepcionaes, e estas com razão, porque era 
d'alli que sahiam os mais garbosos cavalleiros, o Vi- 
mioso e o Gazusa, os mais intrépidos capinhas e os 
mais valentes homens de forcado». (Os Excêntricos do 
meti tempo. L. A. Palmeirim). «Havia sítios por onde 
era arriscado transitar, e a passagem do Chiado, junto 
ás portas do Marrare, era tão perigosa como a do Cabo 
das Tormentas, antes de Vasco da Gama ! Não entrava 
no Marrare que.i. queria f» (Folhetins do Diário da Ma- 
nhã, 1883. Zacharias d'Aça). 

As bebidas do Marrare do Chiado eram todas de 
primeira ordem. Os sorvetes tinham o encauto indefi- 
nível da neve polar, o chocolate egualava se ao que se 
tomava na chocolateria madrilena de Dona Mariquita, 1 
o Champagne parecia sorrir com aquelle sorriso frágil 
e ambíguo que volita nos lábios das parisienses casca- 
deuses, das garrafas alinhadas nas prateleiras dir-se- 
hia escapar a voz embriagante da tentação. . . . 

A memoria d'este café não se apagará tão cedo de- 
baixo da cinza parda do tempo. Tem a vida das re- 
cordações amadas, essas recordações que levam os an- 
tigos a repetir melancholicamenle a velha canção: 

Autrefois, oui vraiment, 
Tout était mieux quà présent. 



1 Antiga loja de chocolateiro na calle de Alcalá, em Madrid. 



OS CAFKS 133 



António Marrare forneceu, durante annos, o bote- 
quim de S. Carlos, assim como o serviço para algu- 
mas das mais notáveis funcções da capital. Por exem- 
plo: a ceia, refrescos, e decoração do salão nobre de 
S. Carlos para a festa que o Senado da Camará ahi 
eííectuou em 12 de outubro de í 8 i 4 . 

O Marrare de polimento passou em 1840 para a 
posse de José Marrare, sobrinho do fundador, e, 
quando este falleceu, a viuva arrendou o ao Ferrari. 
Por cessação do arrendamento, esse café acabou em 
18GG, estabelecendo-se na mesma loja a sapataria de 
Manoel Lourenço. 

O mais estimado dos creados do botequim era o 
gordo José, que ahi se conservou largos annos. 



* 

* 



António Marrare teve a empreza de S. Carlos de 
18:25 a 1828. Durante ella travaram-se as luclas des- 
cabeladas entre os partidistas das cantoras Sicard e 
Pietralia, de longiqua memoria. Os commandantes das 
hostes pielralistas eram Bernardino Ruffo, de quem jà 
tivemos occasião de falar no i.° volume d'esta obra 
(pag. 270 e 277) e João Paulo da Silva, caixeiro de 
uma loja de ferragens ao Pote d3s Almas. Ora entre 
os indivíduos presos em Julho de 1820, por soltarem 
vozes tumultuarias e indiscretas nos lheatros, apparecem 
Manoel Leite de Barros, com loja de ferragens á es- 
quina do Pote das Almas e da travessa de S. Nicolau, 
o seu caixeiro, e um irmão d'este, Caetano Silva, com 
loja de seges d'aluguel na travessa da Palha. (Corr. 
Confidencial. L.° 2.° Corte. 224 298). 

Cremos que João Paulo da Silva, o fanático adora- 
dor da Pietralia, era aquelle caixeiro, sendo, portanto, 



J34 LISBOA D'OUTROS TEMPOS 



Leite de Barros o seu patrão. Motivos políticos obri- 
garam-ifo, mais tarde, a emigrar para Londres, e ahi 
foi recebido amabilissimamente pela Pielralia, que não 
olvidara os favores recebidos. 



De resto, dois renglões acerca do Ferrari. Matinas 
Ferrari era filho do genovez Hilário da Cruz Ferrari, 
conserveiro, que em 1821 estava estabelecido na casa 
que depois demoliram para edificar o palácio Ribeiro 
da Cunha, á Patriarchal Queimada. 

Foi um grande realista, e tanto que, á maneira de 
outros realistas retintos, chegou a pedir auctorisação 
para usar a medalha com a «Real Efíigie d'El-Rei 
Nosso Senhor». (Int. Coll. vinda do Min. do Reino. 
L.° VI). 

Também exerceu as alias funcções de cabo de poli- 
cia, como se vê n'uma relação dada pelo Corregedor 
do Bairro Alto. (Correspondências, etc. Maço 10). 

Quando os liberaes entraram em Lisboa, Ferrari e 
sua mulher fugiram para Elvas. Na volta á capital en- 
contraram a casa reduzida a cinzas. 

Suppomos que chegou a reedifical-a, e foi d'ahi que, 
em 1846, seu filho, Mathias Ferrari, veiu estabelecer- 
se na rua Nova do Almada, na loja onde estivera a 
modista Madame Olivier Botto, tão notável confeiçoa- 
dora de loileltes como Madame Justine, na mesma rua ; 
Madame Sardin, «primeira e única modista da infanta 
regente D. Izabel Maria», com atelier na rua da Horta 
Secca ; Madame Maria Anna Burnay (avó do actual 
conde de Burnay), «modista da Sereníssima Infanta 
D. Maria d'Assumpção», cujo estabelecimento era na 
rua do Alecrim, 10, mas que também vendia relógios 
d'alabastro, de bronze, com chafarizes fingindo agua, 



OS CAFÉS 135 



painéis com relógio e musica, lamparinas com e sem 
relógio, vasos neveiros, louças, e os jornaes francezes 
Pelit Courrier de Dames e o Journal de Modes ; e Ma- 
dame Hermann, que chegara em 1825, e se estabele- 
ceu na rua de S. Francisco da Cidade, n.° 1, (loja e 
primeiro andar) á esquina do Chiado, onde, de 4827 
em deante, esteve a Levaillant; e a Duprat, na rua da 
Prata. 

Matinas Ferrari também forneceu, durante annos, os 
botequins do theatro de S. Carlos. 

Em 1857 requereu ao ministério do Reino para que 
modificassem as condições de preço por que os arre- 
matara. 

Como aforador de casos bolorentos contaremos um, 
que parece blague, mas cuja veracidade nos foi garan- 
tida por cavalheiro muito respeitável. Na grande área 
de terreno entre as ruas de S. Francisco (Ivens) e do 
Thesouro Velho existiam duas castas de ratas espe- 
ciaes — umas brancas com olhos encarnados, e outras 
felpudas. Aquelle cavalheiro disse-nos que nunca viu 
as segundas, mas das primeiras algumas viu, apanha- 
das em ratoeiras pelos creados do botequim do theatro 
de S. Carlos, ha, pelo menos, quarenta annos. 

Qual a origem d'esta bicharia é que nunca se soube, 
posto que alguém affirmasse que promanava d'alguns 
d'esses espertos roedores, trazidos por uns italianos 
que moraram na rua do Thesouro Velho em princípios 
<J'este século. Mas isto é inverosímil. 




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XVIII 



A segurança publica em 1820 — Vendilhões, vadios e men- 
digos — Na quinta da Bemposta — Plelhora de larápios — 
Duas proezas notáveis — A limpeza das ruas. — Bocage 
em situação assaz critica. — Um leito de Diogo Alves. 



Vamos tratar dos botequins posteriores a 1820, mas. 
antes d/isso, diremos alguma coisa sobre o es- 
tado de segurança publica n'essa epocha. Grupos 
de soldadcs armados de cacetes juntavam-se, todos os 
domingos, no sitio da Madragoa, atacando as patrulhas 
e fazendo distúrbios (L.° 19 das Secr.). Por outras 
ruas andavam aos três e quatro armados de paus, de- 
pois do toque de recolher. (Pap. Div.) Os moradores 
da Boa Vista queixavam-se dos ataques perpetrados 
por malvados, que se escondiam nos cascos velhos 
que havia n'aquella praia. Um aviso de José da Silva 
Carvalho determinou até que as entradas para as La- 
mas da Boa-Vista se fechassem com cancellas, cujas 
chaves ficariam nas mãos da Guarda de Policia alli es- 
tacionada. (Avisos, etc. Maço 40) 

Abundavam os vadios, eram frequentes os roubos e 
assassínios. Encontravam-se bandos de cegos e vagabun- 
dos com guitarras, entoando cantigas d'um picante de 
malagueta, como a do negro melro, e fazendo tregeitos in- 
decentes. Os cabazeiros, os aguadeiros, e vendilhões de 
palitos e rocas, de sapatos d'ourêllo, etc, obstruíam 



138 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



os estreitos passeios das ruas. Os lojistas da travessa 
do Amparo queixavam-se de que a multidão de pei- 
xeiros e outros vendedores ambulantes lhes pejava a 
frente das suas lojas. Homens de jaleco, soldados e 
vadios appareciam de cacetes a toda a hora do dia ; 
os mendigos e os cães içavam a capital; as seges e as. 
cavalgaduras cruzavam livremente o Rocio, onde abun- 
davam os rapazes que seguravam cavallos, como o 
Carulha e o Perra Guéssa, porque os trens eram pou- 
quíssimos, mas, em compensação, eram muitos os ro- 
cinantes particulares e d'aluguel. 

Os ministros dos bairros eram os principaes pro- 
tectores dos ladrões, dos botequins mal afamados, e 
das batotas notadas. 

A illuminação era escassa, e, bastas vezes, as ruas, 
ficavam ás escuras (Policia Secreta, etc). Appareciam 
italianos vendendo figuras de gesso obscenas. (Int. 
Coll. vinda do Min. do Reino.) l A ladroagem pullu- 
lava em S. Domingos, rua Nova da Palma, calçada de 
SanfAnna, e Passeio Publico. Muita gente não queria 
passar de noite pelo Loreto, onde campeava, bem 
como no Bairro Alto, a quadrilha de ladrões do Saca- 
vém. Este (que andava sempre armado de punhal) e 
os seus sequazes tinham protecção dos officiaes de 
justiça do bairro. (Pap. Div.) As ruas do Passeio, 
principalmente a Oriental, eram muito solitárias de 
noite. O mesmo acontecia á rua Augusta, aos domingos, 
em que não se encontrava viv'alma ao anoitecer. 2 



1 Os Figuristas de Gesso, como lhes chamavam, foram mandados 
sahir de Lisboa dentro do praso d'oito dias. (Avisos, etc. Maço 36.) 

2 Nas tabernas-barracas á entrada da R. Augusta e no Cães da 
Lage, e na taberna da casa do barão de Sobral, á entrada 
da R. da Prata, todos os dias se juntavam gatunos e vadios, dos 
quaes o mais conhecido era um tambor do 22. (Avisos,etc. Maços 
30 e 40.) 

Três annos antes (em 1817) appareceram alguns vadios com o 



OS CAFÉS 139 



Os negociantes estrangeiros queixavam-se de que os 
seus armazéns e lercênas de Alcântara a Santos sof- 
friam assaltos nocturnos, o que os obrigava a manda- 
rem-n'os guardar por gente armada. l 

Os moradores do Gaes do Sodré reclamavam a mu- 
dança da guarda da travessa dos Romulares para 
aquelle largo, por este ser um local onde se pratica- 
vam muitos roubos, e onde, de noite, se acoutavam os 
ladrões, que fugiam para os botes que tinham atraca- 
dos para este fim. O pateo da Gallega, na Boa-Vista, 
era outro esconderijo de gatunos. {Correspondências, 
etc. Maço 890 

Até nos theatros os pilhos exercitavam a sua arte. A 
parte de policia de 10 de Novembro de 1823 diz que 
Joaquim José Lisboa, cómico da R. dos Condes, con- 
tara que, na noite anterior, haviam estado n'esse thea- 
tro o capitão e dois subalternos da companhia de pi- 
Ihantes que trabalhava pelo sitio do Passeio, Portas de 
Santo Antão e Rocio, e que três d'essa mesma troupe 
andaram explorando os camarotes. No dia immediato 
retornaram lá e conseguiram furtar vários objectos. 
(Pap. Div. Maço 11.) 

Até á quinta do Real Paço da Bemposta era logar 
mal seguro. 2 D. João VI ordenou que se realisasse 
uma busca á quinta Yelha, á horta e ao jardim do pa- 
lácio, busca que foi passada pelo Corregedor do Crime 
d'Andaluz, acompanhado do major da Policia e diurna 
força do mesmo corpo. Prenderam uns poucos de va- 



uniforme de officiaes de marinha, e dizendo-se vice-consules de 
Portugal em paizes estrangeiros. Taes eram : Angelo de Sal, um 
debochado que frequentava os botequins do Loreto ; João Cha- 
ves, picador e alquilador ao Passeio Publieo; um Andrade que 
andava pelos cafés do Cães do Sodré ; e António Chrispiniano 
Sounier, poeta que recitava versos nas lojas de bebidas, e que fi- 
cara fiel ás tradições errantes d^ lilteratura vagabunda dos tempos 
bocagianos. (Avisos, etc. Maço 32.) 

1 O Intendente mandou perseguir os ladrões com energia. 

2 Em 182o. 



140 LISBOA d'OUTUOS TEMPOS 



dios que se encontravam numa choupana jnnto á eira, 
e um lai Miguei Vassallo. (Correspondências. Maço 23) 



Para ajuizar do estado de segurança basta citar os 
seguintes casos, que nos foram contados como verí- 
dicos. 

A rainha D. Carlota Joaquina, a estrafalaria prince- 
za, assaz conhecida pelas repetidas canivetadas que 
dava no contracto matrimonial, combinou encontrar se 
perlo de Cintra com um bolieiro das suas relações. 
Mas houve quem os visse dum casalejo próximo, tendo 
sido apanhados em tudo que ha de mais flagrante de 
licto, em plena situação. . . physiologica. \ adultera 
percebeu, e, passados alguns dias, a família do casa- 
lejo apparecia assassinada. A policia tomou conta da 
occorrencia, investigou, mas, por fim, pôz-se pedra so- 
bre o caso. 

A família da sr. a D. Gertrudes Justina do Carmo Gon- 
çalves, residente em Sacavém, onde lhe chamavam a 
família do Couve, foi accordada alta noite, e intimada 
a aLrir a porta em nome d El-Rei. Aberta a porta, viu 
a casa invadida por homens que traziam o uniforme da 
Policia. A família foi amarrada, e roubada em tudo que 
possuia. Como dispunha de meios de fortuna, incum- 
biu a mesma policia de descobrir os auetores da' 
proeza. 

De feito, melteram mãos á obra, devassaram, inda- 
garam, até que, um bello dia, a família do Couve rece- 
beu participação da Intendência, ua qual lhe diziam 
que seria melhor não proseguir. A familia roubada deu- 
se por satisfeita, e não foi mais além. 






A limpeza corria parelhas com a segurança. A 
administração do marquez de Pombal estabelecera as 



OS CAFÉS IH 



pias caseiras, e relegara a legião de pretas da Lapa, 
Çanephoras de novo género, que conduziam ao Tejo 
os despejos das casas. Os latoeiros fabricavam depois 
uns vasos eppeciaes que obstavam ao mau cheiro das 
cloacas e pias. Assim o annunciava um latoeiro de fo- 
lha branca em l£06. (Gazeta). 

Mas em 18:20 ainda as aguas sujas eram lançadas" 
das janellas para as ruas — depois das 9 horas da 
noile — , ao grito do agua vae ! obrigatório por velha 
postura senatorial. E' bem conhecido aquelle caso do 
Bocage, que enconlrando-se, certa noile, em momento 
assaz critico e posição shocking numa rua de Lisboa, 
apanhou um banho fétido, porque uma rapariga de 
touca, escancarando a adufa, atirou, de chapuz, com 
uma porção d : agua porca sobre elle, sem previamente 
ter dado a voz sabida. O poeta, retomada a perpendi- 
cular, largou-lhe a quadra seguinte, que rescende uns 
odores scathologicos : 

O' menina do toucado 
Já que tem a mão tão certa. 
Venha buscar o offerta, 
Que ficou do baptisado. 

Depois de 1832 ainda a segurança publica deixava 
muito a desejir. Continuavam a existir quadrilhas de 
ladrões mobilisadas dentro da capital. 

A mais famosa foi a do trombudo Diogo Alves, cnjo 
campo dacção se extendia de Valle de Pereiro ao Sa- 
litre. { Contava-se que essa quadrilha atacara uma vez 



1 Uma nota a respeito do Salitre. A febre da innovação que, 
■com frequência, saitea a municipalidade lisbonense, tem n'a le- 
vado a mudar os nomes de muitas ruas, ás vezes um pouco ar- 
bitrariamente. Assim aconteceu á Carreira dos Cavallos, cujo 
nome a edilidade cambiou para rua Gomes Freire, na supposição 
de que este brilhante cabo de guerra morava abi, quando foi pre- 
*o por causa da conspiração de 1817. O tenente general Gomes 
Freire, porém, morava no Alto do Salitre, n.° 193, habitação a 



442 LISBOA d'outros tempos 

a D, Carlos Mascarenhas, commandante da guarda mu- 
nicipal, quando voltava das Laranjeiras, surripiando-lbe 
importante quantia, e deixando-o em ceroulas, trajo 
em que elle e o seu bolieiro, o Escarrancha, chega- 
ram a Lisboa. (Crimes de Diogo Alves). 1 



^11^ 



que foi passada busca, e onde foram apprehendidos os objectos 
seguintes : um sacco de linhagem usado, atado e lacrado ; outro 
de linhagem, também atado ; um bahu comprido, ovado, velho e 
pregado com pregos ; um caixão quadrado, velho e também pre- 
gado com pregos ; e um bahu usado, forrado de coiro de boi e 
fechado com um cadeado. (Correspondência confidencial com as 
auctondades. Corte e Reino. L. 222- 293. fl. 125). 

Muito se tem escripto a respeito da conspiração de 1817. Mas 
a sua historia exacta, feita á luz dos documentos, a historia im- 
parcial como a justiça, está por escrever. 

1 Diogo Alves morou na rasa que faz esquina da rua d'Arroyos 
para o antigo Caracol da Penha, e que vae ser demolida (^898) 
para alargamento da rua. 



I II 1 1 II 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 II 1 1 II I II 1 1 II 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 



XIX 



Pasquins — Protestos e protestantes — Revolta cTinfanteria 
4 — Alexandre Herculano — chapéu alto em Portugal 
— inventor do chapéu alto — Este chapéu cobre o cra- 
neo dos mais refinados elegantes — Um chapéu alto no 
século XV — O chapéu armado. — Uma pirraça feita a 
José Agostinho de Macedo. 



Lisboa era uma terra semi-barbaresca. A civilisação 
chegara cá e emperrara ; fora atacada de rheu- 
matismo articular. Em compensação a alegre 
musa do povo fartava-se de dar â luz versos pasquina- 
rios. Quando, em 4820, o papel moeda baixou muito 
de preço, appareceu n'uma janella do muro do Passeio 
Publico a decima seguinte : 

Nação papalva, e coitada, 
Teu ouro deste aos inglezes, 
Dás tua prata a maltezes, 
Que te resta ? Papelada. 
Olha que ficas sem nada, 
Grita com grandes clamores : 
Vós que sois Governadores 
Fazei valer o papel, 
Ponde a pregão e cordel 
Os Ladrões Rebatedores. 



144 LISBOA d'outros tempos 



Em 1823, entre os pasquins políticos appareceu este : 



Prometler, esquecer passado. 
Mas usar com ingratidão, 
Só o fez em Roma Nero, 
E em Portugal D. João. 



(Pap. Div. Maço II.) 

Outro, aílixado no largo de S. Paulo, dizia : 

Que policia ! I ! Que governo tem Portugal ! 
Consentir -se que se peça para a carta constitucional, 
Ora, para tal governo e para quem eu sei. . . c. . . 

O' padre José Agostinho de Macedo 

Se as rédeas te lançam de mão 

Conta que não vaes só para o Ramalhão. 

Se aos dois não dás grande trambulhão 
Conta que não vives pobre João. 

Se te queres salvar e á Luza Nação 
Larga tudo e agarra te á Constituição. 

(Correspondências, etc. Maço 135). 

Outros, em prosa, tinham um sabor trocista. Por 
exemplo, o que encontraram pregado nas esquinas do 
dislricto policial de S. Pedro d'Àlcantara : — «O padre 
guardião de S. Francisco da Cidade convida a todas as 
pessoas que quizerem crear porcos, vão contraclar 
€om elle, porque tem feito na Egreja Nova todos os 
arranjos necessários para estarem, e por preços com- 
modos, attendendo ás presentes circumstancias». (Pa- 
peis diversos. Maço 11). 

As manifestações d'esta ordem continuaram, mas, 
de todos os manifestantes, só foi preso um, Manuel 
José Rodrigues, soldacto que fora dos Voluntários Reaes 
do Commercio, que teve o atrevimento de collocar uma 



OS CAFÉS 145 

cabeça de pato no pa'ibulo do Cães do Tojo, facto que 
coincidira com a appariçâo do pasquins incendiários 
nas ruas da capital. Preso, confessou o delicio, que o 
Intendente classificava de grande transcendência poli- 
tica, alvitrando que, sem discussão judiciaria, fosse o 
delinquente mandado para as possessões ultramarinas 
no primeiro navio que se fizesse de vela. (L.° 22 das 
Secr). 

Os protestos desta sorte continuaram em tempos 
do usurpadiir. Parodiando a pbrase de mr. Salvandy 
no baile do duque d'Orleans ao rei de Nápoles, po- 
dia-se dizer que se andava sobre um vulcão. As ma- 
nifestações armadas tiveram o seu momento. A do 4 
d'infanteria, que estalou a 21 d 'a gosto de Í83I, teve 
tristíssimas consequências. Albino Francisco de Fi- 
gueiredo, o agente incógnito, iniciador d'esle pronun- 
ciamento militar, conseguiu escapulir-se, deitando-se 
do muro que fechava o lado direito da Cotovia para o 
largo das Taipas, porque então nlo ínvia sabida por 
esse lado, nem para a frente, pelo chafariz da Alegria. 
Passava um cavalheiro acompanhado de duas damas, 
quando Figueiredo resvalou pelo muro, e lhes implo- 
rei) a salvação, 

O cavalheiro recolbeu-o em sua casa, e o agente in- 
cógnito salvomse, apesar do conto de réis que o go- 
verno miguelista oííereeia a quem o denunciasse. Al- 
bino de Figueiredo era irmão do Figueiredo, que foi 
leute de botânica na Escola P)lylechnica. * 

Dezoito soldados do 4 foram passados pelas armas 
em Campo dOurique, e deu-se a circumslancia curiosa 



1 Desde 1829 que Albino de Figueiredo se tornara suspeito. 
Prova o o seguinte aviso confidencial, que o Intendente enviava 
ao Juiz do Crime de Santa Iznbel em 29 d* Abril d'aquelle anno: 
«Informe me V. Merco confidencialmente sobre a eondueta poli- 
tica e moral de Albino Francisco de Figueiredo, M stre da Aca- 
demia, e morador na Praça das Flores». {Correspondência confi- 
dencial. L.o 2. 9 Corte 224-298). 

10 



146 xisboa d'Òutros tempos 



de um (Telles se agarrar vivamente ao frade que lhe 
levara as consolações da religião, e lhe havia dito que 
se preparasse para bem morrer, porque ia ceiar com 
Deus n'essa noite. O soldado não queria largar o fra- 
de, e pedia-lhe que o acompanhasse no tal repasto 
d além-tumulo. 

Alexandre Herculano — Arethusa da politica portu- 
gueza — achou-se envolvido n'esta conspiração e teve 
de refugiar-se em casa do capellão dos allemães, de 
onde passou para bordo da fragata franceza Melpome- 
ne, ancorada no Tejo, e d ? ahi para um paquete iuglez 
que o conduziu a Inglaterra. Transportando-se a Fran- 
ça, alistou-se como soldado raso — o 35 da 3. a — no 
batalhão de voluntários da Rainha, e fez parte do troço 
de Mindelleiros, dos valentes que, mais tarde, pode- 
riam dizer com as maneiras altivas e castelhanas do 
Cid : Desembarquei no MindeUo, como, na antiga Gré- 
cia, os Maralhoneiros podiam exclamar com orgulho : 
Estive em Màralhona ! 

E, agora, permittimo-nos fazer uma pausa de sus- 
pensão na nossa narrativa, para referir um aconteci- 
mento da primeira mocidade d'cste grande homem. 
Três annos antes da revolta do 4, estava Herculano na 
feira das Amoreiras, quando, sem se saber como, nem 
porquê, foi ferido. Esta occorrencia, como se diria em 
moderna linguagem policial, teve sua notação nos do- 
cumentos da Intendência Geral de Policia. Transcreve- 
mos, fielmente, o aviso que a menciona : 

«Em observância do aviso de V. Ex. a de 12 de Ju- 
lho ultimo encorporado no summario a fl. 4, procedi 
a este para averiguações da conducta, vida e costumes 
de Joaquim António Rodrigues Galhardo e seu irmão 
João Rodrigues Galhardo, presos na cadeia da cidade, 
do qual summario nada resulta contra os ditos presos, 
nem também da devassa que tirei pela desordem acon-' 



OS CAFÉS 147 

lecida na feira das Amoreiras no dia -li) de Maio, em 
que foi ferido Alexandre Herculano de Carvalho, que 
declara no auto da mesma devassa não terem sido o.s 
íJUos Galhardos quem o ferira, mas sim outro homem 
que não conheceu, accrescentando que, nem âquelles 
nem a este. quer ser parte emjuizo. Os referidos Ga- 
lhardos, nas perguntas constantes dos appensos n. c * 
I e 2, negam o terem entrado na dita desordem, e 
confessam terem-se retirado para o termo d'Almada e 
quinta do Cheira- Ventos, pelo motivo de, na noite de 
29 de Maio, recolhendo-se para sua casa, os seus vi- 
sinhos lhes dizerem, que soldados da Guarda Real de 
Policia os haviam procurado para os prenderem. Cons- 
la-me que os ditos Galhardos não são pessoas da me- 
lhor condueta politica, porem não apparecem factos 
contra elles. Envio a V. Ex. a todo o processo e orde- 
nará o que for servido. Deus Guarde a V. Ex. ' muitos 
imnos. Ia. 1 23 de Julho de 1828. 

III." 1 " e Ex."" Sr. Intendente Geral da Polícia da 
Còrle e Reino. 

O Juiz do Crime do Bairro d 'Andaluz. 

Joaquim Gaiteira Barreiros de Carvalho. » 

E-le documento tem a seguinte nota escripta a lá- 
pis: — «E reverte o summario e devassa para pro- 
nunciar segundo for de Direito, dando conta e assi- 
gnando o d.° da 2. a testemunha da devassa.» 

{Correspondefíèias, etc. Maço 24.) 

Os dois Galhardos eram constituciuines, e chega- 
ram a estar presos por esse motivo, (Ibid m ) Tm d'el- 
les, o Joaquim, casou com uma irmã do grande histo- 
riador. 



1 i8 LISBOA DOUTROS TRMPOS 



O chapéo alto era ti<lo como um symlnlo revolucio- 
nário em 18.0. Inu u'este anuo que o pmnnle entrou 
em Portugal, como diz Herculano, e Oliveira M « rtíris 
repete. Usavam u\>, ceintudo, de copa mais baixa que 
o modelo Iraucez, e com a aba quasi direita e sobre o 
largo. O chapét) alio de pello, o chapéo gvU>lhnfio t é 
de uso muito anterior, visto que a elle se refere To- 
Jentino nas suis quintilhas. chapéo alio de seda 
(sijk hal) já se usava em França no principio do sé- 
culo ÇlbOa}. 

Os inglezes sustentam que. o chapéu alto é cTofi- 
gem insular, e que f< i inirodi)2idu na moda londrina 
por um captllista d » Straud. mc John llelh» ringlon, o 
qual. em io de j meiro de t 1(7. arvorou una cartola 
novinha do trinque 1 , fabricada por Wlmki* ani C<>m- 
pany, de Kleet Street H feria o Tintes da epoeha que, 
havendo aqnelle commercianle saindo da sua loja, o 
a-peclo do phenomeual quico despertou a curiosidade 
dos mirõrx, e determinou ajuntamento, que, aliim, de- 
generou n'uma ingrczia diabólica. 

teitó contra a ehapeteta nvmifestou-se, e ò ho- 
mtin, por um triz-, que não anda em rilão. 

Quer seja anccdota. quer nào seja, o facto é que os 
fraucézes teimam, por sen lado, que sombreiro de 
Copa alta è devido á 'ma invenção, apresentando como 
prova uma tela de Orle Yernet, intitulada Uu ia- 
cioyable de 1796, onde a urna já figurava triumphante. 

Em todo o caso essa forma de chapéu foi adoptada 
pelo príncipe de Gdles — que vaidosamente se intitu- 
lava o primeiro g<>ntl tnan da Europa — e generali- 
sou-se entre os tnaccarroni (pouco depois Clamados 
pandies), eulre os londuners mais sécios, entre ajoven 



OS CAFÉS 1 'lí* 



Inglaterra, como se dizia então, ou a fina ílor rti (^tí- 
Uy, como diriam os biixóies d'a}rnra, á qual perlem 
ciam o marquez d\Viigles»»3, Lord William Russell, Vr. 
Lamblon, Lord Jersey, e o pae de Lord huiham, ha 
pouco ainda mancommimados contra o uso dos polvi- 
lhos. * K Georges Urummel, o frtff/?r das elegâncias, o 
prolo-typo liió. o peralta que fazia a chuva e o bom 
tempo nas regiões superiores da alia vida, a coquelu- 
che dos salões. Brummel, que se detniitira de capitão 
de hussaids só por causa do uso dos polvilhos no ca- 
bello. lauihem gastou a claque ou o chapéò cylindrico, 
que lhe dava novo realce á prosápia de gran-senhor, 
novo relevo á nazofía de casquilho d'alto lote, e que 
lhe ia ao pintar com a casaca azul wig de golla de 
velludo e hoiôts d'oiro, o collete amarello, as esguias 
calcas pretas, as luvas c!?ras. os afiauihrados sapatos 
de polimento, o amplo collarmho — que era um mundo, 
e a gravata de nó artístico — que eia um poema. {The 
Life <>f Bniii mel By Captam Jesse). 

O chapéu alio não podia deixar de ser querido e 
respeitado na Ol<l England. Tem um certo ar grave, 
ordeiro, conservador, e, como todos s^bem, o espirito 
inglez é eminentemente conservador. Refere se até que 



1 O actual príncipe de Gaites, o globe trotter universalmente .-o- 
nhecido, o galanleador cuja ensaca apparece, tão a miúda, macu- 
lada de pò de arroz como um heree ila Guetre eh dentelles de 
dTEsparl ès, o vireur a quím a ctuonica lenj dedicado tantas das 
suas folhas volantes, não quiz Gear atraz do li lho de Jorge III. 
Guiado por uma originalidade de bom tom, pelo senso agudo do 
pitloresco, foi elle quem primeiro usou o chapéo alto branco, e 
as luvas bramas pespontadas de negro, quem primeiro se apre- 
sentou, em pleno estio, ioiii as calças dobradas em baixo, como 
se se preparasse para atravessar um lamaçal. 

E' o ligurino copiado pelo swell donjuanisante, d 'uma elegân- 
cia delirada, que rebrilha com vivo esmalte em Picadilly e Cm 
Regent Street, túmido, ponderativo, correctamente •desdenhoso, o 
olhar parado, a articulação da palavra molle e indistincta, monó- 
culo brincando sobre o peitilho dum braivo importuno, gardénia 
arrogante nas bandas selineas do fráijue. 



150 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Gladstoue hesitou muito tempo em conceder o Ululo 
de lord a Tennyson, o poeta laureado, por temer que 
elle se apresentasse com chapéu desabado, como ha- 
bitualmente usava, e não com o chapéu alto — polido 
e brilhante como um sabre — ria camará dos lords. 

Ainda este anno (Janeiro de 9;) os investigadores 
inglezes e francezes deitaram a prateleira abaixo, para 
consultarem os cartapacios pulverulentos, ennegreee- 
ram resmas de papel, falaram de papo, deram quinau 
uns aos outros, com o louvável intuito de provar a 
quem de direito' cabia a invenção do chapéu alto. E 
vae-se a vèr, o chapéu alto, ou coisa parecida, já fi- 
gurava n*um quadro do século XV, existente no nosso 
museu de bellas-artes, ás Janellas- Verdes. Lá se en 
contra uma figura masculina com um chapéu haul de 
forme branco. E eis aqui está como se escreve a his- 
toria. . . do vestuário ! 

Antes de fSáO, e mesmo depois, usou-se muito o 
chapéo armado. D. Miguel também o trazia quando vi 
nha a cavallo, á desfilada, de Queluz a Lisboa, ou nas 
suas correrias pelas ruas da cidade. 

Conta-se que achando-se José Agostinho de Macedo 
n'uma loja de ehapelleiro. ao Rocio-, entrara um indivi- 
duo e pedira para mandar lazer um chapéu armado, 
perfeitamente egual ao d'aquelle padre. 

José Agostinho aceedeu a emprestar o seu para 
modelo. 

Dias depois, representava-se na Rua dos Condes uma 
peça (que, segundo suppomos. era o Mau Amigo, de 
António Xavier), uma comedia de grande sainete ri- 
baldeiro, e n'ella apparecia o actor Ignacio Caetano 
dos Reis, imitando soberbamente a José Agostinho. 
Este, que estava na plateia, viu se obrigado a retirar 
do lheatro, vexado com a zombaria da peei. Depois 
reclamou ao Intendente contra a exhibição da sua pes- 
soa no palco, e a personagem foi mudada para o Par- 
Vobis, um mentecapto que vadiava peJas ruas. 



OS CAI ES 



i JÍ 






o homem do chapéu era o actor Caetano, que poz 
o sal na molleirinha ao frade pimpão, conseguindo re- 
produzir em scena, d'uma maneira, por assim dizer, 
graphica, o lypo grotesco do padre roncador, ferra- 
braz. E nós, dado o caracter assanhado do canónico, 
pendemos a acreditar que elle se desataria em des- 
tampa tórios agros como mingaus hrazileiros, picantes 
como caril indiano, em bravatas ousadas como investi- 
das de bicho chavellnulo, que está pedindo uma pega 
"de cara. 









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& ® ® ® @ B 

■ 



XX 



Crápula baioleiral. — O Maneta do largo do Spccorro..— 
dores eméritos. — Os mlsifrés de D. Claudia e a sua 
nota patiisci. — tm solo de bengali. — Sumiço de í), 
CLmdia. 



A jogalina era, como ]á dissemos, protegida pelas 
ancloridades. 

Havia batotas nalgumas casas d'espeetacnlo como no 
lhealro rio Bairro Alto, e em S. Carlos (junto á sala 
grande e junto ao btlbar). A Regência ordenou que 
não se consentisse mais similhante abuso; e, assal- 
taudo-se a batota de S. Cai-los, foram presos alguns 
indivíduos em flagrante jogo de banca. Tinha por dono 
a João António Franco. (Correspondências, tlc. Maço 1).* 

O .llilbrath e a Bruni, emprezarios, ainda pediram 
concessão para estabelecer uma roleta no theatro, mas 
não obtiveram deferimento. 

Um anno depois (em 18? 4) proseguía o jogo no 
mesmo local, porque, dado novo assalto, prenderam 



1 Algnns cidadãos c pães di família mandaram uma represen- 
tação ao Soberano Congresso eá Regência '-outra as casas de jogo 
dos theatros de S. Carlos e Rua dos Condes, e as do Arco do 
Bandeira e travessa de S. Nicolau. (Avisos, et» 1 -. Marn 39). 



15 i LISBOA D'0UTI{0S TEMPOS 



vários sujeitos, e o dono foi multado em 200$000 
réis. (Policia Secreta, etc). 

No terceiro quarteirão da rua Áurea, indo do Ro- 
cio, existia casa de jogo de cartas do F. Ardisson, onde 
se juntavam os indivíduos que compunham a sociedade 
Minerva. (Corr. confidencial. Corte. N.° I. £23-207). 

A casa da Sarradara, na rua do Arco do Bandeira, £0, 
\.°, era ponto de grande jogatina. (Pap. Div. Maço il). 

N'outros sitios o jogo continuava quasi ás escanca- 
ras. No largo de S. Roque, n.° 2, 1.° anilar, a tavo- 
lagem estava debaixo da protecção do filho do escri- 
vão do Crime do Bairro Alto. O botequim do Fran- 
cisco Maneia, no largo do Soccorro, além de ser um 
coito de ladrões, era espelunca com jogos de bilhar, 
vasa, e outros. Para là entravam homens de casaca, 
de jaqueta, e de capote. O Maneta asseverava aos con- 
correntes que não temessem ser presos, porque tinha 
a certeza de ser avisado dos assaltos, e, em ultimo 
caso, tinham muito para onde fugir. (Pap. Div). 

A casa de pasto do Firmo, junto ao Arco do Ban- 
deira, era um ninho de jogadores, que roubavam com 
cartas falsas e dados chumbados, e exploravam os of- 
tíciaes do exercito. Estava sob a protecção de certa 
auctoridjde graduada, que levava rasca na assadura. 
(Avisos, etc. Maço 38). 

Em 182/ participava o Juiz* do Crime do Bairro da 
Mouraria que dera um assalto á loja de Francisco An- 
tónio de Andrade, o Maneia, sita no largo do Soccor- 
ro, defronte da freguezia, e junto ao pateo, que pren- 
dera 25 indivíduos,, no numero dos quaes se contava 
o dono da casa e alguns ofíiciaes do exercito, e que 
os remettera para as cadeias do Limoeiro e do Cas- 
tello. (Correspondências, etc. Maço 105). 



OS i \ii:s 155 



O descaramento chegou a tal ponto que se jogava 
jogos de parar nos boles das carreiras de ííelem, 
Moita e Aldèa-Gallega. Aoisos, ele. Maço 4fc). • 

aviso de li de Março de 182o ao Juiz do Crime 
dWndaluz afíirmava que na rua dos Condes, defronte 
da porta do lhealro, em rasa do camaroteiro Paula, 
se jogava a banca e outros jogos prohibidos, em que 
eram sócios os jogadores bem conhecidos Joaquim 
Francisco Carneiro e um tal Pires. 

Uma denuncia detalhava as casas de jogo mais es- 
candalosas, e que eram patrocinadas pelo Miguel Al- 
caide, o escrivão das diligencias da policia, Eustáquio. 
e o escrivão do bairro do Limoeiro, Santo António. 
Este ultimo tinha casa de batota no Arco do Bandeira. 
trespondencia confidencia?. L." l.° Corte. 223 297). 

Passemos em revista as batotas de 1828. Havia 
grande numero d'ellas. A da rua do Arco do bandei- 
ra, 7o, 1.°, acobertavase com uma tabolela de Fabrica 
de Plumas, e pertencia ao Sardo; a da Chicória era 
na rua dos Sapateiros, 33 ; a do Guilherme era na 
mesma rua, dê, e ahi se jogava a banca e os dados, 
havendo perdas de centos de moedas. Um dos gran- 
des jogadores d'essa espelunca era o Zafardioi, admi- 
nistrador e sócio de S. Carlos. {Correspondência*, etc. 
Maços 8o e DJo). 

No Bócio, 42, 2.°, morava o Contador d'Argote, of- 
ficial de marinha, que proporcionava jogatina aos ama- 
dores, mas, certa noite, deram lhe assalto e prende- 
ram onze pessoas, entre as quaes estavam proprietá- 
rios, níliciaes de marinha e um padre. (Idem* Maço 
129). 

No lupanar da Chicória sempre se jogou feio e forte. 
Constituía um característico das casas d'esta ordem 



Í5tí LISBOA DOUTROS TEMPOS 



n'aquelle tempo - . Um aviso do Corregedor Semblano 
asseverava que alli havia jngaliua-, principa.men.e 
quando ia o conde de **". (liem. J\];-ço 131) Até o 
Luiz Scassa, secretario da einpnza de S. Carlos, vi- 
ce-cotisiil de Nápoles, e morador na rua do Norte, 80, 
foi preso (em 1S31) por ter casa de jogo. (Avisos, etc* 
Maço 70). 

Nos botequins, que tinham licença para isso, joga- 
va-se o gamão, e oitíros jogos de "tabulas, como o 
Passo de Roma, o Tjjue, o Empurra, as Detcarrigàdas 
e o jogo de Damas. 

Em 18í3, as mais notáveis casas onde a perimia 
andava nos boléos da fortuna eram: a do Januário Cor- 
reia, a do antigo alf.iyate Mesquita, a do antigo cha- 
pelleiro Joio de Moraes — forte na banca franceza — , 
a do Azinhaes, no Arco do Bandeira, a da Gertrudes, 
á Praça da Figueira, a da D Claudia, a dos A., na 
rua Augusta, e a Casa Amarella, a S. Cario 3 , no pré- 
dio da rua Nova dos Marlyres contíguo á egreja. Jo- 
gava-se o dado, o monte, a banca franceza e a portu- 
gueza. Havia o costume d'ir j>gar pari a hospedaria 
do Victor, em Cinira, aos sabbados, voltando se para 
Lisboa á segundas feiras. 

Houve jogadores espertos, finórios em maranhas de 
batota. Nas ardilosas pugnas pobre os tapetes verdes 
os pontos babeis bigodeavam os incautos com escamo* 
tagens mais ou menos dignas de prestidigitadores as- 
tutos. Cosi fan lutli. 

Da Casa Âmarella á dos Velhinhos, da D. Claudia 
ao Silva Bale Folha, que serie de tavolagens ! que epo- 
péa de traíicancias ! que longa cadèa de trapaças, de 
galezias, de pouca-vergonhas I 

A mais divertida, porém, de todas as casas onde 
-abatiam vôo essas striges nyctalopes chamadas joga- 



OS CAFÉS *£»7 



dores era a da D. Claudia. Em tempos de D. Migue? 
morava no lado diíeiíp do primeiro andir do llocio 
n.° h(> (hoje numero 30); mas mudou autes da expul- 
são do Usurpador. Era ea>ada com um bilhoslre, o 
Brito, mostre de meninos, que dava aula diurna es<4- 
nles nocturnas, as quaes, á meia \olta, se transforma- 
vam em p. ululas de jogo. Alii por 18iO a D Claudia 
era uma quarentona muito frescal. KHa e o marido 
viviam no primeiro andar do prédio que faz esquina 
para a calçada do Garcia e travessa de S. Domingos, 4 
e, mais tarde, viveram n'um segundo and ir d" Rocio, 
á esquina do Arco do Bandeira. Dava ses«õ j s de jogo 
grande aos domingos, quotas e sexlas-feiras. Cha- 
mavam lhes, ironicamente, as partidas de D. Claudia. 

Estas partidas, em que se sacrificava, hyperdevota- 
mente, ao Du> dei oro, tinham unia concorrência mes- 
clada, em que predominavam tavolageiros falhos ao 
naipe, ginjas avellados, enrugados como o corlix, fu- 
fiasesgai votada^, serigailas pandilhas, quedavam trella 
a qualquer qaidam, ra[)azes pândegos que deixavam 
ir o dinheiro á gsgósa. 

E' pos.-ivel que nos demais garitos pairasse a tris- 
teza meseuteriea de quem \è o seu dinheiro voando 
aos desganões da ^orie. emquanio os montículos das 
peças dtf duas caras, dis eslerííuas e dos cruzados 
novos, elevados ao pé dos parceiros fdizes, vibravam 
lampejos. crus de oiro e de prata. Ao envés, aqui so- 
prava para lodos o ar d'alegria patusca dos banzés sa- 
pateiraes ; circulava o perlume tabernal dos bailaricos 
alfamistas, o fartum raposinho dos saramheques muito 
remexidos por cabiudas caiimháos, iias chibambas ame- 
ricanas, dos batutjues australianos, choreographica- 
meute imitativos dos movimentos gôches do kanguiú; 
perpassava um cheiro heteroi lito de fumaraça dos pai- 
vautes, de almíscar e de cebola de refogado. 



1 Chamou- se a esse prédio o Himalaya. 



158 LISBOA l/olTKOS TEMPOS 



Ouçamos o depoimento duma testemunha ocular: 
— «Aos domingos, quartas e sextas-feiras é a soirée 
de madame Claudia ; ha monte e banca françeza ; Mes-. 
demoiselles D. Anna e D. Sebasliana são os encantos 
d'este bello e instructivo divertissement. E r director o 
C. A., logar que desempenha com summa habilidade. 

Ha chá e contradanças executadas por G. M. BI. No 
tim da noite o immortal Sequeira faz sempre um mon- 
tesinho para tornar os parceiros mais voláteis. As reu- 
niões de madama Claudia acabam sempre ao romper 
do dia.» (Correspondência do Braz-Tizana.) 

N uma sexta-feira da procissão dos Passos houve 
mosquitos por cordas em casa de D. Claudia. O As- 
sumpção, íilho d um procurador, entrou lá acompa- 
nhado d uma sucia, e praticou toda a casta de incon- 
veniências, pondo em debandada as visitas. Passados 
dias, o Assumpção encontrou o Brito (marido de D. 
Claudia e polypo familiar) na rua dos Retrozeiros, e, 
como lhe atlribuia a descripção da barulhada do sal 
sifré que apparecera nos jornaes, applieou lhe uma ta- 
reia de bengala. 

D. Claudia mudou-se da calçada do Garcia para o 
Rocio. Numa saleta, virentemente enfeitada de buxo, 
guardavam-se os chapéus e as bengalas. O Domingos 
Ardísson ia a casa da D Claudia para apresentar os 
officiaes inglezes (Os Excêntricos, etc) e para tocar 
a sua poika. fcsla peça musical foi a única que perpe- 
trou duraute toda a sua vida. Orgulhoso da composi- 
ção, mal alguma dama lhe perguntava pela sua saúde, 
elle retorquia immediatamente: — O quê, a minha poi- 
ka ? Prompto, minha senhora.— -E, sentando-se ao 
piano, passava a exhibir esse p rodado da sua lavra. 

Era de ver o regimen dietético a que U. Claudia 
sujeitava os convidados — chá do Bessone e pífias tor 
radinhas com manteiga. 



OS CAFÉS 159 



A companhia de cavallinhos de Avrillon veiu fazer 
concorrência ás partidas de D. Claudia. A plaslica da 
Polelli e as habilidades do cavallo Pftenix deram em 
razo com os salsifrés espeluncaes. (Ibidem). E os pro- 
prietários d'esse lelonio de lafues e não tatues foram 
bugiar, deixando um brilhante cadastro de trapacices. 



WS$ 






XXI 



Botequins de S. Roque — Um livreiro antigo — café Ta- 
vares — Uma pagina de historia politica — Hei Chegou — 
Perseguições — O Miguel Alcaide — À biltraria dos ca- 
ceteiros — Justiça popular — O diabo c D. Miguel mão 
eram tão feios como os pintavam — Liberacs fingidos e 
liberaes verdadeiros. 



Em S. Roquo e proximidades enxameavam os bote- 
quins. Citaremos o do Campiano no largo de S. 
Roque, á esquina, o do Vicente Conselheiro na 
rua larga de S. Roque, n.° 1, o do Domingos Marques 
no largo de S. Roque, a e G, o do Fonseca na rua 
larga de S. Roque, 17, á esquina da travessa da Espera. 
Na outra esquina, onde agora está uma loja de mer- 
ceria e um talho, era o café das CGlutrwas. as- 
sim chamado por ter umas pequenas colúmnas. N'uma 
noite de inverno, em 1823, dois sujeitos que sabiam 
d'esse café notaram que a quadrilha do Sacavtm ata- 
cava um homem cm plena rua de S. Roque. Correram 
em auxilio d*elle, dispersaram os biltres, e retalharam 
a cara do Sacavtm (Vap. Div.) 

IVumas casas abarracadas da mesma rua, que foram 
demolidas para se edificar o thealro da Trindade, es- 
tava a loja de chocolateiro da gorda Dyonisia. Tinha 
grande fama e grande frequência de gente pouco res- 
peitadora da ordem. 



462 LISBOA D 1 OUTROS TEMPOS 



Ahi foi o celebre facínora Diogo Alves tomar o seu 
chocolate, depois de haver perpetrado o roubo e os 
assassínios em casa do medico Andrade, na rua das 
Flores. (Crimes de Diogo Alves. L. Bastos.) Essa loja 
mudou-se para a esquina fronteira, alindou-se, e ficou 
com duas portas para o largo da Trindade e outras 
duas para a rua de 5. Roque, conservando, todavia, a 
antiga loja, que servia para arrecadações, até que as 
barracas foram expropriadas. 

Ma largos annos, porém, que deixou de pertencer á 
primitiva proprietária, e que deixou de ter a clientella 
especial e o credito não menos especial que disfrucla- 
va. Dyonisia mudou a sna residência para os Anjos, 
mas ignoramos se ainda vive. 

Antes de continuarmos íveste passeio recreativo pe- 
los botequins, e como nos encontramos ua rua Larga 
de S. Roque, referir-nos-hemos a um livreiro que ahi 
estava estabelecido no principio d'este século. Quere- 
mos fallar de José Fermino Mariette que vendia per- 
gaminhos ordinários e finos, de vitella, e papelão e 
papel de Hollanda de todas as qualidades. (Gazeta). 

Suppomos que este Mariette é o mesmo livreiro e 
encadernador Mariatti de que o marquez de Rezende 
falia no seu curiosíssimo opúsculo Pintura de um ou- 
teiro Nocturno e um sarau musical ás portas de Lisboa 
?w fim do século passado. Diz elle que, em uma reunião 
uo solar das Picoas, havendo D. Catharina de Souza 
perguntado a Nicolau Tolentino sè era certo que elle 
vira pôr fora da cerca dos Barbadinhos italianos o li- 
vreiro Mariatti por devorar os olhos das alfaces, o jo- 
vialissimo poeta respondera com esta quadra : 



Comeu um livreiro a dente 
D'alfaecs um canteiro, 
E comeu, sendo livreiro, 
De&encademadãmente. 



os cafés 163 



Mais para cima, no largo de S. Rogue, morava, pela 
mesma epocha, o Dr. Manoel Correia Picanço, parente, 
segundo suppomos, do Dr. José Correia Picanço, que 
o marquez de Rezende dizia ser «homem de muita 
scieucia, de muita pratica e de muito sal.» 



O mais notável de todos os botequins S. Roque era 
o do Manoel Tavares, na rua d'aquelle nome, n.° 13, 
hoje n.° 37, loja agora occupada pelo luxuoso café 
Tavares. 

Esta loja de bebidas era suspeita de liberalista. Em 
8 de junho de 1823, Manoel- Tavares foi intimado a 
comparecer perante o Intendente de Policia, e obriga- 
do a assignar um termo «de não consentir de futuro 
que na sua loja houvessem conversações subversivas, 
e que alterassem o espirito publico, como constava te- 
rem havido», e concluía dizendo que, no caso contrario, 
«ficava sujeito a proceder-se contra elle com todo o 
rigor das leis, e mesmo a ser fechada a sua loja». 
(Pap. Div. Maço li). 

Uma parte da Policia Secreta irmanava este café 
com o das Columtias, o do Bosque, no Rocio, e o da 
Arcada, como conventiculos políticos. Outra cita o 
café do Tavares como ponto onde se reuniam políti- 
cos suspeitos, entre elles o capitão de navios Marcos, 
o Lucas do Sello, o Judeu Simão, e outros mais, que 
depois se dirigiam à casa de jogo do largo de S. Ro- 
que (Ibidem). 

No tempo de D. Miguel lambem ahi se reuniam 
muito os malhados, pelo que o botequim soffreu diffe- 
reníes assaltos dos caceteiros, que chegaram até a 
levar presos os caixeiros e os donos, sendo estes com- 
pelíidos a fechar as portas do café. 



1G4 L!S3CA DOUTROS TEMPOS 



Citaremos alguns cTesses assaltos. Em 2G de M3io 
de 1828 o Alcaide do liai iro- Mio e Ires soldados de 
Policia deram busca ao café. Tanlo o António Tavares 
como os empregados já estavam a dormir. Em seguida 
foram dar busca á casa da rua de S. Roque, G, 2.°, 
morada de Manoel Tavares, então ausente na Outra 
Banda. 

Um mez antes houvera grande desordem n'este bo- 
tequim, provocada pelos hberaes, fieanao ferido o pa- 
dre José Pinto dWlmeida, e sendo preso o aggressor, 
José Valério Capella, esludante, que soltara grilos sub- 
versivos. Daqui nasceu uma certa indisposição contra 
as pessoas que lá iam, indisposição que augmentou 
com outra desordem que se travou entre alguns libe- 
ralistas e dois soldados do ío\ A consequência foi ser 
intimado o Tavares pua fechar o café. Em Julho rea- 
briu, mas o Corregedor, Martinho de Brederode, sem- 
pre ia dizendo que seria bom que o Tavares assignasse 
um termo, para que não consentisse mais na sua loja 
conversas contra o governo d'El-Rei Nosso Senhor. 
(Correspondências, etc. Mjço l'i). 

Em 1829 abriu se devassa a fim cTapurar quaes 
eram os sentimentos políticos de Manoel Tavares. Di- 
zia o Corregedor que o António fora despedido pelo 
irmão por ser muito alTecto ao governo constitucional. 
(Idem. Mico 15.) Em 18JI assiguou novo Termo para 
não permiltir ajuntamentos nem conversações contrarias 
ao governo. 

O Tavares declarou que mandara collocar na parede 
um dístico concebido n'estes termos : 

«O dono desta loja não consente aqui discórdias 
nem conversações de qualquer qualidade e opiuiões. 
politicas.» (Idem. Maço 1/). 

As susppitas reappareceram em 1833, No entretanto 
o Corregedor do Crime avisava o Intendente que tra- 
zia esse botequim vigiado, não por causa do compor- 



OS CAFÉS 105 



tamento do Tavares, que era bom. «mas pela má fama 
da loja, adquirida por um irmão d'elle, que era muito 
constitucional, e o administrou, o qual se retirara lia 
ânuos pira o lirazil, onde se achava estabelecido, se- 
gundo o iuformavam.» (Idem. Maço 19). 



0> tempos não eram para praças, estavam muito 
diffieeis. Os miguelistas andavam assanhado.-*, viam li- 
beraes per toda a parle, e cantarolavam a toda a Corça 
de seus pulmões 

O' Braga fiel, 
O' Porlo ladrão, 
Para quo juraste 
A Constituirão. 

Eu sou realista, 
Eu sou de nação, 
Eu nunca jurei 
A Constituição. 

Já trinos Rei Senhor, 
Já I). Miguel é rei, 
Já D. Miguel é n i. 
Já D. Miguel é Salvador. 

ou berravam o monótono Rei Chegou, que os gaiatos 
repeliam se se lhes dava uma moeda de 5 réis. 

Para o que os constilucionaes encontravam fraca 
desforra no trautear, mezzo você, a parodia â estúpida 
Marselheza do miguelismo, essa canção inollanqueira 
em que não tiniam os guizos d'oiro das rimas delica- 
das, nem as notas bcllicosas dos hymuos triumphaes : 

Tara nos matar a fome 
Unia cantiga sr inventou. 
Quanto mais a fome aperta, 
Mais se eanta o Rei Chegou ! 



106 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Rei Chegou, Rei chegou, 
Com cangalhas desembarcou. 



O enthusiasmo elos absolutistas manifestara-se desde 
a chegada de D. Miguel. A canalha esturrada, a plebe 
ignara, quadrupedava pelas ruas, como que via tudo 
atravez d'um vapor de sangue tépido e fumegante. 
De sombreiro d Realista e cacete nas unhas, apanhava 
léo para mostrar a sua biliosa ira politica. Quem lè os 
documentos da Intendência Geral de Policia pasma pe- 
rante tanta pouca-vergonha, perante tanta arbitrarie- 
dade commettida. 

A corcundada perdera a tramontana. Havia uma ale- 
gria quente, communicativa, eléctrica, um enthusiasmo 
purpúreo, despótico, franco como o impudor. Até os 
presos do Limoeiro soltavam vivas a D. Miguel e a 
toda a Família Real ! (Correspondências dos Carcerei- 
ros das diferentes Cadeias. Cidade. Maço 11). 

Com o advento do rei-toureiro começavam as per- 
seguições politicas,, reappareciam as suspeições e pri- 
sões consequentes. Todos suspeitos! era a palavra de 
ordem. Era suspeita a loja de sola do Baptista Fer- 
nandes á esquina do Arco do Bandeira e da calçadi- 
nha do Tijolo (travessa de Santa Justa), porque ahi se 
faltava contra as pessoas reaes. Era suspeita a loja de 
ferragens do Souza Pereira, no quarteirão de S. Do- 
mingos, porque seu dono fora um dos que tinham ido 
a Vai de Pereiro, quando lá estavam os ingiezes, para 
promoverem assuadas do hymno constitucional. i Era 
suspeito o livreiro Rei, ao Chiado, porque lhe fre- 
quentavam a casa os conhecidos constitucionaes Bor- 



• l Na tarde de 24 de Março de 182R, dirigiu-se grande numero 
de pessoas ao quartel do regimento inglez em Vai de Pereiro, onde 
deram vivas a D. Pedro IV, D. Mana II e á Carta. A musica in- 
gleza tocou o hymno Constitucional, o inglez e o de Riego. (Cor- 
respondências, etc. Maço 24). 



OS CAFÉS 167 



i^es Carneiro, ' Ferrão, prior dos Anjos, 2 Bomtempo e 
Soares Franco. Eram suspeitos o Rolland e o Semiond, 
«estes 'dois mais famosos contrabandistas de venenos 
que teem semeado por estes reinos os germens da 
impiedade e da revolução com os pestilentos escriptos 
do seu prelo, e introduzidos de fora,» dizia a denun- 
cia de Fr. João Baptista de Figueiredo, frade do Car- 
mo, e Censor Régio em 1825. 

Também eram suspeitos o padre Emauz, da Biblio- 
theca, o Brandão retrozeiro, que fora tosado na rua 
do Ouro no dia em que chegou -D. Miguel, o afamado 
Coqueijo, com seges d'aluguel na rua da Horta Secca, 
n.° 5, 3 o Pedro Cavigioli e seu íiliio Carlos Cavigioli, '* 
negociantes sardos com deposito de vinhos no largo 
de S. Paulo e moradores no largo do Corpo Santo n.° 
11; e os bolieiros do alquilador Barbosa da rua da Fi- 
gueira. Entre a turba de suspeitos vinha o Pinto, bo- 



1 Manoel Borges Carneiro foi preso rio Rocio em 20 cTAgosto 
de 1828 por António Bernardo d'Almeida, alferes do 1.° bata- 
lhão de Voluntários Realistas, e conduzido á cadeia da cidade, 
onde ficou no segredo a ordem tio Ministro do Bairro de S. José. 
(Parles Diárias, etc. Maço 1). Em 30 foi conduzido para prisão 
fechada na Torre de S. Julião. (Correspondências, etc. Maço 138). 
Durante o captiveiro, valeu-lhe o seu antigo ereado Manoel Luiz, 
que foi, depois, mordomo do Club Lisbonense. (Artigo do Sr. Brito 
Rebello no Occidente de 1879.) José Ferreira Borges teve mais fe- 
licidade, porque conseguiu eseapar-se para bordo d'uma fragata 
franceza, o que motivou reclamações do visconde de Santarém ao 
encarregado do consulado trancez e ao commandante das forças 
Btavaes írancezas. (Avisos, etc. Maço 62j. 

2 José Ferrão de Mendonça, prior dos Anjos, já se tornava sus- 
peitoso, depois da Villa-francada, em 1823. pelo que fora man- 
dado sahir do Patriarchado. (Avisos, etc. Maço 44). 

3 Perto da cocheira do Coqueijo era a do alugador de cavallos 
Damião. E na rua de S. Roque, defronte dá T. da Espera, estava 
a de seges de Manoel Pequenú 4 a quem succedeu o José Maria 
Cabelleireiro. 

4 Foi o filho de Pedro Cavigioli quem, na manhã de 21 de Ju- 
lho de 1833, participou ao duque da Terceira, em Cacilhas, a 
nova da retirada dos miguelistas. (A Corte de D. Pedro IV. A. 
Pimentel/. 



1G8 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



ticario na rua dos Gapellistas, porque na sua botica 
se reuniam os médicos Soares Franco e Benevides, e 
o Valladares do ministério da guerra, e porque fora 
elle quem dera as drogas para se embalsamar Manoel 
Fernandes Thomaz e quem se offerecera pira este tra- 
balho. (Correspondências^ etc. Maços 18, 1», 129, 133* 
138, Iò9, 140 e 141, e Correspondência Confilenoial, 
L.° s.. ' Corte). 

Certa denuncia apontava três familiares do barão de 
Quintella : o inglezJoão Guilherme, crea.Jo de trazeira, 
Luiz de Souza, guarda-roupa, e Luiz José Romão, cai- 
xeiro. Provocava descoufianças a academia de concer- 
tos do musico Comtempo. l 

Citar as pessoas suspeitas seria quasi impossível. 
As priíões suecediam-se com uma rapidez vertiginosa. 
Era uma razzia. Fis a razão p<rque o Juiz do Crime 
d'Andaluz podia dizer no seu olficio de 28 de Mirço 
de 18:J2 que n'aquelle bairro não havia pessoa alguma 
suspeita, porque aquellas que existiam estavam tolas 
presas. «No entretanto, concluía o zeloso servidor do 
absolutismo, eu estou sempre alerta, e logo que se 
apresente a suspirada oceasião da esperançi ultima 
dos inimigos d"El Rei Nosso Senhor e nossos, pó le V. 
Ex. a ficar muito certo de que pouca gente conhecerá 
melhor n'esta capital do que eu laes malvados, e aonde 
quer que os vir estou na firme resolução, não de os 
prender, mas sim de lhes atirar á espingarda como a 



1 O aviso expedido ao Corregedor do Rocio em 30 de Abril de 
1828 diz : «Sendo informado de que a casa do Muzico Homlem- 
po. no palácio do Ex.'"° Duque de Cadaval, ao Rocio, concorrem 
a titulo de Sociedade Filarmónica vários indivíduos de altas ge- 
rarcliias que silo desafTecto.s á Kealeza, bem como o dito Bo.n- 
tempo, havendo rec io de que faião conferencias para transtorno 
da ordern do Estado, incumbo a V. Mercê de averiguar com res- 
guardo se estas noticias podem ter fundamento, e im- informe do 
que. apurar». (Correspondência Confidencial, L.° 2 o . Corte). Ou- 
tro aviso de 3 de Maio recommendava que se vigiasse a easa de 
Joíio Domingos Bomtempo. 



OS CAFÉS 109 



lobos derramados, e na de morrer na defeza d'El-Rei, 
na minha e de minha família». (Correspondências, ele 
Andaluz. Maço 27). 

Formulavam-se curiosíssimas listas de malhados em- 
pregados nas repartições publicas. Copiámos esta, em 
que o Juiz do Crime da Ribeira apontava os emprega- 
dos suspeitos da repartição das Obras Militares e da 
Inspecção dos Quartéis : Thomaz d'Aquino Leal, con- 
tador, que dizia ao porteiro da repartição — «Aposto 
que V. é um refiuado corcunda!» porque este falava 
no marquez de Chaves; o Ribeiro Soares, escriptura- 
rio, que mandara imprimir três odes a D. Pedro IV, 
D. Maria Ií e D. Izabel Maria ; o Coelho Moniz, que não 
cumprimentava os eollegas realistas, e que, quando 
solicitou uma subscripção para o retrato de D. Pedro, 
dizia: — «que lhes crescia agua na bocea, se o vissem, 
mas que cuspissem fora que eram maus humores» ; o 
Vicente Bastos que cumprimentava os eollegas dizen- 
do-lhes: — Atieu, Frère Maçon; o Quadrio, bonapar- 
tista e antigo sectário dos francezes ; o José Joyee, do 
origem ingleza, que fizera muitos serviços na revolu- 
ção do Porto de L>^8; o Arejoens, que usava lenço 
com o retrato de Bonaparte, e costumava extendel-o, 
em ar de triumpho, na cadeira em que se sentava na 
reparti ;ão; o Moraes, encarregado da fabrica de co- 
bertores, o que mais influirá para as luminárias que 
se lizeram na rua dos Fanqueiros, quando veiu a Carta 
Constitucional; o Alexandre Bossini, director das obras 
dos quartéis e Collegio Militar da Luz, que se intitulava 
parente de Bonaparte. Etc. (Avisos, ele. Maço 73). 

Qualquer ccisa, apparentemente inoííensiva, servia 
de motivo para procedimento policial. Porque D Ma- 
thilde ái Mello, que morava na rua das Canastras, 
usava laços azues e brancos, deram- lhe busca á resi- 
dência, onde lhe encontraram três livros de Volterro 
(textual), uns folhetos sobre a conspiração de 1817, 



470 LISBOA d'outros tempos 



duas cartas de Gomes Freire, e umas quadras que, 
dizia ella, lhe haviam atirado para dentro do seu ca- 
marote, em S. Carlos, no tempo da Constituição. (Cor- 
respondências, etc. Maço 17). Porque a viuva de um 
inglez, que morava na rua do Moinho de Vento, tinha 
uma barraca de chila azul e branca no quintal, foi logo 
vigiada. (Avisos, etc. Maço 73). 

Os morcegos e os beleguins fariscavam por toda a 
parte, imaginavam dúbios, como elles mesmos diziam 
em suas participações, collavam os ouvidos aos bura- 
cos das fechaduras á cata de conversações compromet- 
tedoras, patenteavam o seu ódio frio como uma lamina 
d'aço. Serviam de caceteiros, eram fautores de roubos, 
violências e assassinatos. 

No entretanto, D. Miguel dizia, pela penna do mi- 
nistro da Justiça, «que presava mais ser rei dos Por- 
tuguezes do que do mundo inteiro». l 



A inquietação d'animos era um estado permanente. 
Quando a esquadra franceza do almirante Roussin en- 
trou no Tejo, o povinho andava assarapantado pelas 
ruas de Lisboa, e a tropa formava no Rocio com re- 
ceio d'algum levantamento dos liberaes. 2 Foi então que, 



1 Aviso datado do Paço de Caxias aos 9 d" Agosto de 1832. 
(Avisos, etc. Maço 76). 

2 A esquadra veiji reclamar a entrega dos súbditos francezes 
Edmundo Poteneiano Bonhomme e Cláudio Sauvinet. O almiran- 
te Roussin reclamou egualmente seis empregados do Sauvinet, 
que estavam presos, o padre Mr. líias. Mr. Hestier, um caixeiro 
do Orcei, Madame Tamboril, mulher do Dr. Romain, a viuva Co- 
minge, o boticário Ravel, o pintor João José Lècoq, Manoel Le- 
coq, preso no Porto, e o Clamouse, preso em Torres- Vedras. Exi- 



OS CAFÉS 171 



uma noite, um sujeito se ergueu na plateia do theatro 
da Rua dos Condes, e recitou uma poesia, que termi- 
nava assim : 

E eu também, no dia da entrada, 

Molhei a minha .sopa, e dei a minha cacetada! 

E o povinho applaudia delirante, sem que, nem por 
sonhos, tentasse intervir a sentinella que estava na 
plateia, como era de uso em todos os lheatros, uso 
que terminou quando veiu D. Pedro IV. 1 

D recitador casou depois com a filha do Miguel Al- 
caide. Este. também tinha um filho, Francisco José de 
Castro, alferes de milícias do Termo. 

Miguel Rodrigues de Castro, vulgo o Miguel Alcaide,' 2 ' 
tinha (j:j annos (em 18:j.'lj, e era um homem grosso, 
mal encarado, e d'altura regular. Morava n'um terceiro 
andar do quarteirão chamado do Paço, junto ao Paço 
da Regência (como ao quarteirão onde está o Fran- 
cfort-Hotel chamavam dos Vicentes, e ao que torneja 
para S. Domingos chamavam de S. Domingos), e, du- 



giu também a entrega do letrado Adriano Ernesto Castilho Bar- 
reto (irmão do poeta Castilho), que fora defensor de Mr. Bon- 
homme, e que se refugiara em casa de João Baptista Gambette, 
professor d'esgrima do Collegio Militar, e morador na K. da Con- 
:ão, 33, 3.", onde foi preso á 1 hora fia tarde de 27 de Julho 
por alguns officiaes de Justiça. A casa de Sauvinel, em Vai de Pe- 
reiro, tivera cerco por uma força do 16, e elle foi encontrado es- 
condido mi forro da agua-furtada. Passaram -lhe busca, sendo-lhe 
apprehendidos, nos bufetes, todos os papeis, incluindo a corres- 
pondência com seus filhos, que estavam em Franca, e com sua fi- 
lha a Snr." Curvillers. Sauvinet e Bonhomme estiveram presos na 
Cadeia da Corte, e, depois, na Torre de S. Julião. Bonhomme foi 
açoitado. [Avisos, ete. Micos 70, 71. 72. Correspondências, etc. 
Maço 26). ' 

1 Também havia sentinellas nus corredores. 

2 Miguel Rodrigues de Castro exercia o logar de simples offi- 

de justiça do Bairro do Bócio em 1820. {Avisds, etc. Maço 
:rivão das armas do Bairro da Ribeira em 1811. 
2 " dos Despachos em requerimentos, fls. 12o v.) 



472 LISBOA d'outros tempos 

rante os motins de 2i ou 25 de julho de 1S3' ? , arrom- 
baram-lhe as portas de casa, e deitaram llie toda a 
mobília para o meio da rua. O Miguel Alcaide fugiu 
para Santarém, e alii foi assassinado. 

O Corregedor do Crime do Rocio era o Dr. Izidoro 
António do Amaral Semblano, que lambem não disfru- 
clava de muitas sympalhias. 

N'essa epocha ominosa qualquer innocenle eslava 
sujeito á ferocia canaca dos caceteiros e dos morcegos; 
então commandados por Joaquim José Maria, o Ca- 
vallo das Corlezias, assim chamado por ser muito cutn- 
primenteiro. 

No dia 2Í de Julho os caceteiros e quejandos viram 
uma bruxa com a populaça amotinada" Um d'elles foi 
o celebre Malta. O Malta possuía uma luja de bar- 
beiro na calçada de S.intAnna, mas aceumulava o oflj- 
cio com as fuueções de caceteiro. Como outros parti- 
dários do miguelismo 'usava riiapéo armado, que elle 
collocava lai qual D. Miguel, i>to é, d'csguèíha, ou ás 
ires paiicaclis, como se dizia n'esse lempo. Era medo- 
nho, uni patife, um malvado, um dos mais ferozes mi- 
guelistas. 

Ao rasgar do dia 21 de Julho, o Matta, que não ti- 
nha conhecimento da retirada das tropas miguelistas 
para fora de Lisboa (retirada que se combinara em 
conselho de genenes no palácio do duque de Cadaval), 
exclamou:— Eu vou amansar estes malhados! — Con- 
tam que clipgàra alé ao largo de S. Domingos, mas, 
ahi, foi mono com Ires liros d'espiugarda. A justiça 
popular saldava as suas contas. 

António Joaquim da Matta era barbeiro, como dis- 
semos, e em I8:i8 requerera para ser nomeado oíli- 
cial de diligencias da Intendência, porque, allegava, os 
conslituciouaes lhe haviam espancado e afugentado os 



OS CAFÉS 173 



freguezes da sua loja. (Correspondências, etc. Maço 
129) 

Havia um corpo nacional fixo, chamado o batalhão 
de Matla, cuja missão se limitava a fornecer guardas 
para o Phço Ueai da Bemposta. Poucos dias antes do 
exercito d»i D. Miguel fechar o cerco de Lisboa, os 
constitucionaes mandaram uma força do batalhão para 
trazer as pratas da egreja de Monte Mor, perto de Ca- 
necas. Não sabemos se o conseguiram, mas o que sa- 
bemos é que tiveram de fugir de lá a unhas de ca- 
vallo, licando morto o chefe da expedição. 

A este corpo pertenciam o José Maria Saloio, o va- 
lentão, mestre de jogo de pau, e Francisco Alves d'A- 
zevedo da botica, que, mais tarde, também fez parte 
da Guarda Nacional. 

No da 24 de julho passava pelo Hocio uru homem 
do campo, quando alguém, «ao vèl-o, levantou a voz, 
dizendo: — Aqueile é o Sem Tripas, que matou o of- 
ficial do batalhão de Malta em Monte-Morf — Immedia- 
tamente saltaram todos em cima do homem, que foi 
morto n'nra abrir e fechar dolhos. Momentos depois, 
o José Maria Saloio entrava na botica do Azevedo, e 
gabava se de ter dado uma canivetada no Sem Tripas, 
já depois de caliido, para assim vingar a morte do seu 
capitão. Ainda ha poucos mezes dizia um velho de Ca- 
necas que o homem morrera innocenle. Não fora elle 
que matara o commandante da expedição. 

Os realistas convictos, sérios e honestos, reprova- 
vam os processos radicaes dos energúmenos, da plebe 
ignorante, beata e feroz, prompta sempre a dar vivas 
ao vencedor. O mesmo D. Miguel não era tão mau 
como o pintavam. Prova-o, entre outros casos, o se- 
guinte, que foi contado pelo fallecido medico dr. Gas- 
par Gomes. 1 



1 Contado ao sr. Dr. Alves d'Azevedo. 



1 ;4 LISBOA D CETROS TEMPOS 

Estando D. Miguel na quinta de Queluz, acompa- 
nhado dos seus amigos Sedvem, José Veríssimo, e 
Vassallo, estes notaram que vinha pela estrada o mes- 
tre de meninos de Bellas, constitucional ferrenho, e 
pae d'aquelle medico. 

— O' que patife que alli vem! exclamou um. Já te va- 
mos arranjar! — D. Migue! voltou-se para elles, e dis- 
se-lhes com intimativa: — Deixem-n'o, que é urn ho- 
mem de bem. — 

A par d'isto linha excentricidades, ratices, cuja raiz 
talvez se encontrasse tia pouco cuidada educação. 

Assim, quando D. Miguel eslava em Santarém, foi 
procurado pelo coronel Wylde, que vinha na qualidade 
de parlamentado do Saldanha, para ver se cedia e evi- 
tava a effusão de sangue. 

Responderamlhe que não podia falar ao soberano, 
porque estava muito occupado líaquelle momento. 

O coronel chegou, por acaso, a uma janella, e, qual 
foi o seu pasmo, ao vêr D. Miguel a tosquiar uma 
mula, entretenimento que elle muito apreciava ! 

Ainda infante, em 1823, atirou, por brincadeira, com 
uma bacia cheia d'agua sobre a cabeça de dois homens 
que estavam a uma janella do Paço da Bemposta, por 
baixo daquella em que elle se encontrava. Certa vez, 
na feira do Campo Grande, apreçou um canivete pelo 
qual lhe pediram meia-moeda. Regateou, offereceu de- 
zeseis tostões, mas, não obstante mostrar muito gosto 
n'elle, não o comprou, porque não quiz dar mais. O 
caso foi á parte da policia secreta, que dizia «que tudo 
isto era pequeno, impróprio á grandeza d'um infante.» 
(Papeis Diversos. Maço II). 

Appareceram liberaes da ultima hora, malandros 
que aproveitavam a occasião. Um d'elles era o Al- 
fayate Coxo, a quem o eruditíssimo escriptor sr. Al- 
berto Pimentel, se refere no seu magnifico estudo his- 
tórico A Corte de D. Pedro IV. (Pgs. 181). Tinha por 



OS CAFÉS 175 



costume encostar-se ás paredes, e, n'essa posição, 
manejava a muleta, dando pancada de cego. 

Apparecerarn outros, liberaes sinceros, convictos, 
que se tiveram de soccorrer a tretas para escapar ao 
cacete e á prisão. Neste caso estava o Camará Sin- 
val, muito frequentador da botica do Azevedo, e que 
veiu a ser lente da Escola Medica do Porto, graças a 
Passos Manuel, de quem era intimo amigo, o mesmo 
Camará Sinval, que mereceu algumas paginas espiri- 
tuosíssimas a Camillo Castello Branco no seu livro O 
Vinho do Porto. 

Sinval lingia-se muito miguelista, muito religioso, e 
ia para o convento do Espirito Santo orar de braços 
erguidos. Um dia, um brejeiro enfioulhe um chapèo 
por uma das mãos, do que immediatamente lhe pediu 
desculpa, dizendo que se enganara, julgando ser um 
cabide. 



XXIÍ 



Prosegue-se com a historia do café Tavares — Os irmãos 
Tavares — Frcguezes do caie Tavares — O novo café. 



Fechado o largo parenthesis, prosigamos na narra- 
tiva. 
Manuel Tavares foi um dos principaes influen- 
tes para a construcção do arco que se levantou na rua 
de S. Roque por occasião do Juramento da Carta em 
ÍSiQ. 1 

O botequim do Tavares vendia neve no verão, cara- 
pinhadas depois das 11 horas da manhã, e sorvetes de 
tarde. 

Os manos Tavares eram dois excêntricos. Trajavam 
sempre de jaqueta, e usavam sapatos d'ourèllo. Um 
era triste como os gatos pingados do Lagoia, o outro, 
pelo contrario, era jovial como os saltarilhos do Sali- 
tre. Se aquelle tinha a gravidade chocha dum rotundo 
desembargador da Casa da Supplicação, ao revez, este 
animava-se com a alegria d^um jogral, agitando os cas- 
cavéis em entremez palhaço dos paleos de comedias. 

Um d'eiles — o António, parece nos — fazia versos 
como Mr. Jourdain fazia prosa, isto é, sem o saber. 

Se chegava o José Carlos Poeta, gritava logo: — 
Café para o sr. Carlos José ! 



1 Fora lambem subscriplor para a grande festa que se realisou 
no largo das Duas Egrejas em 4 de Julho de 1822, celebrando o 
anniversario do regresso de D. João VI. 



178 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Se chegavam os manos Brilos, exclamava açodado : 
— Ovos fritos, para os srs. Brilos ! 

Os botequins não conheciam o moderno serviço de 
restauram. Apenas cozinhavam ovos. 

Freitas, o rabequisla de S. Carlos, e soldado da 
Guarda Nacional em 1830, indo uma vez para o quar- 
tel, fardado e de calças brancas, entrou no Tavares 
para beber o seu habitual café. Ao sahir, chovia a 
cântaros. Salta logo de lá o Tavares : 

Adeus, sr. Freitas, honrado cidadão, 
Está hoje um dia de verão ! 

Arranjara uma quadra favorita para os mendigos 
não causticarem a fregnezia do botequim : 

Perdoar, e não entrar, 
Pedir, nunca importunar 
E ainda não demorar, 
Freguezes não apoquentar. 

Dedicavam todos os seus desvelos a um cãosito sar- 
nento que possuíam, e a que chamavam, arcadicamente, 
o Phyleno. Quando o fraldiqueiro dormia a sesta, o Ta- 
vares entretinha-se a coçar-lhe o lombo com o seu sa- 
pato d'ourèllo. O animal também provocou o estro 
claudicante do quitandeiro : 

Phyleno, amigo do coração, 
Tu não és mais do que cão, 
Mas não sou teu inimigo, não f 
E's fácil de contentar, 
Qualquer coisa te pode sustentar, 
Não és cão de duas bocças, 
Lambes apenas umas magras sopas, 
E nenhum bruto cie boa fé 
Te poderá dar um pontapé. 

Paulo Alidosi allirmava ser esta a fiel metrificação 
do vate. 1 



OS CAKÉS 179 



Afinal não pagava dum pobre diabo. Ura freguez 
pediu-lhe, uma occasião, que desse um recado a al- 
guém, que ahi havia d'ir. Tavares respondeu par- 
voamente : «E se não vier que lhe direi?» 

Entre os freguezes mais assíduos figuravam : o Frei- 
tas, rabequisla da orchestra de S. Carlos, que acom- 
panhava a violino os ensaios dos bailados, o Monteiro, 
escrivão e feliz jogador da pula e do gamão, o Gui- 
lherme Lima, flautista de S. Carlos, também chamado 
o Lima da flauta e o Lima de S. Carlos, e Domingos 
Ardisson, que, entre outras proezas, tinha a d'embor- 
car doze cálices de genebra, que elle formava sobre 
uma meza, e bebia, a seguir, sem lhes tocar com as 
mãos. 

Esta loja de bebidas nada se parecia com o actual 
café; era taciturna, tristonha, com uma espécie de 
kiosque junto á columna central, e illuminada a azeite 
de peixe. 

O velho Manuel Machado referiu-nos o seguinte caso 
succedido no Tavares. 

Nos tempos da Maria da Fonte frequentava este 
café um tenente de caçadores alcunhado de Salomé 
Carrega, grande cabralista. O valente José Maria Chris- 
tiano, amigo do Machado e exaltado palulêa, travou tal 
discussão politica com o tenente, que terminou por lhe 
pespegar com uma chávena de café n'um olho. Ma- 
chado affirma que viu perfeitamente saltar o olho do 
tenente fora da orbita. O tenente foi levado em braços, 
e o Christiano fugiu para casa do Machado, onde se 
escondeu durante três dias. 

O antigo café Tavares passou a um gallego que tinha 
loja na rua das Gáveas, depois a um tal Pimenta, um 
pandego, a quem o José Maria, camaroteiro de S. Car- 
los, emprestou o dinheiro para o trespasse, mas que, 
a breve trecho, desbaratou tudo, e, finalmente, em 
1861, ao sr. Vicente Caldeira. 



Tm ®*®®®®@i 



XXIII 



Caís rcá- dames. — Reuniões de constitucionaes. — O Chi- 
cória. — Sonelo a esle alcaiote. — Disposições de policia. 
— A Casa da Estopa e o Recolhimento da Cordoaria. 



N 9 outros tempos jogava-se muito nas casas das 
mulheres laceis. 
Duas que pertenciam ao haut gratin da clas- 
se, duas cocottes, como diríamos agora, a Eugenia 
(Eugenia Bebianna de Magalhães da Matta), e a Gaioso 
(Maria Antónia Xavier Gaioso), soffreram detenção (em 
1832), pagaram nove mil e seiscentos réis de multa, 
e assignaram um termo de nunca mais consentirem 
filhos-familias em sua casa. A Anna Emilia, que mo- 
rava acima do Pote das Almas, á esquina da travessa 
de S. Francisco era suspeita de Jiberalista, por causa 
do irmão. O Corregedor opinava que se lhe passasse 
busca á residência. (Correspondências, etc. Maço 133). 

A conhecidíssima Chicória viveu na travessa do Co- 
tovello, em tempos de D. Miguel. * 

A casa era frequentada por grande roda de consti- 
tucionaes. Mesmo a proprietária era uma enlhusiastica 
constitucional, e tão enthusiastica que chegou a soc- 



1 Em 1808, os moradores do largo do Corpo Santo queixa- 
ram- se das mulheres publicas que habitavam no mesmo silio. (£.* 
2.° dos despachos em requerimentos, fls. 118). 



182 LISBOA d'outros tempos 



correr com dinheiro a muitos liberaes. Por isso os ca- 
ceteiros assaltaram a casa por varias vezes. 
A Chicória tinha um irmão frade, o Nicolau. 

Por 1838, 1840, a jogatina continuava com furor. 

A.' entrada da rua das Gáveas encontravam se duas 
famigeradas casas de mulheres irregulares: á direita a 
da Chicória, á esquerda a da Joaquina dos Cordões. 
A casa da primeira occupava dois andares. No segun- 
do, o andar sírio, o andar a que davam o nome de 
sala dos deputados, jogava se o monte, e a ronda, um 
jogo de cartas de que já ninguém fala e de que pou- 
quíssimos se lembram. 

Muchachos repimpados, repetenados nos canapés, 
entravam ein concorrência batoteiral com langroias que 
entrelinham assíduas relações com tascas e boticas; 
rapaziada gabarola, inexperiente, para a qual tudo isso 
passava como um regabofe, lá ia largar os seus pata- 
cos. Gamberrias de trampistas, alicanlinas, tramóias 
armadas aos estróinas, não faltavam. Estes percalços 
aMi mesmo tinham sua compensação... de concerto 
com a theoria optimista d'Azais. 

Na rua das Gáveas, 10, 1.° andar, havia casa de 
jogo... e o resto em 1826. (Correspondências, etc. 
Maço 21). * 



1 jS ! um plano geral de segurança publica que o Intendente ex- 
punha ao conde de Sub-Serra em 28 de Julho de 1821, as mere- 
trizes são incluídas no numero das pessoas susceptíveis de pres- 
tar auxilio nas indagações policiáes. E diz que «n'essa classe po- 
dem-se escolher algumas de certa ordem, porque muitas vezes 
conseguem pela industria, ou pelo artiticio, em que pelo commum 
estão mui exercitadas, informações e particularidades mui inte- 
ressantes». (Policia Secreta, etc. pag. 33). 

Ora tal modo de ver foi exactamente o de Napoleão III, que 
empregou como agentes, não já da policia secreta, mas da alta 
policia diplomática, as cortezãs e cocodettes mais vibrantes entre 
as vibrantes, mais notáveis por sua seducção physica e seu ma- 
chiavelismo sentimental. Assim. Helena Préjean foi incumbida d» 



>S CAFÉS " 18^ 



O almanak das Pequenas (que não era pornogra- 
phicoj, publicado em 1839, alludia a essas casas du- 
vidosas. Depois de citar a casa da Chicória dizia : 



Na mesma rua 
O' que peixões ! 
Mora a Joaquina.. 
A dos Cordões. 



Ainda na rua das Gáveas morava a muito conhecida 
D. Marianna, cuja filha Catharina foi a herdeira da 
Chicória. E n'essa rua, entre as travessas do Poço e 
dos Fieis de Deus, por cima da loja onde agora existe 
uma fabrica de papelão, habitava a Luiza do Frade, 
uma mulher que deu brado. 

Sua irmã, a Custodia, nunca conseguiu guindar-se á 
importância d'aquella ; mas sua filha, a Henriqueta, 
foi uma formosura deslumbrante, muito gabada, an- 
dou na berra, como diz o povo. 

A Constança S., linda como os amore?, filha da mo- 
dista franceza S., que tivera manufactura de modas 
perlo da Academia Phylarmonica na rua do Alecrim, 
também se tornou conhecida, para descer, por fim, 
aos bas-fonds da prostituição. 



penetrar segredos diplomáticos de grandes nações, foi encarregada 
de espinhosas missões, em que a versúcia de muitos políticos fra- 
cassaria. Carolina Fiasse, a Soubise, as irmãs Drouard, Rosália 
Léon, Pepita Sanchez e outras das que faziam do amor um idolo 
e do leito um altar, pozeram seus encantos venaes ao serviço do 
ministério dos negócios estrangeiros 

Os allemães soccorreram-se, egualmente, d'este meio d'espiona- 
gem, antes e depois da guerra de 1870. Haja vi:>ta o que succe- 
deu com a legendaria baroneza de Kaula, que, sendo amante do 
general Cissey, pretendeu arrancar lhe, suhrepticiainente, os pla- 
nos das fortificações de Paris e da organisaçâo do exercito para 
os entregar á Allemanha. 

Estes factos d'ordem particularíssima, mas capitosos corno um 
camarim d'actriz e in>tructivos como uma embaixada, pertencem 
tos bastidores da historia. 



18 Í LISBOA D'0UTR0S TEMPOS 



A Joaquina dos Cordões teve este appellido por usar 
sempre ao pescoço dois cordões: um muito grosso e 
outro fino. 

Foram dignissimas successoras da Maria Mulata, na 
rua das Gáveas, da Rosa Mulata na rua d'Atalaya, da 
Gertrudes Sequins, na calçada do Duque. (Corr. Con- 
fidenciai. L.° 11. 222-293), da Severina Theodora, * 
alcaiota muito conhecida em 1816, e ainda antes, uma 
coscuvilheira de quem a policia dizia em 1818. — 
«Esta mulher é uma das alcoviteiras mais escandalosas. » 
(Avisos, etc. Maço 33), e da Maria Luiza, mulher fá- 
cil que morava na rua do Loreto n.° 83, casa onde se 
davam desordens, chegando-se a arrancar de facas. 
(L.° 33 das Secr.) 

Por denuncia particular enviada á Intendência de 
Policia em 1809, sabe-se que existiu um chefe de la- 
rápios, Manuel dos Reis Cordeiro, que passeava a 
toda a hora pelo Rocio, «e cujo menor defeito era ser 
alcoviteiro». Notava se, entre os jacobinos, o italiano 
José Cryo, alcaiote e ladrão. E no numero das pessoas 
que podiam depor a respeito d'este e d'outros parti- 
distas, que infestavam o Marrare de S. Carlos, appa- 
reciam o Sericó, o Luiz que repartia os bilhetes dos 
camarotes em S. Carlos, e Manuel Francisco Costa, 
que morava dentro do mesmo lhealro. (Pap. Div.). 

Em 1810, o tenente João António de Sousa Moraes, 
o Chicória, era accusado de jacobino, d'usar, indevi- 



1 As Clucorias formaram uma dynastia... marafonense. Em 
1814, Thereza ChL*oria morava na rua Nova do Carmo, descendo 
do Convento do Espirito Santo para o Rocio, n.° 10, 1." andar; 
Josepha Chicória, íillia d'e.»ta, morava na rua Áurea, 20o, 2.° di- 
reito; e Anna Chicória, filha da segunda, morava na rua do Ou- 
teiro, junto ás escadas que descem para S. Carlos, n.° 2, 2.° an- 
dar. (Correspondência com as auctoriáades. Particular. L.° 11). 

A digna rival d'ellas e da Severina Theodora, no Porto, era a 
famigerada Maria Ignacia, uma proxeneta de primeira ordem, a 
quem o poeta portuense Ferro allude inim dos seus sonetos por- 
nographicos. 



OS CAFÉS I8t 



damente, o habito de Christo, e de ter alcouce. Uma 
denuncia feita á policia em 19 de Janeiro de 18i0 di 
zia que o Chicória, «que bem conhecido era por ser 
um inculcador do género feminiooe, ia grazinar con- 
tra o governo e fazer a apologia dos francezes nos bo- 
tequins do Nicola e do José Pedro. (Pap. Lio. Maço 1). 
Este homem foi um grande perseguidor dos malhados 
de 1828 a 1833. tinha o posto de major, e alcunha- 
vam-n'o de major Chicória. (L.° 11 das Secr). 

Foi a este Ínclito varão que fizeram uns versos, que 
o pintam perfeitamente. Esses versos foram parar ás 
mãos do Corregedor dos Romulares, conforme elle di- 
zia no seu aviso confidencial de 25 de Junho de 1828. 
(Correspondências, etc. Maço 138). 

Era o soneto que se segue ; 



No Terreiro do Paço o heroe Chicória. 
De velha pantalona transparente, 
Alça a medonha voz,, e de repente 
Se lhe ajunta da plebe a infame escoria. 

Rotos illustres d'inclita memoria, 
(Diz), pois fizemos rei nosso Regente, 
A nós só cumpre, com valor ardente, 
Dar lhe contra os do Porto alta victoria. 

Marcha logo o famoso alcoviteiro ; 
Segue- o furioso toda a vil canalha, 
Que tu também animas., grão Pinheiro. 

Chegam á Ajuda, formam -se em batalha, 
Pedem pão, e sapatos, e dinheiro ; 
Eis o nobre triumpho da canalha 1 



Parece que, em 1829, não era permittido que as 
mulheres irregulares occupassem as frizas e os cama- 
rotes de l. a ordem nos theatros. Pelo menos é isso o 
que se deprehende de um aviso do Semblano. Diz elle 
que D. Anna Emília, de quem já falámos, frequentava 
o theatro de S. Roque, sem interrupção, apresenlan- 



186 LISBOA D ? OUTROS TEMPOS 



do-se nos logarès que citámos. Ora aquelles logares, 
dizia o Corregedor, eram frequentados pela Nobreza 
e pessoas em decoro, e nunca por similhante gente. 
Este ministro preveniu então para que não lhe alu- 
gassem camarotes da primeira ordem para baixo. * Era 
possível, continuava elle, que outras de egual jaez os 
frequentassem, mas, por não conhecidas e por não as- 
síduas, não se tornavam reparadas. {Correspondências, 
etc. Maço 130). 

A casa de correcção para mulheres foi creada em 
1814, e estabelecida na Cordoaria. Este estabeleci- 
mento tomou o nome de Santa Maria de Cortona, e 
veiu substituir a antiga Casa da Estopa que havia no 
Arsenal de Marinha. Foram nomeados administrador 
António Joaquim dos Santos e regente D. Thereza 
Brainer, que não acceilou, nomeando se então para 
esse cargo a D. Fillipa da Penha de França Sá e Men- 
donça, moradora na rua do Oiro, 5. (Avisos, etc. Maço 
25). 

O ministério da Justiça officiava á Intendência, em 12 
de Março de 1832, perguntando lhe se se podia resta- 
belecer essa amiga casa de correcção, que estivera 
no Arsenal de Marinha, e que depois passara para o 
castello de S. Jorge e para a Cordoaria. (Acisos, etc. 
Maço 74). 



1 Os camarotes com destino exclusivo não eram novidade. 
Consta nos que no antigo theatro da Graça havia um camarote 
privativo das meretrizes. No século xvm, o theatro da Hua do» 
Condes tinha um camarote com rotulas de madeira, por detrazda9 
quaes os frades assistiam ao espectáculo sem ser vistos. Chama- 
vam -lhe até o camarote dos frades. 



m"miii*'.'t!tiíA"i.^.. ^— ."'■'M.tMj^MM! 



íttMutt» »....-■•■ ^ ; ^^|^ : - /""^ ? » »'i ri o tttfíf" mvmffif 



XXIV 



Os botequins em 1824. — café r/o Bosque e outros. — Bar- 
racas do largo do Passeio Publico. — O Troca. — Seu va- 
limento. 



Em 1824 os cates mais ordinários, mais fartamente 
concorridos, eram o do José Maria, á esquina do largo 
de Belém, no qual faziam assembleia os criados e pi- 
cadores da Casa Real, o do Francisco José de Serpa 
no largo das Duas Egrejas n.° lb\ o da rua direita do 
Loreto n.° 1, muito antigo, pertencente a Thiago da 
Martha, * o botequim fronteiro, em n.° 91, pertencente 
a Bernardo Velho, o do Julião de Barros em n.° 4, o 
do José Vasques em n.° y. 

de n ° 1 era ponto de confluência de ladrões ; o 
de n.° 91 ainda era mais temível porque tinha fre- 
quência de soldadesca da Brigada Real de Marinha, de 
artilheiros, da Guarda Real de Policia, e de rameiras 
— toda a canalha. 

Havia mais, o botequim do Abbade, ao Passeio Pu- 
blico, o da Rua dos Condes, ao pé do theatro, o do 
Maneia, ao Soccorro, o Retiro do Cabeço de Bolla, o 
do Bosque, e o do Friza. Nas ruas da Atalaya, da Bar- 
roca, da Rosa, e em algumas travessas do Bairro Alto, 
existiam tabernas e tendas com venda de vinho, onde, 
de dia e de noite, se juntavam malfeitores conhecidos. 
(Policia Secr. etc). Era tal a quantidade de mulherio 



1 O botequim do Thiago da Martba já existia em 1807. 



48S LISBOA d'outros tempos 



que andava á matroca pelo Loreto que os donos de 
cafés e bilhares, próximos á egreja, reclamavam me- 
didas repressivas contra essas fêmeas que se adarga- 
vam com modos despejados. (L.° 32 das Secr). 

Junto ao adro do Loreto estacionavam (1821) umas 
doze vendedeiras de fructas, doces e outros comestí- 
veis. Para esse fim tiuham barracas de lona e volan- 
tes, e gigas e taboleiros. Mais abaixo, á esquina da 
travessa de Estevão Galhardo, havia um logar de hor- 
taliça e fructa, logar que se armava de manhã e des- 
armava á noite. (Correspondências, etc. Maço 10). 

A' lista acima podemos accrescentar os seguintes 
cafés populares : o do Alberto Nheco na rua do Am- 
paro n.° 4, á entrada vindo do Rocio, o do Matheus 
Tortello na rua Oriental do Passeio n.° 38, o do Bar- 
nabé da Martha no largo de Santa Justa, o do Bartho- 
lomeu Tasso na rua do Amparo, fronteiro á portaria 
dos Camillos, o bilhar da rua de S. Vicente, á Guia, 
n.° i, o do Guisande, ao Poço Novo, e o chocolateiro 
do largo do Carmo, á esquina da rua da Oliveira, que 
ahi se encontra ha perto de oitenta annos e ainda se 
conserva na família do fundador. 

A Real Fabrica de Cerveja de Valle de Pereiro 
(propriedade do Sauvinet, avô dos srs. Sauvinets) ti- 
nha depósitos no Cães do Sodré e na rua do Arco do 
Bandeira. (Gjzeta). 

Na rua dos Algibebes contavam-se três botequins 
conhecidos. O do João Baptista dos Santos, ao pé da 
rua da Prata, vendia neve manufacturada e tinha «um 
decente quarto particular». O do Nunes, em n.° 4ii, 
hoje n.° 82, também perto da rua da Prata, tendo um 
gabinete para senhoras, e entrada pela escada junta. 
O café dos Sete Espelhos em n.° 51, próximo á rua 
dos Fanqueiros, tinha, contíguo á loja, um quarto par- 
ticular para senhoras. Vendia neve e fructas geladas. 
(Gazela). 



OS CAFKS 189 

Este foi muito suspeito das reuniões de constitucio- 
naes. {Correspondências, etc. Maço Í29.) 

Saltemos para o Rocio. A'esquina do palácio da In- 
quisição, em n. e 40, apparecia nos a loja de bebidas 
do Madre de Deus. Vendia agua de salsa -partilha. Pas- 
sou ás mãos do italiano Seraptiim Pistachino. 

Pistachino foi copeiro do príncipe de Hesse. que 
veio a Lisboa em 1828, e esteve hospedado na Bem- 
posta. (Correspondências, etc. Maço 02). 

O café do Pistachino também possuía seu gabinete 
particular para as damas tomarem os refrescos. O co- 
peiro italiano Abondano fornecia carapinhadas depois 
das 10 horas da manhã, e sorvetes depois das o ho- 
ras da tarde, e, além d'isso, fabricava fructas geladas. 
Nesse tempo todos os botequins tinham copeiro. 

V loja do Madre de Deus já alli estava em 1793. 
Vendia estampas e folhetos, como, por vezes, também 
suecedia no botequim do José Pedro. 

Em 1809, expòz á venda uma estampa intitulada: 
— «A grande desordem, susto e terror dos Francezes 
5io dia da procissão do Corpo de Deus, suecedida na 
Praçi do Rocio de Lisboa, na qual se representa a 
dita Praça, a arlilheria tranceza desamparada, e infi- 
nitos francezes cabidos pelo chão, assim como as snas 
armas, barretinas, espadas e tambores». 

A loja do Madre de Deus não foi a única do seu 
género no palácio da Inquisição. Là esteve também 
(1797) um estabelecimento de chocolateiro, fornece- 
dor da Casa Real. (Gazeta). 

Dois ou três dias depois da entrada da esquadra 
franceza, que vinha reclamar a entrega dos francezes 
presos (1831), passava D. Miguel pelo Rocio. Todos 
lhe tiravam o chapéo e davam vivas a El- Rei Nosso 
Senhor. Alguns sujeitos que estavam á porta do Ma- 
dre de Deus retiraram-se para dentro. Mas um que fi- 
cou de fora, e não quiz tirar o chapéo, o Maravedy, 



190 LISBOA D^UTUOS TEMPOS 



cobrador d'açouges, foi logo filado pelo Miguel Alçai* 
de, e processado mais tarde. (Correspondências, etc. 
Maço 132). 

O café do Bosque, no Rocio, 108 e 109, tinha jogos 
de bilhar, gamão e cartas. Pertencia a Joaquim José 
do Amaral. Para entrar n'esse botequim desciam-se 
três degraus de pedra. 

Estava nos casebres que foram demolidos, e subs- 
tituídos pelos prédios do duque de Cadaval, ficando, 
pouco mais ou menos, no logar da actual chapellaria 
Roxo. Era concorridissimo, e linha um creado, o Ma- 
nuel, muitíssimo conhecido. (Pap. Div. Maço 11). O 
seu dono enforcou-se em 1828. {Correspondências, etc. 
Maço 129). 

Em 1829 annuuciava-se na Gazeia o trespasse ou 
arrendamento d'este café que- tinha dois bilhares; e 
em 1830 repetia se o annuncio. 

Junto ao café tio Bosque, em números 104, 10£ e 
10b, acbava-se a chapellaria do José da Silva Dias, 
que vendia chapéos de seda, de pello, armados e re- 
dondos. {Gazeta). 

Na rua do Príncipe, 49 R, nos casebres junto ao 
muro do duque de Cadaval, pouco mais ou menos no 
local do moderno restauram Varella, estava a casa de 
pasto do Rosque, propriedade do dono do café do Bos- 
que. Vendia copos de geleia manipulada pelo systema 
do da anliga casa de pasto chamada A Pinta, na rua 
dos Condes, que, em 1830, tinha o mesmo proprietá- 
rio. (Gazeta). 

Junto ao thealro da Rua dos Condes existiu (1826) 
uma casa de pasto onde iam comer os actores, tanto 
de dia como de noite. (Corr. Maço 148J. 

Em tempos de D. Miguel encontrava-se uma boa 
casa de pasto no primeiro andar por cima do Nicola, 



OS GAFES 191 



nu Rocio. Occupava o andar todo até á rua do Prínci- 
pe. Chamava-se a casa de pasto do Manuel do Lumia- 
res. 

O proprietário tinha este nome, porque estivera 
empregado do conde de Lumiares. A mulher d'elle 
falleceu de cholera em 1833. 

O antigo inspector dos incêndios, Barreiros, era fi- 
lho do Manuel do Lumiares. 

O botequim do Abbade. estava na rua do Príncipe, u." 
J, próximo ao largo do Passeio. Tinha bilhar. Contí- 
guo á loja de bebidas estava um armazém de vinhos 
do mesmo dono. Foi um dos centros de reunião dos 
partidistas de D. Miguel. Em 182,5 pertencia a Leonor 
Maria Iiebello, a quem o Intendente da Policia, barão 
de Rendufe, mandou cassar a licença que ella tinha 
para conservar a loja aberta mais uma hora depois de 
corrido o sino. {Int. Casa Pia. Maço 6). Em 1827 
pertencia a Pedro António Lourenço. (Gazeta). 

No largo do Passeio, junto ao sitio onde vemos o 
Avenida Palaca havia umas barracas de madeira onde 
se alojavam adelleiros. 

N'uma dellds estava uma cocheira. (Gazeta. 1829). 
N'esse mesmo largo, logo á sabida da rua do Prínci- 
pe, e dentro d'essas barracas, havia o pateo do Tro- 
ca, tendo um poço ao fundo. O famigerado Troca (cujo 
nome era António Ferreira) foi uma notabilidade no 
seu género. 

Começou por contrabandista e marchante, depois 
foi alquilador de importância e receptador de roubos. 
Era um homem secco, usando sempre botas altas. 
Mantinha estreitas relações com todas as quadrilhas 
de pilhantes, principalmente com as alemtejanas. 

Quem necessitava ir com dinheiro para o Alemtejo, 
e não queria experimentar a furte emoção que sente 
quem vê, apontados ao peito, uns poucos de trabucos 
carregados de zagalotes, ao mesmo passo que a bocca 
silenica d'um marau mal-assombrado pede a bolsa ou 
a vida, reclamava um salvo-conduclo do Troca. 



492 LISBOA d'outros tempos 



Na posse da papeleta com desalinhados gregotins 
— dada a troco d'uma percentagem convencional — ia 
socegado, porque os bandoleiros acatavam o documento. 
Chegou-se a affirmar que o Troca livrava da cadeia e 
do degredo os criminosos, porque se abroquelava com 
a protecção d'um alto magistrado conhecido pelo Tim- 
Tim. l (A Antropologia Criminal. F. Deusdado). Cada 
passe para se poder atravessar socegadamfnte o pinhal 
d'Azambuja custava uma moeda ou 4#800 réis. 

O Troca não sabia lêr, nem escrever. Assignava de 
cruz, que fazia d'uma maneira especial, tanto que 
conhecia quando não era feita por elle. 

Deixou fortuna importante. Alguns dos prédios de 
Santo Antão foram mandados construir por sua ordem. 
A filha casou com um sr. Cró, e d'essa família ainda 
existem representantes, um dos quaes é um medico 
conhecido. . 



• Rafprimo nos a elle em \>a%. >t. 






XXV 



A> tabernas tio largo do Passeio — Diogo Alves e Coropa- 
nliia —Origem de dois ditos vulgares, — Passeio Publico 
antigo — A Lage. — Nova referencia ao capote. — Pas- 
seio Publico moderno. — Sob a batuta magica de Madame 
Amann. — O Passeio ao domingo. — Fantoches e fantas- 
mas. 



Na Praça tTAIegria, defronte do Passeio Publico, ao 
canto, perto da rampa, existiu a taberna do José 
Gordo, baiuca pessimamente afamada, onde os 
malfeitores reahsavam conferencias, tertúlias, cochi- 
chavam misteriosamente, escabichavam a vida alheia. 
Os teres e haveres dos abastados vinham á baila. Leite 
Bastos consagrou um capitulo a essa tabernoria no ro- 
mance, Crimes de Diogo Alces. 

No interior da loja havia uma espelunca nojenta, 
)nde a Ínfima ralé arriscava uns loslõesilhos. Cá fora 
)atuscava-se com comezainas labregas, petisqueiras 
comer e chorar por mais — iscas, bacalhau com 
rêlos, petinga, cavalla — copiosamente regadas por 
ima boa pinguinha. Sentia-se o pesado rumor da gru- 
lhada gallega, impolida, boçal como o charlar zulu, 
selvagem, rústica como a algaravia cafre dos Amaton- 
gas. Entre os freguezes da locanda avultavam morri- 
nhentos aguadeiros do chafariz d'Alegria e gatunos de 
três assobios, de muita ronha, com quem aquelles se 
conchavavam — uma cambada de tratantes. 

13 



194 LISBOA d "outros tempos 



Lá appareciam o Diogo Alves — ruim como as co- 
bras — , o Beiço Rachado, seu collega, o Pé de Dança, 
— um que tinha immensa lábia — , João das Pedras, o 
Enterrador, aguadeiro do chafariz d'Alegria, e o An- 
tónio Martins, caixeiro do celleiro na rua Oriental do 
Passeio, e amigo do Diogo Alves. Tramados os planos 
estratégicos, marcados os que deviam cair na espar- 
rélla, os tratantes punliam-se na alheia, safavam se á 
sorrelfa. 

O desconhecido, que penetrasse n'essa caverna de 
Caco ficava com as algibeiras limpas, ou, ás duas por 
três, apanhava a sua facadita á chucha-calada. 

José Gordo, que deixou seu nome ligado ás tradi- 
ções populares do sitio, adquiriu meios de fortuna, e, 
quando liquidou o estabelecimento, foi gozal-a para a 
Galliza. 

Na taberna havia um garotinho azougado, d'olho 
perspicuo, um pangaio, encarregado de cocar quem 
ahi entrava, e de avisar para dentro, para a batolinha. 
se era pessoa estranha á casa. 

Pozeram-lhe a alcunha de O Vigia. Succedeu ao 
José Gordo, fundando em 1832 a casa de Pasto cha- 
mada O Vigia, na rua Oriental do Passeio, casa de 
pasto que se conserva na mesma loja, hoje numero 72 
da Avenida da Liberdade. Em 1858 creou o café do 
Vigia., próximo áqueíla casa, em numero 88. Por sua 
morte succedeu-lhe o irmão, e, a este, os seus her- 
deiros. 

A taberna do José Gordo era a mesma que em 
1821 pertencia a Marco Gonçalves, notável receptador 
de roubos. Ahi se aggremiavam gatunos muito conhe- 
cidos n'aquelle tempo, como eram : o Joaquim d"ao fé 
das Caldas, o Setubal, o Inglezinho, o Luiz Mulato, e 
outros que andavam de dia pelo Cães das Columnas e 
ficavam', de noite, debaixo dos carros no pateo da Re- 
gência ; o aguadeiro Manoel, o Sul, o Narcizo do Por- 
to, e ainda outros. (Corr. Maço 146). 



OS GAFES 19o 



Perlo do Passeio, entre a praça d' Alegria de Baixo 
e a de Cima, havia um chafariz. 

Algumas vezes aconteceu os proprietários dos quin- 
taes do sitio extraviarem as aguas d'esse chafariz, 
que deviam correr para dentro do Passeio, onde ser- 
viam para a rega do arvoredo. Disso se queixava o 
Intendente das Obras Publicas em 1817. (Áridos, ele. 
Maço 31). » 

A' poria do Passeio estacionava um homem que ven- 
dia copos eTagua d'essa fonte, e uma mulher que ven- 
dia uns canudinhos de doce chamados gaitas. Os pe- 
tizes e mesmo os adultos relamborios comiam esses 
canudinhos, bebendo, por cima, um ou mais copos da 
agua, o que elles consideravam muitíssimo gostoso. 
D'ahi veio o dizer-se, quando qualquer comida sabia 
bem ao paladar: — Sabe que nem gaitas. 

A origem do chamar-se frigideira a quem deseja fi- 
gurar, lambem remonta a essa epecha. Os soldados 
dos batalhões nacionaes usavam uns bonets com tampo 
largo, a que se dava o nome de frigideiras. Como a 
maioria d'esses militares de pechisbeque gostava de 
deitar figura, apparecendo com as carapuças do uni- 
forme em todas as solemnidades, começaram a cha- 
mar frigideiras aos que assim procediam, designação 
que tornaram extensiva a todos os vaidosos, os pas- 
palhões, os salientes, que morrem por se mostrar nas 



1 Os sobejos da agua do chafariz de S. Pedro d'Alcantara iam 
para o Passeio Publico em 1780. (L.° 1 das Secre(arias). O por- 
teiro e jardineiro d'este passeio, queixavam-se, em 17i?5, «de que 
alli se faziam algumas desordens e havia desinquielações,» o que 
determinou um aviso do Marquez Mordomo-Mór ao Pina Mani- 
que recommendando-lhe, para atalhar o mal, as providencias que 
mais opportunas lhe parecessem. (Registo de Decretos, Alvarás e 
Avisos. L.° 84-247. íl. 23 v.) 

Em 1807, quem encontrava algum objecto, que fosse perdido na 
rua, annunciava a achada por meio d'um escripto affixado nas 
portas do Passeio Publico. (L." de lançar os requerimentos das par- 
tes. L. 269-327.) 



193 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



festas com os seus grandes ares, as librés espectáculo-' 
sas, as fitas ou as veneras, a todos a nielles que, á ma- 
neira dos cavallos de luxo, teem a coquélma das crinas, 
do pello, da cola, dos penachos e. .. dos arreios. 

A' porta do Passeio (lado do Norte), pouco distante 
da guarda di Policia, era a botica de José Viclorino 
da Costa Aroeira. Chamavam lhe a botica da Copa, e 
tinha entrada pela rua Oriental do Passeio n.° 7, e 
por dentro do Passeio Publico. Vendia agua férrea aos 
copos. Aroeira possuia outra botica na rua dos Capel- 
listas, defronte da torre de S. Julião. Foi elle a pri- 
meira pessoa que pôz musica no Passeio Publico. 

Então, o Passeio era cercado por um muro alto e 
grosso, com suas janellas gradeadas, tendo cada uma 
dois assentos de pedra. Uma das janellas defrontava 
com a calçada da Gloria. A fachada do lado do Norte 
era formada por um muro cem grades, a do lado do 
Sul era uma espécie de tapume em madeira grossa. 
Em cada uma d'ellas estabelecera se um posto da 
Guarda Ileal de Policia. Não se permillia a entrada a 
homens de jaqueta, ou sem gravata, e a mulheres de 
capote. A' noitinha partia um soldado do lado do Norte 
e outro do lado do Sul, os quaes se iam encontrar no 
centro do Passeio, com o fim de impedir que alguém 
ficasse lá dentro. 

O Passeio era pouqui simo concorrido. Nos dias de 
semana não se encontrava viva alma. 

Ah 1 está a ra2ão por que O Toucador, de I8^ G 2, po- 
dia dizer, depois de gabar os jardins de Paris e de 
Londres: — «Se quizermos falar a verdade e ser sin- 
ceros diremos: que ha em Lisboa umas poucas d'ar- 
vores plantadas á linha, que a isto se chama o Pas- 
seio Publico, onde não vae ninguém; e que a este se 
reduzem todos os logares de passeio de Portugal, Bra- 
zil e Algarves». E, depois de lamentar que as senho- 
ras o não frequentassem e o desprezassem, dizia mais: 
— «Até aqui, o aferro a usos antigos e o génio caseiro 



OS CAFÉS 107 



e desconfiado de nossos avós foi, em grande parte, a 
cousa d'btó ; mas hoje que a franqueza do bom tom 
tem- destruído aquella causa, a culpa de lai desleixo 
não pode reeahir, com justiça, senão sobre as senho- 
ras. Os homens não frequentam o Passeio porque as 
senhoras o abandonam, e porque assentaram comsigo 
(bem ou mal?) que não deviam ir onde elías não tos- 
sem.» 

Effeclivamente, as damas não se atreviam a ir ao 
Passeio para mostrar os novos chapéos a la Berton, 
as capinhas á romeira, os vestidos com enfeites de fi- 
tas azues e brancas ícôres constiluciouaes que se usa- 
vam até nos chapéos, nos lenços e nos toucados) e com 
as cinturas compridas, que, então, principiavam a subs- 
tituir as cinturas curtas, os sapatinhos cTentrada abai- 
xo, e os leques pequenos, frágil muralha dos pudores 
alarmados. 

Mais tarde, em 1810, .nas noites de verão, as se- 
nhoras do liiglt-life, como se diria agora, iam fazer o 
passeio da Lage, que consistia em dar uma volta pelo 
Terreiro do Paço e Cães das Columnas ou Cães da Pe- 
dra, entre os vendedores d'agua fresca e as pyrami- 
des de caramellos. Por ahi chinellavam desde a dama 
elegante com seu vestido enramalhetado, chalé de ton- 
kin l — esse chalé que, quasi poderíamos dizer, fez 



1 O cliale de cachemira entrou na moda franceza depois da ex- 
pedição de Bonaparte ao Egypto. Foi tão usado, que se fez figu- 
rar làima dança chamada o paxso do chalé, em que a condessa 
Hamilton obteve um dos mais ruidosos e lídimos friumphos mun- 
danos d'aquelle tempo. (Le costume ht$tòrique, vol. IX. Racinet): 
Foi a futura imperatriz Josephina, que então era uma rainha da 
moda, que o adoptou em 1798. 

Em 1815, o cliale continuava a ser parte obrigada na toilelle 
feminina. 

Durante a Restauração, a êpocha da romanza sentimental e dos 
turbantes á Coriuna, quem em França deu o líi da suprema ele- 
gância foram a duqucza de Berry, e madame Récamier, os dois 
cofypheus da moda. Se se queria usar um chalé, pôr um chapéo 



498 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



a volta do mundo como a cocarde de Lafayelte — , e 
chapéu gigantesco, até á burgueza de capoto e lenço 
e cordão de trinta moedas. As mnlheres duvidosas, 
as horizo?itaes, usavam capote azul. 

O capote era o suprasnmmo da janotice: Nos prin- 
cípios cTeste século foi usadissimo, mas gastavam-n'o 
de baetão encarnado com duplo cabeção, não muito 
comprido, deixando ver três ou quatro dedos do ves- 
tido. Já anteriormente nos referimos a este modo de 
trajar. Daremos mais algumas indicações. Antes de 
1755, as damas usavam uns mantos de seda negra, 
cobrindo a cabeça, e ligando-se á cintura por meio de 
uma fita, cahindo por fim cm longa cauda. Esse trajo 
cedeu o logar ao capote e lenço, que foi substituído 
nas damas de tom pelos chapéus de palha grandes, os 
véos de gaze e de seda, e por outros artigos de es- 
tranha importação. Antes de 1755, quando as damas 
iam á missa, seguiam em fila pela rua Se um homem 
as acompanhava, precedia-as a distancia d'alguns pas- 
sos, e se iam creanças, eram estas que precediam os 
homens. 

Depois modificou se o costume. Em 18 10 as senho- 
ras dislinctas, as damas da moda, sò sabiam de sege 
ou de cadeirinha. 



cabriolei, ou gastar d'uin confeiteiro, copiava se a bôa duquesa ou 
Madame. 

Hoje como honlern e ; talvez, como amanhã, o culto fetichista 
do trapo, mas do trapo repassado de Iodas as graças ligeiras do 
paririanismo, obsta a que a mulher da moda seja empolgada por 
esse taciturno Mephistopheles das Margaridas elegantes — o abor- 
recimento, por esse achaque aristocrático que a nosologia mun- 
dana averba de spleçn, de blue-devils. Da fidalga mais sangue azul 
até á momentânea que se dá aos cabellos a còr da palha húmida 
ou o loiro anemico das suecas, a todas, sem excepção, se impõe 
esse problema febril e mordente de 

Ses chiffons chéris ; 
Et, de pied en cap, iVêlre la poupée 
La mieux épuipée 
De Home á Paris. 



OS GAFES 199 



A pé era raríssimo enconlralas, por causa da sugi- 
dade, quasi habitual, das ruas. As mais elegantes 
eram seguidas por escudeiros; as burguezas faziam-se 
acompanhar por creadas, parentas ou alguma velha 
que substituía as primeiras. 

As camponezis das cercanias de Lisboa, ou s:doias, 
já traziam a desgraciosa bota de cano. Usavam, porém, 
4im artigo de trajo, hoje inteiramente abolido. Era 
uma carapuça de velludo prelo, terminando em ponta, 
e que assentava sobre o lenço da cabeça. (Costume of 
Portugal. Henry VEveque.) 

A usança do capote teve larga vida. l Garrett, êxul 
na Inglaterra, relembrava-o, harto saudoso, nos seus 
engraçadíssimos versos O Natal em Londres: 

Ver na minha catholica Lisboa 

As festas de tal noite ! 
Sinos a repicar, moças aos bandos 

Co'a bem-trajada capa, 
E o alvo- leso lenço em coca airosa, 

D'onde ura par d 'olhos negros 
Dão as boas-festas ao vivaz desejo 

Do tafulo devoto. . . 



Só depois de I83G é que o Passeio Publico princi- 
piou a ser m3is concorrido aos domingos, entre o 
meio-dia e as quatro horas. Depois da missa da uma 
hora no Loreto, palmilhavam n ; o as leoas, como cha- 
mavam em Paris ás mulheres da moda, segundo a 
rima que Musset encontrou para baptisar a sua aman- 
te, a sua leoa, a andaluza au leint bruni. 

O Passeio Publico experimentou varias modificações 
na sua disposição interna, em diversas epochas. 



1 O Verdadeiro Liberal, de 1821, chamava mascara ao traje de 
capote e lenço. 



200 LISBOA D*OUTR0S TEMPOS 

Èm 1801 cortaram a rama das arvores, de maneira 
que não davam sombra. O Taborda aproveitou o caso. 
Quando apparecia no Tio Malheus, de calça de ganga, 
e fraque velhote, acalasolado, ar de chacota, gesto de 
quem anda á mandria, dizia, referindo-se ao Passeio : 

Mas eu que já dei no vinte ! 
Armaram aquella trama 
Para vêr se os passeantes 
Faltando a sombra da rama, 
Já meios fritos de sol. 
Vão çahir no Cosmorama! 

E que furor produziu o Tio Malhem! Que furor, e 
que receitas. .. 

No nosso tempo, o Passeio Publico attrahia meio 
mundo. Era um pandemomum da uma ás três da tarde. 

Enehia-se quando, aos domingos, tocava a famosa 
banda de marinheiros dirigida pelo Reinhardt. Depois 
vieram os concertos nocturnos do Cardim; e, rodados 
annos, em 187.», os concertos de madame Josephine 
Amann, que já lá está na terra da verdade. . . 

Que lindas noites d'estio se não passaram ahi, ou- 
vindo a poíka dos Cucos, rindo com o Justino Soares * 
— Terpsychore de pantalonas — a conduzir as choreas 
infantis que te entrelaçavam sob as arvores, bebendo 
cerveja Yienna— a grande novidade — admirando a 



1 Em Madrid houve, e não sabemos se ainda lia, um rival de 
Justino Soares. Era o franeez Mr. Journée. Veio para aquella ca- 
pital em 1862 ou 1863, onde ereou a primeira academia de baile 
publico ou de buena sociedad, uma espécie de academia Fenians. 
O homem teve a alcunha de Musiú Chuleia, e foi alvejado pelas 
tlicacidades castelhanas, hilariantes, embriagadoras como prolo- 
xydo efazote : 

MhííÍ! Chuleia 
Ticne a ii ijiiliuit 

Y eu cá bolsillo 

Le cabe un pan. 

(Illustracion Espanola y Americana. Num. XXVIII de 1898). 



OS CAFÉS 201 



pyrolechnia do José Rodrigues e o Calospinlocromo- 
creme, escutando as canções dos Tyrolezes! Que noi- 
tes tão bellas, quando- a lua, como enorme globo de 
âmbar, ia subindo, subindo, por entre o enxame de 
estrellas espalhadas no céo como confeitos d'o>ro; 
quando os accordes do Bcau Danube Bleu, de Slrduss, 
pareciam segredar-nos aos ouvidos as coplas da valsa 
allemã, com toda a sua graça nostálgica : 

II est aii pays da Danube 

Un penple éprouvé bien souvent. . . 

E a festa chineza, devida á invencionice do Amann, 
uma festa que levou a Baixa em peso ao Passeio Pu- 
blico... La Chine est un payt charmant, cantava-se 
no vatideville. . . E vae depois, a Baixa — a Baixa que 
meditava em lerias — pegou-se a cogitar nas caranto- 
nhas mongolóides, carafuzes, como que esculpidas em 
bolas de buxo amarello, nas mulheres enfronhadas em 
vestidos largos, lluctmmles, entrajadas para a immo- 
bilidade como um idolo, ua religião chineza, fossilisa- 
da, petrificada cm ritos mechanieos, na philosophia 
restricta a eugoiados raciocínios darithmetica. na mo- 
ral assente sobre a tradição e mantida pelo bambu do 
Estado, na linguagem monossyiabica, na phrase curta 
— agglomeração de pequenitas equações — em mil coi- 
sas trescalando ao rançido do Celeste Império, ao ve- 
lho mundo afferrolhado e trancado no Extrexo Orien- 
te... .Mas a funeção chineza. annunciada como uma 
festa de melter os lampos dentro, foi simplesmente 
um fiasco, a que o lápis scintillante de Bordallo Pi- 
nheiro prestou a devida homenagem no António Maria. 
Já lá vão dezenove annos. . . 

Ai ! Era no Passeio Publico que as dèas da Baixa, 
espevitadas, garridas, iam tecer idyllios entre as olaias, 
e que as seresmas, ameseudadas em cadeiras do \sylo, 
•á beira da alea central, trocavam phantasias sentimen- 
taes a coberto dos leques. Era lá que se podiam apa- 



202 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



nhar, como em photographia instantânea, os typos 
mais arreliosos da bnrguezia com joanetes alcantilados 
e freima patriarchal. 

Era lã que as Ledas dos nossos dias se escondiam 
atraz das arvores, e?perando a vinda de Júpiter... 
com chapéo alio. Era lá que, todos os domingos, se to- 
pavam os caixeiros baboeas, os pôlhos de balcão, muito 
embonecados, muito merceeiraes, pelintrando com fra- 
ques de badanas curtas, á Marialva, calças estrangu- 
ladas nos joelhos, á meia-polaina, botas bicudas como 
sapatos de palhaço de género, gravatas de cores es- 
braseadas, infernaes, e os tromblons de gala — toda a 
farfalharia calilinha da elegância pataraleira, banda- 
lliona, da rua dos Fanqueiros, a dislincção palerma 
que, immediatamenle, tresandava a céra-mouslacha, a 
espirito de lucia-lima c a agua de Colónia de Ires pa- 
• tacos cada frasco. 

Era lá que os gorilhas de regresso do Brazil, inton- 
sos, pachorrentos, brazileiravam com suas farpellas 
claras, seus panamás de rigor, e seus anneis pompo- 
sos, onde um grosso brilhante acceso imitava um 
olho farcista que ri. . . 

Lá se encontraram as ultimas cocoltes aulhenticas 
que Lisboa teve, as ultimas das que mais gentilmente 
possuiram a arte de aprisionar o amor, essa força 
alada e errante como o desejo, as derradeiras que pas- 
saram entre a musica dos madrigaes. . . fr das libras 
esterlinas : a 1'olaca, protegida por um dos nossos mais 
iiabeis políticos e diplomatas, uma rapariga finíssima, 
tendo a elegância frágil do bambu, a graça subtil das 
flores d'agua, uma amante digna d'um banqueiro ju- 
deu ou d'um príncipe slavo ; a Augusta Bellune, * uma 



1 Bellune é como que o symbolo euphonieo da ultima epoeha, 
da galanteria lisboeta. Os adais ria janolaria, se dispendiam suas 
forças vivas na frivolidade e na bagatella. sabiam também pôr nas 
suas aventuras a mundana e escandalosa nota creme d'um capi- 
tulo de Faublas, e sabiam respeitar as mulheres, até mesmo essas 



OS CAFÉS 203 



madeirense que parecia trazer a Primavera nas pregas 
do seu vestido cantante, uma rapariga tão parisiense 
como as do boidevard dos Italianos, uma professional- 
lover que não escreveu Memorias como Imperia, Lola 
Montes e Cora Pearl, nem romances como Celeste Mo- 
gador e Lianc de Pougy, que não foi bailarina como a 
bella Otero, nem tentou penetrar o mundo violeta do 
theatro ligeiro como Emilienne d'Alençon., mas que 
morreu de tuberculose como Margarida Gautier — a 
rainha das alegrias prohibidas, cujo manto era talhado 
na purpura do seu sorriso e cujo diadema era consti- 
tuído pela altiva radiação das suas graças poéticas. 

Quantas senhoras frequentavam o Passeio dos últimos 
tempos, bellas e na flor da mocidade, que hoje sentem 
approximar se o momento em que se trava batalha 
contra as primeiras rugas, em que todos os aspectos 
da vida vão parecendo pallidos, de morla-côr, em que 
se não ousa já affrontar a plena luz do sol, nem os 
fins de baile. .. E quantos dos seus habituados d'en- 
tão partiram já para a eterna viagem, em que se vae 
descobrir o X do problema dos nossos destinos. . . 



crealuras de paixão e de coqnettiee, para as quaes o amor é o ba- 
lão d'oxigenco que alimenta a vida. 

Depois veio a decadência. A galanteria é moeda'que deixou d? 
circular, os Lauzun não são d'este mundo que se escrophultsa na 
Baixa e faz a Avenida depois das 4, os versos de Dorat — o poeta 
d'agua de rosas — seriam sanskrito para os vevts-galants do Chia- 
do, para os snobistas philogynicos que passam e repassam no ci- 
nematographo da chronica periodistica. 

E agora, que a barca de Wattean jã não leva os amantes a Cy- 
thera, é natural qne sejam as tipóias do Biíaculas, do Lagarto, do 
Paço d' Arcos e do Galvão, qne os transportem ;.o Tavares. . . 



I II I II I I I I ! II I I I I I II I 1 I I I I I I I I I ! II I I I I I I I I I I I I I I I I I I I I 



XXVI 



Vimos botequins das immedinções do Passeio. — Estabeleci- 
mentos suspeitos. —Manifestações e pasquinadas. — Pro- 
seguc-sc na enumerarão dos botequins. — O café do No* 
brega. — O Áurea. 



Tornemos á vacca fria. Em 179G enconlrava-se uma 
loja de bebidas á esquina da rua das Pretas e da 
praça cTAlegria, na mesma loja, parece-nos, em que 
esteve o botequim do Friza. Este tornou-se suspeito á 
policia em 181)1) ÍPap. Div.); e em 1822 sabe-se que 
ahi se falava em desabono do syslema constitucional 
e dos deputados que formavam o congresso. (Corres- ■ 
pondencias, etc. Maço 21). Em 4824 foi logar para con- 
ciliábulos da sucia infanlista. Acabou em 1827. 

Ahi por 1840 estava na rua das Pretas o chamado 
café das Pretas. Na paredò exterior tinha pintadas umas 
pretas. Pela mesma epocha também havia nas casas 
da praça d'AIegria (frente ao Passeio) o café do Navio 
Brilhante. E numa casa abarracada, que oceupava o 
terreno do palácio do sr. Polycarpo Anjos (na praça 
dos Restauradores) era o armazém do Lourenço José 
Pereira, appellídado o Porquinho da índia. Só se ser- 
via com creados gallegos. Tinha vários armazéns em 
diversos pontos da cidade. Em dia d'Anno Bom fecha- 
va os todo?, e offerecia um jantar aos seus emprega- 
dos, reunindo-os na casa do Passeio. 



206 LISBOA B*CLTR0S TEMPOS 



Em 1824, muitas lojas substiluiam os parlalorios 
dos cafés. 

Notava-se sempre grande falácia de partidários de 
D. Miguel nas lojas dos mercadores Guimarães e Mo- 
reira, e na do retrozeiro Carrilho ; no droguista Silves- 
tre, defronte do cerieiro da rua de S. Roque, na ioja 
de louça do Jeronymo Grondona, ao Calhariz ; na li- 
vraria do Caetano na rua da Prata, na papelaria do 
Guimarães, ao Chiado, onde ia o famigerado padre 
Braga, l na botica do Plácido na rua dos Algibebes, 
junto á ermida : na loja de ferragens do Coutinho no 
Chiado (o Coutinho, pae do visconde d'Ouguella), onde 
ia muito o padre Mexia, ex-frade dominico, que, de 
dia, frequentava botequins, e, de noite, lupanares e 
tavolagens; na botica do Bragança, ao Loreto, na loja 
de sombreireiro defronte dos Martyres; e, em Belém, 
na drogaria do Castanheira, junto ao Picadeiro, no ca- 
pellista Tiburcio, e na lenda do Perna de Pau, na cal- 
çada d" Ajuda, (Policia Secreta, ele), no cerieiro Tei- 
xeira da rua de S. Roque, no chapelleiro Duarte, á es- 
quina do Chiado e da travessa d^stevão Galhardo. 
(Correspondências, etc. Maços 12 e 14). 

No Rocio havia umas poucas de lojas vigiadas pelos 



1 O padre Braga era um scelerado. No dia da Abrilada pregou 
da janella d'um primeiro andar no quarteirão dos Padres de S. 
Domingos, no Rocio, dizendo «que era aquelle o dia d'acabar com 
os Pedreiros Livres». E passando depois ao palácio da Regência, 
onde estava D. Miguel, olfereceu-se-Jhe para carrasco. A sua exal- 
tação politica provinha de o não terem nomeado bispo logo que 
eahiu o systema constitucional, e porque julgava que uma nova 
ordem de coisas lhe daria esse logar. Preso no Limoeiro, embe- 
bedava-se e fazia discursos violentos. 

Deu provas de que era capaz de clamar ao povo com um cru- 
cifixo n'uma mão e um punhal na outra. (Communicoçuo da po- 
licia secreta. Avisos, etc. Maço 53). 



os ca 207 



espiões por causa da tagarellice politica : o chapelleiro 
Narcizo, o Hoza serigaeiro, o Malhias Roberto de Mi- 
randa, em números 3Í e 38, João Climaco, o Paião, 
mestre na loja do Cândido chapelleiro. 

Na rua de S. Roque também havia palradura sus- 
peita na botica fronteira á travessa da Espera. (Pap, 
Div. Maço 11 . 

O livreiro francez Jorge Rey, que soffrera perse- 
guições no tempo dos frarícezes, voltou a caaif sob a 
alçada da espionagem. De-confiavam que se tramava 
alguma coisa na sua loja. no Chiado, porque, ao anoi- 
tecer, se reuniam ahi pessoas que davam muito á la- 
ramella, e que se suspeitava pertencerem, ou terem 
pertencido a sociedades secretas. O péssimo compor- 
tamento de Rey era notório desde 1817, affirmava a 
policia. Ordenou-se ao Juiz do Crime do Bairro do 
Caslello que procedesse a diligencia, a qual se reali- 
sou às 7 horas da noite de ~2ú de março de 18á4, eo- 
contrando-se reunidos na dita loja o Rey, seus três fi- 
lhos, o major Debouis, e Francisco da Silva Milheiro, 
empregado na Divida Publica, estes dois últimos co- 
nhecidos por constitucionaes. D'esta feita o Rey não 
poude escapar á acção coerciva da policia, como dou- 
tras vezes escapara, protegido pelo cônsul francez, 
João Baptista Lesscps 'tio do construclor do canal de 
Suez, que aqui esteve como addido consular . ' 

Foram catrafilados n'um prompto, e postos incom- 
municaveis. O Intendente, com exaggerado rigor, que- 
ria que os livreiros fossem mandados para França. O 
processo seguiu os seus termos e foi enviado ao mar- 
quez de Palmella, declarando-se que Jorge Rey era ini- 
migo não sò do rei de França, mas d"outro qualquer 
rei. 

Por fim, o Rey e os filhos assigaram um termo do 
não consentirem esses conciliábulos na sua loja. sob 



1 L/sseps também exerceu o cargo cTencarregado de n -. 
Mirava no largo do Poço Novo, 1. 



208 LISBOA DGCTESCS TEMFÔS 



pena de degredo para a Africa. (Livro 21 das Secr.) 
Não se podia dizer címs nem bus. Era dos livros... 

Das pessoas acoimadas òHnfantistas perdia-se o nu- 
mero. ! Eram os Possers, o João Gourlade, o Pulga, 
commandante do presidio de Porto Franco, o capellista 
Leoni, o Pão dAssitcar, desembargador de Pernam- 
buco, o frade de S. Domingos, António d'Annunciação, 
que vivia amancebado e tinha quatro filhos, o Telles 
procurador, o cónego Moya, da Sé, o padre João de 
Souza, cantor da Sé, o Francisco Maria Carrasco, que 
estivera preso por ladrão, mas que ia lodos os dias 
orar, de braços abertos, a Nossa Senhora da Kocha, 
eíc, etc. , etc. 

Depois da Viila Francada os liberaes andavam com 
a pelle em risco. Em S. Carlos estrondeavam os vivas 
absolutistas. A parte da policia de 3 d'oulubro de 1823 
[Pap. Div.) diz que no lheatro de S. Carlos houvera 
muitos vivas a El-Kei absoluto, á Kainha, e a Fernando 
VII, mas que não haviam sido com tanto enlhusiasmo 
como no fim da peça. em que, appareceudo um ho- 
mem de casaca, dentro da caixa do thealro, dissera : 
— «Por ordem superior eslava encarregado d'avisar o 
publico que Cadiz tinha suceumbido, e que estava salva 



1 Como se haviam espalhado na capital e no reino noticias tle 
que existiam partidos a favor de djfferentes membros da Família 
Real, e de que alguns capellistas do arruamento respectivo, parti- 
cularmente o Coutinho, vendiam cintos para senhoras, com a le- 
genda Partido d "El-l\-]i, o que era ocioso e desnecessário (dizia 
o cilicio), ordenou-se ao Juiz do Crime do Castello que os appre- 
hendesse e enviasse á Intendência. 

No anuo seguinte (182o) avisaram se os juizes do Crime do 
Castello e d Andaluz de que nas lojas de penteeiro da rua Nova 
do Almada se fabricavam uns anneis de marfim azues e brancos, 
abusivos ao laço que se usara no tempo revolucionário. Foram 
mandados apprehender e quebrar. O capellista Salles foi preso 
por vender botões tendo o dístico Constituirão O alfa vate Mar- 
tins Chaves, incumbido de fazer as librés para os creados do conde 
de Sub-Serra. antes de partir para Madrid, pregou os taes botões 
nas ditas librés, motivo por que foi preso no segredo da cadeia 
cio Castello. (Correspondência confidencial. Corte. N.° I. 223-297). 



OS CAFKS 209 



a Familia Real.» A musica locou logo o hymno, e fo- 
ram geraes os vivas á Familia Real Portugueza, a Fer- 
nando VII, e ao exercito defensor da Ilespanha. Mas 
que, na rua, a maior parte dos homens ia dizendo que 
não era verdadeira a noticia, «porém que sempre era 
bom dar palmas, porque não era possível ter succe- 
dido aquella uovidade em Cadiz no dia 28 de Setem- 
bro, e no dia 3 d'outubro, já se saber em Lisboa». 

Os pasquins começavam a apparecer. Na véspera 
daquella manifestação encontraram um pregado n'uma 
esquina da rua do Ouro. Dizia assim: «A que ponto 
ehegará o nosso soffrimento? Até quando soífreremos 
nós os furores e o despotismo de semelhante gover- 
no? E' tempo, cidadãos, corramos ás armas: Salve se 
a Pátria da vergonhosa oppressão em que geme : morra 
a tyrannia, viva a liberdade, viva a constituição de 
1822. d (Pap. Div.) 



Com a entrada das tropas auxiliares britannicas, em 
1827 (divisão cummandada por Clinton), prohibiu-se o 
conservarem-se abertos os cafés depois da hora do 
eslylo, ficando sem elíeito as licenças concedidas para 
tal fim. Todavia, muitos reclamaram. 

Também o vice-almirante Beauclerk, commandante 
da esquadra ingleza, pediu para que se conservassem 
fechadas as tabernas da Junqueira, das 6 ás 8 horas 
da manhã, por causa das desordens que faziam os ma- 
rinheiros. (L.° 24 das Secr). 

Estas reclamações não eram novas. Já em 1813 
W. Peacocke, commandante das forças britannicas, of- 
íiciava ao ministro inglez, Carlos Stuart, para que a 
policia obstasse á entrada dos soldados inglezes nas 
tabernas da estrada de Belém, a que elles tinham posto 
o nome de Boulay Bay Slreet, alludindo a este foco 
de vícios e desordens. (Avisos, etc íMaço 23.) 



240 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Pela mesma epocha, houve em Lisboa duas casas de 
pasto muito afreguezadas: a do Padre Santo, á es- 
quina da calçada do Carmo e da rua do Príncipe, agora 
a drogaria dos Azevedos, e a das Ostras n*uma sobre- 
loja que então possuía o prédio que torneja da rua 
Nova do Carmo para a do Príncipe. 

Na Ribeira-Yelba, contíguo à Casa da índia e junto 
ao Ver-o Pezo, existiram as tabernas chamadas do Mal 
Cozinhado. Foram mandadas remover d'esses locaes 
em 4b30. (Avisos, etc. Maço 6G). 

Cabe a vez de falar dum café dos mais conhecidos de 
Lisboa — o café Áurea Peninsular. Esta antiga loja de 
bebidas da rua do Ouro teve como predecessora uma 
casa de jogos de bilhar, cartas e gamão, pertencente 
a José Manoel d'Aguiar, que, em 41 d'agosto de 4819, 
foi preso por não ter licença para jogos, mas, pouco 
depois, mandado soltar, pagando 38$400 réis de mul- 
ta. O estabelecimento tinha então os números 92 e 93. 
(L.° 33 das Secr). 

Em 1827 era dono d'essa casa o José Joaquim da 
Nóbrega, que lhe poz o nome de café do Nóbrega. 
Este novo proprietário tomou mais duas portas, e a 
loja ficou assim occupando de numero 8y a 93. 

O Nóbrega era Ilibo d'um antigo empregado do Ar- 
senal de Marinha. 

Em 4855 já aquelle homem fallecera, porque se an- 
nunciou que no café da Viuva do Nóbrega se vendia 
cerveja de Guichard, do Porto. (Braz-Tizana. Porto). 

O antigo café do Nóbrega terminou em 28 de junho 
de 4855, dia em que foi feito leilão do mobiliário cons- 
tituído por dois bilhares, mezas com pedra, ditas de 
madeira para jogo de cartas, com seus pannos, cadei- 
ras, candeeiros de gaz e de azeite, relógio, etc. 

Foi corretor A. O. Guimarães. O café pertenceu a 
novo pruprietario que o reformou de f»nd en comble, 
supprimindo-lhe as antigas sobre-lojas e chrismando-o 
em café Áurea Peninsular. 

O Jornal do Commercio de 46 de outubro de 4855 



OS CAFÉS 211 



participava a inauguração do botequim nos seguintes 
termos : — atlontem abriu-se no antigo botequim do Nó- 
brega um café denominado café. Áurea Peninsular; 
pertence ao proprietário do do largo de Santa Justa. 
E' um estabelecimento dos mais decentes de Lisboa. 
Parece ter pouca luz em consequência de ser bastante 
escuro o papel que forra a sala e a casa do bilhar. A 
cozinha está bem arranjada e com exemplar aceio». 

Tal era o café Áurea Peninsular que acabava de sof- 
frer, pela terceira vez, outra reforma. 

O café Eléctrico, na rua dos Algibebes, deve a sua 
fundação a um inglez. Tem uns sessenta annos de es- 
tabelecido. Ha quarenta annos tomou o nome de café 
Eléctrico. 

Ha uns trinta annos, pouco mais ou menos, havia 
dois cafés na rua do Alecrim: o café de Paris, defronte 
do actual Chat Noir, pertencente ao José Maria, que 
morreu corretor do hotel Alliance, e o café cio Hoff- 
mann, n'um primeiro andar junto ao Arco Pequeno. 






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■ 



XXVII 



Descida á Ribeira Nova. — Cantos escuros. — Na ultima 
escaleira do vicio. — Botequim famoso. — A Ribeira Nova 
civilisa-se, muda de modos e de mascara. — Tunantes e 
tunantices. 



Antes da Maria da Fonte estabeleceram-se muitos 
cafés de Jépes pelo sitio da Ribeira Nova, que se 
. poderiam pôr á parelha com o Pepino de Cima do 
Muro — o tripeiro, e com as bodegas fandangueiras da 
Porta dos Carros, onde se emborcavam, de grande, os 
pichôrros de verdasco, e onde echoavam as notas do 
fado corrido ou as toadas minhotas, monótonas como 
soidos de sanfona : 

Toma o limão verde 
O' da fresca limonada ! 

e o regadinho, quando não era algum Ta ra ra botim 
de day 1 provinciano, alguma d'essas cantilenas popu- 
lares em que parecem haver os rebolidos candonguei- 
ros das vasquinhas de serguilha, os peneirados lúbri- 
cos,, os balouços sensuaes de quadris das cachopas 
guapas de Villar d'Andorinha, de Lavadores, da Ban- 
deira e de Grijó, e em que, por inexplicáveis effeitos 



1 Canção creada por Loltie Collins, cantora de music-hall, que 
se popuiarisou em Inglaterra. 



214 LISBOA d'outros tempos 



de suggeslão auditiva, julgamos sentir o traquinar di- 
ligente das tamanquinhas ponteagudas das regatôas 
zoinas do Anjo, das padeiras de Vallongo, das leitei- 
ras de Valladares e das lavadeiras de S. Mamede d'In- 
festa. 

Todos aquelles cafés pelintras — completos mulada- 
res do vicio, paludosos mameis do crime — eram in- 
festados por marilimos frecheiros, valentões blasona- 
dores, fadistas, e loureiras pirangas, ancillas do prazer 
vendido a moeda reféce, que, á hora das Trindades, 
baixavam, aos magotes, da Bica de Duarte Bello, da 
Bica Grande, do largo de Santo Antonino e das tra- 
vessas próximas. (Mysterios do Limoeiro, vol. II). 

Escutava-se o rufiar azafamado das saias engomma- 
das das moçoilas, descobrindo pedacitos de gambias 
magricellas ou de pernaças gorduchas como as pernas 
das sanjoanneiras da Foz. 

Passavam penteados altos,, luzidios de banhas e de 
pentes d'aço, olhos cavados por perpetua febre, mas 
dardejando significativas olhadellas d'esconso, boccas 
rasgadas, escarlates, sangrentas, como um gilvaz ta- 
lhado por uma cimitarra, faces precocemente enruga- 
das como maçãs reinêtas, mas retocadas a alvaiades 
para tapar os senões; cordoveias do pescoço inchadas 
como varizes, peitos flácidos, bamboantes, arquejando 
com esses movimentos precipitados e ondulatórios que 
as cómicas teem nos momentos solemnes das porten- 
tosas emoções theatraes, garupas carnudas que resal- 
tavam, sob os vestidos, em boleados provocadores, 
ancas que se alargavam como ventres d'amphoras. 

Essas mulheres de pouco mais ou menos, umas des- 
caradas, deixavam após si um rasto de perfumes en- 
joativos que estavam para as essências finas como o 
vinho ao quartilho estava para o Tokay. 

Havia um estrupido macisso de tairocas, um chinel- 






OS CAFÉS 215 



lar de pantufos de trancinha — tudo de cavallinho, 
muito chinfrin. As pegas chocalheiras e chocarreiras ba- 
charelavam a torto e a direito, riam as estopinhas, es- 
tridulamente, a trancos, chalaceavam, empregando um 
vocabulário muito conhecido dos lexicologos da rua do 
Capellão. 

Percutiam-se as notas mais ásperas da extensa gam- 
ma do vocabulário porcalhão, expelliam-se larachas 
com um pico de colorau, phrases d'um luzitanismo 
apenas comprehensivel ás orelhas da Madragòa. 

Tudo isto aguilhoava os nervos da canalha, escoucea- 
va-lhe os desejos, espicaçava-lhe os insliuctos, promet- 
tia-lhe manojos de flores eróticas, colhidas nos cantei- 
ros bem estrumados da Severa. 

A Ribeira Nova não era sitio muito agradável. Link, 
que viajou em Portugal de 1797 a 1799, dizia o se- 
guinte a respeito da Ribeira Nova: — «Em uma das 
ruas mais frequentadas, perto do rio, para os lados da 
Ribeira Nova, apenas se encontra um carreiro estreito, 
junto ás casas, onde se possa pôr pé, Imaginem, con- 
tinua elle, a quantidade de pessoas que se cruzam a 
cada momento, os gallegos carregados de pesos enor- 
mes, e que não podem afastar- se, as seges que andam 
o mais perto possível das casas, a fim dos cavallcs não 
ficarem enterrados na lama, e, o que é peior ainda, as 
porcarias que se lançam sobre os transeuntes». 

No tempo da Maria da Fonte tudo isto mudara, as 
circumstancias eram muito outras; a segurança, po- 
rém, é que continuava a ser muito problemática. 

Os botequins eram perigosos. Ainda hoje existe na 
rua da Ribeira Nova, números 18 e 20, o botequim 
dos Macacos, assim chamado porque tinha dois simios 
pintados nas paredes. Pertenceu a um tal Caraças no 
lempo dos francezes, em que foi frequentadissimo por 
marinharia estrangeira, principalmente por tripulantes 



216 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



da esquadra russa do almirante Siuiavinn. Mas a sua 
fundação remonta a epocha mais afastada, porque 
chegou a ser frequentado pelo Bocage, que também ia 
ao bilhar da Marinha no boqueirão da Ribeira Nova, 
antecessor, ao que nos parece, do café da Marinha 
que estava no Cães do Sodré em 1810. 

Modernamente, o botequim dos Macacos linha fre- 
quência d'ovarinas, de peixeiros, e de marinheiros ingle- 
zes, quando vinha ao Tejo alguma esquadra brilaonica. 

O rabiscador d'estas linhas leve occasião de vèr, 
como visinho que era, os formidáveis banzés que os 
inglezes ahi armavam. 

Cá fora, a multidão pasmada fazia meia lua. Lá den- 
tro uma berrata, um reboliço, um inferno, fervia bor- 
doada de crear bicho. O dono, que não era para gra- 
ças, linha a cara transformada n'um bolo, os guitas 
apanhavam para o seu tabaco, os moços da loja anda- 
vam em palpos d'aranha. 

IVesta nova espécie de circenses, as armas d'arre- 
messo eram os bancos de pinho. A inglezada, espiri- 
tada pelos licores, creava alentos, punha tudo em pol- 
vorosa. 

Como dissemos, ha cincoenla aunos todos esses bo- 
tequius da Ribeira Nova eram ponlos em que se corria 
algum perigo. N'esses logares, algo tenebrosos, onde 
esfervilhavam anchas saias de chila muito maganas, 
onde as cantigas dos bandurrilhas punham trepidações 
brejeiras nas nalgas, e os fadistas velhacazes se re- 
quebravam nas gaifonas do fado balido, ou tergiversa- 
vam nos passes gymnasticos das escovinhas, o vian- 
dante pacitico via-se arriscado a que lhe dessem cabo 
do canastro. 

Um antigo regedor de S. Paulo, José Carlos Nunes,. 
fez trancar, a eito, os portaes dos botequins safarda- 
nas, e limpou o sitio d'essa revoada de crapulosos no- 
ctívagos, vindos ao chamariz do deboche. 



OS CAFÉS 217 



O único botequim que escapou da joeira regedora! 
foi o botequim dos Macacos. Ha dois ou três annos 
soíTreu uma reforma. Nos muros, os dois macacos tra- 
dicionaes cederam o campo a dois medalhões, devidos, 
talvez, ao pincel burlesco d'algum pintor troca-lintas. 

A Ribeira Nova deixou ir os seus créditos por agua 
abaixo. Perdeu a fama de logar das zaragatas. Não mais 
se tornaram a ouvir as cantigas interruptoras da so- 
mnéca da visinhança, quando, a desboras, o tépido do 
nosso luar banhava o velho mercado e o forte de S. 
Paulo. Deixaram-se d'ouvir os banaboias, que, ordina- 
riamente, arrastavam alguma copla conhecida: 



O' saloia, dá-me um beijo, 
Que eu te ciarei uru vintém, 
Os beijos d'uma saloia 
São poucos mas sabem bem. 



ou alguma trova sentimental de navegante piegas 



Eu já vi nascer o sol 
Nas alturas de Cabo Frio, 
Adeus., mulatas d' Angola, 
Adeus, creoulas do Rio. 



Alguns tunantes da Ribeira Nova deixaram fama 
das suas ladroeiras ou fadistices : o Pedro Passarola, 
o Manoel Barreirento, o Campino, e outros maganões 
que taes. O Campino era todo gingão, de vestia curta, 
o clássico chapéu posto á zamparina, cachucho relu- 
zindo no dedo mendinho da mão grosseirona, melenas 
frisadas e repuxadas adeante, á chula, deitando o pé 
para fora, á facaia. Resingão, birrento, quando estava 
com a piela. Levadinho da breca, sobretudo um grande 
corredor, tanto que, uma occasião, na rua de S. Ben- 



218 LISBOA d'outros tempos 

to, D. Carlos Mascarenhas perseguia-o no seu cavallo, 
a toda a brida, e o Campino, crescendo-lhe a rebenti- 
na, bateu as azas. . . e voou, tal qual o passarolo da 
cantiga. 

Era um patuscão que morria pelo chinquilho, o bom 
vinho, e peixe frito com salada, manducados ao som- 
bral das parreiras da Rabicha, do José dos Pacatos, do 
Manoel Jorge, ou do Joaquim dos Melões. Guitarreava, 
ferindo toeiras novas nas cordas gemebundas do ins- 
trumento, tirando accordes secundam artem. 

Quando cantava as glorias da Severa —essa flor es- 
tercoreira — , lacrimoso, olhos em alvo, arrastava a voz 
de borrachão engasgado, voz que parecia sahir com 
uns arrancos de quem revessa comida com grande 
força expultriz: 

Zóra lá na mansão celeste, 
Com tua banza na mão, 
Farás di os anjos fadistas, 
Ai ! Porás tudo em confusão. 




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XXVIII 



Pelo Chiado. — Os seus cafés. — A' porta do Central — Ex- 
eentricismo. — Uma scena de tapona. — Blague de dois 
humoristas. — Typos do Chiado. — ultimo abencerrage. 

— Lamenta-se a decadência do Chiado. — O Chiado do 
tempo Bocagiano. 



Tratemos dos cafés do Chiado e cercanias. Na an- 
tiga loja da modista Lombré, depois Marso Barin- 
cou, e hoje a chapellaria Tavares Bastos, esteve, até 
1834, a loja de bebidas do Baptista, italiano, que a man- 
teve por largos annos. As duas portas de baixo — hoje 
camisaria Parisiense — eram de um cerieiro. Em 1840 
havia o café do Thiago, junto á loja onde depois esteve 
o Baltresqui e agora está um armazém de machinas 
de cozer. 

Na loja n. os IV e 18, fronteira á calçada do Sacra- 
mento, actualmente oceupada pelo armazém de modas 
do Barboza, era o botequim do Lourenço Manoel Fer- 
nandes. Acabou em 1836 ou 1837. O brilhante escri- 
ptor sr. Zacharias d'Aça contou, em tempos, um inte- 
ressante caso acontecido n'esse café. Entrou ahi o José 
Maria Saloio, homem de força hercúlea, e destemido 
liberal, que teve seus dares e tomares com o moço da 
casa, gallego robusto e grande miguelista. Este, no 
auge da fúria, disse não ter medo de malhados, ao que 
o outro replicou que também não tinha receio de bur- 



220 LISBOA DOUTROS TEMPOS 

ros. Engalfinharam-se os dois, e José Maria terminou 
a contenda, pespegando com o gallego debaixo da 
mesa. 

A 'esquina da travessa de Estevão Galhardo e do 
Chiado, (onde está uma camisaria) era o Toscano, per- 
tencente a um italiano chamado Domingos Daddi. Ti- 
nha enorme íreguezia e era ponto d'encontro dos ar- 
tistas de S. Carlos. Jogava-se muito o bilhar, desde a 
pula e os pausinhos até ao doublé e ao trinta e um. 
O café do Toscano já existia em 1826. 

Daddi chegou, a ser preso em 1828 por consentir 
conversações politicas no seu café. (Avisos, etc. Maço 
01). 

Na mesma esquina onde esteve o Toscano, ou na 
fronteira onde está o Benard, era, no século passado, a 
livraria dos francezes irmãos Borel. l 

O prédio do Toscano pertencia então ao negociante 
António José Ferreira. 

No tempo dos francezes havia um café chamado 
Toscano, no Calhariz. (Pap. Div. Maço 4). Era á es- 
quina da travessa das Chagas e ainda existia em 1828. 
(Corr , etc. Maço 438). 

Os cafés do Marrare, o Minerva das Sete Portas, e 
o Toscano, abriam a venda da neve em dia de Corpo 
de Deus; o Nicola e o Grego vendiam-n'a desde o l. & 
de maio. 

Afora estes botequins mais conhecidos havia uma 
casa que vendia neve manufacturada. Era na rua do 
Ouro, junto ao Terreiro do Paço. {Gazela 4825). 

A neve para fornecer a capital era dada em arre- 
matação pelo senado da camará. A neve em rama ven- 
dia-se no seu privalivp armazém na travessa da Par- 



1 Os irmãos Borel (Diogo, João Baptista. Cesário Alexandre e 
Pedro José) ainda estavam no Chiado em 1809. (Registo de Car- 
tas Regias e Decretos. L.° 8o). 



OS CAFÉS 221 



rei ri oh a, n.° 9, próximo ao lhealro de S. Carlos. (Ga- 
zeia, 1823 e 1824). 

No largo de S. Carlos n.° G, á esquina da travessa 
da Parreirinha, existia o café do Luiz Cabassa ou Ca- 
basso. Este café tinha illuminação a azeite de peixe e 
era servido por um gallego muito sujo. O Luiz Cabassa 
era um forreta, um nico. Sustentava-se, mais o galle- 
go, com um punhado d'arroz cosido e duas ou três 
enxovas bem espremidas. Vestia sempre uma niza cor 
de pèllo de ralo, e dizia a propósito de tudo : — Tanto 
bene monta, que se podia traduzir por: — Tanto se me 
dá como se me deu. Se o queriam vèr encavacado era 
ameaçal-o que lhe rompiam o panno do bilhar. 

Foi elle quem primeiro vendeu em Lisboa o salame 
e os queijos italianos. Luiz Cabassa morreu em 186 i, 
deixando alguns contos de réis. {Diário de Not. Folhe- 
tins de Midosi). 

No largo de S. Carlos estava o restauram Pomba de 
Prata, pertencente a António Augusto Barrabin. 

Barrabin foi proprietário do hotel d'Italia, que dava 
bellos jantares de peixe ás sextas-feiras, e que tinha o 
melhor cognac de Lisboa (depois do do marquez de 
Niza) que lhe fora vendido pelas irmãs de caridade. 
(Os Excêntricos, etc). 

Em 1819 havia um botequim junto á egreja do Lo- 
reto (L.° 10 das Secr.), botequim que depois perten- 
ceu ao italiano Pedro, ao quai succcdeu o chapelleiro 
Grezielle. Este veiu a mudar a chapellaria para a rua 
da Horta Secca, perto da loja onde estivera a casa de 
pasto do Ferreira. 

O Pedro deixou fortuna, mas seu filho, um perdulá- 
rio, deu com tudo em droga. 

Dissemos, anteriormente, que ao pé da egreja do 
Loreto estacionavam vendedeiras. Em i829, os lojistas 
do prédio contíguo á egreja reclamaram contra a per- 
manência d'essas mulheres e dum coxo que expunha 
uma camará óptica. Allegavam que ferviam as des- 
composturas entre ellas e os vadios, e que os larápios, 



222 LISBOA d'outros tempos 



aproveitando a occasião, roubavam lenços. (Corr. 
Maço 15). 

Com a demolição dos casebres do Loreto desappa- 
receram três antigos botequins : o do Thíago, á esqui- 
na, do qual já falámos, e cujo proprietário foi casado 
com uma ingleza ; o do José das Pernas Grandes, e 
ainda um outro, ambos na rua do Loreto. (Summario, 
etc). 

A. policia dizia (1829) que era no botequim do Thiago 
que se dava o dinheiro para os hespanhoes emigrados. 
(Corr. Maço 45). 

Conta-se que nos casebres do Loreto existia, em 
tempo de D. Miguel, um barbeiro casmurro, que tinha 
por costume mostrar aos que elle suppunha malhados 
um painel semelhante ao que acompanhava os conde- 
mnados ao patíbulo, tocando ao mesmo tempo uma 
campainha e gritando : — Olha, malhado! — Deram-lhe 
cabo da pelle no dia 24 de julho. 

O derradeiro dos cafés de nomeada que o Chiado 
teve foi o café Central, á esquina da travessa de Este- 
vão Galhardo, hoje rua Serpa Pinto. Este café des- 
appareceu, com os seus gabinetes de sobre-loja, em 
1875, cedendo o logar á loja de quinquilharias de Elie 
Benard. Foi o ultimo baluarte da ultima plêiade de va- 
lentes do Chiado, á qual pertenceram os Maniques, os 
Galaches, o marquez de Castello-Melhor, Gama Lobo 
(que foi morrer em Ilespanha como voluntário carlis- 
la), D. José d'Avi!ez, D. Pedro e D. António Galveias, 
D. Alexandre Saldanha (Ponte) e Alfredo Ruy da Silva 
(o Silva Canellas). 

Foi o ultimo centro de paragem dos janotas, dos bo- 



os cafiís 223 



hemios, dos que conheciam todos os encantos do ca- 
pricho, sem mesmo lhes escapar esse supremo pesa- 
delo dos governos sábios. . . e constilucionaes — a di- 
vida flucluante. 

O Central pertenceu ao Domingos António, que an- 
dava sempre de sobrecasaca e chapéo alto. Ia para a 
cosinha fazer os beefs, sempre de 'casquete. Foi elle o 
primeiro homem que estabeleceu o serviço de restau- 
ram nos cafés. Até ahi os botequins apenas forneciam 
ovos quentes á portugueza. 

As especialidades do Central eram : beefs, linguado 
frito e rim grelhado. 

Fallecido o Domingos António, o café Central ficou 
pertencendo á viuva, que entregou o botequim a um 
administrador. Este illudia os freguezes, mandando, á 
socapa, buscar os beefs á taberna do Baldanza, e fa- 
zendo-lh'os servir em louça do Central. Os freguezes, 
ao principio, não deram pela marosca, mas, por fim, 
perceberam-n'a, e abandonaram a casa, que deu em 
pantana. 

A's portas do café Central estacionavam, por noite 
velha, os serenos do Feliciano das Seges — umas ti- 
póias parranas,'de cocheiro tosquenejando no alto da 
boleia, e uns sendeiros com pulmoeira e alifáfes, ou- 
trora formosos murséllos, cardões ou russilhos d' Al- 
ter, reduzidos a facas, compradas ao desbarato a al- 
gum alquile cigano na Carreira dos Gavallos. 

Um dos bucephalos das três arcas do Feliciano pos- 
suía uma manha singular. Logo que ouvia dizer a al- 
guém que ia para Cintra, começava aos pinotes e des- 
embestava coices furiosos. O Feliciano acudia imme- 
diatamente gritando: — Não diga ao cavallo que vae 
para Cintra, diga-lhe outra coisa. Diga o que quizer, 
menos isso. . . 

O Feliciano sentava-se num banquinho de tapete, á 
porta do Central, e ahi estava, horas e horas, a rumi- 
nar no seu curtíssimo cachimbo. Não dava ordenado 



224 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



íixo aos cocheiros; pagava-lhes da maneira seguinte: 
de cada cinco tostões, o cocheiro tinha seis vinténs. 
Se o freguez não pagava, o que acontecia muitas ve- 
zes, o Feliciano linha ainda assim de se esportular com 
a sua quota parte. 

Foi um dos mais famosos batedores de sege, e bo- 
leou até ao tempo da Maria da Fonte. 

Morreu pobríssimo. Para se lhe fazer o enterro tor- 
nou-se necessário abrir uma subscripção, que foi ini- 
ciada pelo Silva Canellas. 



Ao grupo de freguezes do Central pertencia mais 
d'um excêntrico. Citaremos Luiz Sampaio e o pianista 
Eugénio Mazoni. O Luiz Sampaio, pae da viscondessa 
do Cartaxo, e tio de Eduardo Garrido, ia diariamente 
para esse botequim, para o escriptorio dizia elle, onde 
se entretinha a escrever cartas e a tomar de doze a 
qualorze chávenas de café ! 

De Eugénio Mazoni contam-se muitas excentricida- 
des. N'uma noite de carnaval fora convidado pelo conde 
de Farrobo para assistir a um dos seus bailes das La- 
ranjeiras. Não querendo faltar ao convite amável, mas 
havendo sido instado por João Evangelista d'Abreu, e 
outros empregados superiores do caminho de ferro, 
para tomar parte em uma ceia nos quartos d'um dos 
engenheiros ao serviço do marquez de Salamanca, no 
palácio do Calhariz, compareceu na ceia pela uma hora 
íla madrugada, em trajo cerimonioso, isto é, de casaca, 
gravata branca, peitilho tezo e espelhante como cartão 
bristol, claque, e sapatos envernizados. Sua apparição 
foi saudada por um hurrah geral e estrondoso. N'esse 
estrugir de sabbal orgiastico, e ao calor picante do 
Champagne jubilatorio, os convivas congestionavam-se 
em gargalhadas, que retiniam como áureos cruzados 



OS CAFÉS 225 



novos (feirei D. João V cahindo num barnegal pre- 
cioso. A ceia, para a qual haviam sido convidadas al- 
gumas bailarinas de S. Carlos, que, mascaradas em 
costumes diversos, deram a nota bargante á festa no- 
cturna, prolongou-se de maneira que era dia claro 
quando terminou. Uma das dançarinas, vestida de dé- 
bardcuse, tanto pulara no baile, que os seus sapati- 
nhos de setim rebentaram. Não havendo tomado car- 
ruagem para se recolher a casa, foi obrigada a sahir 
a pé, acompanhada pelo Alazoni, até achar transporte 
que a levasse á sua habitação. 

Em quarta-feira de cinzas e a tal hora, 7 da ma- 
nhã, nenhuma carruagem encontraram até á egreja dos 
iVartyres, onde a bailarina declarou, peremptoriamente, 
não poder continuar, em virtude do cansaço e das do- 
res nos pés. Mazoui, receiando que o ar frio da ma- 
nhã prejudicasse a sua companheira, propoz leval-a ás 
costas, se ella se prestasse a escarranchar-se-lhe so- 
bre os hombros. 

A rapariga acceitou a proposta, e o xMa^zoni — enca- 
sacado, de gravata branca, e claque na* cabeça — lá 
foi, Chiado abaixo, até perlo do Passeio Publico, onde 
a bailarina morava. 

Os transeuntes riam-se da excentricidade, mas elle 
não fez caso do riso, e proseguiu, imperturbável, com 
o precioso fardo. 



Narremos agora uma famosa scena de pancadaria 
que o café Central presenceou em 1872 ou 4t>73. Um 
escriptor muito conhecido pelo seu espirito dicaz, pelo 
seu bohemianismo e por se ter conservado fiel ás tra- 
dições da litteratura noctívaga, D. Thomaz de Mello, 
escrevera um livro — Scenas de Lisboa — em que cri- 
ticava com penna ligeira, molhada em vinagre, a raça 
interessante dos marialvas do Chiado, ou os abas di- 

15 



226 L;i>BOA D"0UTR0S TEMPOS 

rcilas, conforme eram conhecidos. O marialvismo ju- 
rou tirar vingança. 

O plumitivo em questão, pouco atreito a medos, 
apresentou-se certa noite no Central e abancou a uma 
meza. Noutra estavam sete sujeilos d'aquelles que o 
escriptor visara na sua obra. Mal o bisparam, vieram, 
um a um, reunir se em torno d'elle, censurando-o 
pela critica acerba, tomando attitudes provocantes co- 
mo uma insolência, agitando o guizo do escarneo, ao 
que o escriptor respondia com uma complacência que 
era um meio termo entre a indiferença e o desdém. 
Alfim crearam animo, e, sem se importarem com o 
acto cobarde que praticavam, atiraram-se a elle. 

Amâncio Gago (Fonle-Bella) que entrava n'esse mo- 
mento no café, e não conhecia o offendido, ao vêr tal 
cobardia, deu um repellão no casaco, cujos botões sal- 
taram, e, para ficar mais á vontade, despiu-o. Amân- 
cio Gago cresce para os pandilhas, que lhe fazem 
frente, despede um soco a este, derruba aquelle com 
um golpe de savate, que jogava dilettaniicamente, 
aquelfoutro com um pontapé applicado a geito, furta 
o corpo ás bengaladas e ás agilidades de capoeira, 
realisa voltas rápidas como um cyclista americano nos 
movimentos sábios, fugas hábeis como um virtuose da 
patinagem. N'um abrir e fechar d'olhos poz todos em 
debandada. Aquillo foi fogo viste, linguiça ! 

O valente rapaz, que consummia as energias impa- 
cientes do seu sangue na violência derivativa d'este 
sport, dirigiu se ao homem que defendera, e, o mais 
geatleman-lik", offereceu lhe e bebeu com elle uma 
garrafa de Porto. 

O intrépido e intelligente offieial João Carlos Ribei- 
ro, testemunha da acção épica, correu a abraçar o 
ilhéu de S. Miguel, e descreveu-a depois ao seu talen- 



OS CAFKS 227 



toso collega sr. Henrique das Neves, que, sobre essa 
descripção, bordou um interessante folhetim n'um pe- 
riódico insular. 



Ao café Central anda ligado um episodio litterario 
requintadamenle curioso. Ref^ril-o-hemos, aproveitando 
ainda o folhetim que acabamos de citar. 1 Guerra Jun- 
queiro, Guilherme d'Azevedo e o sr. Henrique das Ne- 
ves, sahiam uma noite do verão de 1874 ou 1875 do 
Passeio Publico, quando, nas alturas da rua do Príncipe, 
deram de cara com o grande poeta Gomes Leal. Tro- 
cados os cumprimentos habiluaes, Gomes Leal pergun- 
tou aos dois poetas: 

— Então vocês o que fazem agora? 

— Ru e o Guilherme, responde Junqueiro, arrasta- 
damente, começámos ahi uma coisa. . . 

— Em collaboração? 

— Em collaboração, está bem visto. 
— E pode-se saber o que é, se não é segredo? 

— Um poema. 

— Olá !. . . não sabia ! acode Gomes Leal com a voz 
perturbada. 

— E o título? 

— Finis, accentuou firme e claramente o Junqueiro. 
E, dizendo isto, seus olhos d'aguia fuzilavam-lhe de 
malicia, riam mephistophelicamente. 

Trocadas mais algumas palavras, os dois poetas des- 
pediram-se e separaram-se. 

Os três amigos continuaram descendo a rua do Prin- 



1 Folhetim do sr. Henrique das Neves, inserto na Persuasão de 
20 de Dezembro de 1882, reproduzido integralmente n'0 Figaro 
de 16 de Janeiro de 1883, e, em parte, no Diário da Manhã de 
11 de Janeiro do mesmo anuo. 



228 LISBOA d'outros tempos 



cipe. Junqueiro contou então que a tal peça litteraria 
não passava d'uma blague d'occasião para beliscar a 
susceptibilidade de Gomes Leal, que andava fraguando 
um poema, de que se mostrava comicamente cioso. 
Não obstante, Junqueiro e Azevedo eram concordes 
em reconhecer o alto talento poético d'aquelle emi- 
nente cultor das musas. 

Depois de subirem o Chiado deram fundo no res- 
tauram do Matta, que então estava na rua do Outeiro, 
onde ceiaram, principescamente, o bello bacalhau gui- 
zado com pimentões assados, uma petisqueira maravi- 
lhosa, devida á fértil inventiva d'esse grande chimico 
culinário. 

A's duas horas da noite chegavam todos três ao 
Central para tomar café. A sala estava deserta. Encos- 
tados ao mostrador, os creados roncavam com a sere- 
nidade impetuosa de canudos d'orgão. 

— Vamos nós continuar com esta blague ao Gomes 
Leal?... lembrou Guilherme d'Azevedo. 

— Como? pergunta Junqueiro. 

— Juntemos umas idéas estapafúrdias em alexan- 
drinos, e publiquemol-os como trecho do poema. 

Junqueiro recostou-se nonchalamment no canapé e 
fitou as volutas azues e tépidas do seu charuto, que 
subiam, desmanchando-se lentamente, para o tecto. 
Principiou compondo versos, que o Guilherme d'Aze- 
vedo ás vezes completava, ora com a rima, ora com a 
idéa. O sr. Neves foi buscar o tinteiro ao balcão, pu- 
chou d'uma tira de papel, preparou a penna e foi es- 
crevendo : 

O MASTHODONTE 

Eu falo pela terra, eu falo pelo sol. 
Eu falo por Moysés. eu falo por Jesus : 
Eu sou a planta, o ninho, o sapo, o rouxinol, 
Eu sou o grande verme, eu sou a velha cruz. 



OS CAFÉS 229 



Eu sou a alma agreste e enorme do rochedo; 
Eu sou o evangelista erguido na montanha, 
Que conserva no peito o trágico segredo, 
Que prende a via láctea ao lio d'uma aranha. 

Eu sou o eterno mudo, eu sou o imponderável, 
Eu sou a luz e a treva, eu sou o bem e o mal ; 
Eu sou a grande lucta, a lucta formidável. 
Que começa no craneo e acaba no punhal. 



CENTAURO 
(também foi designado Mephistopheles) 

O' velha Naturjza. ó Messalina antiga. 

Que guardas no teu ventre os craneos dos heroes : 

Eu quero repousar, ó minha doce amiga, 

Ao doce clarão phantastico dos soes. 

Eu quero repousar nas ervas luzidias 
A minha dura fronte isenta de cuidados, 
E sentir sobre mim a lua hranea e fria. 
Como as scintillações das lanças dos soldados. 

Eu quero emfim saber, ó languida perversa, 
Se acaso existe um Deus, alegre como Pan ; 
Se por ventura existe alguma luz diversa 
Da luz efeminada e terna da manhan. 

Eu quero emfim saber, ó pompa deletéria, 
Que bello sabor tem as carnes ideaes, 
Que estão apodrecendo no ventre da matéria, 
Debaixo do latim sagrado dos missaes. 

Eram três horas quando um Mascarille botequinal 
veio pedir, com a máxima urbanidade, para que sa- 
hissem, porque ia fechar o estabelecimento. Encosta- 
dos á esquina do café, ainda Guerra Junqueiro e Gui- 
lherme d'Azevedo continuaram, com alegria lyrica e 
calor nervoso, o seu pilhérico poema. Mas estes últi- 
mos versos é que já não foram recolhidos pelo sr. 
Henrique das Neves. Voaram nas azas da brisa. 



230 LISBOA D\)UTROS tempos 



* Na abobada celeste as eslrellas piscavam os olhitos. 
A lua morria n'um circulo de oiro pallido. O vaporoso 
vestido róseo da aurora começava a prender-se e a ras- 
gar-se Das arestas dos telhados e Das agulhas das tor- 
res. RepoDlava a maDhã. . . 

Pelas portas do Ceotral e visiohaoças roodavam os 
paquetes do Chiado, uma freguezia baldeira que vivia 
de levar cartas e recadiohos amorosos, e de segurar 
cavallos. Eotão podia se dizer que o gaiato triumphava 
em toda a linha. Razão tinha Frederico Soulié quaudo 
dizia pela bocca d'um dos seus persooageDs românti- 
cos : O rei da nossa epocha è o r/aiato ! 

O coxo Meyreiles, o Mm, o Lerias, o Theodoro, os 
três Phocas, o Meio Arrátel, o Luiz das Neves, o Gui- 
marães, o rei Wamba ou rei Bambas, e outros sujei- 
tórios campavam. Arteiros portadores das epistolas 
amorosas, avisados depositários de galantes secretos, 
farautes da rapasiada de juizo verde, villanazes que 
proporcionáveis a cálida volupluosidade das recamaras 
impudicas, valdevinos que conhecíeis os locaes recata- 
dos em que era offerecido o bromurelo da satisfação 
animal, onde é que paraes agora? Coitados! No campo 
da egualdade, no logar onde nem riquezas nem pom- 
pas são moedas valedias. . . 

O rei Wamba tinha talvez a primasia. Era baixo, 
zanága d'um olho, bexigoso e gago. Usava sempre ga- 
bão e chapéo d'oleado, quer tosse verão, quer inver- 
no. Quando estava com a zangurriana linha uma par- 
ticular embirração com o mappa de Londres, que se 
encoDtrava atraz da porta do Ceotral. Meltia o Dariz, 
eotrava, e quedava -S3 a embirrar com o oiappa. 

O velho Lodi commettia ao Meyreiles a missão de 
lhe segurar dos cavallos do trem, uuia carrimooia su- 
jíssima que parava oa travessa d'Estevão Galhardo. 



OS CAFÉS 23 



O Mangerico, ha pouco desaparecido, 1 foi o ultimo 
typo da vagabundagem noctívaga do Chiado. Cerca da 
meia noite surdia á esquina do Loreto, e por ahi gi- 
rava até ao romper da manhã, disposto a prestar ser- 
viços aos janotas. De bonncl de seda, embainhado em 
vasto casacão e arrimado a cebosa bengalinha, o Man- 
gerico, apesar de coxo como Lord Byron, era expedito 
no cumprimento das arriscadas missões que lhe con- 
fiavam. Tinha fumaças de lilteratiço e de poeta, e com- 
pozera um roteiro da Lisboa galante, de que o Man- 
gerico tirava copias para vender. 

* 
# * 

O Chiado já não é o que foi, e nunca foi o que hoje é. 
Já não quero reíerir-me ao Chiado dos tempos em que 
António da Cunha, marquez de Niza, Villar Perdizes e 
D. João de Menezes ahi sobresahiam com a linha, a 
um tempo, elegante e varonil do seu dandysmo incom- 
parável. 

Bastaria recuar trinta annos, á epocha em que a 
alaria Ritta morria a rir, o Pomada Florestal politica- 
va, e o Torniquete — de negregada memoria — punha 
todos pela rua da amargura. Deixou de ser o centro 
da gravitação elegante e libertina. 

E de suas lamas, outr'ora celebres, não mais se po- 
derá dizer com o poeta : 

Oh, lamas do Chiado, oh, lamas do bom tom . . . 

Vae longe a epocha em que n'esta via elegante do- 
minava o puro janota — de triumphal memoria — , o 
que cingia espartilhos eléctricos nas valsas das Laran- 
jeiras, rebentava as inamovíveis luvas amarellas applau- 
dindo os cantores em S. Carlos, o que fazia correr nos 



Morreu em novembro de 1897. 



23:2 LISBOA D^OUTnOS TEMPOS 



arames da guitarra mephistophelica a brilhante cavai- 
laria das garamas novas, as loucas chromaticas da mo- 
cidade, os harpejos diabólicos da extravagância. 

Agora é muito differente. No Chiado soberaniza o- 
gmmoso — successor dessorado, gelatinoso, do antigo 
janota, — o que usa penteado á Deveria, ou em ban- 
dós segundo a formula clássica da bailarina Cléo de 
Mérode, collarinho 1830, gravata alta, ligando o pes- 
coço como se tivesse soffrido operação d'um anthraz, 
sobrecasaca fúnebre, bengala voltada com o castão 
para baixo, barbinhas em bico sublinhando o perlii 
gallinaceo. São assim os títeres do nosso Guignol con- 
temporâneo. . . 

* 
* # 

Bocage dizia que o Chiado possuía sete maravi- 
lhas. 

Mas dizia-o n'um verso tão fresquinho, que, quasi. 
capitularíamos de frigoriíico. No numero das maravi- 
lhas, contavam-se o nariz apopletico da Estanqueira 
do Loreto, os enormes pés do Pinheiro, estampador 
do Contraio do Tabaco (estabelecido na porta pequena 
do actual deposito dos bicos Auer), o António Marrare, 
atarracado e obeso como um porco pelo Natal, e as M ... 
de Cheiro, mamalhuda veudedeira de perfumarias e po- 
madas com loja na rua Nova do Almada, e que era do- 
tada com umas opulentíssimas conchas do seio, umas so- 
berbas glândulas hemisphericas, pendentes como tetas 
de negras langanheiras, adiposas como protuberâncias 
estéatopygias de fêmeas bochimanes — duas bisarmas. 
Outra maravilha era a cabeça do Batalha, estabelecido 
com loja de contaria á esquina da rua Nova do Alma- 
da e da calçada Nova de S. Francisco, loja que hoje 
é de seus successores, e que foi estabelecida, conforme 
diz a icscripção que lá tem, em 1795. 

Ora a natureza presenteara o Batalha com um carão 



OS CAFÉS 233 



phenomenal, uma mascara que deixaria a perder de 
vista as caretas dos modernos gigantes carnavalescos. 
Uma vez passava o Bocage pelo Chiado, quando o Lo- 
pes, barbeiro do arruamento, lhe pediu que fizesse 
um verso ao Batalha. Bocage assentiu logo, improvi- 
sando uma quadra que apparece nas obras do poeta 
como dirigida á Estanqueira : 

Cara, cara, cara, cara, 
Cara, cara, e continua, 
Temos grande novidade, 
Anda pela terra a lua. 



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XXIX 



Âs esperas de touros. — Batedores de mão cheia. — No tor- 
velinho da festa. — Uma fadista incomparável. — As tres- 
malhações. — Desfilada dos mortos. — Perda depittoresco 
pela invasão dos modismos forasteiros. 



Nas noites (Tespera dos touros era certo juntarem-se 
ás portas do café Central quinze e vinte cavalei- 
ros, que d'ahi partiam para acompanhar os bi- 
chos destinados ao toureio na praça do Campo de 
SantWnna. 

As esperas de touros, cheias de movimento e de 
ruido como uma feira peninsular, alegres como um 
carnaval veneziano, eram diversão que enchia as me- 
didas aos amadores das touradas. N'estes dias famo- 
sos brilhavam os mais acreditados batedores de praça, 
os que possuíam a fundo a techmea da arte, os que 
chegavam sempre ao seu destino, por mais distante 
que fosse, com uma exactidão incoercível, uma certeza 
mathematica de calculo algébrico: o Zé Gordo, que le- 
vava as lampas a todos elles (agora em Loures onde é 
proprietário), o Carlos Bonito, o Bemfeito, o Ratinho, 
o Domingos Pine/alho (hoje com cocheira a Santos), o 
Paixão, o Manoel Anão, e o Gradil (actualmente com 
hospedaria e carruagens em Extremoz). 

Ia-se nas horas d'estatlar, presto súbito. Zás, traz ! 
As carruagens batiam galhardamente, cambeteavam 
como quem vae com grão na aza, tem-te não caias, 



23() LISBOA d'outros tempos 



as rodas feriam lume, os cavallicóques pareciam ter 
azas nas patas. O' batedor fogoso, onde te escondeste 
qne já não ha d'isso? ! 

De caminho molhava-se a palavra, petiscava-se, rea- 
lisavam-se collações ligeiras no Telheiro de Friellas, 
no Theotonio da calçada de Carriche (Nova Cintra), 
no Collele encarnado ou no Quebra Bilhas do Campo 
Grande, na tendinha do Campo Pequeno, no Salgado, 
ao Arco do Cego. 

As esperas ! Que movimento, que animação, que 
graça tão genuinamente ibérica ! Tipóias rodavam ve- 
lozes. Ilespanholas de grande elasterio de costumes e 
de muito carmim nas faces, repimpadas como se esti- 
vessem nas poltronas cebosas dos cotes, deixavam pal- 
pitar á briza as franjas das mantilhas como tremu- 
lantes flammulas n'um embandeiramento em arco. 

Sobre penteados impossivelmente castelhanos, mas 
que tão ricamente faziam sobresahir a graça das nu- 
cas e o brilho dos olhos pestanudos, espetavam-se a 
clássica peineta e o tradicional cravo á moda das ina- 
jás de Goya. Sucios de jaqueta e chapeo redondo fa- 
ziam uma chiadeira de todos os diabos. 

Voavam ditinhos prazenteiros, docemente embria- 
gadores como xarope d'ether, piadinhas á la vinagreta 
atiradas com desgarrada denguice, chalaças bufías, 
mordicantes, mandadas como piparotes irreverentes 
ao nariz da Morai, uma nariguêta que não merece, de 
certo, o trazeiro d'Apollo para estojo. 

As guitarras faziam ouvir seus queixumes, soluça- 
vam no ar. Os bordões das violas gemiam beliscados 
por unhas que não eram positivamente joaisinhas d'a- 
gatha encastoada em alabastro. Subiam toadas elegía- 
cas, requebradas, de fados garotos, em que se cele- 
bravam amores d'uma ardência vesuviana, em que se 
punha alguma concubina nos cornos da lua, ou em que 
se descreviam tardes brilhantes nos fastos toureiros. 

Cavalleiros farfalhões, com palanfrorio, cavalgando 
azemolas do Arco do Bandeira, appareciam envoltos 



OS CAFÉS 237 



no pó dos caminhos, como os cavalleiros das bailadas 
apparecem embainhados nos rolos de bruma germâ- 
nica. E o séquito da boiada colleava, estrada fora, como 
uma giboia monstruosa, produzindo um fragor ruidoso, 
obstinado, de maré que sobe e bale os rochedos. 

N'esta lufa-lufa havia uma alegreza particular, sai 
generis, uma alegreza que parecia escoar-se de tudo: 
do frou frou dos vestidos, da flabellação das ventaro- 
las, das subidas chromaticas da gamma do riso, do ti- 
lintar dos chocalhos, do tropel dos cavallos, do estalar 
dos chicotes, dos barretes dos campinos, dos aros das 
esporas, do ganir delgado dos rafeiros, e até dos mu- 
gidos dos touros, que, de hastes afiadas e focinho ne- 
gro erguido no ar, haviam d'ir, no dia immediato, re- 
ceber as farpas agudas dos bandarilheiros e os dicho- 
tes rombos do sol, emquanto a banda dos Cegos da 
Casa Pia desafinava conspicuamente e os charutos dos 
affeiçoados choviam na arena. 

A boiada, conduzida pelas chocas, fazia alto nas Marno- 
tas. Ahi, o honrado boi, honest buli como lhe chamou um 
poeta inglez, lambiscava na resteva, emquanto os cam- 
pinos — de pampilho sob a perna — fumavam o seu ci- 
garro brejeiro. Antes da manada entrar na praça ti- 
nha outro descanço na Alameda e outro no Campo Pe- 
queno. Em mais remotos tempos era aqui, n'estas noi- 
tadas, á claridade dúbia das estrellas, que o conde de 
Vimioso batia o fado ao compasso da guitarra da Se- 
vera — uma virago — , a qual, de cigarro ao canto da 
bocca. tamancos e meias azues, cantarolava obscenida- 
des d'entresò!ho do Bairro-Alto, cantilenas d'uma poe- 
sia bêbeda, melopèas ratonas em que se adivinhava a 
nostalgia do esterquilinio. 

A Severa conquistava ahi, n'esses intermédios mu- 
sico-fadistaes, um triumpho reles, d'esses triumphosi- 
tos que ella alcançou com a sua desenvoltura acrobá- 
tica de varòa, nunca com o mimo, com os brandos to- 
ques de feminilidade, com a força de inércia particu- 
lar ao sexo frágil. 



238 LISBOA d'outros tempos 



Em epocha muito posterior a esta travavam-se os 
desafios entre afamados cantadores, como eram D. 
Fernando Pombeiro, o Serrano, e mais alguns que sa- 
biam trinar na garganta os fados do Vimioso e do Ana- 
dia. 

Se no meio da festança da conducção adergava ha- 
ver uma intercorrente tresmaihação de gado, emão é 
que eram ellas... Que grande pechincha! Que pan- 
dega I Os touros lá entravam pelas ruas da cidade, ás 
marradas, fazendo tropelias, deitando de cangalhas al- 
guns matutos, pondo as tripas á mostra a algum in- 
feliz bucephalo, investindo com os transeuntes, que tra- 
tavam de se pôr em cobro, fugindo a sete pés, bran- 
cos como a cal das paredes. 

Que frescata! Que reinação! Isto, sim senhor. Isto 
provocava emoções violentas a fazer aneurismas na 
aorta, punha vibrações na espinha dorsal... e echy- 
moses no resto do corpo. 

A tresmaihação era um hors d'ceuvre muito apre- 
ciado n'este festim. Tudo isso morreu, tudo se foi 
n'este desperecimenlo de todas as nossas velhas coi- 
sas. 

Ou sonl les neiges d'anlan? seria agora occasião de 
perguntar com Villon. Onde estão os alegres amado- 
restaurinos d'essa epocha famosa? Dos grandes ama- 
dores da epocha, dos que jamais faltavam a uma es- 
pera, uns baldèaramse á sepultura, outros ha muito 
já que se limitam a desfiar o piedoso rosário das suas 
recordações. Desappareceram o marquez de Bellas, 
José Horta, Frederico Ferreira Pinto (o tio Frederico), 
Domingos Ardisson, o Anadia, Polycarpo Machado, o 
Frederico de Cavallaria, José Gama, o Granate d'Al- 
fandega, o gordo padre Matheus, o Thomaz Jorge, o 
Chalaça, os Roquettes, Alexandre Linhares, o mar- 
quez de Castello-Melhor, o António Manique, o Antó- 
nio "Galache, D. Manoel Ponte, Fernando Antas, e 
quantos mais. . . 

Onde estão as frécheiras que davam a suprema nota 



os cafés 239 



festiva á diversão, as mulheres que viviam ao sabor 
da phantasia... e do vento que soprava? Umas en- 
contram se nos registos dos cemitérios, outras gastam 
o resto da vida a rebocar-se com cosméticos pour ré- 
parer des ans Virréparable outrage. 

N'este momento l tenta-se restabelecer as esperas 
de touros. Os nossos velhos costumes teem desappa- 
recido ou teem-se abastardado. Vão-se lentamente dis- 
solvendo no cosmopolitismo banal, vão-se nivelando 
sob a rasoira da civilisação, apagando sob a acção do 
internacionalismo. 

D'aqui a pouco não temos costumes nacionaes, como 
não temos arte, navegação e industria, e, quasi, jâ 
não temos idioma, o nosso idioma tão opulento e tão 
bello, vilmente conspurcado pelos noticiaristas d'escada 
abaixo, tatibitatis que não teem expressões, segundo a 
formula consagrada pelos anuuncios gratulatorios dos 
periódicos. 

Já Theophilo Gautier lamentava que, sob falso co- 
lor de progresso, se fossem uniformisando as modas, 
perdendo-se, pelo tanto, parte 4 do interesse de pitto- 
resco e de imprevisto, de tal guisa que as viagens se 
iam tornando desnecessárias, completamente inúteis. 
O que o auctor do Traz-los- Montes disse das modas 
pôde dizer-se do resto. 

Ora que os innovadores pancracios se vão com a. 
trúpia. 






1 Escripto err. Abril de 1897. 



I II í I II ! I I I jjE 




5&$e^^x^ 



XXX 



Do Chiado ao Rocio — O Freitas — A aia dos valentes. — 
Um typo. — Outros cales. — O theatro de D. Maria II e o 
Paço da Regência. — Ainda no Rocio — A pretalhada. — 
Typos das ruas. 



Desçamos do Chiado ao Rocio. O Gonzaga do Ro 
cio, em numero 417 antigo, depois cale Freitas 
(o moderno café do Gelo), deveu sua creaçfio ao 
Gonzaga, «um bem caracterisado burgunz alemteja- 
no, uedio como os cevados da sua terra natal, baixo. 
ro'iço, vermelho, olhos redondos de mocho, e umas 
pernas talhadas á guisa de fiambres,» conforme o des- 
creve Luiz Palmeirim. Bondoso, liberal e franco, per- 
doava as dividas aos credores insolúveis, e jogava o 
bilhar com os clientes, não querendo jamais que o par- 
ceiro pagasse a partida, se pec dia. 

Pertenceram á clientella da casa, alé depois da Re- 
generação, o Costa Camarate, que morreu general, 
Daniel da Silva, notável mathemaiico e lente da Escola 
Naval, o dr. Luiz da Co*la Pereira, Rebdlo da Silva, 
Mendes Leal, o Cabral Maneia (um gnnde miguelista), 
Luiz Augusto Palmeirim, Pinto Carneiro, que f.dleceu 
em general de divisão, o folhetinista Lopes de Men- 
donça, o actor Rosa pae, Gonçalo Lobo, um destemido 
que deixou fama de í>uas valentias, José Vaz de Car- 



ie 



242 LISBOA d'outros tempos 



valho, um rapaz corajoso, um campeão audaz (Os Ex- 
cêntricos, etc), e o Figueiredo do 14 e o SaulWnna e 
Vasconcellos, dois athletas sans peur et sans reproche. 

A psychologia do tempo mostra nos haver uma ten- 
dência esgrimidora, a bravura sem farfanteria, quando 
ainda se desconheciam o sport, o lawn lennis, o fool- 
bali, e todos esses barbaremos d importação ingleza. 

Enl.lo, que o athlelismo parecia tomar uma forma 
cultual como na antiga Grécia, era numeroso o clan 
dos valentes: José Maria Saloio, grande jogador de 
pau e corista de S. Carlos; Gonçalo e José Lobo, 
que foram, no seu tempo, dos mais valentes estudan- 
tes da Universidade; José Maria Christiano, o bravo 
soídado das campanhas liberaes; Thomaz Jorge, cor- 
netim do Gymnasio e professor da banda dos Cegos 
da Casa-Pia ; os Schiappas, os Fragosos das Alcáçovas, 
João d'Aboim, poeta e jornalista ; Luiz Forjaz, Diogo 
de Macedo, mais tarde engenheiro florestal; Francisco 
Pinto de Campos, ainda ha dois aunos faliecido em 
Villa Franca, com 77 armos, cuja valentia e força her- 
cúlea eram notórias. Caçador consummado e toureiro 
amador, grangeou a estima do conde de Farrobo e do 
conde de Vimioso, que o convidavam sempre para as 
suas caçadas e touradas. Enirara nas luctas da Maiii 
da Fonte, e fora amigo do conde das Antas. 

A fanfarra estridente das requestas e aventuras alar- 
gava se em orchestrações poderosas, retinia em vibra- 
ções potentes, das quaes mal nos chegam os echos 
amortecidos. Pugn^zes, mas esthelas, pugiles, mas na- 
moradiços, a Índole esgrimidora d'esses leões não dava 
de mão ás exubsraaiiias do sentimento. Arremessa- 
vam-se, d'animo leve, ao festival das grandes alegrias, 
ora estonteadoras como os turbilhões polychromos da 
Loie Fuller, ora delicadas como os idyílios de Gessner. 

Almas cheias d'uma philosophia larga e amante, re- 
temperavam-se no culto pnroxysta da Belleza e da Va- 
lentia, quando ainda não era conhecida a tuba choca- 
lheira do reporterismo para lançar aos quatro ventos 



os cafés 243 



a noticia das façanhas épicas, quando ainda não exis- 
tia a buida secção do high-ttfe, Capitólio reles desti- 
nado a alvidrar e sagrar os zeloles da moda, que ora 
se pavoneam pelo Chiado... pura gloria dos sastres. 

N'um folhei ím que o indefesso escriplor, sr. Brito 
Aranha, publicou no Diário de Noticias de 21 de se- 
tembro de 1896, se diz que, depois da Maria da Fonte, 
conspirava se por toda a parte, e que, um dos bote- 
quins mais frequentados pelos conspiradores era o do 
Freitas. Uma noite — quando já se boquejava sobre 
revolta de sargentos de caçadores 2 — sabiu d^lli um 
pequeno grupo, em que iam Moraes Mantas, Manoel 
de Jesus Coelho e o sr. Brito Aranha. O grupo, que 
foi engrossando pelo caminho, palmilhou até Valle de 
Pereiro. Chegado aqui, soltaram-.se vivas á causa po- 
pular e a caçadores 2, vivas que foram acolhidos de 
uma maneira rebarbativa, porque a guarda do quar- 
tel apressou se a formar, carregando armas. O calar 
bayonetas, a roçadura das vaiètas nos canos metalli- 
cos, e o bater marcial de cassoletas das carabinas ar- 
ripiaram os cabellos aos manifestantes. Tanto bastou 
para augmentar a força motriz aos membros loco- 
molores dos revolucionários pacatos, que. . . deram 
á sola, receiosos de que lhes pozessem as uvas em 
pisa. 

A's portas do Freitas, assim como ás do Marrare, 
roldava o Pessoa, homem imbeibe, com grande pa- 
pt ira. e. . . muitos saberêtes espertalhões. Andava por 
alli á roda, como peixe que anda á lambugem da pe- 
dra. Sua occnpação consistia em levar objectos que os 
janotas lhe davam para empenhar em mãos donzenei- 
ros. Ainda não eram conhecidas as casas d>> prego com 
fiança no Governo Civil. Os mais notáveis usurários 
eram o Marreca do Chiado, um anão, o Prado, cha- 
pHIeiro do Rocio, o Carvoeiro, hervanario de Santa 
Jusla. e o José Confeiteiro, da rua do Ouro. (Bohe 
mia Antiga. D. Thomaz de Mello). O Pessoa talvez al- 
liasse a malignidade de Mascarille e de Frontin aos tru- 



244 LISBOA d'outros tempos 



quês de Scapino. Os Leandros, os Gérontes e os Jor- 
ges Dandins algo poderiam dizer a tal respeito. 

O Freitas devia datar de 1845, epocha em que o 
duque de Cadaval terminou a construcção dos prédios, 
a que fora obrigado para regularisar o Rocio. O Pe- 
riódico dos Pobres, do Porto, referia se a essa termi- 
nação uas palavras seguintes: 

«Estão-sií demolindo com toda a actividade os bar- 
racões do Rocio ; o novo theatro (o de D. Maria II) é 
provável que se não abra para 29 de Outubro; as ca- 
sas próximas já estão todas arrendadas, e com arma- 
zéns e lojas de bebidas.» 

Perlo do -café Freitas, á esquina do Rocio e do 
largo de Camões, esteve o café do Barão, pertencente 
a um homem que tinha este appellido. 

Alii por l> s 5i ou !8ótí era. o café Moriira. Em 
1800 chamavam lhe o botequim do fíespan hol oa do 
Canto do Muro. porque muitos dos seus frequentado- 
res faziam recordar o local assim designado no Pinhal 
d'Azambuja. Tornejava para a rua do Príncipe. Finalmente 
em 1808 introduziram lhe melhoramentos e puzeram lhe 
o titulo de café Europa. Fechou em 1872, sueceden- 
do lhe a livraria Mattos Moreira, que abriu em 1873. 

Ao tempo que se construía o quarteirão do duque 
de Cadaval construía se o theatro de D. Maria II, ou 
theatro da Gloria, theatro do oiro e theatro Agrião, 
como lambem lhe chamavam. Na noite de 29 de ou- 
tubro de 1845, não estando ainda o theatro concluído, 
houve n'elle uma recita para festejar o anniversario 
natalício d'el rei D. Fernando. 

Representou a companhia do theatro da Rua dos 
Condes, a que pertenciam Emília das Neves, Talassi, 
Rosa pae, Rpiphanio e Sargedas 

Subiram á scena a ode cantata A manhã de um bello 
dia, de Mendes Leal, a comedia em d actos de Du- 
mas, O sr. de Dumbiky, traduzida por João Baptista 
Ferreira, o Musica, e a farça lyrica em 1 acto Um par 
de luvas, de Silva Leal. 



OS CAFÉS 245 



O theatro foi inaugurado, oflkialmente, em 13 de 
abril de 1816. Representou novamente a companhia 
da Rua dos Condes, levando á scena, em í. a repre- 
sentação, o drama em 5 actos, Álvaro Gonçulves ou os 
doze d' Inglaterra, original de Jacintho Heliodoro Faria 
d' A guiar Loureiro. 

Todos sabem que este theatro ocrupa parte do ter- 
reno em que assentava o paço dos Estáos, o qual, ar- 
rasado pelo terramoto de 1755, foi substituído por ou- 
tro edifício mais pequeno, obra do engenheiro militar 
e architecto Carlos Mardel. Nelle estiveram successi- 
vamente a Inquisição, * o embaixador hespanhol conde 
de Fernan Nufiez, a Regência nomeada pelo príncipe 
Regente antes da sua fuga para o Brazil, a Regência 
intrusa de Junot e a intendência de policia de Pierre 
Lagarde, outra vez a Regência depois da retirada dos 
francezes, o governo provisório do reino em 1820 (to- 
mando entã) o nome de paços da Regência), em 1825 
a escola normal d'ensino mutuo e a Academia Keal 
de Fortificação (que esteve primeiro na Fundição, e 
depois no Real Palácio, ao Pelourinho, e no palácio ao 
Calhariz), a Camará dos Pares em 1826, a Eschola do 
Exercito depois d'esla data, a Intendência Geral de 
Policia em 1S29 (transferida por' aviso datado de Que- 
luz aos 20 dVjutubro e enviado pelo conde de Basto 
ao intendente António Germano da Veiga) 2 e o The- 



1 A fim de obstar ás desordens e tumultos que se deram por 
oeeasíSo de se franquear a visita aos cárceres da Inquisição, em 
1821, determinaram as Cortes que se tomassem as providencias 
necessárias, com tanto que todos os cárceres fossem fielmente mos- 
trados. Também, por deliberação das Cortes, o Ministério do Rei- 
no ordenou ao Intendente que mandasse examinar os citados cár- 
ceres e os mais que esse extinção Tribunal possuia no reino, e 
informasse se podiam ser demolido- sem prejudicar os edifícios a 
que pertenciam Expedirarn-se avisos aos Corregedores de Coim- 
bra e Évora, e ao Intendente tias Obras Publicas. (Avisos, etc. 
Maço 40). 

2 Em Dezembro de 1822 foi ordenado que a Intendência oeeu- 
passe, interinamente, a parte do i,° andar, onde estivera a Sccre- 



246 LISBOA d'outros tempos 



souro Publico nacional ou o Erário, com a secretaria 
da fazenda, a junla dos juros e a repartição do sello, 
desde 1833 até 14 de julho de 1836, dia em que ar- 
deu. 

N'esse palácio se reuniu D. Miguel com seus conse- 
lheiro» no dia 30 d'abril de 1824, por occasião da re- 
volla chamada a Abrilada, e ahi nomeou novo minis- 
tério. Em qiiinla-feira santa de i 34 foi ainda no pa- 
lácio do Rocio que se realisou a ceremouia do Lava- 
Pés, á qual assistiu o duque de Bragança. 

O palácio da Regência linha lojas para o largo de 
S. Domingos e Rocio. 

Nas primeiras estava o armazém de vinhos do Bar- 
bosa, cuja porta de entrada — ladeada por janellas de 
grade — correspondia pouco mais ou menos á actual 
porta d'entrada para a caixa do theatro. Nas que dei- 
tavam para o Rocio estavam: na porta n.° 4 a admi- 
nistração da illuminação da cidade. * na porta n.° 6 a 
botica de António Joaquim R ay mundo Bessa, que ven- 
dia agua das Caldas, agua-ferrea da quinta das Zibei- 
ras, agua férrea carbonisada da quinta das Burras, 
aguas da Allemanha, e aguas de pós de soda para ex- 
temporaneamente se fazer a agua. (Gazeta. !S2i e 
1825). Na porta numero 10 era o botequim do Madre 
de Deus. 

As lojas da rua do Jardim do Regedor (sob o jar- 
dim) pertenciam ao palácio do Rocio. Ainda em 1*30 
encontrámos um annuncio dizendo que se alugava a 
loja n.° 4, pertencente á extincta Inquisição. 

A casa que torneja do largo de Camões para o largo 



taria da Guerra. E, em Setembro de 1826, que todos os morado- 
res das aguas -furtadas e altos do palácio despejassem no prazo de 
48 horas. (Idem Maços 42 e 54.) 

1 A loja n.° 4 servia, em J82I ; para cavallariça dos cayallos 
das ordenanças da Policia. Era também nella que se recolhiam 
os cavallos do presidente do conselho do Santo Cilicio, que dei- 
xou de os ter pela invasão franceza. (Correspondências, ele. Al- 
fama. Maço 1.) 



OS CAFÉS 247 



do Regedor, agora occupada por photographo, casa 
de bomba, sentinas, etc, foi a que substituiu outra 
que pertencia ao palácio da Inquisição, e onde outrora 
estavam os supplicios. 

Ainda lá existem abobadas da primitiva edificação. 
Numa casa do beco do Forno (hoje travessa) demolida 
ha poucos a unos, e substituída por oulra qu^ tem os 
números 19 a 23, foram n'essa occasião encontradas 
masmorras subterrâneas com esqueletos, que, eviden- 
temente, remontavam aos tempos inquisitoriaes *. 

Depois do incêndio de 183(5, as ruinas do palácio 
conservaram-se até lS.i. Neste anno, quando o Costa 
Cabral subiu ao poder, houve uma illummação no pa- 
lácio inceudiado, em cujas janellas foram collocados 
transparentes com luzes interiores, o que produzia um 
effeito magico. 

Já depois do incêndio, estabeleceu-se nas lojas 
(frente a S. Domingos) um botequim chamado Camões. 



Sem nos desejarmos alongar em considerações acerca 
do Rocio, sempre diremos que n'elle se viam, em abun- 
dância, os pretos caiadorej de casas, que assentavam 
arrayaes na emboccadura da rua do Amparo, onde, de 
canna e pincel, transaccionavam, barganhavam seus 
méritos artísticos por dez réis de m^l coado. Esta ne- 
greria constituía uma celebreira lisboeta como a com- 



1 Qua'.do ha pouco tempo (Julho de Í898) se procedeu a ex- 
Eavações no largo de ''. Domingos para montagt-m dos volantes 
destinados ao cabo do elevador de S Sebastião da Pedreira, des 
cobriram- se muitas ossadas humanas, que, a principio, se descon- 
tinii serem de suppliciados da Inquisição. Mas o posterior appa- 
recimento de tulhas em tijolo e de cereaes carbonizados levou a 
aventar a supposição de que pertenceriam a vii-timas do hospital 
de lodos os Santos, derrubado pelo terramoto de J7§5, 



2í8 LISBOA DOUTROS TIÍ.MPOS 



panhia dos negros do guindaste da Alfandega, chamada 
a Roda, em que se recrutavam os carolas da irman- 
dade de S. Benedicto erecta no convento de S. Fran- 
cisco da Cidade {Gazeta. \8%\), como os pretos chara- 
melleiros de S. Jorge, como as pretas que se acocora- 
vam ao sol na rua do Amparo, como as negrilhas ven- 
dedeiras de fava rica com sen aio aio zeriguilaio. como 
os aguadeiros com o seu melancholico aú ! pregão que 
experimentava variante se a agua apregoada era do 
Poço do Borratem l — E' da Uca! E' da bica! — , 
como outras figuras typicas, emfim, que esse contra- 
regra chamado Civilização tem posto tora da scena do 
theatriculo alfacinha. 

E a vendedeira de castanhas assadas com pouso ao 
portal das tascas? Ea assadora de sardinhas ás por- 
tas das vendas de vinho? E as palmilhadeiras de meias 
de seda que assentavam quitanda nas escadas de al- 
guns prédios da Baixa, e das quaes uma das mais fa- 
mosas, por sua arte e seus donaires, era a do Bo.-io, 
na escada junto á botica Azevedo? E os maltezes que 
estacionavam nos sitios mais concorridos, trazendo um 
sacco enfiado no braço, sacco que do vez em quando 
chocalhavam para advertir os viandantes de que po- 
diam cambiar o seu dinheiro? 

D estes últimos ainda conhecemos um que exercera 
esse mister antes de 1820, e que depois leve loja de 
cambio e d'aljubela no largo de S. Paulo n.° 2 Era o 
Caetano Camelier ou Caetano Mal tez, que morreu em 
4871 ou 1872 Deixou boa fortuna. Tinha uma phrase 
favorita para se desculpar com alguém ou para des- 
pedir os pobres : Dá lá pacienzia, filha. 



1 Os aguadeiros e ereados que tiravam agua d'oste poço da- 
vam umas esmolas para a Irmandade de Santo André e Almas da 
freguesia de Santa Justa. Em 1818 a auetoridade reclamou os tí- 
tulos em que se baseava o ilireito á recepção d'essas esmolas. 
(Avisos, ele. Maço 34.) 

A Irmandade queixava-se, depois, da falta das esmolas, que re 
cebia desde tempos iinmemoriaes. (Idem, Maço 'òty.J 



íYf h f í i í ii í i i iii í iii 1 1 1 ir f i ií u í i i í 1 1 í i ií í 1 1 1 1 í mm 



XXXI 



No largo de Camões. — Suisso e o Martinho, — x -o tempo 
da Maria <ia Fonte. — Rasgos de valentia — Degenerescên- 
cia da intrepidez nacional. 



Os terrenos no largo de Camões (lado do Norte) per- 
tenciam á Camará Municipal. Eram os restos do antigo 
jardim da Inquisição. Porquissimos, sujíssimos, con- 
verteram se em sentinas ao ar livre, tornaram-se o 
local predilecto, onde os vadios iam catar toda a bieha- 
ria parasitaria que lhes habitava a epiderme. 

N'esses terrenos (lado da rua do Príncipe) existiam 
duas figueiras. 

Uma foi derrubada quando se edificaram os prédios, 
a outra conservou-se do saguão da casa onde está o 
café Suisso. Poucos annos ha que seccou esta figueira 
quasi histórica, visto que a ella se referiam os versos 
feitos por um preso, que gemeu sob ferros nos cárce- 
res da Inquisição, e que, da fresta da masmorra, ape- 
nas divisava aquella arvore. 

Em 1842, o sr. António José da Silva (ferrageiro na 
rua das Portas de Santo Antão, esquina do becco do 
Forno), pae do actual proprietário do prédio onde está 
o café Marti/iho, comprou essa larga faxa de terreno 
á Camará Municipal, e construiu dois grandes prédios, 
cuja edificação terminou em I8io, quasi ao mesmo 
tempo em que acabava a do lhealro de D. Maria II e 
a do quarteirão Cadaval. 



250 LISBOA d'outros tempos 



O café Suisso foi fundado na mesma epocha do café 
Martinho, islo é, em 1815. Deve seu estabelecimento 
a dois suissos, um dos quaes, o João Meng, tinha uma 
padaria á esquina da rua da Escola Polytechnica (Col- 
legio dos Nobres) e da rua da Penha de França. 
Quando a loja abriu, ainda o prédio não estava con- 
cluído. 

No começo foi pastelaria e café, depois foi só café. 
Com o decorrer dos ânuos o café pertenceu apenas ao 
João Meng, e este legou o aos seus dois caixeiros, 
que o trespassaram ao actual proprietário. 

A' porta do Suisso aconteceu o seguinte caso, que 
Júlio César Machado narra, com o seu estylopittoreseo, 
num livro '. 

Passavam uma vez, pouco antes da meia-noite, pela 
porta do Suisso, o actor Rosa pae e Costa Cascaes (fes- 
tejado auctor do Alcaide de Faro, do Mineiro de Cas- 
cões e d'outras peças), quando se encontraram com 
dois marujos inglezes muito ébrios, um dos quaes 
atirou um socco de tal ordem ao Rosa, que o esten- 
deu no meio da calçada. O notabilissimo comediante 
estrebuxava, tentava de balde levantar-sè, emquanto 
os inglezes tagarellavam expansivos, desengonçavam- 
se em gesticulações, zig-zagueavam como 'patinadores 
no skating-rink. 

— O' sr. Cascaes, o sr. que sabe falar inglez, en- 
tenda se com esses homens !. . . 

— Eu sei cá falar inglez a estas horas da noite, re- 
plicava Cascaes. Levante-se e vamo-nos embora ! 

A scena, contada depois a Júlio Machado, fèl-o des- 
quadrilhar de riso. 



A Vida Alegre pag. 23. 



OS CAFÉS 2ol 



O café Maninho teve por fundador a Martinho Bar- 
tholomeu Rodrigues. Em maio de iíSi- v í ainda este bo- 
tequim não estava aberto, porque seu dono annnnciava 
na Revolução de Setenibro do dia 10 que vendia neve 
em rama no seu armazém da rua da Figueira, 11, e 
travessa da Parreirinha, H A, e que na sua loja de 
bebidas na praça do Commercio vendia neve manufa- 
cturada. Não citava, porém, o café Mn linho. 

O mais afamado produeto d'este botequim eram os 
sorvetes, que alli possuíam todo o hyperboreo e sabo- 
roso en:auto dos gelados napoliianos. 

A neve para os manipular vinha de cinco ou seis 
enormes poços que o .Martinho conservava perto de 
Santo António das Neves, na serra da Louzã. 

Quando o inverno envidraçava de neve as serranias 
da Estrella — desde os valleiros ás cumiadas — , os po- 
ços enchiam-se d'ella, e era cautelosamente resguar- 
dada do calor estival, sendo coberta por espessas ca- 
madas de palha. O lisboeta encalmado tomava-a du- 
rante o verão, confeiçoada em sorvetes e carapinhidas 
pelo copeiro do Martinho. 

O escriptor F. M. Bordallo, que publicou na Impren- 
sa e Lei de J* 5 um estudo intitulado Viagem d roda 
de Lisboa, escreveu acerca d'este café : -«O principal 
café do largo do Camões é designado pe ! o nome do 
s u proprietário; chama se o Martinho como outros 
cafés de Lisboa se intitulam — o Freitas, o Marcos 
Felippe, o Bernardo, o Tavares: não se usa entre nós 
baptisar estas lojas com designações pomposas; ape- 
nas como excepção lemos o café Grego e o Suisso. O 
botequim a que nos referimos tem uma grande sala 
d'arcarias, cujas columuas são forradas d'espelhos, e 
um gabinete elegantemente mobilado e ornado para 
senh"ras. Pena é que, para chegarem a este logar re- 
servado, tanto as formosas como as feias tenham de 



252 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



passar por entre nuvens de fumo de tabaco, o que 
fará dizer ás damas que já visitaram Paris: Çà me 
semble un caffé estaminei! Horrível insulto para o pri- 
meiro café de Lisboa, frequentado pela nossa boa so- 
ciedade d'ambos os sexo?, principalmente nas calmo- 
sas noites d'estio, em que o sorvete é tão appelecivel». 
Bordallo bosqueja depois alguns typos do Martinho, 
e o seu bosquejo iaduz-nos a crer que, não só nos fa- 
ctos d'ordem politica, mas em lodos os outros, é eter- 
namente verdadeiro o pensamento dWlphonse Karr: — 
Pias çà change., pina c'esl la méme chose. Da eloquên- 
cia laxativa dos opiniáticos prosistas botequineiros ao 
falario diurético dos pernósticos, do berregar dos po- 
lilicótes qne falam a lume de palhas até á fumisterie 
dos que andam sempre de candèas ás avessas com o 
senso commum, tudo subsiste, pouco mais ou menos, 
sem damno de maior monta. Deus seja louvado) 

Sobretudo de ha vinte ânuos para cá, o Maninho 
professa um conservantismo britannico. Encontram se 
sempre os mesmos aperitivos, os mesmos papelistas, 
as mesmas facécias geladas, o mesmo Valentim de bico 
adunco, as mesmas observações salyricas dos tertulios, 
os mesmos manequins da critica, as mesmas mà-lin- 
guas que apolilham as reputações como as térmites 
carcomem a madeira, e o mesmo espirito,, que alguns 
porfiam ser fino e fulminante — acido prussico em frasco 
de lapis-lazzuh — , mas que outros garantem revelar, 
simplesmente, as qualidades soporiferas do hydralo de 
chloral. . . 



Conta o sr. Bulhão Pato na sua obra Sob os Cgpres- 
les, (pag. 19o), que, na primavera dè I80G, quem 
fosse de tarde ao Passeio Publico e entrasse de noite 
no Marinho, encontraria, com raras excepções, ou 



OS CAFÉS 253 



sentados n'um banco sob as arvores ou em volta d'uma 
meza do café, cinco homens, cnjas physionomias, para 
logo, lhe captivariam a atlenção. Eram dois professo- 
res: Magalhães Coutinho e Thonaaz de Carvalho; e 
três jovens estudantes: José cTAvellar, o contista Ro- 
drigo Paganino e João Luiz Gonçalves, a quem já nos 
referimos no 1.° volume da Lisboa d' Outros Tempos 
(pag. 30ti). 

A graça de Paganino agitou, um instante, o seu 
fulgido clarão para se apagar ao sopro frio da morte; 
e o talentoso Gonçalves expirou com vinte aunos ape- 
nas, em Carnaxide, quando a frescura molle dos mus- 
gos e o verde pensativo das relvas se perlavam das 
primeiras chuvas, quando a alma outomnica voava en- 
volta nas foihas seccas. . . 



O café Martinho teve seu momento de celebridade 
histórica em 18í7, logo depois da revolução do Minho, 
logo depois d 'essa epocha agitada em que os labregos 
pés- frescos pegavam de fouces roçadourás e de forca- 
dos ao som do leva arriba bimbalhado nos sinos do 
campanários, do hy.nno da Maria da Fonte patuleado 
nus instrumentos subversivos das chulas minhotas, 
logo depois d'essa quadra revolucionaria em que os 
rapazes de sangue na gueira expunham seus peitos aos 
pelouros cabralistas e cantavam com voz rouca o hymno 
popular — impetuoso como uma carga commandada 
pelo Sddauha, enthnsiastico como um rasgo iribunicio 
de José Estevão, electrisante como o rolar da trovoada 
dos canhões : 

Eia avante, porlu»uezes ! 
Eia avante, não temer ! 
Pela santa liberdade, 
Tfiumphar ou perecer! 



254 LISBOA d'outros tempos 

 penna brilhante do distincto poeta e prosador sr. 
Bulhão Pato descreveu um caso de rara valentia acon- 
tecido então u'esse botequim {Memorias Turno í, p;ig. 
97) Alguns rapazes do batalhão académico — dois dias 
depois de haverem desembarcado, vindos da Torre de 
S. Julião — encontravam se no café Martinho. Esta- 
vam com elles os três valentes Guedes de Carvalho e 
Menezes: Joaquim, Vasco e João, capazes de luctarem, 
barba por barba, com os mais intrépidos justadores. 
Alguém os avisou de que no Largo do Camões e no 
Rocio andavam grupos dos batalhões nacionaes do Al- 
garve e da Carta, aguardando occasião propicia para 
os assaltarem. Responderam que não insultavam nin- 
guém, mas que não supportariam offeusas. Pouco de- 
pois, grande numero de homens armados de sabres e 
bayouetas entravam no café emquauto outros ficavam 
ás portas. 

Os assaltantes atacaram sem tir-te nem guar-te. 

Os três irmãos e os seus companheiros arrostaram 
o embate cora a serenidade dos bravos. Travou se a 
escaramuça. As garrafas, as taças, os copos, as ban- 
dejas, as mezas, os bancos, aos pedaços, voavam pe- 
los ares! Cada pancada que Joaquim Guedes descar- 
regava com o braço esquerdo — porque o direito es- 
tava ferido desde o combate no Alto do Viso — era um 
homem que rolava no chão, bumba ! 

Os atacantes afrouxaram, porque não esperavam 
encontrar tão enérgica resistência, tão impávida defe- 
za, e retiraram a pedir auxilio a outros marotos. 
N'este comenos chegou uma força de infan teria e ca- 
vallaria municipal, e o marque.? de Fronteira pediu aos 
académicos què o acompanhassem ao Carmo, emqmmlo 
os ânimos não readqniriam a perdida serenidade. 

Estes lances de bravura foram frequentes na epo- 
cha ominosa, em que o Costa Cabral mantinha, em 
sua mão de ferro, a balança incerta dos destinos na- 
cionaes. Numa noite do verão de \S 18, os ricos pro- 
prietários do Algarve, cartistas façanhudos, entreti- 



OS CAFÉS 255 



nham os momentos de lazer descadeirando os patuléas. 
Seis d'elles entraram no botequim das Parras, ao Ro- 
cio. Lopes de Mendonça encontrava se lá, sósinho e 
desarmado, quando os picaros o ameaçaram de que 
lhe dariam uma tareia de o pôr era lençoes de vinho. 
Lopes de Mendonça havia seguido a purpura da ban- 
heira insurgente, combatera ás ordens do Salier, e não 
só floreava a sua penna diamantina na arena do fo- 
lhetim, mas era libellista politico,, gladiador da im- 
prensa. 

Entrementes, alguém correu a avisar o officiai de 
marinha e escriptor, Francisco Maria Bordallo, que 
murava no principio da calçada do Duque. Bordallo que 
estava em mangas de camisa, arrancou da espada, bo- 
tou uma capa aos hombros, e partiu direito ao bote- 
quim, onde a vida do delicioso folhetinista estava cor- 
rendo tão grande risco. 

Ao entrar a porta do café deixou cahir a capa, deu 
duas pranchadas que prostraram dois dos sicários, e 
exclamou com a sua voz forte, habituada ao commamb 
de bordo: — Canalha, para a rua ! 

Os birbantes, que não contavam com tal revirête, 
desappareceram n'um prompto. 

Bordallo embrulhou se novamente na capa, mandou 
buscar uma garrafa de Champagne ao Marrare, e, er- 
guendo o primeiro copo, disse para Mendonça : 

— Rapaz, deixa vêr se voltam aquedes cães, que 
nós lhes faremos as contas. 

Mas esperou em vão, porque a matula não reinci- 
diu na picardia. 

Desenganado, disse para o companheiro : 

— Não tornam cá; são uns miseráveis. Vamos em- 
bora, amigo. 



256 LISBOA d 'outros tempos 

E só abandonou Lopes de Mendonça á porta de 
easa. ' 

No verão de 1847, F. J., filho d'um conhecido ne- 
gociaute inglez, entrou no Marrare das Sete Portas e 
pediu um capilé. Junto ao balcão estavam dois sargentos 
do batalhão da Carta. Um d'elles dirigiu-se-lhe com 
modos provocadores: 

— Não seria melhor um grog? 

O te>.to F. J.. com essa fleugma que é apanágio dos 
brilannicos, ordenou ao servente : 

— Traze um grog a ferver. A ferver, ouviste? 

O creado, apesar do ar calmo com que estas pala- 
vras furam pronunciadas, notou qualquer coisa d'auor- 
mal no jogo pbysionomico do cliente. 

Os sargentos repararam então melhor nas formas 
robustas do inglez, na como confiança da própria 
força, e a sua serenidade mudou logo como um ca- 
saco que se volta do envéz; ficaram perplexos, hesi- 
tantes. 

O moço trouxe o grog requesitado por F., que, di- 
rigindo-se ao sargento provocador, disse simplesmente: 

— Beba. 

O sargento deu um passo á rectaguarda, e, vendo 
que a integridade do seu focinho periclitava, inter- 
pellon : 

— O sr. está brincando? 

— Beba, — quando não metto lh'o pela bocca abaixo. 
Palavras não eram ditas, e o sargento apanhava 

com o copo do g>oj na cara, que lhe íicou a escorrer 
sangue. 

F. J. tirou os terçados aos dois militares, e, em- 



Bulhão Pato. Sob os Cyprestes, pag. 85. 



OS CAFÉS 257 



quanto o demónio esfrega um olho, pôl-os a sôcco e a 
pontapé no meio da rua ! 

Depois foi necessário metter empenhos para elíe 
restituir as duas rapières dos guerreiros tosados. l 

N'uma tarde de 1851, pouco antes do triumpho da 
Regeneração, estava á porta do Marrare de polimento 
um grupo de rapazes, todos contrários ao governo do- 
minante. Entre elles achava se um terceirense, marcial 
e vigoroso, chamado Manuel Lourenço de Souza Rocha, 
que estivera na Universidade e pertencera ao batalhão 
Académico, e a quem os condiscípulos appellidavam o 
Rocha ilhéu. 

O visconde da Luz, uniformisado e a cavallo, subia 
a ladeira do Chiado. Acompanhavam-no o seu ajudante 
e duas ordenanças. 

O Rocha atirou um salto, deitou mão ás rédeas, e 
gritou : — Abaixo os Cabraes ! 

E' de notar que, no dia antecedente, a cavallaria 
municipal acutilára o povo no largo de S. Carlos. 

O visconde, prudente e generoso, proferiu apenas 
umas palavras brandas para açaimarem a excitação do 
mancebo enthusiasta, e seguiu o seu caminho. 2 

Fora um atrevimento, que lhe podia sahir caro. 

Temos outro rasgo de valentia, mas este agora acon- 
tecido já em tempo da Regeneração, no anno de 1851, 
e motivado por causas differentes. SantAnna e Vas- 
concellos recebera nomeação de secretario geral do 



1 B. Pato Memorias. Tomo I, pag 104. 

2 B. Pato. Memorias. Tomo II, pag. 261. 



258 LISBOA D^UTHOS TEMPOS 



dislricto da Horta, e, uma noite, antes da partida, reu- 
niu-se com vários amigos a uma meza do Martinho. 
Serviu-se neve. Momentos depois entrava um capitão 
de navios bastante conhecido, acompanhado dum alle- 
mão musculoso, de busto de formidável envergadura. 
O marítimo soffrera um desaire de SantAnna, quando 
estava no Rio. 

O homem, que era de reserva, apresentou, muito 
cortezmente, o allemão, que foi recebido por Sant' 
Anna com a aílabilidade que lhe era habitual. Após 
algumas phrases trocadas, SanfAnna e Vasconcellos 
despedia-se, mas, quando ia a retirar-se, o allemão 
deitou lhe os gadanhos á gola do fraque, rasgando 
lh'a. SanfAnna recuou um passo e despediu-lhe um 
murro. O tudesco baqueou redondamente no soloí Er- 
gueu se, rebelião, accommelteu outra vez, mas outra 
vez também cahiu por terra. 

O bilhostre dava ao diabo a cardada. Ensaiava-se 
para nova arremetlida, quando Sant' Anna, estimulado, 
o agarrou e jogou sobre uma meza como quem joga 
uma pélla ! í)'esta frita não ponde refilar; as forças 
trahiram-n'o, e o sujeito desmaiou. 

Voltando a si, sahiu, cambaleando, encostado ao 
braço do capitão. ' 

Tinha ido buscar lã e vinha tosquiado... 

Que ricos tempos esses! 

Havia coragem, a coragem pura, sem liga que lhe 
desprimorasse os bons quilates; havia brio, desprezo 
da vida, crenças e enlhusiasmo; levava-se da durin- 
dana a cada passo; sellavam-se os pleitos de pundo- 
nor com uma rubrica physiologica. 



1 B. Pato. Memorias. Tomo Ií. Paé. 275. 



OS CAIES 20U 

Ail Mas parece que nos viraram de dentro para 
fora A maneira dos mascarados nos bailes públicos, 
perguntamos aos estranhos se nos conhecem, e todos 
respondem, peremptoriamente, que nunca nos viram 
mais gordos. 

Tão outros estamos ! 

Agi ra, a falar verdade, somos uns timoratos, uns 
fracalhões; no logar cerebral onde os nossos antepas- 
sados tinham a bossa da combatividade, lemos simples- 
mente um buraco. Eis em bem claro modo porque os 
desmandos Cabralinos deram á Maria da Fonte, e o 
tabefe iuglez de 1890 deu... as manifestações bom- 
basi patrioteiros estapafúrdios, que se lingavam, 

bondava ouvirem os modiihos dos ruysenhoes da po- 
licia ! 

Hoje faz se mais gymnaslica do que nunca, as pra- 
ças de louros triplicaram, consliluiram-se sociedades 
aihkiicas e cynegelicas; temos o cyclisnio, as carrei- 
ras dr; tiro, o jogo de pau, as regatas, o pugilato do 
box, tão amado de Ricardo III e de Byron; nenhum 
dos que disputam os lauréis do chie, nenhum dos que 
se curvam aforçuradamente ao jugo tyranuicoda moda 
d^ixa de" trazei' na idéa a linèla d'esgrimir o floreie 
como Grisier, a espada como Saint-Georges, ou d'ati- 
rar á pistola como Junot; mettemos uma bala de ca- 
rabina no alvo com a mesma peiicia d'um atirador aos 
pombos de Monte-Carlo; enlregamo nos aos exercícios 
pbysicos com todo o fervor de nossas almas e de nos- 
sos nervos; somos muito caroaveis do sportismo e so- 
mos globe-lrolters, cyclophilos em movimento continuo 
como btelles de locomotiva. Ilonramo-nos de possuir 
escola de toureio e velodromos, as grandes solemnida- 
des hyppicas das corridas cavallares e o pedestreanis- 
mo — o diabo a quatro! 

Possuímos um ror de coisas para nos tornarmos tão 
possantes como os épicos brutamontes bemericos, mas, 
qual carapuça ! estamos uns trinca -espinhas, sem tirar 
nem pôr. Ora simulamos a energia firme d'um espirra- 



260 LISBOA d'outros tempos 



canivetes, ora affectamos a serenidade calma d'um bri- 
tannico que se repetena na shipchair sobre o tomba- 
dilho d'um paquete... e, afinal de contas, as per- 
nas tremelicam-nos como no fim d'um bródio em que 
se bebesse Champagne demais, põe-se-nos um nó na 
garganta como se estivéssemos a pique de sermos ata- 
cados de faniquitos!... As chronicas das viagens ma- 
rítimas, das conquistas e dos feitos d'armas, foram 
substituídas. . . pelas chronicas jornalísticas em que os 
frívolos acontecimentos mundanaes passam rápidos, 
mas vivazes, como as vistas cinematographicas. 

O contraste entre o que fomos e o que somos faz- 
nos chorar bagadas. como punhos, até faz chorar as 
pedras ! 



ge , c ,-,-, 

X 



^ 




XXXII 



Na Trindade. — O theatro de S. Roque. — T^ealriculos. — 
Companhias do lheatro de S. Roque. — Fala-se, inciden- 
talmente, de Garrett e da sua viuva. — O Café Concerto. 
— Can-can e cancanistas. — Do Mabille ao largo da Abe- 
goaria. — Ponto final. 



(Cerraremos a historia dos velhos botequins lisboe- 
tas — se historia se .lhe pôde chamar — como 
•A café Concerto, á esquina do largo da Abegoaria 
e travessa da Trindade, mas, antes d'isso, diremos 
duas palavras ácèrca do sitio da Trindade, do largo de 
S. Roque, e do theatro que existiu n 5 este local. 

Da travessa da Trindade até defronte do theatro 
d'este nome havia uns casebres, parte dos quaes fo- 
ram derrubados para se construir o edifício do café. 

A' esquina d'aquelle largo, tornejando para a rua 
Nova da Trindade, estava um casebre com seu pateo 
interior. Demolido poucos annos ha, o fallecido dr. 
Lourenço d'Azevedo fez edificar ahi dois bons prédios. 

N'esle casebre esteve uma fabrica de gesso. Não sa- 
bemos se ainda era a antiquíssima fabrica de gesso 
que por alli houve, pois que, em 1779, foi estabelecida 
urna no chão que fora de Feliciano Yelho, defronte do 



2Q2 LISCOA D\)LTROS TKMFÕS 



convento da Trindade. {Gazela. ,1779.) N'esse te«ípo 
não exislia a rua Nova da Trindade, que foi aberta de- 
pois de 1834 no espaço oceupado por parte do con- 
vento. A egreja do convento dos Trinilarios era no 
actual largo da Trindade, no sitio fronteiro ao tttealro, 
onde depois (em 1835) o sr. Jacintli.o José Dias de 
Carvalho, antigo director do banco de Lisboa b pri- 
meiro director do Asylo de Mendicidade, mandou con- 
struir um grande prédio. 

O convento chegava até cá rua larga de S. lio pie, 
para onde deitavam as cellas, e até á actual fabrica 
de cerveja do sr. Domingos Moreira Garcia, cujo salão 
de venda era então o refeitório. O cemitério do con- 
vento partia com as trazeiras dos prédios da rua da 
Oliveira, ao Carmo. 

À rua Nova da Trindade, que occupa parte do ter- 
reno do convento, foi mandada abrir pela Gamara Mu- 
nicipal, de que fazia parte o famoso Bota-Abaixn. Para 
este fim, e para ampliação do largo de S. Roque, fo- 
ram derrubadas as barracas que aíu existiam, a vulha 
torre de Álvaro Paes, pertencente aos antigos muros 
da cidade do tempo de D. Fernando, o Postigo do Con* 
deslavei (Arco de S. Roque), e a capella do pa?so do 
Senhor dos Passos, que acostava ao dito muro. 

Em 183 í, desde o actual largo de S. Roque até ao 
pateo do marquez de Penalva, havia um dédalo de bec- 
cos, de pateos immundos e qpiasi ignorados da policia; 
era uma ladeira bordada d'enxames de mulheres per- 
didas. O chamado Pateo do Patriarcha formava a ca- 
beceira d'essa encosta. Ahi esteve estabelecido o thea- 
tro do Bairro-Alto. 

Silva Tullio, louvando se nas declarações do velho 
actor Matta, o Mata Castelhanos, diz (no Archivo Pitlo- 
resco) que este theatro abriu em íins de 1815. Mas a 
verdade é que se inaugurou em 1814, como se vê no 



OS CAFÉS 263 



pedido para a sua abertura feito por José Thomaz Costa 
em 10 de Julho d'este aano. (L.° 14 das Secr.J Antes 
do lhealro se estabelecer uo palácio, expozeram-se 
n'uma das salas as figuras pintorescas, trazidas por um 
hespanhoJ refugiado (L.° 16 das Secr , (Is. 39)'. O hes- 
panhol era D. Simoa Sadinos, director do Theatro Pit- 
toresco, casado, de 40 annos, e que tivera loja de be- 
bidas em Madrid antes da entrada tios Francezes, cori- 
forme declarou e assignou em 24 de Dezembro de 1812. 
(L.° de notas das pessoas a quem se dão bilhetes para 
transitarem pelo districto da Cale. L. 258-279). Efe- 
ctivamente, a Gazeta de 4 de Janeiro de 1813 a anun- 
ciava que o director do Theatro Pintoresço e Mecha- 
nico ia estabelecer a sua machina na sala do pateo do 
palácio velho da Palriarchal, junto á egreja de S. Ro- 
que, que o divertimento principiava ás horas e meia 
da tarde, que aos dias santos se dariam duas diversões 
(uma ás 4 e outra ás 7 horas), e que os preços eram: 
assignalura 320 réis, geral 240 réis e varandas 1GO réis. 

Estas sombrinhas, a que então chamavam figuras 
pintorescas, não eram as primeiras que se exhibiam na 
capital. Já em 1784 o francez Nicolau Bourg expózera 
ao publico um pequeno theatro n'uma caía do largo do 
Pelourinho. O thealriculo chamava-se Espectáculo da 
Natureza de Subtilezas Physieas e Malhematicas. (Re- 
gisto-:. Alvarás e Avisos. Liv. 83-24(5, Os. 103 v.) 

Em 1791 permitliu-se a Santos Gendre para mostrar 
diversas Machinas e Figuras Automatas. (Idem, fls. 2<i.,). 
E o pelotiqueiro Martin também expunha sombrinhas 
no lhealro do Salitre em 1801, mas impediram-no de 
continuar, porque apresentava figuras de pessoas que 
haviam tido papel na Revolução Franceza. (L.° VIII 
das Secr.J 

O proprietário do theatro do Rairro-Alto era Diony- 
sio Jjsé Monteiro de Mendonça, que tem uma hiogra- 
phia muito accidentada. 



264 LISBOA dVtros tempos 

Em 1792 desempenhava o cargo de Juiz dos Aggra- 
vos e Appellações Crimes das Ilhas. (Liv. para se lan- 
çarem as culpas dos réos. L. 2^5, fls. 7). Em 1817 mo- 
rava na travessa da Queimada, n.° 39, era escrivão do 
Crime do Bairro-Alto, mas estava preso na Cadeia, e 
d'ahi foi mandado embarcar no navio Princeza Carlota 
em 20 de Novembro. O capitão teve de assignar termo 
de que entregaria o preso na Corte do Rio de Janeiro, 
segundo fora ordenado pela Secretaria dos Estrangei- 
ros e da Guerra. (.Corr. com as aucloridades. L. 11, 
fls. 1.) Mendonça estava de regresso e no exercício do 
seu logar em 182 i. 

Era um absolutista contumaz. Quando, naquelle atino, 
um preso lhe mandou um requerimento, no qual ci- 
tava dois artigos da Constituição, Mendonça, muito 
irado, exclamou: 

— Tolos! Tudo é falar em Constituição. . . Por isso 
hei de conservar o preso mais quatro dias no Limoeiro. 

O cnso chegou aos ouvidos governamentaes, e José 
da Silva Carvalho ordenou, em portaria, que se inda- 
gasse a conducta civil e politica do escrivão. (Policia, 
'ó'ò\. fls. 29 v. Collecç.ão vinda do Min. do Reino.) 

Em 1827 exercia os logares de administrador inte- 
rino e de Fiscal da Fazenda da Real Casa Pia. (Inten- 
dência. Casa Pia. Maço 8). 

No lheatro do Bairro Alto representaram companhias 
porlnguezas, hespanholas, ingiezas e uma franceza. A 
primeira trovpe ingleza de que temos noticia é a de 
Guilherme Soulhby. Compunha-se de equilibristas, e 
trabalhou de Is 17 até ao entrudo de 1818. 

A segunda é a de Gamet, em 1827. Dava títeres, e, 
nos intervallos, danças hespanholas e o solo inglez. 

A companhia hespanhola de José Henriques de Brito 
requereu, cm 1829. para continuar com as represen- 
tações que ahi eslava dando havia cinco annos. Da 



OS CAFÉS 2G5 



companhia faziam parte: a primeira dama Maria San- 
tos Saavedra, o primeiro galã Manuel Cabello, os 
bailarinos que formavam a companhia Aquilina, José 
Stefene, primeiro bailarino, e o gracioso Leon Fernan- 
dez, que tinha obrigação de cantar, dirigir e repartir 
as partes das farças (Corr. dos Ministros dos Bairros. 
Maço 15.) Leon, qne possuía muito chiste e se embe- 
bedava com um respeito hieralico-bacchico, veiu a mor- 
rer (ó ironia da sorte!) vendendo agua fresca na praça 
de touros do Campo de Sant'Anna. 

Da companhia portugueza fez parte Marianna Torres, 
a figura dramática predominante nos nossos palcos du- 
rante o primeiro quartel d'este século. Marianna Torres 
teve muitos admiradores, entre elles José Agostinho de 
Macedo, cujas homenagens ella desprezou (quando es- 
tava no Salitre) por amar deveras uma creança loura e 
formosíssima, Carlos Morato Roma, homem, depois, 
tão circumspecto e respeitável, diz Paulo Midosi. (Diá- 
rio de Noticias, de 12 Dez. 1881.) 

No theatro do Bairro Alto subiu pela primeira vez á 
scena, era 1821, a tragedia Catão, de Garrett, desem- 
penhada por estudantes e curiosos. Foi na segunda re- 
cita do Calão que o poeta travou conhecimento com 
sua futura esposa, D. Luiza Cândida Midosi. 

Aproveitamos a opportunidade para dizer que esta 
senhora casou, em segundas núpcias, com Mr. Désiré 
L'Étrillard, e que falleceu em Paris aos 20 de Maio 
de 1892, sobrevivendo, portanto, trinta e oito aunos 
a Garrett. Seu segundo marido contava amigos e pa- 
rentes em Lisboa. 

Em Paris recebia e obsequiava muito amavelmente 
os portuguezes das suas relações, ou que lhe iam re- 
commendados. A viscondessa de Almeida Garrett era 
prima :i. a do finado Dr. Paulo Midosi, e do sr. Dr. 
Henrique Midosi. 



266 LISBOA d'outros tempos 



Gomes dWmorim diz (nas Memorias Biographicas 
dè Garrett) que o francez era conduclor domnibus ou 
coisa similhaute. Ora esta indicação de Gomes d'Amo- 
rim — garrettophílo intransigente — é menos verdadeira. 
Conlou-nos o sr. Henrique Midosi que o LEUrillard 
pertencia a uma família de pequenos lavradores de 
Soissons, fora empregado n ? um collegio de jesuítas, e, 
depois de casar, negociou em bric-à-brac, no que 
adquiriu rasoaveis bens de fortuna. No exercício d'esse 
mister veio, por. differentes vezes, a Lisboa. Com o 
que já possuía, e com o que herdou de sua mulher, 
vivia muito rasoavelmente, quando falieceu d'uma con- 
gestão em 24 de Maio de 1897. 

Apesar da diííerença d'edades, L/Elrillard tratou 
sempre muito respeitosa e attenciosamente sua mulher, 
cuja cabeça branca se circumdava d'uma aureola de 
poesia. 



A empreza do Café Concerto constituiu se com o 
capital de quarenta contos de réis, divididos em acções 
de cincoenta mil réis. O seu fim era estabelecer uma 
loja de bebidas, com jogos lícitos, e sala para dar con- 
certos voçaes o instrumentaes, bailes de mascaras, etc. 

O Café Concerto ináugurou-se na noite de 26 de 
dezembro de 1«57 com um beneficio a favor das fa- 
mílias das viclimas da febre amarella. Cahiu lá o Car- 
mo e a Trindade. . . 

N'essa noite houve sopapo por uma pá-velha, em 
consequência da empreza não permitlir a entrada a 
pessoas de comportamento irregular, e apparecerem duas 
francezas irregidarissimas, recem-chegadas de Paris e 
moradoras a S. Roque, que, ao cevo do escândalo, 
desejavam entrar á viva força. Soccaram o major da 
guarda municipal, e fizeram um estrupido horrível. As 



OS CAFÉS 2G7 



duas bohemias do amor dourado cahiram sob mantt 
mililari. 

O Calo Concerto teve por director o Zagalio e por 
administrador o Augusto Figueira, mais tarde empre- 
zario do salão da Trindade. 

A empreza do Café Concerto obteve licença (por 
alvará de li de junho de 1838) para, durante seis 
mezes, abrir um estabelecimento no Passeio Publico a 
fim de dar espectáculos de physica e chimica, concer- 
tos vocaes o inslrumenlaes, scenas cómicas, e mais 
peças de musica em uso nos estabelecimentos doesta 
ordem. 

O Café Concerto tomou, mais tarde, o nome de Ca- 
sino Lisbonense. Seus sobrados tremeram a bom tremer 
com as iiymnasticas felinas, com os pulos cancanisados 
das dançarinas de cabotagem, que os emprezarios do 
estabelecimento circumspectamente engajavam para da- 
rem a lúbrica nota parisianista aos bailes mascarados. 

A' cadencia desesperada da quadrilha infernal as 
chahutcuses passavam e repassavam, fazendo resóar os 
tacões Bnuilon das botinas de pellica, e patenteando os 
seios de neve rosada, com o adorável desgarro de 
quem oííerece dois sorvetes de leite na dupla meia- 
taça do corsuge. 

Tomavam atliludes excêntricas, que, se não lem- 
bravam exóticas estatuetas inspiradas por eslhelicas 
mortas, lembravam as poses que se tomam nos gabi- 
netes particulares... ás quatro horas da manhã. 

As cancanistas pulavam como locustas, davam bordos 
como marujos ébrios, tinham elásticos saltos tigiinos, 
movimentos oblíquos, lestas piruetas não subordinadas 
á pauta e ao compasso dos compêndios de dança, vo- 
luptuarias flexibilidades de corpo — toda a graça capi- 
tosa da choreographia franceza. Redemoinhavam ao es- 
trépito marcial dos cobres e ao rufar viril dos tambores, 
mais furiosos que os sistros dos antigos. Tripudiavam 



268 lisboa d'outt,os tempos 



n'uma hypercrise nervosa, até que, bacchantes artifi- 
ciosas e recivilisadas, iam cahir, não sobre uma pelle 
de panlhera com garras d'oiro, mas... deanté d'uma 
meza do botequim, onde os satyros pacíficos lhes fa- 
ziam tomar bebidas de guerra. 

Eram as sylphides do Mabille e da Closerie âes Li- 
lás, as successoras da Pomaré e da Rigolboche. Eram 
as que. nos bailes mascarados da velha Opera, se pres- 
tavam a esse espectáculo epiieptiforme — o cãn-can, ao 
som da orchestra conduzida pelo pae Slrauss, perante 
todo um mundo de noceurs e de noceuses, no meio do 
qual destacavam as grandes sacerdotisas do galanteio, as 
que, durante o segundo império, prostraram a seus pés 
a multidão idolatra, o rebanho servi! dos philogynicos. 
Eram, por seu turno, as predecessoras da Rayon d'Or, 
da GdnIiip, da Grille d'E'goul, da Súuterelle, da Nini 
Patli' en-Vair, de lodo esse original corpo de baile que 
não se matriculou na aula de Mr. Mérante na Grande 
Opera, mas que cursa o Bullier e o Mouliri Rouge. 

As companhias de baile suecedefara se no Café Con- 
certo. A Moral, a respeitável matrona, irritava se, ou- 
riçava se como um porco-espinho. E a castidade, a santa 
castidade adorada pelas Vestaes, pela bíblica Suzana, e 
por S. José, não era d'esse mundo. . . em que apenas 
o can-can e o gròg faziam escutar as suas vozes. 

A empreza do Casino Lisbonense foi atacada (fuma 
profunda anemia... na bolsa, e o estabelecimento fe- 
chou em 1876. O edifício passou a ser oceupado por 
um estabelecimento de estofador, que lá se conserva. 



N'este modesto livro tratámos, além da parte histó- 
rica dos antigos botequins lisbonenses, de factos mun- 



OS CAFÉS 2G9 



danos e de factos históricos secundários, por assim di- 
zer, episódicos, anecdoticos. Comludo, estes factos não 
deixam, geralmente, de ter certo interesse para o es- 
tudo de qualquer epocha. E ahi está o que obrigava 
Prosper Mérimée a confessar, algures, que daria, de 
boa mente, Thucydides pelas Memorias aiitlienlicas 
d'Aspasia ou d'um escravo de Péricles. Os Memorialis- 
tas vêem, benevolamente, á barra da historia, como 
teslemunhas que se escutam com proveito, algumas 
vezes, e sempre com prazer. 

As Memorias — género litterario pouco cultivado en- 
tre nós — occupando-se de casos particulares, mas que, 
frequentemente, se prendem com os successos histó- 
ricos parallelos, ministram importantes elementos sub- 
sidiários ao hisloriographo, fazem-nos conhecer os bas- 
tidores da historia. Porque ha historia e bastidores da 
historia. A historia è a peça representada para toda a 
gente, com palavras que se levantam sob as phrases 
como espadas debaixo das capas, com scenano, guar- 
da-roupa e arrebiques; os bastidores da historia são a 
verdadeira comedia reservada para os frequentadores 
do palco, os que cumprimentam os machinistas, corte- 
jam as actrizes e trocam apertos de mão com os acto- 
res. Por isso Pinheiro Chagas tinha carradas de razão, 
quando exclamava no final do artigo de critica ás me- 
morias poslhumas do general Marbot: — Não ha como 
as Memorias, para nos fazerem penetrar nos bastido- 
res da Historia! * 

Mas, embora nos occupassemos d'alguns d'aquelles 
factos secundários a que acabamos de nos referir, o 
que chamou especialmente nossa attenção foram os 
antigos cafés de Lisboa. O café é o espelho onde se 
reflecte a vida politica, o grau de cultura, e até o es- 
tado económico duma localidade. «O café, diz Garrett, 



1 Artigo do Correio da Manhã de 2 de Maio de 1892. 



270 LISBOA d'outros tempos 



é -una das feições mais características d'uma terra. O 
viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, 
entra no café, observa o, examina-o, e tem conhecido 
o paiz em que está, o seu governo, as suas leis, os 
seus costumes, a sua religião.» 

Nestas linhas, ao correr da penna, enfeixámos todos 
os elementos que conseguimos colher, no respeitante a 
velhos botequins lisboetas. 



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Pag. 7, linha 29 

A personalidade odiosa de Madame de Paiva continua a se- 
duzir as pennas dos escriptores. Acaba de sahir á Juz, em Pa- 
ris, o romance Femme qui a co?mti Vempereur, de Hugues Ee- 
bell, cuja acção se desenrola em torno de Madame de Paiva, 
mascarada com o nome de Jeanne la Flamme. 

Sabe-se que aquella aventureira — tâo famosa no Bosque 
de Bolonha como na fria avenida de Lichtenthal — poz em 
jogo os mais hábeis artifícios da táctica feminina e represen- 
tou um papel de primeira ordem na obra tenebrosa de inves- 
tigação clandestina e permanente que os allemàes praticaram 
em França durante a epocha em que governava Badinguet e- 
se cantava com enthusiasmo : 

Partant pour la Syrie 
Le jeune et beau Dunois . . . 

E sabe-se mais, que no seu faustoso palacete dos Campos- 
Elysios se centralisou o serviço da espionagem allemà. O livro 
deEebell é, pois, o estudo d'uma d'essas mulheres mysterio- 
sas, de que a historia de França apresenta tantos exemplares, 
desde a falsa Maria Antonietta, a quem Madame de La Motte- 
apresentou o cardeal de Eohan, uma noite, no parque de Ver- 
sailles, até á desconhecida que actuou enigmaticamente na 
morte de Gambetta, e á dama velada do recente processo- 
Drevfu?. 

18 



274 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Pag. 15, linha 22 

A rua Nova cTEl-Rei, parte da qual, nos começos do sé- 
culo xvn, era ladeada pelas lojas dos ourives e lapidarios ti- 
nha também ricos estabelecimentos de livros, porcellanas, vel- 
ludos, sedas e outros artigos. 

O Senado da Camará mandara collocar bancos, ao longo 
d'ella, para os mercadores se sentarem. (Freire de Oliveira. 
Elementos para a Historia do Município de Lisboa. Tomo vm» 
pag. 294, nota.) 



Pag. 16, linha 7 



Um dos actos iniquos, endossados á responsabilidade do 
marquez de Pombal, é a prisão do poeta arcadico, Pedro An- 
tónio Correia Garção. Inuocencio, no seu Diecionario Biblio- 
graphico, apresenta as hypotheses que vários escriptores teem 
formulado a respeito das causas determinantes d'este encarce- 
ramento. Por ultimo, dá a versão tradicional na familia do 
poeta. É, em resumo, o seguinte. Garção habitava na sua casa 
da Fonte-Santa, e junto d'ella, n'outra casa do poeta, vivia o 
coronel inglez Mac-bean com uma sobrinha. No numero de 
frequentadores da casa de Garção contava-se um peralta de 
appellido Ávila, segundo parece, o qual, apesar de ser casado, 
fez o assedio da filha dAlbion com todas as regras da estra- 
tégia amorosa. Como ignorasse a lingua ingleza, pediu a Gar- 
ção que lhe escrevesse uma carta para a namorada ; mas, 
obtido o rascunho, em vez de o copiar por sua mão, cahiu na 
asneira de o dar a um creado do coronel, a quem aquelle a foi 
entregar. 

O inglez exacerbou-se com o atrevimento, visto a carta acon- 
selhar a fuga da miss (que já tinha capitulado. . .), e correu a 
mostral-a ao marquez de Pombal, que, muito irritado, e, talvez, 
aproveitando o bom momento, ordenou a prisão do poeta. 

Adiante publicamos a ordem de prisão e a ordem de soltura 
de Garção. Na segunda figura um Ávila, naturalmente o pe- 
ralta referido. 

«Para o Corregedor do Crime do Bairro de Belém.» 
El-Rey Meu Snr. he servido que V. M. ce logo que receber 
este aviso procure com todo o cuidado prender a Pedro Antó- 
nio Corrêa Garção, morador na sua quinta á Fonte Santa, e a 



NOTAS 275 



Manuel Joseph que se chama seu criado grave, e os conduza 
ás cadêas do Limoeiro, onde devem ser conservados em sepa- 
rados Segredos : E logo que Vm. K executar esta Real Ordem 
me dará Conta para ser presente ao mesmo Snr. Deus guarde- 
a V. M. ce . Paço a 8 de Abril de 1771. 

Marquez de Pombal.» 

(Avisos. N.° 3.° Classe l.«, N.° 14 de ordem, fls. 93. Coll. 
vinda do Min. do Reino.) 

«Para o Cardeal da Cunha. 

Emin. mo e R. n, ° Snr. 

Sua Magestade he servido que V. Em. a mande soltar a Pe- 
dro António Corrêa Garção e a Francisco António Lobo de 
Avilla, que se acham presos na Cadêa da Corte por ordem do 
mesmo Senhor : 

Assignando os sobi - editos presos um termo perante o Corre- 
gedor do Crime do Bairro da Rua Nova, de sahirem da refe- 
rida cadêa para fora d'esta Corte, á qual não poderão voltar 
emquanto S. Magestade não mandar o contrario. 

Deus guarde a V. Em. a . Paço em 10 de Novembro de 1772. 

José de Seabra da Silva.» 
(Idem. fls. 109). 



Pag. 25, linha 10 

Entre as folhas d'um livro da Intendência Geral de Policia 
depararam-se-nos algumas amostras de sedas e setins vindaa 
d'Inglaterra em 1793, e destinadas á princeza D. Carlota Joa- 
quina e ás suas damas-camaristas. 

Quatro amostras de seda branca, castanha e ás riscas, eram 
para D. Thereza de Portugal e D. Helena de Mascarenhas ; e 
onze amostras de setins e sedas, branca, amarella e branca, 
azul, ondeada, e cor de flor de alecrim, eram para a princeza. 
As ultimas estavam cosidas a um papel com o distico : — 
«From N.° 1 to N.° 11 are ali for Her Royal Highness and to 
be Derected A Sua Alteza Real a Serenissima Princeza Nossa 
Senhora Q. m D." G. de mt. os Ânuos.» (Liv. 264. Coll. vinda do 
Governo Civil.) 



276 L1SU0A DOUTROS TEMPOS 



Pag. 32, linha 2 

Domenico Pellegrini, pintor retratista veneziano, demorou-se 
em Lisboa alguns annos. Pelo recibo passado por António Es- 
teves Costa, em 10 de Dezembro de 1808, se vê que Pellegrini 
morava no 3.° andar das casai que aquelle negociante possuia 
a Buenos- Ayres, e que pagava 50$OOÔ réis de renda semestral. 
Outro recibo prova que em 1809 occupava uma loja e um se- 
gundo andar do mesmo prédio, de que pagava egual renda. 
(Papeis diversos. Maço 10.) E uma denuncia dirigida á policia 
em 2 de Outubro de 1809 diz que Pellegrini habitava um pri- 
meiro andar da rua do Prior, e que no segundo andar residia 
o Delaborde, francez naturalisaio, suspeito de jacobino. (Idem. 
Maço 1.) 

Pellegrini pintou, entre outros quadros, o retrato do seu emi- 
nente collega Domingos António de Sequeira, uma Vénus para 
a galeria da condessa d' Anadia, e o retrato do barão de Quin- 
tella, sua mulher e seus dois filhos, que existia em casa do 
mesmo barão. (Dict. Histórico -Artistique du Portugal. Raczyn- 
ski.) Além d'estes fez o retrato de Lord Wellington pela quan- 
tia de duzentos e quarenta mil réis em metal. (Pap. Div. 
Maço 10.) 

Foi, quiçá, para este fim, que Mr. John Charles VilUers, mi- 
nistro plenipotenciário da Grã-Bretanha, lhe escreveu um bi- 
lhete, que encontrámos n'este maço e que diz : — «Mr. Villiera 
fait ses complimens à Mr. Pellegrini — II vient de parler à L. 
Wellington qui será bieu aise de le voir chez lui demain sur 
le3 neuf* heure3.» 

Um recibo de Pellegrini, de 8 de Novembro de 1809, declara 
que recebeu vinte moedas de oiro por haver pintado um retrato 
ao capitão Scott, do regimento N.° 45 de infanteria ingleza. 

Por alguns recibos de diversas ppssoas se prova mais que o 
pintor commerciava, de sociedade com o negociante italiano 
Agostinho de Poli, em diversos géneros que importava, como 
eram : cacau, canella, assucar, café, marrasquino de Zara, sac- 
cas de algodão, etc. (Pap. Diu. Maço 10.) 

Pellegrini teve de sahir de Portugal em 1810 por causa da 
Setembrizada. 

Foi n'este mesmo anno que falleceu o seu distincto collega 
Pedro Alexandrino, cujo espolio era annunciado, para leilão, 



NOTAS 277 



na Gazeta de 13 de Setembro : — «No dia 24 do corrente mez 
de Setembro, pelas três horas da tarje, se ha de proceder a 
leilão na Calçada de Sant'Anna, n.° 90, em casa de José Maria 
de Lara, para se arrematar a mobília de Pedro Alexandrino 
de Carvalho, Pintor Figurista, em que entrarão as suas Pintu- 
ras, e huma boa camará- othica com Estampas grandes, muitas 
d'ellas illuminadas pelo mesmo Author ; e hum Crucifixo grande 
de marfim que representa o Senhor em agonia.» 

A Gazeta de 8 de Dezembro ainda annunciava a venda da 
quinta, junto ao chafariz da Povoa de Santo Adrião, que per- 
tencera a Pedro Alexandrino, e que constava de casas nobres, 
vinha e pomar de fructa de caroço e pevide. 



Pag. 60, linha 6 



Junot recebeu o titulo de duque d'Abrantes como premio da 
occupaçâo de Lisboa e de parte de Portugal. Damos, a seguir, 
a carta em que Mr. Legoy pede ao vice-ccnsul de França para 
mandar lavrar o registo da procuração do duque d' Abrantes 
(cuja copia está junta), procuração que Junot conferiu para lhe 
serem dadas e passadas em Paris as Cartas Patentes de duque 
do Império, e para a constituição de um morgado, ao qual fica- 
ria adstricto o novo ducado. 

A copia tem um carimbo dizendo : — «Commissaire G al . des 
Rel on ». Com a,es . à Lisbonne,» e está transcripta no respectivo 
livro de registos, no qual assignaram o duque de Abrantes, as 
testemunhas e o chanceller do consulado. 



Segue a carta e a procuração 
«Lisbonne le 21 Avril 1808. 



Monsicur, 



J'ai 1'honneur de vous adresser ci joint le projet d'une pro- 
«uratiou à donner par S. E. le Duc d'Abrantes. Je vous prie 
«Tavoir la complaisance de la transcrire à votre registre pour 
ensuite en dresser une expédition. 

S. E. signera à la minute, sur la présentation que je vou» 
serai obligé de lui faire de votre registre. 

On aura besoin de 1'expédition pour le départ du l er cou- 
rier. 



278 LISBOA D r CUTROS TEMPOS 



Jè profite de cette occasion de vous présenter 1'assurance des 
sentiments les plus distingues. 

Legoy.» 

«Par devant nous Alexandre Mure vice-consul Chancelier 
Gérant ad ínterim, le Consulat General de France à Lisbonne 
fut présent Son Excellence Monseiqmeur J. Andoche Junot, 
Duc d'Abrantes, Grand Aigle de la legion d'honneur, comman- 
deur de 1'ordre Royal de la Couronne de fer, Grand-croix de 
1'ordre de Christ de Portugal, grand officier de 1'empire, Co- 
lonel general des hussards, Gouverneur de Paris et General en 
Chef de 1'arniée de Portugal, etc. Le quel a fnit et constitué 
pour son Procureur General et spécial Mr. Pierre Caragnary, 
demeurant à Paria, auquel Son excellence donne pouvoir de 
pour pile et en son nona, en exécution des Statuts impériaux du 
l er . Mars 1808, l'un portant création des titres, et 1'autre rela- 
tif à 1'établissemcnt des Majorais, obtenir la délivrance de3 
lettres Patentes qui doivent être délivrées à sa ditte Excellence 
constituant, en sa qualité de Duc de 1'Empire, les faire publier 
et enrégistrer, acquitter tous frais et Uroits pour 1'éxpedition 
des dites lettres patentes et pour leur publication et enrégis- 
trement, en rétirer quittance. 

Comme aussi présenter toutes requête3 pour la formatio» 
d'un Majorat auquel será attaché le Duche de Son Excellence, 
se soumettre en consequence à 1'accomplissement et exécution 
de toutes les conditions prescrite? pour les Statuts impériaux 
precitos, designer et affecter au dit Majorat spécialement toua 
les biens que Sa Magesté 1'Empereur et Roi voudra bien lui 
donn^r eu dotation, et en cas d'insuffisance, en affecter d'autres 
pour le complément, remplir à cet egarJ toutes les formalités 
prescrites pour les dits Statuts, se soumettre également à avoh* 
un hotel à Paris ou será son domicile politique et civile, dé- 
clarant Sa dite Excellence être dejà proprietaire d'un hotel à 
Paris, rue des Champs Elizées. N.° 6. Designer dan3 le ca» 
ci-dessus le dit hotel et même 1'affecter au dit Majorat, mais 
faire reserve pour sa dite Excellence de dispoier comme lui 
semblera du dit hotel dans le cas ou il ne formerait pas partie 
du dit Majorat, et dans le cas contraire d'exécuter les conditions 
d'aliénation, d'échange ou remploi dans les formes prescrites 
par le second Statut Imperial du l cr . Mars 1808 ; et Générale-* 
ment faire tont ce que les circonstances exigéront, en donnant 
plein pouvoir, promettant avoir le tout pour agréable. 

Dont acte fait et passe à Lisbonne en la Chancellerie du 
Consulat Générale de France le vingt un Avril mil huit cents 
huit en presence de Mrs. Jean Baptiste Félix Legoy et Benoit 
Fisson, citoyens trançais — temoins requis qui ont signé au 



NOTAS S79 



Présent avec Son Excellence Mon a eigneur le Duc d'Abrantes 
après que lecture leur en a été faite par nous susdit et soussi- 
gné. 

J. B. Félix Legoy. 
Le Duc cTAbrantes. 
Fisson. 

A dre - Mure.» 

A procuração tem esta nota á margem : «Duc d Abrantes, 
Grand Aígle de La Legion d'Honneur. Commandeur de Fordre 
Royal de la Couroone de fer, Grand Áigle de 1'ordre deChrist 
de Portugal, Grand Ufficier de 1'empire, Colonel General des 
hussards, Gouverneur de Paris, et General en Chef de 1'armée 
de Portugal. 

Approuvé le renvoi ci-dessus. 

Adie. Mure.» 

(Intendência. L. 263. Chancellerie du Consulat. Registe des 
Actes N.° 18. fls. 2.) 

Legoy, o signatário da carta, estava addido ao estado-maior 
du Bureau des Petitions, estabelecido na rua da Emenda iN.° 8, 
ao qual também estava addido o chefe d'esquadrào, Carrion de 
Nizas {Pap. Div. Maço 10), que tanto assoalhou noa jornaes- 
estrangeiros as aventuras amorosas de Junot. 

No citado livro do consulado francez ha mais procurações 
de francezes. Entre ellas vemos a de João Baptista Prilleux, 
creado de quarto de monseigneur o duque d'Abrantes, a de 
Joào Camescasse, filho, pagador geral da segunda divisão do 
exercito de Portugal, e a de Mr. Adrien Jacques Maurice 
Cambis, ajudante commandante empregado no estado-maior 
general do exercito de Portugal e estribeiro de S. A. 1. a Prin- 
ceza Carolina. (Fls. 3, 4 e 7.) 



Pag. 65, linha 16 

O palácio do conde da Ega soffreu sequestro, quando o pro- 
prietário foi julgado coaio traidor á pátria. O conde, sua mulher e 
duas filhas, refugiaram-se a bordo duma nau russa, d'onde pas- 
saram para uma galera ingleza, por elles fretada, que sahiu a 
barra em 15 de Setembro dí 1808, com destino a Inglaterra, 
mas que os la r gou em Quiberon (Bretanha) em 15 de Outubro. 



280 LISBOA D' OLTP.OS TEMPOS 



Deixou em Lisboa seu filho Antão, entregue a seu cuuhado, o 
conde d'Almada. A condessa da Ega, fugindo, estava dentro 
do seu papel. Como a heroina cantada par Donizetti, ella se- 
guia o regimento. . . 

Depois de se proceder a devas 3a pelo Juizo da Inconfidên- 
cia, o conde da Ega foi submettido a julgamento, condemnado 
á morte e á confiscação dos bens. 

O marquez de Campo -Maior, general Beresford, habitou, 
desde 18<>9, o palácio do Pateo do Saldanha. O aviso de 15 de 
Março d'aquelle anno mandava apromptar o palácio do conde 
da Ega para os offieiaes das Guardas Reaes de S. M. Britan- 
nica, havendo toda a cautella e cuidado na conservação e se- 
gurança dos moveis ; e o aviso de 12 de Março mandava pre- 
parar os alojamentos preeiso3 para 03 offieiaes do estado-maior 
do marechal Beresford, que deviam ser acommodados nas vi- 
ainhanças da sua habitação. (Avisos, etc. Maço 5.) 

D. João VI, querendo recompensar os serviços d'aquelle offi- 
cial inglez, deu-lhe, por Carta Patente datada do Rio de Ja- 
neiro, o almoxarifado de Torres-Novas ', em três vidas, e, de 
juro e herdade, a casa do Pateo do Saldanha e tudo mais an- 
riexo á dita casa. 

Beresford e 03 blue-jackets desde 1810 que provocavam ani- 
madversâo de militai'es e paisanos, como se vê de uma de- 
nuncia de espião policial de 25 de Abril de 1810, que dizia : 
— «de qu9 se queixavam que era desaforo e pouca-vergonha 
o que os commandantes inglezes e elle Beresford praticavam 
no exercito com os nosso3 nacionaes, e que haviam de ter des- 
-gosto grande se o Governo não desse providencias seriaa a 
este respeito, de que geralmente duvidavam que o Governo as 
podessem dar, poÍ3 se deixava governar pelos chefes inglezes,» 
etc. (Pap. Div. Maço 10.) 

Beresford, que durante aunos e3teve no commando superior 
do nosso exercito, foi ao Rio de Janeiro e voltou a Lisboa em 



1 A portaria de 7 de Outubro de 1835, assignada pelo marquez de Saldanha, 
mandou suspender a mezada mensal de 866)>66õ réis que Beresford recebia por 
portaria de 24 Janeiro de 1827, além dos dezeseis coutos de ruis annuaes que 
D. João VI lhe conferira, eu» troca do almoxarifado de Torres-Novas, de que 
lhe fizera mercê. 



NOTAS 281 



10 de Outubro de 1820, a bordo da nau ingleza Vingador, pro- 
cedente d'aquelle porto em 58 dias, e que fundeou em frente 
da Junqueira á uma hora da tarde Vinha munido de poderes 
extraordinários, mas o Governo Supremo nào o deixou desem- 
barcar. 

A indisposição publica contra o marechal, e até contra as 
famílias que com elle de mais perto conviviam, manifestou-se 
de vários modos : em ameaças de que, se desembarcasse, seria 
morto, em versos satyricos que se espalharam em grande nu- 
mero, e na espera que lhe fizeram alguns offieiaes de infante - 
ria 1, na noite de 13 para 14 d'Outubro, no cães de Belém, 
onde suppunham que elle desembarcaria e onde tencionavam 
espancal-o. Até esta emboscada deu logar a um equivoco, por- 
que, saltando dum bote para terra o Poi-na-dentc, homem assaz 
conhecido no bairro de Belém, e que vinha envolto n'um capote, 
preparavam-se para o sovar, quando reconheceram o engano. 
(Pap. Div. Maço 16.) 

O palácio da Junqueira conservou-se na posse de Bere3ford. 
Mas a sentença lavrada a favor do conde da Ega, em 18 de 
janeiro de 1823, mandou relaxar os sequestras ou embargos a 
que em seii9 bens se procedera, e foi em virtude d'esta sen- 
tença que aquelle titular exigiu de Beresfori a restituição do 
histórico palácio do Pateo do Saldanha. Beresford não quiz 
restituil-o, e por esse motivo empenhou-se uma demanda, que, 
depois de ter corrido pelos tribunaes portuguezes e inglezes, 
foi ganha pelo conde da Ega (Antão) em 1839. O marechal 
teve de ceder o palácio, mas pediu e obteve uma indemnisa- 
ção do nosso governo, allegando que lhe fora dado em remu- 
neração de serviços. Depois foi comprado pelo abastado capi- 
talista e negociante de grosso trato, barão da Folgoza, a cuja 
família pertence. 

A sala principal d'esta casa e"a sumptuosa. Tinha oito gran- 
des columnas sustentando o tecto (que se elevava em forma 
de cúpula), e tanto este como as paredes tinham preciosos re- 
levos e pinturas ; ao fundo havia uma estatua num nicho, as 
portas eram revestidas d'espelhos, e dos tectos pendiam cinco 
magníficos lustres. 



Pag. 66, linha 5 

Os numerosos amores que Junot teve em Portugal, e que 
durariam (quem sabe?) o espaço d'uma noite, provocaram esta 
decima d'um folheto do tempo : 



282 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



Em Francez diz certo author 1 , 

Portanto estou de má fé, 

Que em Toulon, que em Nazaré, 

Junot mostrara valor. 

Se não mente o tal senhor, 

(O que lie muito natural) 

Digo então que em Portugal, 

As mulheres, jogo e dança 

Fizérão rielle a mudança, 

Que em Capua teve Aníbal. 



Pag. 66, linha 23 

O sr. Alberfo Telles, no seu livro Lord Byron em Portugal^ 
cita diversos escriptores no intuito de provar que a chamada 
convenção de Cintra não foi ratificada no palácio de Seteais. 
E conclue, com José Accurcio das Neves e o sr. Chaby, que a 
convenção foi ajustada e assignada em Lisboa (a respeito do 
que não ha duvidas), ratificada em Torres- Vedras, onde Dal- 
rymple estabelecera quartel-general, e que, por consequência, 
é erro manifesto tirar differente conclusão. Soriano, pelo con- 
trario, affirma que foi ratificada em Cintra, embora a sua as- 
signatura se effectuasse em Lisboa entre o coronel Murray e 
Kellermann, e que d'aquella localidade tirara o nome por que 
é conhecida. 

O sr. Alberto Telles rebate e*ta asseveração com um tre- 
cho recortado das Memorias de Hew Dalrymple, em que este 
general confessa que a denominação c imprópria e pouco feliz. 
Também a duqueza d'Abrantes diz não comprehender o motivo 
porque se deu o nome de Cin'ra á convenção, a não ser que 
fosse por Lord Wellington e os outros geueraea terem habi- 
tado a casa do Marquez de Marialva. {Memorias. Tomo 7,pag. 
438, nota.) 

A convenção foi assignada a 30 d'A«osto e ratificada a 31, 
Entretanto os diccionarios geographicos de Bouillet, de Bea- 
cherelle, de Dezobry e Bachelet, o de. la Conversation et de la 
lecture, e a Encyclopedia Britannica, dizem que foi assignada 
a 22 de Agosto ! Ora 22 de Acosto é, simplesmente, a suspen- 
são de armas combinada em Torres-Vedras entre Wellesley e 
Kellermann. Et, voilà justement comme on écrit Vhistoire. 



O aullior da Galeria Militar no art. Junot. 



NOTAS 283 1 - 



Dalrymple assentou quartcl-general no palácio dos Seteais. 
O coronel Peacock, commandaute das forças inglezas em Lis- 
boa foi (em 1810) para o palácio do visconde de Anadia, palácio 
de que se haviam roubado, no tempo dos francezes, e por ordem 
assignada por Geouífre, grande quantidade de objectos, entre 
elles a bibliotheca e duas mil e trezentas garrafas de vinho. 
(Avisos, etc Maço 4.) O Commissariado Britanuico esteve env 
1810 no palácio do Dr. José de Mello, na travessa de André 
Valente, e de 1810 até 1817 no palácio do largo do Poço Novo, 
pegado á egreja dos Paulistas, pertencente á viuva do Prove- 
dor dos Armizens, casa onde esteve a secretaria do quartel- 
mestre general inglez em 1811, onde morou Fontes Pereira de 
Mello, e que pertence, agora, ao sr. José A^ianna. 

Apesar do asserto do er. Alberto Telles e da affirmação da 
duqueza de Abrantes, a verdade é que na familia do actual 
dono do palácio dos Seteais mantém- se a convicção de que a 
convenção de Cintra foi assignada alli. Tanto assim que ainda 
hoje se conserva numa sala d'essa casa a meza, o tinteiro e 
a penna que (é tradicção)' serviram 'para a assignatura refe- 
rida. 

O palácio dos Seteais foi mandado edificar no século pas- 
sado pelo opulento hollandez Gerardo Devisme (cujo retrato 
existe em casa do sr. conde d'Aztmbuja), que também mandou 
construir a vivenda de S. Domingos de Bemfica, onde habitou, 
durante muitos annos, e morreu a infanta D. Izabel Maria. 
Mas, no reinado de D. Maria I, Devisme teve pendências com 
o governo portuguez, e sahiu d'aqui para não voltar mais. O 
marquez d'Abrantes comprou a vivenda de Bemfica, que de- 
pois foi propriedade da infanta ; e o marquez de Marialva 
comprou o palácio dos Seteais, onde deu esplendidas funeções, 
e recebeu a visita de D. Maria I, com a maior pompa e gran- 
deza. Foi elle quem mandou collocar no arco do palácio, em 
1802, o trophéo oraamental, com 03 bustos do Principe Regente 
e de D. Carlota Joaquina. 

Beckford. nas suas Cartas, gaba immenso a quinta do mar- 
quez da Marialva, em Cintra, o jardim, e o elegante pavilhão 
desenhado por Pillement, -artista que também pintou dois ga- 
binetes da morada de Bemfica. 

Como o 5.° e ultimo marquez de Marialva morresse sem fi- 
lhos, o palácio passou á irmã, a 3. a marqueza de Louriçal, e 
como esta também morresse sem filhos, quem o herdou foi sea 
sobrinho, o 2.° marquez e 1.° duque de Loulé. Por seu falleci- 
mento, coube ao sr. conde d'Azambuja. 



284 LISBOA d'outros tempos 



No palácio de Palhavã, actual propriedade d'este titular, 
residiram e deram festas soberbas os marquezes de Louriçal. 



Pag. 67, linha 6 



Existem hoje três netos de Junot. Uma neta (filha da filha 
mais velha do general) casada com o conde de Mouy, antigo 
embaixador ; outra neta casada com o visconde de La Ferrière; 
e Joanna de Abrantes, casada com o 3.° duque de Abrantes, 
que recebeu este titulo por occasião do seu casamento em 1869. 
Os dois últimos netos de Junot são filhos do coronel Alfredo, 
2.° duque de Abrantes, morto na batalha de Solferino. 

O 3.° duque de Abrantes è filho de um corretor de câmbios 
«hamado Le Rey. (Mémoires de Marie Colombier. pag. 99.) 

A que mãos foi parar este ducado metaphorico ! 



Pag. 69, linha 17 
Um folheto da epocha pintava assim o Lagarde e o Hermann* 

Por ministro da Intendência 
Foi Lagarde nomeado : 
Homem néscio e sem clemência. 
Porém bixo consummado 
Na esbirr atiça sciencia. 



Em ministro das Finanças 
Foi sem demora provido 
Um besta de russas tranças, 
Que era d'antes conhecido 
Par mestre de contradanças. 

A's meninas, derretido, 
Mil finezas tributava : 
E sem dentes presumido 
■O velhaco não pensava, 
Ser ftellas escarnecido. 



NOTAS 285 



Consta-nos que este brejeiro 
Dissera que voltará, 
Antes do mez de Janeiro : 
Pôde ser : porém será 
A vender vidros de cheiro. 



Pag. 69, linha ultima 

A titulo de curiosidade damos dois documentos emanados 
das pennas de Hermann e de Junot. Um é o aviso em que 
Hermann ordena, em nome de Junot, que »3 armas da Casa de 
Bragança sejam apeadas dos edifícios do Estado. O outro é a 
nomeação de Lagarde para o cargo de Intendente Geral da 
Policia. 

Fevereiro 24. Do Interior. 

«Em consequência das ordens do 111." 10 e Ex. rn0 Sr. General 
em Chefe do Exercito Francez em Portugal, remetto a V. S. a 
o decreto da copia inclusa, assignada pelo conselheiro Joa- 
quim Guilherme da "Costa Posser, official-maior da Secre- 
taria de Estado dos Negócios do Interior, encarregando 
a V. S. a da sua execução pelo que respeita ás Armas da 
Casa de Bragança, que deverão ser tiradas de todos os 
Edifícios Públicos d'estes Reinos, em fúrma, porém, que 
esta operação não deturpe, seja a belleza do Edifício, seja al- 
gum seu ornato principal de Architectura, ou Esculptura, que 
deverá conservar-se em toda a sua perfeição, quanto ser possa. 
Exceptuando da execução d'esta ordem as Armas da Decora- 
ção da Estatua Equestre, collo^ada na Praça do Commercio, e 
quaesquer outras semelhantes ; e exceptuando outrosim qual- 
quer ornamento interior das egrejas. Também fica a cargo de 
V. S. a a execução do abatimento^ de todas as Taboletas de pri- 
vilégios, que são declarados insubsistentes e nullos : E a estes 
fins mandará V. S. a sem perda de tempo passar as ordens ne- 
cessárias. 

Francisco António Hermann.» 



(L. í.° de Registo de Cartas .Regias, Decretos e Avisos. L. N.° 
85 de ordem, fls. 97 v.) 

«Em Nome de S. M. o Imperador dos Francezçs, Key de Itá- 
lia, Protector da Confederação do Rheno. ... 



286 LISBOA d'outros tempos 



DECRETA 

Mr. de la Garde he nomeado Intendente Geral da Policia do 
Reino de Portugal. 

As suas funcções são independentes das differentes Secreta- 
rias de Estado, e trabalhará directamente com o General em 
Chefe. 

O Secretario de Estado do Interior e das Finanças fica in- 
cumbido da execução do presente Decreto, pelo que respeita 
ás authoridades portuguezas, para fazer reconhecer a Mr. de 
la Garde, como tal Intendente Geral da Policia. 

Dado no Palácio do Quartel General em Lisboa a 25 de 
Março de 1808. 

Junot.u 

(Intendência. N.° 2." Classe 2. a -2-328, fls. 95. Coll. vinda do 
Min. do Reino.) 



Pag. 74, linha 22 

A Feira da Ladra (a que etn Paris corresponde Le Templc, 
e em Madrid El Rastro e Las Américas) mudou para a rua Oc- 
cidental do Passeio Publico e Praça d'Alegria em 1809. Mas 
as vendedeiras permanentes do Rocio já haviam sido transfe- 
ridas para a referida praça em 1773, conforme o prova este do- 
cumento : 

«Para o Marquez d'Alvito. 

Ill. m0 e Ex. m0 Sr. 

El Rey Meu Senhor he servido que V. Ex. a passe as ordens 
necessárias para que no dia de amanhã, que se hão de contar 
quinze do corrente, se ache antes do meyo dia na Praça da 
Alegria, que antes se chamou do Supplicio, huma companhia 
de Cavalleria, para que assista á mudança dos Lugares, que 
para a referida praça sita na Cotovia de baixo, hão de fazer as 
vendedeiras da do Rocio ; a fim de que se evite todo o ruido e 
dezordem nas posses das mesmas vendedeiras : Devendo para 
o sobredito effeito hir instruido o capitão, que commandar a 
dita companhia com a ©rdem de seguir o que pelo Conde Pre- 
sidente do Senado da Camará, ou pela pessoa que por sua com- 
missão fôr assistir á dita mudança, lhe fôr participado. 

Deus guarde a V. Ex. a Oeyras em 14 de Fevereiro de 1773 

Marquez de Pombal.» 



NOTAS 287 



(Avisos. N.° 3.° Classe 1.» N.° 15 de ordem. fls. 133. Coll. vin- 
da do Min. do Reino.) 



Pag. 96, linha 22 

Francisco Bartolozzi, o insigníssimo gravador, era natural 
de Florença, cavalleiro da ordem de Christo, e morreu em Lis- 
boa aos 7 de Março do 1815, contando 86 annos, 5 mezes e 6 
dias de edade. Celebre em toda a Europa pela correcção do 
seu desenho e pela perfeição a que conseguiu levar a arte de 
gravura, esteve em diversos paizes, deixou em Londres discí- 
pulos exímios, veio a Portugal chamado pelo soberano, e, en- 
tre nós, ç.reou eschola, ensinando e deixando alguns seguidores 
notáveis. 

Trabalhou até quasi ao fim da vida, porque só um mez antes 
de morrer abandonou o exercício da sua arte. 

Foi sepultado na egreja de Santa Izabel, sendo posto o se- 
guinte epitaphio na pedra sepulchral : 

Bartolozzo, qui lot vitas auxit, at annos, 
Post scptem Martii non datur una dies. 

(Gazeta de Lisboa. 27 de Março de 1815.) 



Pag. 118, linha 6 

António Marrare possuía uma casa de pasto no Campo -Gran- 
de, N.° 98, em 1837. (O Grátis, 25 Fev. 1837 ) 



Pag. 120, linha 3 

A cantora Barili tinha o temperamento fogoso das trauste- 
Terinas . . . e muito má creaçao. Quando se encontrava n© seu 
camarim em S. Carlos, insultava com frequência a Boccaba- 
dati — sua rival — , logo que sabia que esta estava tam- 
bém no camarim respectivo. Certa vez, correu, de faca em pu- 
nho, atraz de Vicente Corradini. 

Outra occasião encontrou D. Álvaro Romo (chefe dos bocca- 
bàdistas) no largo de S. Carlos, e exclamou com voz em que 
pareciam assobiar todas as serpentes do ódio : 



288 LISBOA d' OUTROS TEMPOS 



— Che bruta faceia ! 

Ainda outra vez tornou a encontrai -o ao fundo do Chiado. 
Vêl-o e saltar fora da sege em que ia foi obra de um momento. 
Dirigindo-se a D. Álvaro, disse-lhe, com intimativa, n'um ita- 
liano mesclado de portuguez : 

Bruto macaco ! La prima volta che tu vai patear-me in teatro 
ti arranco le orecchie ! 

Uma noite, ao cantar uma ária, parece-nos que na Gemma di 
Vergy, enganou-se, e principiou a atacar uma ária diíferente. 
Corradini avisou-a dos bastidores. 

Quando a Barili retirou de scena, disse para o Corradini : 
— Que quer, enganei-me, tenho sempre aquelle diabo atravessado 
^nã garganta. . . 

Aquelle diabo era a Boccabadati! 






Pag. -121, linha 3 

Catharina Barili morava na rua da Figueira (rua Anchieta), 
N.° 13, 1.° andar, prédio que pertencia aos Verdiera. N'essa 
mesma casa esteve a Ferlotti. 

Luiza Boccabadati, a emula da Barili, morava na rua da 
Horta Secca, N.° 16, 2.° andar. Foi a Agencia Commercial que 
fez leilão da mobilia, na qual se comprehendia um rico piano 
forte de seis e meia oitavas, author Bamgardten, de Ham- 
burgo. (O Grátis. 14 de Junho de 1842.) 

A Barili partiu de Lisboa para Madrid, onde deu á luz uma 
menina, que viria a ser a gloriosa cantora Adelina Patti. Ha 
quem diga que nasceu no camarim de sua màe, escripturada no 
theatro dei Circo, mas a verdade é que veio ao mundo na calle 
de Fuencarral, N.° 6 moderno, 3.° andar, lado direito, em casa 
da generala Dona Dolores Zárate de Rojas. 

Barili casara com Salvador Patti, tenor decadente. Todavia, 
uma lenda, que chegou até nossos tempos, affirmava que o pae 
de Adelina era um dilettante de S. Carlos, J. C. de F. J., o qual, 
por seu cego enthusiasmo pela cantora Barili, provocara as 
famosas luetas entre barilistas e boccabadistas. 

Pessoas contemporâneas dos suecessos asseveram-nos, po- 
rém, que F. J. nunca passou de simples admirador platónico. 



NOTAS 289 



da Barili, e que. portanto, a lenda nào tem realidade obje- 
ctiva. 

A Patti naturalisou se ingleza em 1898, e por essa oceasiào 
teve de apresenta 1- a certidão de eiade, qne foi reproduzida 
nos joruaes de Inglaterra. Por ella se vê quo fora baptisada 
na freguezia de S. Luiz de Madrid, pelo cura D. José Lozada, 
em 3 de Abril de 1813, bavendo nascido ás 4 boras da tarde 
de 10 de Fevereiro do mesmo anno ; que era filha legitima de 
Salvador Patti, professor de musica, e de Catbarina Chiesa, 
natural de Roma. Serviram de padrinhos, José Sinico, profes- 
sor de musica, e sua mulber Rosa Monara Sinico, e de teste- 
munbas, Juliau Huezal e Casimiro Garcia, sacristães da pa- 
roebia. 

A incomparável Bosina, que mereceu a idolatria dos heroes 
da alta vida parisiense da epocha imperial, casou em 1868 
com o marquez de Caux, estribeiro-mór de Napoleão III e di- 
rector dos cotillons nas segunda-feiras da imperatriz. Quando 
contrabiu segundas núpcias, com o tenor Nicolini, cm 1886, 
dirigiu convite a J. C. de F. J. para assistir ao casamento E 
annuncia-se agora (1898) que a preclara diva vae casar (pela 
terceira vez) com um barão sueco. 

Toda a gente sabe que a castellã de Oaig-y-Nos é a mais 
rica artista lyriea do presente e do passado, e, o que precisa 
accentuar-se, sua fortuna provem exclusivamente do exercicio 
systematico e nunca interrompido da sua arte durante qua- 
renta annos. Sob este ponto de vista também esta aristocrata 
do canto não tem rival. 

Uma neta da Boccabadati, Elena Varezzi Boccabadati, teve 
escriptura em S. Carlos na epoeba de 1877-1878. Era filba de 
Cecilia Boccabadati, que cantou duas únicas veze3 em publico, 
quando o conde de Farrobo fez representar a Cenerentõla no 
seu tbeatro da quinta do Farrobo (Vilia Franca) em 19 e 20 
de Agosto de 1840. 

Dois filhos da Barili vieram a Lisboa : o violinista Carlos 
Patti em 1865, e Adelina Patti em 1886, escripturada por 
Campos Valdez, e em 1887-1888 reescripturada pelo mesmo 
emprezario. 

Da primeira vez brilbou, como sempre, no Barbeiro de Se- 
vilha, opera d'estreia, e na Traviata, em que se apresentou 
com jóias deslumbrantes ; e na segunda vez estreiou-se com a 
Traviata em 15 de Dezembro de 1887. 

19 



290 LISBOA D' OUTROS TEMPOS 



O segundo marido da Patti veia a Lisboa, escripturado por 
Campos Valdez, em 1870. Trajava sempre casaco de belbutina 
castanha, calças da mesma fazenda, e chapéo de aba larga. 
Fazia- se acompanhar de um cão de caça, que offereceu a el- 
rpi D. Luiz. N'eese tempo era casado com unia italiana, filha 
d'um fabricante de vellas de cebo, mulher extremamente mal 
educada. Uma noite, no camarim, insultou tanto o marido, que 
este, azedando- se, tirou um punhal que tinha á cinta, e com 
que entrava no quarto acto da Lúcia, e arrancou para ella. O 
guarda-roupa do theatro, sr. Augusto da Silva, metteu-se de 
permeio, obstando assim ao desvario, prestes a ser commettido 
pelo cantor. 

Não é de admirar que Nicolini tivesse escolhido para esposa 
uma mulher de tão baixa extracção. O nosso conhecido Mal- 
vezzi casara com uma -pobre creatura, que vendia favas torra- 
das á porta dos quartéis. 



Pag. 122, linha 23 

Dissemos que Vicente Corradini não tinba este nome. O sr. 
Dr. Henrique Midosi, advogado no processo de habilitação 
dos herdeiros, viu-se em grandes difficuldades para conseguir 
provar que Vicente Corradini usava de nome supposto. 

Corradini veiu para Portugal no tempo das luctas entre 
D. Miguel e D. Pedro. Era oriundo de Forli (na Romagna), 
ainda hoje cidade revolucionaria e foco do socialismo. Elle e 
seus irmãos tinham ahi uma loja de violeiro. 

A maçonaria secreta creara fortes raizes na Itália, onde se 
tornou provérbio que os três inimigos do paiz eram o typho, 
os allemães e os frades — tifo, tedeschi efrati. 

Corradini achou se envolvido n'um complot de carbonários, 
a cuja seita pertencia, e que tinha por fim dar cabo dos fra- 
des. Mas a conspiração foi descoberta, e Corradini mais dez 
dos seus companheiros foram presos, encarcerados num forte 
e condemnados a pena ultima. A filha do carcereiro, que era 
sua namorada, conseguiu salval-o. Forneceu-lhe umas cordas, 
por meio das quaes elle e o seu amigo Francisco desceram até 
u,ah ; rem sobre umas latrinas, que havia junto á prisão, e por 
onde os fugitivos se escaparam, quasi milagrosamente. 

Fartsram-se de andar, gastando três mezes em chegar a 



NOTAS 291 



Livorno, no grão-dueado da Toscana, onde se consideraram 
seguros, porque o grâo-duque nào permittia a entrega de re- 
fugiados políticos. Embarcaram a bordo do navio em que re- 
gressava a Portugal o Manoel Macbado, que depois teve a em- 
preza do Gymnasio. e a quem devemos estes apontamentos. 

Vicente Corradini e o seu amigo Francisco dirigiram-ee ao 
Porto, então assediado pelo exercito miguelista. Corradini com- 
bateu no cerco, e veiu depois para Lisboa ; mas o seu amigo 
morreu lá. 

Emquanto aos outros companheiros de Corradini na conspi- 
ração, esèes foram todos executados na praça do Popolo, em 
Roma. Manoel Machado viu- os ir para o supplicio, uniforme- 
mente vestidos de casaca azul com botões amarellos, calça de 
ganga assucarada e chapéo alto. 

Nenhum quiz receber os soccorros da religião, e nenhum foi 
enterrado em sagrado. No dia immediato, as sepulturas dos 
justiçados appareceram cobertas de flores. 

Aproveitando a opportunidade, contaremos um caso que se 
relaciona com a volta de Machado. Fortunato Lodi, architecto 
coastructor do theatro de D. Maria II e reccnstructor do das 
Laranjeiras, estava em Roma. O seu atelier recebia amiuda- 
das visitas de Machado, que ahi ia procurar um ami/jo, o pin- 
tor Fonseca, estudante de pintura naquella cidade. Fortunato 
Lodi, então muito novo, mantinha relações amorosas com a 
amante do cardeal Alboni. Estes amores foram descobertos, e 
o Lodi recebeu uma carta da amante, exactamente quando es- 
tava no atelier, carta em que ella o prevenia e, ao mesmo 
tempo, lhe aconselhava a fuga, visto estar sujeito a cahir sob 
o gladio temivel da Inquisição. Nitnte raeno. 

Machado opinou que, sem demora, partisse para Génova, 
onde se lhe iria juntar no hotel Globo. O Lodi nem sequer 
teve tempo para vestir outro fato. Seguiu com o qne trazia no 
atelier, e com uma pequena caixa, arranjada muito á pressa. 
Passados oito dias, Lodi e Machado estavam em Lisboa. Este 
ultimo pagara todas as despezas, que, depois, lhe foram inte- 
gralmente satisfeitas pelo conde de Farrobo. 

O Quintella ausentara- se por causa das perseguições politi- 
cas, e o Lodi escondeu- se em casa de Magdalena Caleri, de- 
pois mestra das costureiras de S. Carlos. Ahi se conservou 
por espaço de um anno, sahindo apenas, a oceultas, de noito. 



292 LISBOA d'outros tempos 



Fortunato Lodi voltou, rodados largos ânuos, para Itália, 
ainda veio a Lisboa, e, por fim, retirou-se de todo para aquelle 
paiz. 

Seu tio, o italiano Francisco António Lodi, exercitara um 
ofiicio mechanicr», fora medico de embarque, emprezario e 
administrador de S. Carlos, e negociante. Sua priuna D. Ma- 
rianna, casou com o 2.° barão de Quintella. Este casamento 
deu occasião a vários incidentes, em que se encontraram en- 
v lvidos os condes da Cunha (tutores do Quintella), Garcia 
Nogueira (curador do mesmo menor), o Lodi e seu genro, An- 
selmo Magno de Sousa Pinto, morador na quinta de Palhavã. 
(Avisos, etc. Maços 32 e 35. L. 19 das contas para as Secreta- 
rias.) 



Pag. 123, linha 3 

Até 1861, a loja mais antiga do Chiado era a do bahuleiro 
Rodrigves, estabelecido na porta n.° 126, agora pertencente á 
Casa Havanpza. O prédio que torneja para a rua Nova da 
Trindade (T. do Secretario de Guerra) foi então comprado por 
António d'01iveira Guimarães, o qual intimou ordem de despejo 
aos inquilinos, porque desejava re-taural-o. 

Antes do terramoto, segundo consta de escripturas, não exis- 
tiam grandes prédios n'aquelle sitio, e aigumas habitações eram 
apenas barracas. 

Veiu do Brazil um certo António Simões da Costa, que mor- 
reu ahi por 1831 com mais d'um século d'edade, e chegou, tal- 
vez, no próprio anno da catastrophe, levantou o prédio que ahi 
existe, e comprou, ou elle mesmo estabeleceu, a loja de bahu- 
leiro. 

Suppõe-se, todavia, que a comprara. De António Simões pas- 
sou a loja para o Rodrigues, que já contava mais de 80 annos, 
podendo, portanto, aflinnar-se que aquelle estabelecimento era 
não só o mais antigo do Chiado, mas de Lisboa, visto que alli 
permaneceu, ininterruptamente, durante 105 annos. (Jornal do 
Commercio 1861.) 

Na actualidade, a<3 lojas mais antigas do Chiado >: a li- 
vraria Bertrand (hoje de José Bastos), a mercearia d* u r >nymo 
Martins (fundada em 1792), e a loja de ferragens de José Ale- 
xandre (fundada em 1823.) 



NOTAS 293 



Pag. 127, linhas 7 e 8 

Dissemos alli que o Manuel Hespanhol arrematou o café 
iMarrare, do Arco do Bandeira. O Grátis de 7 de Março de 
1810 inseria um annuncio, dizendo que no domingo, 8, abria a 
loja de bebidas do Arco do Bandeira, que fora do Marrare, 
«reformada a gosto de França e Inglaterra.» 

José Marrare, sobrinho do velho Marrare, protestava, no dia 
immediato e na mesma folha, contra o nome que, abusivamente, 
se dava áquelle café, porque tal nome só pertencia ao seu bo- 
tequim do Chiado. 

03 caixeiros do Marrare abriram uma casa de pasto, Hotel 
des Amis, no Campo Grande, em 1839, mudando-a. passado 
pouco tempo, para Cacilhas. 



Pag. 133, linha 6 

A festa que o Senado da Camará de Lisboa, presidido pelo 
marquez de Olhào, deu no theatro de S. Carlos na noite de 12 
de Outubro de 1814, foi dedicada á officialidade do exercito. 

As seges dos convidados chegavam pela rua Nova dos Mar- 
tyres e sabiam pela de S. Francisco. 

A Gazeta dizia que se escolhera para o apparatoso baile o 
amplo theatro de S. Carlo3, e o espaçoso terreno que lhe fica á 
esquerda para formar a sala da ceia, dada em ambigú e copio- 
síssima. Nivelou-se o palco com a plateia, figurando o todo 
uma sala Regia em peri«tyllo. Dois grandes coretos para a mu- 
sica e dois camarins bem mobilados completavam a sala de 
baile. 

A sala da ceia, de 222 palmos de comprimento por 84 de lar- 
gura, apresentava maravilhoso aspecto. Tinha coreto para a 
banda marcial, e decorações brancas, verde- gaio e oiro, imi- 
tando o mais apurado gosto grego. Riscara e dirigira a cons- 
♦ ""3r> j e ^cto o hábil architecto Luiz Chiari. 

<v da tarde de 12, duas companhias de infanteria da 
Guarda Real da Policia formaram alas desde a porta do thea- 
tro até a entrada da sala de baile, onde, ao anoitecer, se apre- 
sentou a corporação do Senado da Camará para receber os con- 
vidados. A condessa de Castro-Marim fazia as honras da casa. 
Os procuradores da cidade e os escrivães da Camará e da Fa-* 



294 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



zenda do Senado desempenhavam os logare3 de mestres de ce- 
rimonias. A direcção superior pertencia ao Marquez Monteiro- 
Mór. 

Quando os convidados eram já numerosos, distribuiram-se os 
refresco?, tocando alternadamente as duas orchestras. Seguiu-ec 
o baile e, depois, a ceia, que, servidn por turnos a 500 convida- 
dos, principiou á uma hora da noite, prolongando-se até perto 
da madrugada. Quando o baile terminou era dia claro. 

Assistiram os Governadores do Reino, a principal nobreza, o 
marechal Beresford, gpneraes, offici^es de terra e de mar, offt- 
ciaes inglezes, empregados doa tribunaes, negociantes, etc, fa- 
zendo ao todo cerca de 3:000 pessoas. 

Na policia externa empregaram-se uma guarda de infanteria 
e muitas partidas de cavallaria da Policia. 



Pag. 139, linha IO 

A Guarda Avançada de 13 de Março de 1S35 extracta um 
artigo do Voltigeur (jornal redigido por alguns officiaes que 
acompanharam D. Pedro IV), onde se diz que Lisboa sem o Cães 
do Sodré seria um corpo sem alma, e comparava o que elle era 
então, «o rendez-vous de todas as nações, do prazer, do bem 
tom», com o que fora em tempos de D. Miguel, dos caceteiros 
ou dos algozes. 



Pag. 141, linha 25 

O Universal de 10 de Dezembro de 1834 noticiava a prisão 
de Manoel Fortes, homem pardo, conhecido como um dos prin- 
cipaes cabeças da quadrilha, que, com grave escândalo, havia 
mais de seis annos infestava as ruas do Alecrim, Ferregial de 
Baixo e das Flores. 



Pag. 141, nota 



Em nota a esta pagina damos a morada de Gomes Freire. Po- 
demos acerescentar agora as moradas de outros indiciados como 
tomando parte na conspiração de 1817. João Carlos de Moraes 
Palmeiro, capitão-mór de Alhandra, morava n'esta villa; Fran- 
cisco Leite Sodré da Gama, em Santarém ; Manoel Monteiro de 



NOTAS 295 



-Carvalho, l coronel de milícia? reformado e ex-major de infan- 
teria 4, no Alto do Salitre n. os 152, 153 e 151, 1.° andar; Ve- 
ríssimo António Ferreira da Costa, ex-tenente-coronel de infan- 
teria 15, author do papel Sobre o estado da nação, que ae dizia 
escrivão da Alfandega dj Tabaco, na rua da Procissão- n.° 8, 
aguas-furtadas ; o barão de Eben, Frederico, que fora brigadeiro 
do exercito iiiglez, mas ao serviço do portuguez, na rua Nova 
do Carmo, n.° 37, 2." andar, ou em n.° 3<i, hospedaria; o coronel 
João António Bilstein em Elvas; o abbade de Carrazedo na 
rua do Passadiço, a S. José, e José Ribeiro Pinto parece que 
vivia com elle; José Dionysio da Serra, capitão d) Real Corpo 
de Engenheiros, na rua da Saudade, n.° 18, 1.° andar; Manoel 
Ignacio de Figueiredo, antigo creado de servir e empregado 
no Commissariado, na travessa do Açougue Velho, bairro de 
Andaluz, António Cabral Calheiros Furtado e Lemos morava 
na rua Direita da Graça, n.° 79, ultimo andar, lado direito ; Cy- 
priano Lopes de Andrade, capitão de Guias, ao Rocio; Pedro 
Ricardo de Figueiró, ex-capitâo de iníanteria 13, na rua do 
Quelhas, n.° 40, í.° andar, esquerdo; José Campello de Miran- 
da, n'uma propriedade fronteira ao convento da Encarnação, 
freguezia da Pena; e Francisco António de Souza, architecto, 
na rua da Fabrica da Seda, 2 n.° 1, sobre-loja, quarto inferior 
áquelle em que residia D. Maria da Piedade Lacerda. 

Este ultimo habitava na casa em que actualmente re3Ídem os 
srs. duques de Palmella, e que tem uma historia interessante. 
Manoel Caetano de Souza (pae do conspirador), architecto d* 
Casa do Infantado, das Três Ordens Militares, e, mais tarde, 
das Obras Publicas, obtivera, por auctorisação de D. Maria I, um 
pedaço de terreno pertencente á Casa dos Jesuitas da Cotovia, 
depois Collegio dos Nobres, e um auxilio pecuniário do Erário 
R?gio, a fim de construir um prédio que substituísse o que elle 
herdara de seus pães, á esquina da rua dos Jasmins e Patriar- 
ehal Queimada, e fora demolido para a edificação, em projecto, 
do Erário Novo. 

Construiu-se a casa como lá está, chata, pesada, sem estylo 
architectonico, segundo um acanhado risco do proprietário, que 
morreu subitamente em 1802, quando, perante o Príncipe Re- 
gente, o ministro D. Rodrigo de Souza Coutinho lhe fez certas 
aceusações. 

Tanto o palácio como os empregos foram herdados por seu fi- 
lho, o architecto Francisco António de Souza. Compromettido 



1 Suppomos que era parente da celebre pintora Joanna do Salitre. 
* A antiga rua da Fabrica da Seda tem hoje o nome de rua aa Eschola Pcly- 
technica. 



296 LSSBOA DOUTROS TEMPOS 



na trama revolucionaria de 1817, teve ordem para ser preso no 
domingo, 25 de Maio. depois da meia-noite, e posto incomjiu- 
nicavel na Cadeia da Cidade, apprehendendo se-lhe todos 03 
papeis, que seriam lacrados e sellados. Mas, tendo-sj evadido 
pelo jardim do palácio, só se consegjiu a captura ao fim da 
tarde de 2G, ficando retido no Limoeiro, e eendo-lhe passada 
busca ao domicilio, onde lhe apanharam alguma papelada, que 
foi posta n'um baliu, fechadj e lacrado, e remettido ao Inten- 
dente. 

A sentença do tribunal condemnou-o a degredo perpetuo 
para Angola e á confiscação dos bens. E no seu palaei) do 
Rato installou-se então a Intendência Geral da Policia. 

A Gazeta de 1818 publicou, successivamente, 03 annuncios de 
que na casa do Juizo do Fisco por Inconfidência, na rua Nova 
do Carmo, 7-G, se arrendariam os beus confiscados a Goanes 
Freire, se procederia á arrematação da casa nobre da rua da 
Fabrica da Seda, pertencente aos herdeiros do architecto Ma- 
nuel Caetano de Souza, se procederia á arrematação d'uma3 
casas no largo do Limoeiro, pertencentes ao réo de alta traição, 
Maximiano Dias Ribeiro, que se haviam posto editaes chamando 
os credores com direito ao preço das casas do rèo Francisco 
António de Souza e mais herdeiros do pae d'e3te, e que se ha- 
via de arrematar um casal do dito Francisco António de Souza. 

Um irmão do ultimo, Diogo Ignacio de Souza, e sua mulhe-, 
requereram aos Governadores do Reino para que se declarasse 
que a existência da Secretaria da Intendência Geral da Policia 
na casa que haviam herdado de seu pae e sogro, e de cuja pro- 
priedade era comparte o réo confiscado, não obstasse a qual- 
quer lançador que a houvesse de arrematar para sua habitação. 
A portaria de 17 de Fevereiro de 1818 deferiu o pedido. 

O palácio do Rato foi adquirido pelo opulentíssimo capita- 
lista, conde da Povoa (n'esse tempo barão de Teixeira). Fran- 
cisco António de Souza, que, com os co-réos sobreviventes, ha- 
via sido perdoado em 1822, reclamou do governo constitucional 
(em 1833) a restituição da sua casa, mas nada conseguiu e mor- 
reu pobre. O palácio entrou na herança da filha do conde da 
Povoa, mãe da 3. a duqueza de Palmella, e pertence agora a 
esta titular, tão notável pela mais delicada das virtudes — a 
caridade, como pelo seu peregrino talento artistico, quj foi 
exalçado pela penna gentil de Pinheiro Chagas nas linhas se- 
guintes : — «Podia ser simplesmente esculptural, quiz também 
ser esculptora. As suas mãos ducaes manejam o escopro com a 
habilidade de um grande artista. Consubstancia d/essa formi 
em si própria duas entidades que costumam ser dtstinotas : 



NOTAS 297 



modelo de estatuas e creadora de estatuas, Victoria Colonna e 
Miguel Angelo.» 

Por occasião do seu casamento, as salas do palácio do Rato 
franquearam-se ao publico, que ahi acudiu em grande numero 
e poude admirar os magníficos objectos que encerravam, as 
jarras do Japão, de Saxe e de Sèvres, os quadros de valor, os 
treniós sobre os quaes sorriam libeloís preciosos como as relí- 
quias gloriosas, as louças de alto preço, as bellas columnas e 
os bustos de mármore e de jaspe, mil chinezices e n elegantes 
ètageres, e a casa de jantar, onde, sobre a meza posta, e sobre 
os aparadores, se expunha a riquíssima baixella de prata, man- 
dada, segundo parece, fazer em Londres pelo barão de Teixeira 
(conde da Povoa), e que, no nosso paiz, só tem superior na da 
Casa Real. (Correspondência conf. com as auctoridades. Corle e 
Reino. L. 222-293, L. 11 das Secr., Avisos e Portarias. Maço 
31, Gazeta de Lisboa. 1815 e 1818, Jornal do Commercio. 1863, 
O Oocidente. 1879.) 



Pag. 159, linha 1 

Luiz Palmeirim citou, evidentemente por lapsus calami, a 
companhia de cavallinho3 do Avrillon, quando devia citar a 
companhia de Laribeau, creador do circo de Madrid, em 1845. 
Em 1847 trabalhou n'este circo a companhia de Mrs. Cocchi e 
Achilles Polletti, ex-bailarino de S. Carlos. Madame Polletti, 
antiga segunda bailarina do mesmo theatro, dançava graciosa- 
mente a cracoviana. 

Um volatim da companhia Laribeau executava uma panto- 
mima que constituía prato de resistência nas festanças dos 
circos d'aquelles tempos. Era a pantomima D, Pedro no cerco 
do Porto. Um annuncio de O Patriota dizia que vestidos, ac- 
cessorios e penteados haviam sido feitos por artistas que tra- 
balharam para o imperador durante o cerco. 

Ora o Avrillon já a tinha desempenhado no circo Olympico, 
ao Poço Novo, onde apresentava o cavallo Mahomet, o mosca, 
o Colibri, e o Bil, que pertencia ao conde de Farrobo. Além do 
immortal D. Pedro no cerco do Porto, exhibia mais pantomimas 
a cavallo, como eram : o grande Napoleão, o dragão francez, o 
gladiador romano, o lanceiro portuguez defendendo o estandarte 
da liberdade, etc. Da sua companhia faziam parte Madame Ca- 
bauel, o alcides francez Turim Júnior, e o jogador indiano Me- 
dua ou Medina Samme, que trabalhara primeiro no Tivoli da 

ao 



298 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



rua da Flor dà Marta e trabalhou depois no theatro de S. 
Carlos. 

A companhia de arlequins do Gymnasio Lisbonense ftbeatro 
em se permittiu exhibir, em 18áó, a panto- 
mima do ímmorUú D. Pedro no certo do Porto, executada pelo 

iCtUO-0. 



Pag. 190, linha 4 

Eu 177.; existia a e-.talagem <Zo Botqwe. que ficava na vísi- 
nbanea da rua doa Algibebes. Urn avÍ3o do raarquez de Pom- 
bal, datado de Oeil itobro do 1773, ordenava que 
a, e conduzidos ao Limoeiro, o Juiz de 
1 óra de Arronches e o escrivão do Crime da tnesrna villa. ^cí- 
*o*. H r , a l ' '. . N 1 "/ de ordem. Coll. vinda do Min. do 
B 



Pag. 197, linha 24 

No con, um born cbale de caebemira custava 

entre sete mil z imitações ingiezas 

-ri e, por consequência, vulgarisaram tanto este arre- 
ia moda principiou a dccahir depois do reinado 
ppc. 

O eaelu /ou a ter a applieação mais extravagante e 

«rada. Durante a guerra da Criméa, Galiffet seguia, eom- 

ercíto n'uma tenda ornada de 
. índia. 

caebemira conserva seus antigos credito-, e 

numero [Ue os príncipe.-; in- 

ivíam, ref mo tributo á rainha Victoria. 

anba, príncipaln ente na Andaluzia, continua a usa 

o chalé de tonkio, que ahi chamam maitton de Manila onpa- 



Pag 260, linha 11 

inspirou a O Suímo, 

cujo primeiro i abiu a lume em 2^i de Novembro de 1898, 

e cujo mogtamma foi traçado naa aeguintea linhas de abertura: 






NOTAS 299 



«Um programma em duas palavras : — O Siiisso não é re- 
clamo feito a qualquer botequim portuguez, nem a qualquer 
cidadão da republica helvética ; é um symbolo d'esses club3 
de porta aberta, onde se conversa sem pedantismo, criticando 
ligeiramente os acontecimentos do dia e a. 1 -, pessoas que pas- 
sam no Irottoir, ou abancam a nosso lado. E a academia das 
scieucias baratas, onde, entre um gole de café e um cálix de 
cognac, se belisca e se elogia tudo e todos, que se movem no 
nosso meio, na pequena evidencia d'esta terra, ou no grande 
palco do mundo. 

Jornaes, livros, peças de theatro, portarias, amores, intri- 
gas, duellos, novenas e divórcios, tudo que pode constituir o 
esplendido bric-à-brac da nossa sociedade mexeriqueira, pas- 
sará pelas columnas d'este jornal, em prosa e verso, sem cruezas 
nem indiscrições, para que niuguein se irrite nem promova 
querellas. Amen.» 



ÍNDICE 



PAG. 

I — Origem dos cafés. — Os antigos cafés parisien- 
ses. — Os cafés no Segundo Império. — Gabi- 
netes particulares e orgias nocturnas. — Algu- 
mas das que conquistaram a coroa de rosas e 
diamantes do hetairismo. — A fina flor das ele- 
gâncias. — Os viveun. — Sombras frívolas. — 
Os clubs. — Origem da gorgéta em França. — 
A gorgêta em França. — A gorgêta em Portu- 
gal 1 

II — Philosophia dos botequins lisboetas. — Os bote- 
quins lisboetas no século xvni. — Fala-se do 
marquez de Pombal. — A Opera do Bairro-Alto 
e El-Rei D. José 13 

IH — O botequim do Marcos Filippe. — Um pouco de 
historia contemporânea. — O botequim do Ca- 
taça e outros. — Parlatorios políticos. — O Pina 
Manique entra em scena. — Os Mouchards. — 
Modas femininas 19 

IV— O botequim mais antigo de Lisboa. — Filinto 
Elysio. — As denuncias. — Jogatina. — A Ar- 
cada do Terreiro do Paço. — A Gazeta de Lis- 
boa. — Todos jacobinos ! — Os bilhetes de resi- , 
dencia. — Procedimento anti-patriotico 27 

V — O café do Grego, assembléa de revolucionários. 
— Lojas suspeitas á policia. — Odysséa d'um 
botequineiro. — O copeiro de Luiz XVI. — Um 
antiquíssimo freguez do Grego. — Os cafés do 
"Càes do Sòdrér— Casas de pasto 35 



302 LISBOA DOUTROS TEMPOS 



PAG. 

VI — A segurança publica no fim do século passado. 

— A gatunagem. — Creação da Guarda Real de 
Policia. — Rondas civis. — Ruas e casas peri- 
gosas. — Navalha e guitarra. — O bandidismo 

nas províncias. — Medidas governamentaes. . . 41 
VII — O café do Nicola. — O italiano Nicola. — Rocage. 

— Vem á baila o José Agostinho de Macedo. — 
Seu temperamento. — Audácia da fradaria. — 
O Pina Manique corta-lhe os voos. — Um tro- 
vador tonsurado • 49 

VIII — Contenda de bardos. — A Estanqueira do Loreto 
e o seu grande nariz chimerico — Fala-se no- 
vamente de Rocage. — Nicolau Tolentino. — 
Medidas prohibitivas do Intendente Geral de 
Policia. — Carne em dia de jejum. — Os offi- 
ciaes do exercito francez frequentam o Nicola. 

— Aspecto d'este botequim. — A' porta do Ni- 
cola. — O Nicola do Campo Grande. — Mais 
outro Nicola 55 

IX — Junot, o conquistador. — Casas que foram desti- 
nadas para seu alojamento. — Algumas linhas 
a re.speito d'este homem de presa. — Os seus 
manuscriptos. — Intenção dos seus herdeiros. 

— Depredações dos francezes em 1808. — Geof- 
froy Saint-Hilaire 65 

X — O Rocio em 1808. — Capotes e jozésinhos. — Ci- 
ta-se a duqueza d'Abrantes. — Modinhas dos 
bons tempos. — As habitações no Rocio. — Os 
adellos da rua do Arsenal. — Feiras e vendedo- 
res ambulantes. — O Bota-Abaixo. — A Praça 
da Figueira. — Outras feiras 73 

XI — O botequim das Parras. — José Pedro das Lu- 
minárias, a gazeta viva. — Tertúlia de poetas. 

— José Pedro das Luminárias, o pacificador. — 
Centro de conspiratas 79 

XII — Ódios de José Agostinho de Macedo. — Seu fei- 
tio de luctador. — Sua linguagem. — jorna- 
lismo antigo e o jornalismo moderno, — Ser- 
viço de José Agostinho. — Penna venal e pec- 
cado venial. — A vaidade de José Agostinho.. 83 

XIII — Volta- se ao botequim das Parras. — No tempo 

dos Francezes. — José Pedro, festeiro-mór d'es- 
tes reiaos. — Um patriota. . . á antiga. — Uma 
anecdota. — Morte de Rocage. — Elogio de José 
Pedro das Luminárias 91 

XIV — Medidas policiaes. — José Pedro. — Sua vida — 



índice 303 



PAG. 

Suas anecdotas. — Sua morle. — As batotas de 
1810 a 1817. — Jogadores. — Uma rifa interes- 
sante 99 

XV — Antigos estabelecimentos do Rocio. — A botica 
do Azevedo. — Soneto de Tolentino. — Águia 
de folha. — Conciliábulos na botica do Aze- 
vedo. — Lojas conhecidas. — Historia do passo 
do Senhor dos Passos da Graça.— No tempo de 
D. Miguel. — Os mauvats lieax da calçada do 

Duque 105 

XVI — Na rua do Jardim do Regedor. — Palácio da In- 
quisição.— O café das Sete Portas e o café Mon- 
tanha. — António Marrare, reformador dos bo- 
tequins lisboetas. — Os italianos. — Os cafés do 
Marrare. — O Marrare de S. Carlos. — Uma 
campanha em S. Carlos. — Um excêntrico. — O 
mais ant ; go lojista do Chiado 113 

XVII — Marrare do Arco do fiandeira. — Vintistas 
acérrimos. — O Manuel Hespanhol. — Mudança 
de clientella. — João da Matta e as suas subti- 
lezas gastronómicas. — Os restaurante do Chiado 
e os seus sophismas culinários. — O Marrare de 
polimento, quartel general do dandysmo. — Des- 
creve-se o Marrare. — Seenas marrarenses. — 
Depoimento de testemunhas oculares. — O Fer- 
rari. — Uma curiosidade zoológica 125 

XVJII — A segurança publica em 1820. — Vendilhões, va- 
dios e mendigos. — Na quinta da Remposta. — 
Plethora de larápios. — Duas proezas notáveis. 
— A limpeza das ruas. — Rocage em situação 
assaz critica. — Um feito de Diogo Alves. . . . . 137 

XIX — Pasquins. — Protestos e protestantes. — Revolta 
d'infanteria 4. — Alexandre Herculano. — O cha- 
péu alto em Portugal. — O inventor do chapéu 
alto. — Este chapéu cobre o craneo dos mais 
refinados elegantes. — Um chapéu alto no sé- 
culo xv. — O chapéu armado. — Uma pirraça 

feita a José Agostinho de Macedo 143 

XX — Crápula batoteiral. — O Maneta do largo do Soc- 
corro. — Jogadores eméritos. — Os sahifrés de 
D. Claudia e a sua nota patusca. — Um solo de 
bengala. — Sumiço de D. Claudia 153 

XXI — Rotequins de S. Roque. — Um livreiro antigo. — 
O café Tavares. — Uma pagina de historia po- 
litica. — Rei Chegou. — Perseguições. — O Mi- 
guel Alcaide. — A biltraria dos caceteiros. — 



304 LISBOA d'outros tempos 



PAG. 

Justiça popular. — O diabo e D. Miguel não 
eram tão feios como os pintavam. — Liberaes 

fingidos e liberaes verdadeiros 161 

XXII — Prosegue-se com a historia do café Tavares. — 
Os irmãos Tavares. — Freguezes do café Ta- 
vares. — O novo café 17/ 

XXIII — Chez ces dames — Reuniões de constitucionaes. 

— O Chicória. — Soneto a este alcaiote. — Dis- 
posições de policia. — A Casa da Estopa e o 
Recolhimento da Cordoaria 181 

XXIV — Os botequins em 1824. — O café do Bosque e ou- 

tros. — Rarracas do largo do Passeio Publico. 

— O Troca. — Seu valimento 187 

XXV — As tabernas do largo do Passeio. — Diogo Alves 

e Companhia. — Origem de dois ditos vulgares. 

— O Passeio Publico antigo. — A Lage. — Nova 
referencia ao capote. — O Passeio Publico mo- 
derno. — Sob a batuta magica de Madame 
Amann. — O Passeio ao domingo. — Fantoches 

e fantasmas 193 

XX VI j^- Vários botequins das immediações do Passeio. — 
Estabelecimentos suspeitos. — Manifestações e 
pasquinadas. — Prosegue-se na enumeração dos 
botequins. — O café do Nóbrega. — O Áurea. . 20o 
XXVII — Descida á Ribeira Nova. — Cantos escuros. — Na 
ultima escaleira do vicio. — Rotequim famoso. 

— A Ribeira Nova civilisa-se, muda de modos 

e de mascara. — Tunantes e tunantices 218 

XXVIII — Pelo Chiado. — Os seus cafés. — A' porta do 
Central. — Excentricismo. — Uma scena de ta- 
pona. — Blague de dois humoristas. — Typos 
do Chiado. — O ultimo abencerrage. — Lamen- 
ta-se a decadência do Chiado. — O Chiado do 

tempo Rocagiano 219 

XXIX — As esperas de touros. — Ratedores de mão cheia. 

— No torvelinho da festa. — Uma fadista incom- 
parável. — As tresmalhações. — Desfilada dos 
mortos. — Perda de pittoresco pela invasão dos 
modismos forasteiros 235 

XXX^— Do Chiado ao Rocio. — O Freitas. — A ala dos 
valentes. — Um typo. — Outros cafés. — O thea- 
tro de D. Maria II e o Paço da Regência. — 
Ainda no Rocio. — A pretalhada. — Typos das 

ruas 241 

XXXI — No largo de Camões. — O Suisso e O Martinho. 

— No tempo da Maria da Fonte. — Rasgos de 



INDiCli 



305 



PAÔ. 

valentia. — Degenerescência da intrepidez na- 
cional 24y 

XXXI! Na Trindade.— O lhealro de S. Roque. — Thea- 
triculos. — Companhias do theatro de S. Ro- 
que. — Fala-se, incidentalmente, de Garrett « 
di sua viuva. — O Café Concerto. — Can-can e 
caucanistas. — Do Mabillo ao largo daAbegoa- 

ria. — Ponto Gnal. 2tH 

Notas 271 



Por lapso de revisão veiu em pag 117, linha 2 — «para náo 
pagar meio por cento que pertencia á egreja do Loreto», em logar 
Je — <para não pagai meio por cento de todas as fazendas que 
importava, e que pertencia á egreja do Loreto». Em pag. 135. 
iinha 14, veiu a palavra — o af orador», em logar de — «aíuroa- 
dor». K em pag. 283, linha 31). veiu — «o.* e ultimo marquez de 
Marialva» — em logar de — «6 ° e ultimo marquez de Marialva.» 



DP Guedes Pinto de Carvalho, 

756 José 

G8 Lisboa d 1 outros tempos 

v.2 



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